“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
A verdade, segundo Fernando Pessoa
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Humanos como nós
segunda-feira, 23 de março de 2020
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Uma questão de perspetiva
Imagem da autoria do holandês Maurits Cornelius Escher (1898-1970).
Retirado de: M. C. Escher, the official website - http://www.mcescher.com/
Quando observamos esta imagem, o que vemos depende dos pormenores em que focamos o nosso olhar.
O mesmo se passa, por exemplo, em relação a alguns acontecimentos da nossa vida: muitos deles são factos objetivos, mas o modo como os compreendemos depende da perspetiva em que nos colocamos. Daí que o nosso olhar possa ser, eventualmente, distorcido e a compreensão que obtemos falsa.
Há muitas possibilidades de distorção. Duas das mais frequentes são: uma situação nos parecer melhor do que na realidade é ou então pior do que na realidade é. Manter a lucidez e o espírito crítico é uma forma de as evitar.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Quem deve falar em nome de uma cultura?
Algumas pessoas pensam que nunca se deve criticar os valores e os costumes dos outros povos, pois os valores e os costumes são relativos: cada sociedade tem um certo conjunto de valores e costumes e os de uma sociedade não são melhores nem piores do que os de outra sociedade, são apenas diferentes. O critério do certo e do errado reside nas tradições populares e na aceitação social de que gozam. Como disse a antropóloga Ruth Benedict, “a moralidade varia em todas as sociedades, e é apenas um termo cómodo para os hábitos que uma sociedade aprova”1. Essa maneira de pensar costuma ser designada relativismo cultural, ou apenas relativismo.
É frequente encontrar pessoas a defendê-la (talvez por pensarem – erradamente – que ser relativista é a única maneira de não ser intolerante), mas muitas sem consciência das suas implicações. Se o relativismo cultural fosse verdadeiro, censurar costumes como o casamento de crianças ou a excisão seria uma atitude arrogante e intolerante; invocar os direitos humanos para justificar essas críticas não seria também legítimo, pois para essa doutrina os direitos humanos não exprimem valores universais, mas apenas ocidentais.
Felizmente, o relativismo cultural presta-se a várias objeções mais plausíveis que ele. Eis uma dessas objecções. Se uma certa sociedade não é homogénea e as pessoas têm estatutos, interesses e opiniões diferentes, quem deve falar em nome da sua cultura?2 Por exemplo: quem deve falar em nome dos ciganos – apenas os mais velhos, que impedem as raparigas adolescentes de irem à escola e impõem o seu casamento precoce, ou também essas raparigas? E numa sociedade esclavagista, como era a Roma imperial ou os Estados do Sul nos EUA antes da Guerra Civil, quem deve falar em nome da sua cultura – os donos dos escravos ou também os escravos?
Parece assim que o relativismo não exclui apenas as críticas dos estrangeiros mas também as críticas dos membros da sociedade em causa. A aceitação do relativismo leva, portanto, à suspensão do pensamento crítico e ao conformismo social.
Um relativista coerente não poderá, por exemplo, apoiar o cidadão saudita Raif Badawi (condenado a 10 anos de prisão e a mil chicotadas, 50 a cada sexta-feira durante 20 semanas, por supostamente “insultar o Islão” com os seus escritos num blogue) nem a jovem paquistanesa Malala Yousafzay (um dos vencedores do Nobel da Paz 2014), baleada na cabeça pelos talibãs como retaliação pela sua campanha em defesa do direito à educação das raparigas. Com efeito, as ideias e acções de Raif Badawi e de Malala Yousafzay são desviantes relativamente às tradições largamente maioritárias dos seus povos.
