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segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

O medo é inimigo do pensamento

fake news André Carrilho

“Quando temos medo, não vemos com clareza. (…) O pensamento crítico é sempre difícil, mas é quase impossível quando estamos assustados. Não existe espaço para os factos quando a nossa mente está ocupada pelo medo.”

Hans Rosling (com Anna Rosling Rönnlund e Ola Rosling),

Factfulness - Dez razões pelas quais estamos errados acerca do mundo — e por que as coisas estão melhor do que pensamos,

Temas e Debates, Lisboa, 2019, pág. 113.

Cartoon de André Carrilho.


sábado, 25 de abril de 2020

A propósito do 25 de abril: Sapere aude!


«Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.
A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio, continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um diretor espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (…) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante todas as tentativas ulteriores.
É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer semelhante tentativa. (…)
Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade.»

Immanuel Kant, Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?”, Lusosofia - http://www.lusosofia.net/textos/kant_o_iluminismo_1784.pdf

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Não existe “A Filosofia”



Ao «contrário do que acontece noutras disciplinas, não há “A Filosofia” para ser estudada. Há apenas os problemas filosóficos e as diferentes teorias e argumentos que os filósofos apresentam, não havendo uma “síntese” ou um consenso que se possa estudar como “A Filosofia”. Na filosofia, está-se quase desde o início nas fronteiras do conhecimento. Por isso, é necessário aprender a filosofar e não aprender uma ou outra filosofia – a preferida dos professores ou dos autores dos programas (…). E aprender a filosofar é aprender a discutir os problemas, as teorias e os argumentos apresentados pelos filósofos – e não aprender a repetir as ideias dos filósofos.»

Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia, Plátano, Lisboa, 2003, pág. 29.

domingo, 22 de setembro de 2019

Só os instruídos são livres?

Escada(Homem subindo escada em preto e branco
Epicteto (um filósofo romano que durante muitos anos foi escravo) disse:
“Não devemos acreditar nos muitos que afirmam que só as pessoas livres devem ser instruídas, mas devemos antes acreditar nos filósofos que dizem que só os instruídos são livres” (Dissertações).
Epicteto tinha razão.

domingo, 3 de setembro de 2017

Porque o mundo não é a preto e branco, é preciso discutir ideias

Not Everything Is So Black & White - Unique, Spray paint on canvas . Past Paintings . Eelus.com

A imagem pode ser vista aqui.

Bem vindos à filosofia!

Terão fundamento as ideias em que acreditamos? Que razões temos para as defender?

Sócrates interrogou-se a si mesmo e aos que estavam à sua volta acerca de diferentes problemas filosóficos. Cabe a cada um de nós aceitar ou não o seu desafio.

domingo, 20 de agosto de 2017

Racionalidade epistémica

racionalidade epistémica

«A aquisição dos itens mais importantes do conhecimento político — como saber se as leis do controle de armas são boas, se a pena de morte é justa ou se o estímulo fiscal ajuda a economia — exige que se cultive cuidadosamente hábitos de racionalidade epistémica. Devemos trabalhar para identificar e superar os nossos próprios tendenciosismos. Devemos procurar informação e argumentos contrários às opiniões que já temos e esforçar-nos para ouvir esses argumentos de espírito aberto. A racionalidade exige frequentemente que admitamos que as nossas próprias opiniões anteriores estavam erradas ou que simplesmente não sabemos as respostas de perguntas importantes. Quem estiver comprometido com a racionalidade terá os seus desejos frequentemente frustrados, visto que não se pode simplesmente acreditar naquilo que se quer acreditar.»

Michael Huemer, “Elogio da passividade”, Crítica - http://criticanarede.com/political.html

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A alegoria da caverna: atividades e vídeo

Resultado de imagem para Platos cave

Perguntas e respostas online sobre a alegoria da caverna de Platão  e sugestões de atividades aa realizar em sala de aula (em português do Brasil), no link:

http://ed.ted.com/on/bUorXrWF#review

sexta-feira, 29 de abril de 2016

sábado, 5 de março de 2016

Como transformar a ignorância numa virtude?

