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quarta-feira, 29 de abril de 2009

A objecção de Kant ao argumento ontológico: a existência não é um predicado

No argumento ontológico conclui-se que Deus existe a partir do facto de termos a ideia de Deus – a ideia de ser supremo, o ser mais perfeito do que o qual nada se pode pensar. Uma das ideias envolvidas no argumento ontológico é que é contraditório reconhecer que se tem uma ideia de Deus e depois afirmar a sua inexistência. (Para ler mais acerca desse argumento clique aqui, aqui e aqui.)

Porém, o argumento ontológico envolve pelo menos um erro que o torna um mau argumento e o impede de provar a sua conclusão. O filósofo Immanuel Kant (1724-1804) apontou esse erro com clareza ao mostrar que no argumento ontológico a existência é erradamente considerada um predicado.

Um predicado é “uma palavra (ou conjunto de palavras) que exprime uma propriedade ou uma relação” (DEF). Neste contexto, os predicados relevantes são aqueles que exprimem propriedades (também se pode dizer características ou qualidades). Por exemplo, na frase “os filósofos gostam de aprender” o predicado é “gostam de aprender”.

Se dissermos “os filósofos gostam de aprender, valorizam o debate de ideias e existem”, deixaremos o nosso interlocutor surpreendido, pois não é assim que o verbo existir costuma ser usado. A existência não é uma propriedade entre outras. Quando digo que uma coisa Y qualquer existe não estou a caracterizá-la, não estou a acrescentar mais um aspecto à ideia que dela se pode fazer, mas sim a dizer que essa coisa Y é real, que é uma realidade efectiva e não apenas uma ideia na minha mente. A existência não faz parte da ideia que fazemos dessa coisa Y. O que faz parte dessa ideia são as várias propriedades que caracterizam a coisa Y.

A existência não é uma propriedade da coisa Y, mas sim uma condição de possibilidade para ela ter propriedades. Se a coisa Y existir, então poderá ter efectivamente estas ou aquelas propriedades. Se não existir, será uma mera ideia.

Imagine que um biólogo, numa conferência pública, caracteriza uma certa espécie de animais, relativamente à qual existe a hipótese de já estar extinta, pois há anos que não é observado nenhum exemplar. Imagine também que na audiência existe uma pessoa que tem informações mais actualizadas (lidas há uma hora atrás na Internet) – ela sabe se existem ou não exemplares vivos dessa espécie e tenciona dizer o que sabe ao biólogo. Essas informações, sejam elas quais forem, alteram a caracterização feita pelo biólogo? Claro que não, pois existir não faz parte da lista de características típicas dessa espécie animal. Se ainda existirem exemplares vivos dessa espécie animal, eles possuirão efectivamente essas características. Se já não existirem, essas características não passarão de uma ideia sem realidade efectiva.

Do mesmo modo, se Deus existir poderá ter efectivamente os predicados (omnisciência, omnipotência, etc.) que fazem parte da ideia que dele se costuma ter. Se não existir, será uma mera ideia. O argumento ontológico inverte as coisas: em vez de ir da existência para a ideia vai da ideia para a existência.

Se a existência não faz parte da ideia que fazemos de uma coisa, então por muito que analisemos essa ideia não conseguiremos concluir que a coisa existe. Por muito que o tal biólogo analisasse a ideia que formou acerca daquela espécie de animais, por muito que pensasse nas suas várias características, nunca poderia descobrir se alguns desses animais ainda existiam. Do mesmo modo, a análise da ideia de Deus não permite saber se ele existe ou não.

Uma vez que a existência não é um predicado, não faz sentido dizer que é contraditório reconhecer que se tem a ideia de Deus e depois não reconhecer a sua existência. Haveria contradição se uma pessoa dissesse “a ideia de Deus é a ideia de um ser omnipotente e omnisciente, mas que não sabe tudo”, pois a omnisciência e não saber tudo são predicados incompatíveis. Mas não há contradição entre afirmar “a ideia de Deus é a ideia de um ser omnipotente e omnisciente, o ser mais perfeito que se pode pensar” e afirmar “contudo, tal ser é uma mera ideia e não existe na realidade”, pois o que é dito em cada uma dessas afirmações situa-se em planos diferentes: a primeira refere vários predicados, vários aspectos de uma ideia, e a segunda refere que essa ideia afinal não representa nenhum ser real.

