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sexta-feira, 15 de maio de 2020

Recursos de Filosofia: objeções a Kant e Stuart Mill


A proposta de trabalho que esta semana eu e a Sara Raposo elaborámos para a Aula Digital da Leya visa a discussão de uma objeção a Kant e de uma objeção a Stuart Mill. Inclui textos, questões e propostas de resolução.

Em função da matéria que estiver a lecionar o professor pode optar por debater uma das objeções ou ambas. Pode também, obviamente, usar os textos com outro enquadramento e finalidade, uma vez que os documentos são editáveis.

Dado que as aulas presenciais do 11º vão ser retomadas na próxima semana foram apenas elaborados materiais para o 10º ano.

Para aceder basta fazer uma rápida inscrição e depois visualizar o menu de recursos na Aula Digital. (A apresentação do menu foi reorganizada e agora é mais fácil encontrar os recursos lá existentes.)

quarta-feira, 1 de março de 2017

O imperativo categórico é consequencialista?

mill-versus-kant desenho - O imperativo categórico é consequencialista

Immanuel Kant pensava que as consequências boas ou más das ações não deviam ser tidas em conta na sua avaliação moral. Para ele, o imperativo categórico era uma forma de avaliar moralmente as ações completamente independente das suas consequências. Contudo, há quem pense que a única interpretação plausível do imperativo categórico é consequencialista. John Stuart Mill apresentou deste modo essa objeção contra Kant:

Kant, esse «homem notável, cujo sistema de pensamento permanecerá por muito tempo como um dos marcos na especulação filosófica, estabelece, realmente, no tratado em questão [a Fundamentação da Metafísica dos Costumes], um primeiro princípio universal como origem e fundamento da obrigação moral; é este: “Age de tal maneira que a regra da tua ação possa ser adotada como lei por todos os seres racionais”. Mas quando começa a deduzir deste preceito qualquer um dos deveres reais da moralidade, fracassa, de forma quase grotesca, em demonstrar que haveria qualquer contradição, qualquer impossibilidade lógica (para não dizer física), da adoção por todos os seres racionais das regras de conduta mais revoltantemente imorais. Tudo o que demonstra é que as consequências da sua adoção universal seriam de tal ordem que ninguém escolheria sofrê-las.»

John Stuart Mill, Utilitarismo, Gradiva, Lisboa, 2005, pág. 47.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Quais são os prazeres superiores?

Stuart Mill distinguiu entre prazeres superiores e prazeres inferiores. Vamos tentar testar essa distinção. Se tivesse de escolher entre uma pizza e esta música de Handel, o que escolheria? E entre a pizza e o poema de Yeats?

pizza

Handel: He Shall Feed His Flock

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

W.B. Yeats, Uma antologia, tradução de José Agostinho Baptista, Lisboa, Assírio & Alvim.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Será correto sacrificar uma pessoa para salvar centenas?

Dois Caminhos

Uma doença muito grave está a matar imensas pessoas na Terra da Boa Vida, uma região muito isolada e de difícil acesso. Já morreram algumas centenas de pessoas e prevê-se que morrerão muitas mais nas próximas semanas. Na Terra da Boa Vida há uma única pessoa imune à doença e um cientista descobre que poderia fazer um medicamento capaz de curar a doença utilizando algum sangue dessa pessoa. Mas há um problema: essa pessoa tem uma outra doença e esta faz com que não possa perder mais sangue. Se lhe retirarem um litro de sangue para fazer o medicamento ela morre. Esta não se oferece como voluntária.

Deverão as autoridades obrigá-la a dar sangue? Será correto obrigá-la, sabendo que isso causará a sua morte? Coloque-se no lugar das autoridades: o que decidiria? Porquê?

domingo, 22 de janeiro de 2017

Ética automóvel

A programação de carros autónomos coloca problemas morais similares ao célebre problema do trolley. Como se pode ler no jornal Observador: “Os carros autónomos vão ser programados para escolher quem atropelar em caso de acidente inevitável. Uma grávida ou um idoso? Um rico ou um pobre? Um peão ou dez?”