Statue of David Hume by Alexander Stoddart

«Os filósofos que se dão ares de superior sabedoria e confiança têm uma dura tarefa quando se encontram com pessoas de feitio inquiridor, que os expulsam de todos os cantos onde se refugiam e não podem deixar de acabar por os fazer cair em algum dilema perigoso. O melhor expediente para evitar esta confusão é sermos modestos nas nossas pretensões, e até sermos nós mesmos a apontar as dificuldades antes de elas serem apresentadas como objeções contra nós. Podemos por este meio converter nossa a própria ignorância numa espécie de mérito.»

David Hume, Tratados I: Investigação sobre o Entendimento Humano, tradução de João Paulo Monteiro, Lisboa, INCM, 2002, pág. 48.

Na imagem: Estátua de David Hume de Alexander Stoddart, em Edimburgo.

sábado, 2 de maio de 2015

Contra a ditadura do pensamento único

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A minha aluna Inês Marcelino, do 10º D, enviou-me alguns cartoons "filosóficos" (disse ela), que partilho com os leitores.

Claro que, ao contrário do que o cartoon nos mostra, nem sempre aqueles que se opõem ao pensamento único e à subserviência da maioria são bem sucedidos, muitas vezes acontece o contrário.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Semelhanças entre a democracia e a ciência e a filosofia

Quino Mafalda e a Borracha de apagar ideologias

Os praticantes da ciência são “capazes de ser tão baixos quanto o resto das pessoas”. Mas “o que é grandioso na ciência — como na democracia — não é o facto de ser feita por pessoas impolutas, mas o facto de ter mecanismos públicos de crítica, por cultivar a liberdade e por não aceitar o peso da autoridade sem o peso do argumento razoável, publicamente discutível. Tal como a diferença entre a democracia e a ditadura não reside no carácter dos governantes — Cavaco Silva, por exemplo, tem o perfil típico de ditadores como o Salazar — mas antes no sistema que não os deixa fazer todo o mal que gostariam de fazer, também na ciência e na filosofia analítica se instituíram sistemas de controle de erros precisamente porque a natureza humana deixa bastas vezes muito a desejar.”

Desidério Murcho, “Façanha matemática” * - http://criticanarede.com/lds_aczel.html

* Sobre o livro: O Último Teorema de Fermat: À descoberta do segredo de um problema matemático secular, de Amir D. Aczel.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O que é mais importante que a felicidade?

sound of music música no coração felicidade

«A questão da felicidade é por vezes dramatizada sob a forma de uma pergunta [da autoria de John Stuart Mill]: ‘O que preferia ser: um Sócrates infeliz ou um porco feliz?’ Claro que preferiríamos ser um Sócrates feliz, mas o que se pretende demonstrar é que ter autonomia de espírito, ter consciência do mundo, e fazer escolhas próprias é melhor, de longe, do que ser passivamente feliz em prejuízo destas coisas. É por isso que nós – ou, de qualquer forma, a maior parte de nós – coloca objeções às vias fáceis de acesso à felicidade, como seja ingeri-la sob a forma química, pois desse modo não é muito diferente do esquecimento.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pág. 96.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A alegoria da caverna: o texto de Platão

Plato's cave allegory

"- Imagina agora o estado da natureza humana com respeito à ciência e à ignorância, conforme o quadro que dele vou esboçar. Imagina uma caverna subterrânea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a infância, de tal modo que não possam mudar de lugar nem volver a cabeça devido às cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo tão-só ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa distância e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acessível. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlatães de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.

- Estou a imaginar tudo isso.

- Imagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros, ou passam em silêncio.

- Estranho quadro e estranhos prisioneiros!

- E, no entanto, são ponto por ponto tal qual como nós. Em primeiro lugar, julgas que percepcionarão outra coisa, de si mesmos e dos que se encontram a seu lado, além das sombras que na sua frente se produzem, no fundo da caverna?

- Que outra coisa poderão ver, pois que, desde o nascimento, foram compelidos a conservar a cabeça permanentemente imóvel?

- Verão, apesar disso, outras coisas além dos objectos que passam à sua rectaguarda?

- Não.