Logo, o argumento ontológico não prova a existência de Deus.

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Bibliografia:

Aires Almeida e outros, “A Arte de Pensar – 10º Ano”, vol. 2, Didáctica Editora, Lisboa, 2007.

Luís Rodrigues, “Filosofia – 10º ano”, vol. 2, Plátano Editora, Lisboa, 2007.

Santo Anselmo, “Proslógion”, Introdução e Análise de M. Fernandes e N. Barros, Lisboa Editora, Lisboa, 1995.

Simon Blackburn, “Pense – Uma Introdução à Filosofia”, Gradiva, Lisboa, 2001.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A objecção de Gaunilo ao argumento ontológico: tem consequências absurdas

Um resumo possível do argumento ontológico (veja aqui e aqui) é este:

Quando pensamos em Deus, pensamos no ser mais perfeito que se pode pensar.
Se Deus não existisse realmente, se fosse apenas uma ideia, poderíamos pensar num ser semelhante mas que existisse realmente.
Como a existência contribui para a perfeição, Deus já não seria o ser mais perfeito que se pode pensar, pois esse outro ser seria mais perfeito.
Mas isso é contraditório com a ideia que temos de Deus: essa ideia representa o ser mais perfeito que se pode pensar e isso só pode ser assim se ele existir.
Logo, Deus existe.

Gaunilo (um monge contemporâneo de Santo Anselmo) apresentou uma objecção contra o argumento ontológico, segundo a qual este é um mau argumento e não prova a sua conclusão, pois tem consequências inaceitáveis.

Essa objecção constitui uma redução ao absurdo, ou seja, um argumento em que se mostra que a ideia que se quer refutar tem consequências absurdas e por isso é ela própria absurda.

A redução ao absurdo de Gaunilo consiste em aplicar a estrutura argumentativa (o mesmo tipo de relações conceptuais) do argumento ontológico a outras coisas e mostrar que assim se pode declarar a existência de coisas que  sabemos comprovadamente que não existem. Ou seja: se essa estrutura argumentativa leva a afirmar falsidades óbvias não temos razões para aceitar quando, no argumento ontológico, ela conduz à afirmação de que Deus existe.

Para conseguir esse efeito, basta considerar que uma certa coisa é a mais perfeita no seu género, ou seja, definir uma coisa X como a mais perfeita das coisas X. Gaunilo adoptou como exemplo “Perdida, a ilha paradisíaca mais perfeita que se pode pensar”, mas podemos escolher muitos outros exemplos. Eis um:

pegasus Pégaso cavalo alado

Quando pensamos em Pégaso, pensamos no cavalo alado mais perfeito que se pode pensar.
Se Pégaso não existisse realmente, se fosse apenas uma ideia, poderíamos pensar num cavalo alado semelhante mas que existisse realmente.
Como a existência contribui para a perfeição, Pégaso já não seria o cavalo alado mais perfeito que se pode pensar, pois esse outro cavalo alado seria mais perfeito.
Mas isso é contraditório com a ideia que temos de Pégaso: essa ideia representa o cavalo alado mais perfeito que se pode pensar e isso só pode ser assim se ele existir.
Logo, Pégaso existe.

Será que esta objecção refuta o argumento ontológico?

Mesmo que considere o argumento ontológico um mau argumento, ponha-se na pele de alguém que o considera um bom argumento e tente defendê-lo da objecção de Gaunilo.

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Bibliografia:

Aires Almeida e outros, “A Arte de Pensar – 10º Ano”, vol. 2, Didáctica Editora, Lisboa, 2007.

Santo Anselmo, “Proslógion”, Introdução e Análise de M. Fernandes e N. Barros, Lisboa Editora, Lisboa, 1995.

Simon Blackburn, “Pense – Uma Introdução à Filosofia”, Gradiva, Lisboa, 2001.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O argumento ontológico: diálogo entre um crente e um ateu

Anselmo: Acreditas em Deus?

Vera: Não. Acho que Deus não existe.

Anselmo: Quando pensas em Deus pensas em quê?

Vera: Bem… Penso em alguém… um ser perfeito, omnipotente, omnisciente… Só que não acredito que exista.

Anselmo: Pensas no ser supremo... algo, ou melhor, alguém mais perfeito do que tudo o resto, alguém cuja perfeição é tão grande que não se pode pensar em nada mais perfeito – é isso?

Vera: Sim.