Como é implausível não poder defender Raif Badawi e Malala Yousafzay, resta rejeitar o relativismo cultural. Raif Badawi e Malala Yousafzay também podem falar em nome da sua cultura, mesmo que seja para rejeitar alguns dos seus costumes e valores. Mas se eles podem pensar criticamente acerca desses costumes e valores porque não poderão fazer o mesmo as pessoas de outras sociedades? 3
1 Citada por: James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pág.33.
2 James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Lisboa, 2009, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp. 240-241.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Ah, isso é muito discutível…
Deus existe ou não? O aborto é certo ou errado? Os direitos humanos são ou não universais? Porque será que, perante perguntas desse género, muitas pessoas, em vez de responderem realmente à pergunta, dizem “isso é discutível, depende da opinião de cada um”? Mesmo que se inicie a pergunta dizendo “na sua opinião...” essas pessoas respondem assim.
Porque será? Vergonha de dizer “não sei”? O receio relativista de parecer arrogante ao afirmar uma opinião e contrariar outras?
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
O ponto de vista do senso comum sobre a ética é relativista ou objetivista?
«Quando julgamos algo como um bem ou um mal não pensamos que estamos apenas a dar livre expressão às nossas emoções — se fosse essa a nossa vontade, bastava apenas dizer se gostamos disso ou não. Nem nos vemos simplesmente a aplicar os padrões da nossa sociedade — apesar de tudo, sabemos que os padrões da nossa sociedade podem estar errados. Em vez disso, queremos afirmar algo que seja objetivamente verdadeiro, independente dos nossos sentimentos ou dos padrões da nossa sociedade. (...) Pensamos, por exemplo, que a escravatura é uma injustiça e que quem pensa o contrário tem de estar enganado. Mas não é fácil defender este ponto de vista do senso comum.»
James Rachels, “A questão da objetividade em ética”, Crítica - http://criticanarede.com/fil_objectietica.html
James Rachels considera que esta concepção objetivista da ética é “a nossa compreensão comum da ética”, o “ponto de vista do senso comum” que se opõe ao subjetivismo e ao relativismo cultural (ele tenta defender filosoficamente o objetivismo).
Contudo, pelo que tenho observado ao longo de anos nas aulas, os alunos – antes de estudarem filosofia e alguns até depois – defendem espontaneamente o subjetivismo e o relativismo cultural e resistem ao objetivismo. Aliás, não são só os alunos que parecem pensar assim: o “isso é subjetivo” e o “aquilo é relativo” estão muitas vezes na ponta da língua de muito boa gente. Afinal, o ponto de vista do senso comum sobre a ética é relativista ou objetivista? Como é óbvio, qualquer um desses pontos de vista pode ser – e tem sido – defendido filosoficamente. Mas qual será o mais próximo do senso comum?
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Como persuadir as mulheres a não trabalharem
Abdullah Mohammad Al Dawood, um escritor, popular, na Arábia Saudita.
São populares, e politicamente correctas, ideias como o respeito pelas tradições dos diferentes povos. Contudo, não é frequente os defensores do relativismo cultural analisarem e divulgarem, além das práticas inócuas, aquelas que constituem grosseiras violações de direitos humanos fundamentais, neste caso - e para não variar - das mulheres.
É defensável que uma forma de persuadir uma mulher a não trabalhar, em locais públicos, seja molestá-la sexualmente?
Não. Mas na Arábia Saudita é.
Segundo a revista Visão:
"O escritor do Médio Oriente provocou um intenso debate entre os seus 97 mil seguidores da rede social Twitter ao pedir a todos que molestassem sexualmente as mulheres contratadas para trabalhar como caixas em supermercados.
Abdullah Mohammad al-Dawood criou uma hashtag que incentivava o abuso das funcionárias com o objetivo de pressioná-las a ficar em casa. Esta atitude provocou o descontentamento de vários utilizadores da rede social.
Outras opiniões vieram à tona, considerando Abdullah um defensor dos costumes (...).
O saudita justificou a sua campanha ao dizer que se inspirou na história do guerreiro al-Zubair. Segundo al-Dawood, o guerreiro não queria que a mulher saísse de casa para rezar na mesquita. Numa noite, escondeu-se e atacou a mulher na rua, onde a molestou. Depois disto, a mulher decidiu nunca mais sair de casa.
Abdullah escreve livros de auto-ajuda (...)."
Pode continuar a ler AQUI.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
A tolerância não implica o relativismo
Na sequência do post O que é a tolerância?, vou agora defender que sermos tolerantes não nos obriga a ser relativistas.