- Se pudessem conversar uns com os outros, não concordariam em dar às sombras que vêem os nomes dessas mesmas coisas?

- Sem dúvida.

- E se no fundo da sua prisão houvesse eco que repetisse as palavras daqueles que passam, não imaginariam que ouviam falar as sombras mesmas que desfilam diante dos seus olhos?

- Sim.

- E, por fim, não julgariam eles que nada existiria de real além das sombras?

- Não há dúvida.

- Pensa agora naquilo que naturalmente lhes aconteceria se fossem libertados das suas cadeias e se fossem elucidados acerca do erro em que estavam. Liberte-se um desses cativos, e que ele seja obrigado a levantar-se imediatamente, a voltar a cabeça, a andar e a enfrentar a luz: nada disso poderá fazer sem grande esforço; a luz encandear-lhe-á a vista e o deslumbramento produzido impedi-lo-á de distinguir os objectos cujas sombras via antes. Que julgas tu que responderia se lhe dissessem que até então apenas vira fantasmas e que agora tem ante os olhos objectos mais reais e mais próximos da verdade? Se lhe mostrarem imediatamente as coisas à medida que se forem apresentando, e se for obrigado, à força de perguntas, a dizer o que é cada uma delas, não ficará perplexo e não julgará que aquilo que dantes via era mais real do que aquilo que agora se lhe apresenta?

- Sem dúvida.

- E se o obrigassem a enfrentar o fogo, não adoeceria dos olhos? Não desviaria os seus olhares, para dirigi-los para a sombra, que enfrenta sem dificuldade? Não julgaria que essa sombra possui algo de mais claro e distinto do que tudo quanto se lhe mostra?

- Certamente.

- Se agora o arrancarmos da caverna e o arrastarmos, pela senda áspera e fragosa, até à claridade do Sol, que suplício o seu por ser assim arrastado! Como está furioso! E, uma vez chegado à luz livre, os olhos ofuscados com o fulgor dela, poderia ver alguma coisa da multitude de objectos a que chamamos seres reais?

- De início ser-lhe-ia impossível.

- Necessitaria de tempo, sem dúvida, para se acostumar a eles. Aquilo que distinguiria melhor seria, em primeiro lugar, as sombras; e, logo a seguir, as imagens dos homens e dos mais objectos, reflectidos à superfície das águas; por fim, os próprios objectos. Daí volveria os olhos para o céu, cuja visão suportaria com maior facilidade durante a noite, à luz da Lua e das estrelas, do que durante o dia, à luz do Sol.

- Sem dúvida.

- Por fim, encontrar-se-ia em condições, não só de ver a imagem do Sol nas águas e em tudo aquilo em que se reflicta, como de olhá-lo e contemplar o verdadeiro Sol no seu verdadeiro local.

- Sim.

- Depois disto, pondo-se a reflectir, chegaria à conclusão de que o Sol é o que determina as estações e os anos, e o que rege todo o mundo visível e que, de certo modo, é causa daquilo que se via na caverna.

- É evidente que chegaria gradualmente a tais reflexões.

- E se, então, se recordasse da sua primeira habitação e da ideia que aí formavam da sabedoria, ele e os seus companheiros de escravidão, não se regozijaria com a mudança e não teria compaixão da desgraça daqueles que permaneciam cativos?

- Certamente.

- Crês tu que agora ele sentisse ciúmes das honras, das vaidades e recompensas ali outorgadas àquele que mais rapidamente captasse as sombras, àquele que com maior segurança recordasse as que iam atrás ou juntas e por tal razão seria o mais hábil em prever a sua aparição, ou que invejasse a condição daqueles que na prisão eram mais poderosos e mais honrados? Não preferiria, como Aquiles, segundo Homero, passar a vida ao serviço dum pobre lavrador e sofrê-lo, a voltar ao seu primeiro estado e às suas primitivas ilusões?

- Não duvido de que preferiria suportar todos os males possíveis a voltar a viver de tal modo.

- Atenta, pois, nisto: se regressasse novamente à sua prisão, para voltar a ocupar nela o seu antigo posto, não se acharia como um cego, na súbita passagem da luz do dia para a obscuridade?

