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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Uma folha de papel em branco

“Suponhamos então [uma vez que não existem ideias inatas] que a mente seja, como se diz, um papel branco, vazio de todos os caracteres, sem quaisquer ideias. Como chega a recebê-las? De onde obtém esta prodigiosa abundância de ideias (…)? De onde tira todos os materiais da razão e do conhecimento? A isto respondo com uma só palavra: da EXPERIÊNCIA. Aí está o fundamento de todo o nosso conhecimento; em última instância daí deriva todo ele.”

John Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano, Livro II, cap. 1, vol. 1, F.C. Gulbenkian, Lisboa, 1999, Pág. 106.

folha de papel em branco a mente

sábado, 10 de abril de 2010

A inutilidade da força

“Se alguém sustentar que os homens devem ser obrigados, a ferro e fogo, a professar certas doutrinas e a seguir esta ou aquela forma de culto (…), se alguém tentar converter os heterodoxos à fé obrigando-os a professar coisas em que não crêem” engana-se. O “fogo e a espada não são instrumentos apropriados para convencer do erro as mentes dos homens e elucidá-los sobre a verdade. (…) Se a verdade não arrebata o entendimento pela sua luz, de nada lhe serve uma força exterior.”

Jonh Locke, Carta sobre a Tolerância.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Procurar a verdade é valioso mesmo que não se consiga encontrá-la

«O entendimento, tal como a vista, apreendendo os objectos só pela sua própria luz, não pode deixar de se regozijar com aquilo que descobre e importar-se muito pouco com as coisas que deixou escapar, porque essas lhe são desconhecidas.

Todo aquele que não deseja depender das opiniões que a sorte lhe trouxe, mas se empenha em procurar a verdade, sempre encontrará nessa busca alguma satisfação; e por muito pouco que venha a obter, nunca dirá que perdeu o seu tempo.»

John Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano, vol. I, F.C.Gulbenkian, Lisboa, 1999, pág. 5.

o filósofo John Locke 

 

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Cegos que começam a ver: impressões e ideias

David Hume, à semelhança dos outros filósofos empiristas, considerava que todas as ideias derivam (directamente ou indirectamente, consoante são simples ou complexas) da experiência. São cópias das impressões e sem estas não se podem formar. Eis as palavras do próprio:

cega ao espelho“Se acontecer que um homem, em virtude de um defeito dos órgãos, não é susceptível de qualquer espécie de sensação, vemos sempre que ele é igualmente pouco susceptível das ideias correspondentes. Um homem cego não pode formar nenhuma ideia das cores, e um surdo dos sons. Restitua-se a cada um deles o sentido em que é deficiente; franqueando esta nova entrada para as suas sensações, patenteia-se também uma entrada para as ideias, e ele não encontra dificuldade alguma em conceber esses objectos.”

David Hume, “Investigação sobre o entendimento humano”, Edições 70, Lisboa, 1985, pp. 25-26.

O neurologista Oliver Sacks, em “Ver e não ver” (capítulo do livro “Um antropólogo em Marte”) descreve vários casos de pessoas a quem foi restituído “o sentido em que é deficiente” – no caso, a visão. As suas observações, e as de muitos outros estudiosos, parecem confirmar a ideia de Hume segundo a qual, pelo menos nos casos analisados, se não houver impressões não se consegue formar as ideias correspondentes. (Mas poderemos garantir que isso se passa necessariamente com toda e qualquer ideia?)

O que não é de modo nenhum confirmada é a afirmação de Hume que, após a restituição do sentido em falta, o indivíduo “não encontra dificuldade alguma em conceber esses objectos.” Com efeito, os indivíduos a quem foi restituída a visão revelaram enormes dificuldades em formar ideias a partir das suas recentes impressões visuais.

«O filósofo seiscentista William Molyneux, cuja mulher era cega, colocou a seguinte questão ao seu amigo John Locke: ‘Imaginemos um homem cego de nascença, já adulto, que tivesse aprendido através do tacto a distinguir um cubo de uma esfera, a quem fosse restituída a vista: conseguiria ele agora, servindo-se dos olhos, e antes de lhes tocar, distinguir qual era o globo e qual era o cubo?’ Locke ponderou este problema no seu “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, de 1690, acabando por decidir que a resposta é não. Em 1709, na sua obra “Uma nova teoria da visão”, George Berkeley examinou esta questão com maior detalhe, integrando-a numa análise globalizante das relações entre a vista e o tacto, e concluiu que não existia forçosamente uma ligação entre o mundo táctil e o mundo visual – e que qualquer ligação entre eles poderia só poderia ser estabelecida com base na experiência.

Ainda não se tinham passado vinte anos e já estas considerações eram postas à prova – quando, em 1728, W. Cheselden, um cirurgião inglês, extraiu as cataratas dos olhos dum rapaz de 13 anos cego de nascença. Apesar da sua grande inteligência e juventude, o rapaz deparou com enormes dificuldades na interpretação das sensações visuais, mesmo as mais simples. Não possuía qualquer noção das distâncias. Não possuía qualquer noção do espaço ou das dimensões. E ficava estranhamente confuso ante a ideia de uma representação bidimensional da realidade. Tal como Berkeley antevira, ele só gradualmente foi sendo capaz de decifrar o que via, e apenas na medida em que conseguia relacionar experiências visuais com outras de natureza táctil. Algo de semelhante aconteceu com muitos outros pacientes nos duzentos e cinquenta anos decorridos desde a operação de Cheselden [até à actualidade]».