Na sua opinião como deve um carro desses ser programado? O Instituto de Tecnologia de Massachusetts, mais conhecido por MIT, criou um site chamado Moral Machine em que são apresentadas situações em que assumimos a posição de um automobilista prestes a ter um acidente e em que temos de decidir o que fazer: atropelar um adulto ou uma criança, uma pessoa ou duas, etc.

Segundo o Observador, “o MIT já tem em seu poder milhões de respostas, oriundas de 160 países”, podendo-se concluir que a maioria dos indivíduos se inclina em favor do mal menor. Parece que a maneira como as pessoas responderem aos dilemas éticos apresentados em Moral Machine serão tidas em conta pelos programdores dos automóveis. 

Quem disse que as teorias e discussões filosóficas não têm consequências práticas?

terça-feira, 5 de maio de 2015

Discussões éticas

091707_Justice_217.jpg

Os vídeos contêm as duas primeiras aulas do célebre curso de Michael Sandel: Justice.

Na primeira aula Michael Sandel discute com os alunos alguns dilemas morais, nomeadamente o “problema do elétrico”. A partir do minuto 16 faz considerações interessantes sobre a natureza da filosofia e os efeitos do seu estudo.

Na segunda aula, de modo a pôr à prova algumas ideias utilitaristas, Michael Sandel discute com os alunos um caso real de canibalismo ocorrido com marinheiros ingleses no século XIX.

Os vídeos estão legendados (em português do Brasil) e, apesar de algumas infelicidades, são compreensíveis mesmo para quem não perceba nada de inglês.

The Moral Side of Murder.

The Case for Cannibalism.

domingo, 28 de dezembro de 2014

A máquina de experiências agradáveis

Ignorance is bliss Cypher filme Matrix

A máquina de experiências de Robert Nozick é uma das experiências mentais mais célebres da filosofia. É referida em imensos livros, habitualmente como objeção ao utilitarismo e à ideia de que a felicidade é o bem supremo. Chegou inclusivamente ao cinema: no filme Matrix, dos irmãos Wachowski, um homem (Cypher) pede para ser ligado à Matrix - um programa de computador muito avançado que simulava a realidade – e para lhe atribuírem uma “vida” falsa muito agradável, mas sem consciência de que não era real.

Eis a máquina de experiências nas palavras de Nozick:

«Suponhamos que havia uma máquina de experiências que proporcionaria ao leitor a experiência que desejasse. Neuropsicólogos superfixes podiam estimular o seu cérebro de maneira a pensar e sentir que escrevia um grande romance, fazia uma amigo, ou lia um livro interessante. Durante todo o tempo, estaria a flutuar numa cuba, com eléctrodos ligados ao cérebro. Dever-se-ia ligar esta máquina durante toda a vida, pré-programando as suas experiências de vida? Se está preocupado com a perda de experiências desejáveis, podemos supor que as empresas investigaram exaustivamente a vida de muitos outros. O leitor pode escolher a partir da sua imensa biblioteca ou bufete dessas experiências, seleccionando as suas experiências de vida para, digamos, os dois anos seguintes. Após dois anos, poderia passar dez minutos ou dez horas fora da cuba, para seleccionar as experiências dos seus dois anos seguintes. Evidentemente, enquanto está na cuba não saberá que ali está; pensará que tudo aquilo acontece efectivamente. Os outros podem também ligar-se e ter as experiências que quiserem, pelo que não há necessidade de estar desligado para os servir. (Ignore problemas como o de saber quem cuidará das máquinas se todos se ligarem.) Ligar-se-ia? O que mais pode ter importância para nós, além do modo como são as nossas vidas a partir de dentro? Tão-pouco se devia abster por causa dos escassos momentos de angústia entre o momento em que decide e aquele em que já está ligado. O que são alguns momentos de angústia comparados com uma vida inteira de felicidade (se é isso que o leitor escolhe), e porque sentir angústia se a sua decisão é a melhor?
O que tem para nós importância, além das nossas experiências?»

Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vítor Guerreiro, Lisboa, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 74-75.