- Sim.

- E se, no entanto, ainda não distinguisse nada e, antes que os seus olhos se houvessem refeito, o que apenas poderia acontecer depois de muito tempo, tivesse de discutir com os mais prisioneiros sobre essas sombras, não se tornaria ridículo aos olhos dos outros, que diriam dele que, por ter subido até lá acima, perdera a vista, acrescentando que seria uma loucura o eles pretenderem sair do lugar onde se encontravam, e que, se alguém se lembrasse de tirá-los dali e levá-los para a região superior, se tornaria necessário prendê-lo e matá-lo?

- Indiscutivelmente.

- Pois, meu querido Glauco, é essa, precisamente, a imagem da condição humana. A caverna subterrânea é este mundo visível; o fogo que a ilumina, a luz do Sol; o prisioneiro que ascende à região superior e a contempla é a alma que se eleva até à esfera do inteligível. É isto, pelo menos, o que penso, já que o queres conhecer, mas só Deus sabe se é certo. Pelo que me toca, a coisa afigura-se-me tal como te vou comunicar. Nos últimos limites do mundo inteligível encontra-se a ideia do bem, que só com dificuldade se percebe, mas que, todavia, não pode ser percebida sem que se conclua que ela é a causa primeira de quanto há de bom e de belo no universo; que ela, neste mundo visível, produz a luz e o astro do qual a luz irradia directamente; que, no mundo visível, engendra a verdade e a inteligência; que é preciso, enfim, ter os olhos fitos nessa ideia, se quisermos conduzir-nos honestamente na vida pública e privada.

- Na medida em que pude compreender a tua ideia, concordo contigo.

- Tens, pois, de admitir e não estranhar que aqueles que alcançaram essa sublime contemplação desdenhem da intervenção nos assuntos humanos e que as suas almas aspirem, incessantemente, a fixar-se nesse lugar eminente. Assim deve ser, se isto está em conformidade com a pintura alegórica que esbocei.

- Assim deve ser."

Platão, "República".

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Porque não se entendem os filósofos?

busto de Sócrates do Museu do Vaticano 
Esta escultura representa o filósofo grego Sócrates (470-399 a.C). É da época romana e foi feita a partir de um original grego do séc. IV a.C (atribuída ao escultor  Lisipo). Pode ser visitada no Museu do Vaticano, na sala dos filósofos, em Itália.

Ao iniciarem o 10º ano, há alunos que se confrontam com algumas perplexidades. Eis uma delas:
Para responder a um mesmo problema filosófico (por exemplo, o livre-arbítrio ou a existência de Deus) há teorias diferentes, e por vezes opostas. Sendo assim, alguns alunos perguntam-se: “qual é a matéria que temos de saber para responder às perguntas dos testes de Filosofia?”
Porque motivo, ao contrário do que passa nas diferentes ciências - em que se estudam as teorias aceites num dado momento - os filósofos não se entendem em relação à maioria das questões filosóficas e continuam a discordar entre si?
Embora, na actualidade, existam alguns tópicos filosóficos - por exemplo: os direitos cívicos das mulheres e a imoralidade da escravatura - onde há consenso a maioria das respostas a dar aos problemas filosóficos estão sujeitas à controvérsia.
Porque será assim?
O filósofo Nicholas D. Smith, no livro excelente de introdução à Filosofia Que diria Sócrates?, explica porquê.
“Muito do que acontece em filosofia (tanto nas áreas em que há progresso como naquelas em que o progresso parece ter estancado) acontece porque não temos acesso ao tipo de dados que confirmam ou refutam claramente as nossas teorias. O nosso processo é de longe menos simples e menos sequencial do que o da ciência – ainda seguimos as mesmas regras com que o antigo filósofo Sócrates operava. Isto é, um filósofo declara uma teoria, e os restantes, agindo como Sócrates tentam descobrir razões que levem a considerar essa teoria falsa, com falhas ou incompleta. Assim, em certo sentido, a maior honra e atenção que um filósofo pode conceder ao trabalho de outro (embora este nem sempre veja as coisas desta maneira, note-se!) é tentar refutar o trabalho do colega. Isto porque a maior parte da atenção filosófica concedida é a crítica – alguém que dedica tempo e recursos cognitivos a refutar o meu trabalho está deste modo a anunciar ao mundo que considera o meu trabalho suficientemente importante para merecer tal atenção, em vez de considerar que o mais que ele merece é ser mudamente votado ao esquecimento. Em filosofia, os melhores amigos do mundo são amiúde, no campo profissional, críticos um do outro (…).
Assim, uma das razões porque os filósofos dão a impressão de nunca estar de acordo é justamente o facto de não ser de supor que estejamos de acordo! O nosso trabalho é discordar, e discordar muito significativamente, dado que é assim que fazemos o nosso melhor para testar se as teorias que temos diante de nós são ou não verdadeiras. (…) ao estar de acordo, estamos de facto a reconhecer que não somos suficientemente inteligentes para ter detectado falhas que as teorias possam conter.
No entanto, isto não significa que não façamos progressos. Há seguramente teorias filosóficas que foram totalmente abandonadas (e por boas razões), e é por demais evidente que, graças à nossa forma crítica de “controlo da qualidade”, as nossas teorias são hoje em dia mais sofisticadas (e menos fáceis de refutar).”
As citações foram tiradas deste livro, págs. 71 e 72.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Para começar a estudar Filosofia

