segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A arte de lembrar e esquecer

«Quando lemos versos que são realmente admiráveis, realmente bons, temos a tendência para o fazer em voz alta. Um verso bom não permite ser lido em voz baixa ou em silêncio. (…) O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi canto.

Há duas frases que o confirmam. Uma é a de Homero ou a dos gregos que designamos por Homero, que diz na Odisseia: “os deuses tecem desventuras aos homens para que as gerações vindouras tenham alguma coisa que cantar”. A outra, muito posterior, é de Mallarmé e repete o que disse Homero com menos beleza: “Tout aboutit en un livre” (“Tudo vai dar a um livro”). Aqui temos as duas diferenças: os gregos falam de gerações que cantam, Mallarmé fala de um objeto, de uma coisa entre as coisas, um livro. Mas ideia é a mesma, a ideia de que nós somos feitos para a arte, somos feitos para a memória, somos feitos para a poesia ou possivelmente somos feitos para o esquecimento. Mas há algo que resta e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente diferentes.»

 Jorge Luís Borges, “A Divina Comédia” in Sete Noites, Quetzal, Lisboa, 2024, pp. 14-15.

 Imagem: A Poesia, de Rafael.

 A inscrição "Numine Afflatur" significa “Inspirada pelo Divino”.




sexta-feira, 7 de novembro de 2025

A beleza

As coisas belas podem tirar-nos o fôlego. Podem extasiar-nos, encantar-nos, dar-nos talvez um sentido de assombro ou deslumbramento. Esta experiência “faz-nos sair de nós próprios”, dá-nos uma espécie de êxtase, e pode dar-nos energia e ser revitalizante, deixando-nos (…) uma impressão de que as nossas vidas foram enriquecidas. Sentimo-nos gratos com a existência de coisas belas e pela experiência que nos proporcionam. Dizemos que as coisas são belas quando a experiência que temos delas nos dá este tipo específico de prazer. É uma impressão de que essas coisas são como devem ser, de que há algo de perfeitamente adequado nelas. 

Simon Blackburn, As Grandes Questões da Filosofia, Gradiva, Lisboa, 2018, pág. 191 (Texto adaptado).



Pintura: Jacopo Pontormo, Visitazione, c. 1528-1530. 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

De nada adianta ter certezas

«Somos falíveis. Por isso, por mais cuidado que tenhamos, podemos estar enganados. E de nada adianta ter certezas. A certeza é apenas a convicção profunda de que não estamos enganados; mas se podemos estar enganados quando cremos que sabemos, também podemos estar enganados quando damos à nossa convicção a força da certeza. A certeza não é um botão mágico que elimina a possibilidade de erro e ilusão. 
Somos falíveis. Mas não estamos sozinhos. Podemos recorrer a várias outras pessoas. Elas são todas igualmente falíveis, mas se todos discutirmos abertamente e procurarmos a verdade, podemos corrigir melhor os nossos erros.»

Desidério Murcho, Filosofia em Directo, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, 2011, pág. 82. 




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

O que devemos fazer

«Queremos andar pelos nossos próprios pés e olhar para o mundo de forma justa e objetiva – os seus factos bons, os seus factos maus, as suas belezas e as suas fealdades; ver o mundo tal como é, e não temê-lo. Conquistar o mundo pela inteligência e não ficarmos escravizados pelo medo. (…) Temos de nos erguer e encarar francamente o mundo. Temos de tornar o mundo o melhor possível e, mesmo que não seja tão bom quanto desejamos, será ainda assim melhor do que o construído no passado. Um mundo bom precisa de conhecimento, bondade e coragem; não precisa de nostalgia do passado nem da censura da inteligência livre (…). Precisa de um olhar destemido e de uma inteligência livre. Precisa de esperança no futuro e não de olhar para um passado que está morto, que esperamos que seja em muito ultrapassado pelo futuro que a nossa inteligência é capaz de construir.»

Bertrand Russell, Por que não sou Cristão, Edições 70, Lisboa, 2020, pág. 35.