Não esqueça a pergunta de Nozick: ligar-se-ia?

quinta-feira, 20 de março de 2014

Matriz do 4º Teste de Filosofia: turmas B e C do 10º ano

Aristóteles Kant Stuart Mill

 

Duração: 90 minutos

Objetivos:

1. Explicar o que é a Ética.

2. Explicar o que é um dilema moral.

3. Descrever os dilemas morais apresentados nas aulas.

4. Explicar em que consiste o problema da fundamentação da moral e relacionar as questões do bem último e da ação correta.

5. Explicar porque é que o Utilitarismo de Stuart Mil é uma ética consequencialista.

6. Explicar porque é que o Utilitarismo de Stuart Mil é uma ética hedonista.

7. Distinguir prazeres superiores e prazeres inferiores, segundo Stuart Mil.

8. Explicar o que é, segundo Stuart Mill, o princípio da utilidade.

9. Aplicar o princípio da utilidade a casos concretos e determinar se a ação em causa é moralmente correta ou incorreta.

10. Explicar porque é que, para o Utilitarismo de Stuart Mil, os deveres não são absolutos.

11. Explicar as objeções ao Utilitarismo de Stuart Mil estudadas.

12. Explicar o que entende Kant por boa vontade e porque a considera o bem último.

13. Distinguir ações contrárias ao dever, ações por dever e ações em conformidade ao dever (motivadas por sentimentos e motivadas pelo interesse).

14. Explicar porque é que, para Kant, a intenção é que confere valor moral às ações.

15. Explicar o que é, segundo Kant, o imperativo categórico.

16. Explicar a primeira fórmula (chamada fórmula da lei universal) do imperativo categórico.

17. Explicar a segunda fórmula (chamada fórmula da humanidade) do imperativo categórico.

18. Aplicar as duas fórmulas do imperativo categórico a casos concretos e determinar se a ação em causa é moralmente correta ou incorreta.

19. Explicar porque é que, para Kant, os deveres são absolutos.

20. Distinguir imperativo categórico e imperativo hipotético.

21. Distinguir autonomia e heteronomia.

22. Explicar as objeções à Ética Deontológica de Kant estudadas.

23. Comparar o Utilitarismo de Stuart Mil e a Ética Deontológica de Kant e discutir qual delas é mais plausível.

Nota: os alunos devem conhecer exemplos ilustrativos das ideias referidas.

Links:

Qual é o critério da moralidade?

O utilitarismo: ideias básicas

Apontamento sobre o Utilitarismo

Argumentos contra o utilitarismo

Um prazer superior

As teorias éticas de Kant e Stuart Mill: ideias fundamentais

Quando é que as nossas ações têm valor moral?

Quais são as acções que têm valor moral?

Agir bem para evitar problemas

Por dever ou apenas em conformidade ao dever?

Qual dos personagens, o Calvin ou a Susie, está a agir de acordo com o princípio kantiano da moralidade?

As pessoas não são instrumentos

Os imperativos de Kant

Devemos mentir para salvar a vida de um amigo? – Não, diz Kant (1)

Devemos mentir para salvar a vida de um amigo? – Não, diz Kant (2)

Tem que se fazer justiça, nem que o céu desabe

Complementar:

Qual é a ação correta?

Qual é o mal de mentir?

SACRIFICAVAS UMA VIDA PARA SALVAR 200?

Um dilema moral da Medicina

Discussão de um dilema moral: qual seria a ação correta?

Cumprir o dever pelo dever: um exemplo

BOM TRABALHO!

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Seria correto fazer uma guerra para salvar uma aldeia?

Homem chora com o cadáver do filho nos braços na Síria

As “Nações Unidas, no limite das suas capacidades, deveriam autorizar a intervenção [militar noutros países] que impeça que se cometam crimes contra a humanidade, nos casos em que se pode esperar razoavelmente que isso não provoque um mal maior do que o que evita. Isto aponta não só para um direito de intervir como, nas circunstâncias apropriadas, um dever de intervir.”

Peter Singer, Um Só Mundo: A Ética da Globalização, Gradiva, Lisboa, 2004, pp. 199-200.