 

Para os meus alunos do 10º D.

 

2014-15 10 º Ano, Ficha de Trabalho, o Que é a Filosofia by SaraRaposo

 

Esquema - Perguntas Frequentes Sobre a Filosofia by dmetódica

Como este blogue já existe desde 2008, no seu "arquivo" encontram-se alguns textos e imagens que vos poderão ajudar no estudo e complementar a informação do manual. Os links, acerca da unidade inicial - o que é a Filosofia? - são vários, seguem-se alguns deles.

Boas leituras (não se assustem: alguns textos são muito curtos e têm imagens!).

Bom trabalho!

Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia

Em Filosofia estudamos “os problemas da vida”?

A origem dos problemas filosóficos

O que mais importa não é viver, mas viver bem

A origem histórica da Filosofia

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A filosofia da ciência e as ciências ocultas

Para os meus alunos do 11º ano.

Eis dois exemplos - verídicos! - que demonstram como é importante estudar o problema  filosófico da demarcação, isto é: saber qual é o critério que nos permite distinguir uma teoria científica de uma teoria não científica.

Exemplo 1

"Os funcionários do parlamento convidaram a Alexandra Solnado para falar de vidas passadas numas jornadas da saúde. Francamente incomoda-me. Mesmo sabendo que nada disto tem a ver com a actividade dos nossos parlamentares, incomoda-me que pela circunstância absolutamente casual de quem organiza essas jornadas da saúde não ter qualquer vestígio de cultura científica, Alexandra Solnado ficar com uma fotografia com que irá alegar que a casa da democracia reconhece a validade dos seus delírios.
Uma instituição como o parlamento, deveria ter algum bom senso. Por um lado, para não cair no ridículo. Por outro, para não municiar de argumentos de autoridade estas alegações delirantes de vidas passadas e conversas com Jesus. Como diz o Ricardo Araújo Pereira neste vídeo: "eu falei com o Jesus Cristo e ele disse-me que nunca falou com a Alexandra Solnado".

David Marçal

Informação retirada do blogue Rerum Natura, ver AQUI.

Exemplo 2 

"(...) vejo o anúncio de bolsas de investigação científica para 2014/2015 proporcionadas por uma fundação ligada à indústria farmacêutica.
O anúncio é normal, o regulamento comum, e até se faz a exigência de redacção em inglês... Apenas uma coisa destoa (quer dizer, parece-me destoar, sei lá as voltas epistemológicas que as coisas dão sem eu dar conta...): a investigação científica digna de subsídio é em... parapsicologia!"