Anselmo: Portanto, tu tens uma ideia de Deus, embora digas que Deus não existe.

Vera: Obviamente! Tenho uma ideia de Deus, tal como tenho uma ideia de sereia, embora não existam sereias.

Anselmo: Deixa-me dar outro exemplo: um pintor imagina detalhadamente um quadro, mas não o pinta. O quadro não existe realmente, mas o pintor tem uma ideia acerca dele.

Vera: Sim, é como a ideia de sereia. Vai dar ao mesmo... tem-se a ideia de uma coisa que não existe.

Anselmo: Diz-me uma coisa: o que achas mais perfeito, a mera ideia de um quadro ou o quadro realmente existente?

Vera: Claro que um quadro que existe de facto é algo superior, algo melhor (mais perfeito, utilizando a tua expressão) do que um quadro apenas imaginado, que apenas “existe” na mente do pintor.

Anselmo: Mas, então, repara numa coisa: se a ideia de Deus é a ideia do ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado, então, Deus tem de existir realmente…

Vera: Ora essa... Desculpa interromper, mas é que…

Anselmo: Deixa-me explicar. Se Deus não existir, então, já não é o ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado, pois poder-se-ia pensar num ser semelhante mas que existisse realmente. Tu tens a ideia de que Deus é o ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado e depois ao dizer que não existe estás a dizer que, afinal, não é esse ser acima do qual nada pode ser pensado (pois podemos pensar num que além das características presentes na ideia também exista). É uma contradição.

Vera: Estás a dizer que quem tem a ideia de Deus cai em contradição se não admitir a sua existência?

Anselmo: Exactamente. Podes ter uma ideia de sereia e não existirem sereias, mas com a ideia de Deus é diferente. O facto de teres a ideia de Deus mostra que ele existe. Deus tem de existir. A existência de Deus decorre necessariamente da sua definição como o ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado.

Vera: Estou um pouco baralhada…

Anselmo: Deixa-me explicar isto de modo mais simples. A ideia de Deus é a ideia de ser supremo. Se for só uma ideia e Deus não existir, então, podes pensar num ser superior a ele – que existisse. Ao dizer que Deus não existe estás a dizer simultaneamente que Deus é o ser supremo e não é o ser supremo. O que é obviamente contraditório. São proposições claramente incompatíveis.

Vera: Sendo assim, se eu quiser ser consequente, se eu não quiser ignorar a lógica, devo afirmar que Deus existe?

Anselmo: Exactamente.

Vera: Tenho dificuldade em rebater o que disseste, só que… Parece-me que há algo errado com o teu argumento! Mas não é fácil dizer claramente o que é.

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Bibliografia:

Aires Almeida e outros, “A Arte de Pensar – 10º Ano”, vol. 2, Didáctica Editora, Lisboa, 2007.

Santo Anselmo, “Proslógion”, Introdução e Análise de M. Fernandes e N. Barros, Lisboa Editora, Lisboa, 1995.

Simon Blackburn, “Pense – Uma Introdução à Filosofia”, Gradiva, Lisboa, 2001.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O argumento ontológico

“O argumento ontológico é uma tentativa de mostrar que a existência de Deus se segue necessariamente da definição de Deus como o ser supremo. Porque esta conclusão pode ser retirada sem recorrer à experiência, diz-se que é um argumento a priori.
De acordo com o argumento ontológico, Deus define-se como o ser mais perfeito que é possível imaginar; ou, na mais famosa formulação do argumento, a de Santo Anselmo (1033-1109), Deus define-se como “aquele ser maior do que o qual nada pode ser concebido”. A existência seria um dos aspectos desta perfeição ou grandiosidade. Um ser perfeito não seria perfeito se não existisse. Consequentemente, da definição de Deus seguir-se-ia que Deus existe necessariamente, tal como se segue da definição de um triângulo que a soma dos seus ângulos internos será de 180 graus.
Este argumento, que tem sido usado por muitos filósofos, incluindo René Descartes (1596-1650), na quinta das suas meditações, não convenceu muita gente; mas não é fácil de ver exactamente o que há de errado nele.”

Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, 2ª edição, 2007, Lisboa, pp. 40-41.

O argumento ontológico tem sido alvo de diversas objecções, inclusivamente por parte de filósofos que defendem a existência de Deus.

Consegue pensar em alguma objecção contra esse argumento?