Ao explicar a necessidade da intervenção não fazer mais mal que bem, Peter Singer cita (pág. 192) estas palavras (de Michael Doyle): “não faz sentido moral salvar uma aldeia e iniciar a Terceira Guerra Mundial”.

Quando se fala da possibilidade de uma intervenção militar na Síria deve-se, portanto, considerar as graves violações dos direitos humanos perpetradas pelo governo sírio, mas também as consequências prováveis dessa intervenção, nomeadamente no que diz respeito ao número de mortos e feridos. Existe ou não o risco dessas consequência serem ainda piores que as atrocidades de Bashar al-Assad?

sábado, 13 de abril de 2013

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Será moralmente correto apoiar a pesquisa científica em troca de sexo?

Este é um excerto promocional do episódio ‘The Benefactor Factor’ da série The Big Bang Theory.

Depois de ver o episódio inteiro na aula tente responder às seguintes questões:

Segundo a ética kantiana, como se deve avaliar a atitude do Sheldon e dos outros amigos relativamente a Leonard e à possibilidade dele ter relações sexuais com a doadora? Concorda?

Se Leonard tentasse decidir segundo um critério utilitarista se devia ou não ter relações sexuais com a doadora a que conclusão chegaria? Concorda com essa conclusão?

Leonard acabou por ter relações sexuais com a doadora. Não o fez por motivos financeiros nem por amor, mas pela expetativa de um prazer excepcionalmente grande. Segundo a ética kantiana, Leonard agiu bem ou mal? E segundo a ética utilitarista? Quem tem razão na sua opinião?

 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Para discutir na primeira aula de Filosofia

sorriso de bebéImagine que a única maneira de salvar dois milhões de pessoas de uma morte certa era cozer um bebé vivo.

Porquê? Porque um terrorista psicopata ameaçava explodir uma bomba muito potente numa grande cidade, a menos que fizéssemos tal ato em público no prazo máximo de duas horas. Imagine também que, segundo as informações da polícia, esse terrorista costumava sempre cumprir a sua palavra e que era tão hábil que não existia qualquer esperança de o capturar. Imagine, portanto, que não há uma terceira alternativa.

O que seria correto fazer nessas circunstâncias: deixar que dois milhões de pessoas morressem ou cozer vivo um bebé? Porquê?

[A situação aqui descrita inspira-se numa ideia da filósofa Elizabeth Anscombe (in James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pág. 174).]

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Argumentos consequencialistas a favor do aborto

«Se avaliarmos a moralidade das acções pelas suas consequências, podemos construir um forte argumento contra a proibição do aborto. Ao longo dos tempos as mulheres têm vindo a pagar um terrível preço pela ausência de métodos contraceptivos e abortivos seguros e legais. Obrigadas a dar à luz muitos filhos a intervalos excessivamente curtos, as mulheres eram frequentemente muito fracas e morriam jovens — um destino comum na maioria das sociedades anteriores ao século XX e, ainda hoje, em grande parte do Terceiro Mundo. A maternidade involuntária agrava a pobreza, aumenta as taxas de mortalidade nos bebés e nas crianças e obriga as famílias e os estados a grandes esforços económicos.

O aperfeiçoamento dos métodos de contracepção veio aliviar de alguma forma estes problemas. No entanto, nenhuma forma de contracepção é ainda 100% eficaz. Além disso, muitas mulheres não têm acesso a qualquer tipo de contracepção, seja por não poderem pagar, ou por não se encontrar disponível no sítio onde vivem ou por não estar disponível a menores sem a autorização dos pais. Em quase todo o mundo, trabalhar por um salário tornou-se uma necessidade para muitas mulheres, tanto solteiras como casadas. As mulheres que têm de ganhar o seu sustento sentem a necessidade de controlar a sua fertilidade. Sem esse controlo é-lhes praticamente impossível obter o grau de educação necessário para um emprego digno, ou é-lhes impossível combinar as responsabilidades da maternidade com as do seu emprego. Isto é uma verdade tanto para as sociedades socialistas como para as capitalistas, pois em ambos os sistemas económicos as mulheres têm de lutar com esta dupla responsabilidade de trabalhar em casa e fora de casa.