Maria Helena Damião

Informação retirada do blogue Rerum Natura, ver AQUI.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Tenho 422 amigos mas sou solitário


Para os meus alunos.
A minha aluna Nina Chicu (do curso profissional de técnico de gestão de programas e sistemas informáticos), a quem agradeço, enviou-me o link deste vídeo, onde se chama a atenção para alguns dos efeitos da má utilização das redes sociais e dos telemóveis.
Vale a pena ver. Questiona-se o uso que muitas, muitas pessoas - nomeadamente alunos do secundário - fazem das novas tecnologias e como as interacções virtuais cada vez mais substituem as relações sociais reais.
Por exemplo: tenho reparado, nos intervalos, que muitos alunos se encontram sentados ao lado uns dos outros, em silêncio, absorvidos com o que se passa no seu telemóvel ou no seu tablet. Já várias vezes lhes coloquei a questão - em que altura do dia é que não se encontram online? Algumas das respostas mais frequentes foram: quando estou nas aulas e ao jantar porque os meus pais não deixam...
Dá que pensar!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Hereges e proscritos

Giordano Bruno Moliére

Crónica do historiador Rui Tavares no jornal Público de hoje (17-02-2014). Vale a pena ler.

“Tendes talvez mais medo vós, que pronunciais essas palavras, do que eu, que as escuto.” Não é preciso estar em frente à Inquisição romana, a ouvir a sua própria sentença de morte, para invejar a coragem de alguém capaz de reagir assim.

E quem reagiu assim foi Giordano Bruno, após nove anos nos cárceres do Santo Ofício, quando o chamaram para lhe comunicar que ele seria queimado numa fogueira, no Campo das Flores, em Roma, no dia 17 de fevereiro de 1600 — há exatamente 414 anos.

A ideia que fazemos do nosso mundo por comparação com o mundo pré-moderno é a de um mundo em que se circula e viaja muito, e em que existe uma cultura da celebridade transnacional. No mundo pré-moderno, pensamos nós, as pessoas nasciam, viviam e morriam no mesmo lugar — sem contacto com a maior parte dos outros humanos. Mas não era bem assim, e Giordano Bruno é um grande contra-exemplo. Nascido na pequena aldeia de Noli, perto de Nápoles, viajou por toda a Europa, ensinando em universidades e casas particulares de Paris, de Londres ou de Praga. Em Toulouse, encontrou-se com o médico e filósofo português Francisco Sanches. Giordano Bruno tinha muitas certezas. Francisco Sanches era tão cético — um “pirronista”, como então se dizia — que a sua obra-prima se chamava Que Nada Se Pode Saber.

Giordano achava que tudo se podia saber, e muito se podia memorizar. E por isso se tornou uma celebridade no seu tempo. Reis e príncipes de todos os reinos e principados queriam aprender a memorizar, porque achavam que memória era poder. Alguns acreditavam até que memória era feitiçaria. Um nobre veneziano chamado Giovanni Mocenigo, chamou Giordano Bruno à sua casa para aprender a arte mágica. Um dia, quando se fartou, denunciou Giordano Bruno à Inquisição.

O dia 17 de fevereiro é um dia muito importante, e não só por ter sido o dia em que queimaram Giordano Bruno na fogueira.

Quase setenta e três anos mais tarde, adoeceu em cena o dramaturgo francês Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido por Molière. Por azar estava a encenar — e representar — uma comédia contra os médicos, uma das melhores dele, o Doente Imaginário. O seu sarcasmo era tão profundo que não foi para admirar quando, depois de se sentir mal, nenhum médico quis cuidar dele.

Mas os médicos não eram os únicos inimigos de Molière. Os padres e outros devotos também não gostavam dele, e, ao saber que Molière estava moribundo, prepararam a vingança que lhes escapava desde que contra eles Molière escrevera O Tartufo. Quando a notícia da morte de Molière chegou, moveram os seus esforços para que lhe fosse negada a sepultura em cemitério.

E foi assim que o dramaturgo mais famoso da sua época, que em tempos tinha sido o favorito do Rei-Sol Luís XIV, foi enterrado em solo não-consagrado, como um proscrito. Era um dia chuvoso, 17 de fevereiro de 1673. Dizem que era terça-feira de Carnaval.

Porque decidi escrever sobre hereges e proscritos não sei. Sei que devemos muito a estes dois em particular. E por isso merecem que celebremos a vida neste dia das suas mortes.