“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Uma defesa contra a falta de sentido para a vida
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
A estrada de Giges
O que sucederia se uma grande catástrofe matasse a maior parte dos seres humanos, dos animais e das plantas e destruísse as cidades, a agricultura, a indústria, o comércio e as instituições sociais e políticas (nomeadamente o governo, os tribunais e a polícia)?
O filme “A Estrada” (baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy) sugere que a vida dos sobreviventes se tornaria miserável, perigosa e degradante. Matar-se-ia por um par de sapatos ou por um bocado de comida. A fome seria constante e muitas pessoas praticariam o canibalismo. As pessoas tenderiam a viver sozinhas ou em pequenos grupos, isolados e esquivos, devido à desconfiança e ao medo de serem atacadas pelos vizinhos. O horror do presente e a falta de esperança num futuro melhor tornaria muitas pessoas apáticas e levaria algumas ao suicídio.
Trata-se de um cenário ainda pior do que o descrito pelo filósofo Thomas Hobbes ao imaginar o que seria a vida humana sem Estado, sem organização social e política: uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” e dominada por “um constante temor e perigo de morte violenta” (ver aqui mais detalhes).
Infelizmente, é improvável que se trate de um pessimismo injustificado. O que vemos em “A Estrada” é apenas uma generalização feita a partir do que já aconteceu muitas vezes em situações de menor dimensão. Após naufrágios ou quedas de aviões os sobreviventes, isolados e acossados pela fome, recorreram muitas vezes ao canibalismo. Nos campos de concentração nazis e soviéticos muitos prisioneiros roubavam, agrediam ou matavam outros prisioneiros para lhes roubar um bocado de pão. Após catástrofes naturais ou grandes convulsões sociais e políticas, quando o controlo das autoridades do Estado diminui ou desaparece, é frequente ocorrerem roubos, pilhagens, violações, assassinatos e outras violências (veja aqui um exemplo). No Haiti, devastado pelo terramoto ocorrido no passado dia 12 de Janeiro, está a acontecer precisamente isso.
É como se as normas morais e jurídicas a que habitualmente obedecemos, e valores como a justiça e o respeito pelas outras pessoas, fossem apenas um verniz fino e frágil que nessas situações mais extremas estala - dando-nos uma visão do como seria terrível a vida humana sem o controlo do Estado e das outras instituições sociais.
Mas em “A Estrada” não há apenas desespero e miséria material e moral. Segundo o filme, embora se trate apenas de uma pequena minoria, nem todas pessoas esqueceram as normas que respeitavam ou perderam o respeito pelos outros. Nem todas as pessoas se tornaram escravas da fome e do medo. Embora esfomeadas, algumas pessoas não praticaram o canibalismo. Embora amedrontadas, algumas pessoas arranjaram coragem suficiente para ajudar quem precisava de ajuda e partilharam o pouco que tinham. O mesmo sucedeu nas situações reais referidas, nomeadamente nos campos de concentração nazis e soviéticos (veja aqui um exemplo).
Platão conta a história de um homem chamado Giges que encontra um anel que tornava as pessoas invisíveis. Com esse anel podiam, se quisessem, roubar e matar impunemente. O anel de Giges é uma espécie de teste: sem o medo do castigo as pessoas continuariam a respeitar as normas morais e jurídicas que respeitavam antes?
Situações como a descrita em “A Estrada”, ou como a que se verifica actualmente no Haiti, em que o controle estatal desaparece ou diminui muito, põem muitas pessoas no papel de Giges: poderem praticar o mal impunemente. Embora não sejam certamente a maioria, nem todas as pessoas falham nesse teste. Por isso, no final do filme é a esperança (embora incerta e pequena), e não o desespero, que tem a última palavra. Esperemos que suceda o mesmo no Haiti.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Isto é um homem?
Primo Levi, um judeu italiano deportado durante a Segunda Guerra Mundial para um campo de concentração alemão, descreveu e reflectiu, no livro Se isto é um homem, acerca do que acontece quando se submete os seres humanos a uma situação de fome e de sofrimento extremo:
“Fechem-se entre arames farpados milhares de indivíduos diferentes em idade, condição, origem, língua, cultura e hábitos, e obriguem-se, nesse lugar, a um regime de vida constante, controlável idêntico para todos e abaixo de todas as necessidades (…).
Não acreditamos na dedução mais fácil e óbvia: que o homem é fundamentalmente brutal, egoísta e estulto na sua maneira de actuar, quando todas as superestruturas civis lhe são tiradas (…). Julgamos pelo contrário, que, em relação a isso, nada se pode concluir, a não ser que diante das carências e do mal-estar físicos obsessivos, muitos hábitos e muitos instintos sociais ficam completamente silenciados.
(…) aqui a luta para sobreviver é sem remissão, porque cada um está desesperada e ferozmente só.”
É discutível se aquilo que os seres humanos adquirem ao longo do processo de socialização (nomeadamente algumas normas morais como não roubar, não mentir, não matar…) é um verniz que estala facilmente em situações de fome e medo, tornando impossível o altruísmo. Filósofos com uma visão pessimista da natureza humana, como Thomas Hobbes, pressupõem que sim. Outros, pelo contrário, defendem uma perspectiva mais optimista e consideram que não.
Seja como for, tal como mostra Primo Levi ao longo deste livro, há aqueles que se transformam em “animal-homem” (talvez a maioria) e outros cuja humanidade permanece intacta, mantendo a capacidade de praticar acções sem esperar nada em troca: fazer o bem pelo bem.
A propósito deste livro pode ler também aqui.
sábado, 7 de março de 2009
Cumprir o dever pelo dever: um exemplo
Primo Levi - um jovem químico italiano de origem judaica, deportado para Auschwitz em 1944 – descreveu a sua experiência, neste campo de extermínio nazi, no livro “Se isto é um homem”.
Para ilustrar o significado atribuído por Kant a uma acção praticada por dever, costumo citar nas aulas este excerto:
“ (…) um operário civil italiano (Lorenzo) trouxe-me um bocado de pão (…), todos os dias, durante seis meses; ofereceu-me uma camisola sua cheia de remendos; escreveu por mim um postal para Itália e fez-me chegar a resposta. Por tudo isto, não pediu nem aceitou alguma compensação, porque era bom e simples, e não achava que o bem devesse fazer-se para obter compensações.
(…) creio que devo justamente a Lorenzo o facto de estar vivo hoje; não tanto pela sua ajuda material, quanto por me ter constantemente lembrado com a sua presença, com a sua maneira tão linear e fácil de ser bom, que ainda existia um mundo justo para além do nosso, algo e alguém ainda puro e incontaminado, não corrupto e não selvagem alheio ao ódio e ao medo; algo que mal se pode definir, uma remota possibilidade de bem, pela qual, porém, valia a pena conservar-se.
As personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrem. Os SS maus e estúpidos, os políticos, os criminosos, os proeminentes grandes e pequenos (…) todos os degraus da insana hierarquia criada pelos Alemães, estão paradoxalmente unidos numa única desolação interior.
Mas Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. Graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem”.
Após a leitura destas palavras, experimentem olhar atentamente para a fotografia do post anterior…