A contracepção e o aborto não garantem a autonomia reprodutiva pois muita gente não pode ter (ou adequadamente educar) qualquer criança, ou pelo menos tantas quantas desejariam; outras ainda são involuntariamente inférteis. No entanto, quer a contracepção quer o aborto são essenciais para as mulheres que queiram ter o mínimo de autonomia reprodutiva, algo que é perfeitamente possível nos dias de hoje. (...)

Mesmo assim, os opositores do aborto negam que o aborto seja necessário para evitar tais consequências indesejáveis. Algumas gravidezes são causadas por violações ou incestos involuntários, mas a maior parte resulta aparentemente de comportamentos sexuais voluntários. Por conseguinte, os opositores do aborto afirmam frequentemente que as mulheres que procuram abortar se "recusam a assumir responsabilidades pelos seus próprios actos." Segundo o seu ponto de vista, as mulheres deveriam evitar ter relações sexuais heterossexuais a menos que estivessem preparadas para levar a cabo uma gravidez daí resultante. Mas será esta uma exigência razoável?

As relações sexuais heterossexuais não são biologicamente necessárias para a sobrevivência ou para a saúde das mulheres — nem dos homens. Pelo contrário, as mulheres celibatárias ou homossexuais são menos vulneráveis a contrair cancro do colo do útero, SIDA, assim como outras doenças sexualmente transmissíveis. Nem sequer é claro que o sexo seja necessário para o bem-estar psicológico tanto das mulheres quanto dos homens, apesar de a crença em contrário ser generalizada. É, no entanto, algo que as mulheres acham extremamente agradável — um facto que é moralmente significativo para a maior parte das teorias consequencialistas. Além disso, faz parte do modo de vida escolhido pela maioria das mulheres em todo o lado. Em alguns sítios, as mulheres lésbicas estão a criar formas de vida alternativas que parecem servir melhor as suas necessidades. Mas para a maior parte das mulheres heterossexuais a escolha de um celibato permanente é muito difícil. Em grande parte do mundo é muito difícil a uma mulher solteira sustentar-se a si própria (quanto mais sustentar uma família); e as relações sexuais são normalmente um dos "deveres" da mulher casada.

Resumindo, o celibato permanente não é uma opção razoável para se impor à maioria das mulheres. E como todas as mulheres são potenciais vítimas de violação, mesmo as homossexuais ou celibatárias podem ter de enfrentar gravidezes não desejadas. Como tal, até que surja um método contraceptivo totalmente seguro e de confiança, disponível para todas as mulheres, a argumentação consequencialista a favor do aborto permanecerá forte. Mas estes argumentos não convencerão aqueles que rejeitam as teorias morais consequencialistas. Se o aborto for intrinsecamente mau, como muitos acreditam, nesse caso não poderá ser defendido como um meio de evitar consequências indesejadas. Como tal, devemos procurar saber se as mulheres têm o direito moral de abortar.»

Mary Anne Warren, "Aborto", Crítica: Revista de Filosofia - http://criticanarede.com/html/aborto.html

terça-feira, 20 de abril de 2010

Enganar por amor

“Sentaram-se diante da fogueira e comeram as últimas bolachas de água e sal e uma lata de salsichas. Numa bolsa da mochila ele encontrara um pacote de cacau meio cheio, o último que lhe restava, e preparou a bebida para o rapaz e depois encheu a própria caneca de água quente e ficou recostado, a soprar para o bordo.
Prometeste que não fazias isso, disse o rapaz.
O quê?
Tu sabes o quê, papá.
Despejou a água quente para dentro da caçarola e pegou na caneca do rapaz e verteu uma parte do cacau para dentro da sua e depois devolveu-lha.
Tenho de estar sempre de olho em ti, disse o rapaz.
Eu sei.
Quem quebra as pequenas promessas também quebra as grandes. Foi o que tu disseste.
Eu sei. Mas eu não vou fazer isso.”

Cormac McCarthy, A Estrada, Relógio D’ Água, Lisboa, 2007, pp 28-29.