Oliver Sacks, “Um antropólogo em Marte”, Relógio D’Água, Lisboa, 1996, pág. 145.

Críticas de um anarquista à democracia

anarquismo Cartoon retirado deste sítio.

Hobbes e Locke, apesar de não defenderem, na filosofia política, pontos de vista semelhantes, estão de acordo quanto à necessidade do estado existir. Ambos procuram mostrar, embora evocando razões diferentes, que a autoridade do estado não só é legítima como a sua inexistência tornaria insuportável a vida em sociedade.

Muitos dos defensores do anarquismo discordam da perspectiva desses filósofos. Consideram absurdo colocar o problema da justificação do estado: não faz sentido procurar argumentos racionais para fundamentar a necessidade do estado porque este, simplesmente, não é necessário.

Como conceber então, partindo deste pressuposto, a organização da vida política e social?

Quais são as ideias fundamentais subjacentes ao pensamento anarquista? Como é que estas se podem aplicar à vida social e política?

O texto seguinte (retirado da revista Crítica, onde pode ser lido na íntegra) apresenta-nos, sob a forma de um diálogo, algumas dessas ideias.

“ANARQUISTA: (…) uma sociedade sem um estado é uma alternativa viável a uma sociedade com um estado.

DEMOCRATA: Essa afirmação é absolutamente essencial para os anarquistas. Sem ela o anarquismo seria apenas a apresentação de um problema filosófico para o qual não teria nenhuma solução.

ANARQUISTA: Claro. É a partir dela que vou defender a visão anarquista da sociedade na qual indivíduos autónomos em conjunto com associações voluntárias conseguem executar todas as actividades necessárias à realização de uma vida boa. Nós somos contra todas as formas de hierarquia e de coerção, não apenas no estado mas em qualquer tipo de associação.

DEMOCRATA: Apresenta então o resto do teu argumento.

ANARQUISTA: Vou apresentar o meu argumento de uma forma esquemática.

1. Todos os estados são necessariamente coercivos e, por isso, são necessariamente maus;

2. Todos os estados são necessariamente maus e, por isso, ninguém tem obrigação de obedecer ou apoiar um qualquer estado;

3. Porque todos os estados são necessariamente maus, porque ninguém tem obrigação de obedecer ou apoiar qualquer estado, e porque uma sociedade sem um estado é uma sociedade viável, todos os estados deveriam ser abolidos.

Segue-se daqui que mesmo um processo democrático não pode ser justificado se apenas apresenta procedimentos, como a regra da maioria, para fazer aquilo que é inerentemente mau fazer, isto é: permitir que algumas pessoas coajam as outras. Um estado democrático continua a ser um estado, continua a ser coercivo e continua a ser mau.”

Robert A. Dahl, traduzido e adaptado por Luís Filipe Bettencourt. Excerto retirado de “Democracy and its Critics”, de Robert A. Dahl (Yale University Press, 1991, pp. 39-42).

1. Um anarquista considera que a legitimação da democracia, através do voto, é fictícia. Explique porquê.

2. Como poderá um democrata refutar o argumento apresentado pelo anarquista?

3. Será possível colocar em prática as ideias defendidas pelos anarquistas e construir uma sociedade alternativa àquela que existe nos regimes democráticos?

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Para ler ou oferecer no Natal: "Que diria Sócrates?"

Como foi referido num post anterior, o livro Que diria Sócrates? (cujo subtítulo é: Os filósofos respondem às suas perguntas sobre o amor, o nada e tudo o resto) é constituído por dezenas de perguntas feitas por pessoas comuns a diversos filósofos e pelas respostas que estes lhes deram - no site AskPhilosophers.
As perguntas incidem sobre assuntos muitos diversos. Por exemplo:

“É possível estar apaixonado pelo sentimento de estar apaixonado em vez de pela pessoa por quem acreditamos estar apaixonados?”
“Devemos perder a nossa fé em Deus por causa de ocorrências como o furacão Katrina?”
“Pode justificar-se a reanimação cardíaca de um indivíduo com um tumor cerebral inoperável? Quem beneficia com isso?”
E agora um exemplo completo, com a pergunta e a respectiva resposta:

«Pergunta: Porque é que as pessoas que dizem que quando morremos vamos para um lugar melhor não se matam? Se a morte é um lugar melhor, porque é que continuam a estar neste mundo ‘menor’?
Resposta (de Alexander George): Talvez a confiança de algumas pessoas na vida depois da morte não seja suficientemente forte para anular todos os medos que a morte lhes inspira. Talvez haja pessoas que não desejam causar sofrimento aos amigos e entes queridos, que sentiriam horrivelmente a falta delas. E talvez haja algumas que acreditam que não têm o direito de abandonar voluntariamente o seu posto na vida (como o pôs Jonh Locke): são propriedade de Deus e não lhes assiste o direito de se destruírem.»
Alexander George (Org.), Que diria Sócrates?, Gradiva, 2008, pág.288.

(Como é óbvio, a disjunção contida no título do post é inclusiva e não exclusiva.)