O pai tentou dar a sua parte de cacau ao filho sem ele perceber e levando-o a pensar que o tinha repartido. Tentou, portanto, enganá-lo por amor.

Como podemos avaliar moralmente a acção do pai? Na sua opinião, agiu correctamente ou incorrectamente? E o que diriam Kant e Stuart Mill? Concorda com Kant, Stuart Mill ou com nenhum deles? Porquê?

a estrada cena 338 pai e filho abraço

Na imagem: fotografia do filme A Estrada, baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Usados e depois jogados fora…

Em Portugal, nos meses de Verão e na época de Natal, costuma aumentar o número de animais domésticos abandonados na rua pelos donos e o número de pessoas idosas abandonadas no Hospital pelos familiares (após uma ida às Urgências).

animal jogado fora como um brinquedo partido que já não interessa Se quiser dados mais concretos sobre essas situações clique aqui e aqui.

Em ambos os casos o motivo é o mesmo: as férias. O cão, o gato, o canário, a avó ou o avô iriam atrapalhar as férias.

“Em tempo de aulas e de trabalho, o Calipso é um cãozinho giro e levá-lo a passear até permite espairecer, mas andar com ele atrás no Algarve… Seria muito incómodo!”

“Quando o avô ainda andava bem, era uma sorte poder contar com ele (ia buscar os miúdos à escola, levava-os ao parque…), mas agora que mal se levanta do sofá só dá trabalho… Iríamos sufocar se tivéssemos de o aturar na praia!”

velho triste Há acções – como mentir para evitar um mal eventualmente pior – que podem ser consideradas moralmente certas ou moralmente erradas consoante a perspectiva ética com que forem examinadas. Contudo, isso não sucede com o abandono de animais domésticos e de pessoas idosas: seja qual for a perspectiva ética adoptada são acções que devemos considerar moralmente erradas.

Se fizermos uma abordagem utilitarista das situações, verificamos que o sofrimento provocado nos seres abandonados não é tido em conta, sendo apenas considerado o bem-estar e outros interesses de alguns dos envolvidos. É manifesto que o sofrimento provocado num cão abandonado na rua ou num idoso “esquecido” durante semanas num Hospital é muito maior que os incómodos suscitados pela conciliação das idas à praia e à discoteca com a necessidade de cuidar do cão e com as dificuldades de locomoção do idoso. E isso mostra que são acções erradas e que não devem ser feitas.

Se fizermos uma abordagem deontológica, verificamos que – nas palavras de Kant – os seres abandonados são considerados meros meios e não fins em si mesmo. Enquanto foram úteis foram queridos e apreciados, mas agora que a sua utilidade imediata desapareceu ou diminuiu são postos de lado, são – sem nenhuma consideração pelos seus próprios interesses - jogados fora como se fossem sapatos velhos ou brinquedos partidos. Como se fossem meros objectos. E isso mostra que são acções erradas e que não devem ser feitas.

[Nem a abordagem utilitarista nem a abordagem deontológica implicam que se considere que há uma equiparação moral completa entre o mal de abandonar um animal doméstico e o mal de abandonar uma pessoa idosa. Tanto uma perspectiva como outra permitem reprovar moralmente um dano provocado num animal não humano e considerar que um dano semelhante provocado num ser humano é moralmente mais grave (uma vez que este sendo racional e tendo consciência de si sofre mais, pois ao sofrimento físico acrescenta-se o sofrimento psíquico – que, mesmo que também exista nalguns animais, é, por razões neurológicas óbvias, menor que nos humanos).]

Muitas pessoas, nomeadamente alguns filósofos, consideram que os animais não humanos não têm direitos. Mas, mesmo essas pessoas, em princípio consideram errado abandonar os animais domésticos, pois embora não lhes reconheçam direitos consideram que nós temos deveres em relação a eles – nomeadamente o dever de não os deixar morrer de fome.

Esperemos por isso que este Verão haja uma diminuição e não um aumento dos números de animais domésticos e de idosos abandonados. E, já agora, que essa diminuição se deva à consciência moral e não ao facto da crise económica não permitir que muitas famílias vão de férias para fora.