O relativismo cultural
Segundo o relativismo cultural, o bem e o mal são relativos a cada cultura: o bem é aquilo que é socialmente aprovado e o mal é aquilo que é socialmente reprovado[i]. Assim, se uma ação for aprovada pela maioria das pessoas da sociedade X, essa ação é moralmente correta – para as pessoas da sociedade X. Se essa mesma ação for reprovada pela maioria das pessoas da sociedade Y, essa ação é moralmente incorreta – para as pessoas da sociedade Y. Essa ação não é correta ou correta em si mesma, a sua correção ou incorreção depende da perspetiva cultural dos agentes. Na moralidade não existe o “em si mesmo”.
A verdade ou falsidade dos juízos morais não é, portanto, objetiva, mas sim culturalmente relativa. Uma afirmação como “O casamento de crianças é moralmente errado” não é simplesmente verdadeira ou falsa: é verdadeira nas sociedades que aprovam essa prática e é falsa nas sociedades que a desaprovam.
De acordo com o relativismo cultural, não há diferença entre as pessoas de uma certa sociedade acreditarem que algo é certo ou errado e isso ser realmente certo ou errado, pois é essa crença coletiva que estabelece o que é moralmente certo e o que é moralmente errado.
Os costumes de uma sociedade não são melhores nem piores do que os de outra sociedade, são apenas diferentes. E isso não sucede apenas a alguns costumes, mas sim a todos. Considerar que uns são melhores que outros implicaria um critério neutro de avaliação, um critério transcultural válido para as várias culturas, mas esse critério – segundo o relativismo cultural - não existe [ii].
Por isso, segundo o relativismo cultural criticar os costumes de outra sociedade é uma atitude arrogante e intolerante. E etnocêntrica. Etnocentrismo é o nome que nas ciências sociais se dá à valorização excessiva da própria cultura e ao desprezo pelas outras culturas. Assim, quem hoje critica a lapidação ou a excisão faz algo que é equivalente ao comportamento dos europeus que, há séculos atrás, chamavam “selvagens” aos africanos e aos índios, reprimiam os seus costumes e impunham-lhes os costumes europeus.
Fazer essas críticas em nome dos direitos humanos não permite, segundo o relativismo cultural, escapar ao etnocentrismo, pois os direitos humanos não exprimem valores universais, mas sim ocidentais. Por exemplo, a igualdade de direitos entre homens e mulheres não é uma ideia que faça, ou possa vir a fazer, sentido em qualquer sociedade. Motivada por essas ideias relativistas, a Associação Antropológica Americana criticou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, ainda antes da sua aprovação pela ONU em 1948, acusando-a de conter um etnocentrismo “subtil” [iii].
O sociólogo americano William Graham Sumner resumiu as ideias do relativismo cultural de modo muito claro e revelador:
A maneira “certa” é a maneira que os antepassados utilizavam e nos foi transmitida. A tradição é a sua própria garantia. (…) A noção do que está certo está nos hábitos do povo. Não reside além deles, não provém de origem independente, para os pôr à prova. O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo. (…) Quando abordamos os hábitos populares a nossa análise chega ao fim. [iv]
A tolerância não implica o relativismo
As ideias relativistas são defendidas nalguns meios académicos, nomeadamente na área das ciências sociais, mas também fora dos meios académicos, por vezes por pessoas que não sabem bem o que é o relativismo, mas que acreditam que todas as opiniões – nomeadamente no campo da moral - valem o mesmo. Para essas pessoas tolerar parece consistir em não achar nada falso ou errado. Identificam a tolerância com o “respeito” por todas as opiniões e abdicam de avaliar se são verdadeiras ou falsas. Consideram que avaliar as opiniões dos outros e exprimir as próprias opiniões com convicção revela arrogância e intolerância. A ideia de que não se deve criticar os costumes alheios, pois isso seria uma falta de respeito, parece-lhes uma enorme evidência.
Contudo, ser tolerante não implica ser relativista. Por várias razões, das quais vou apresentar três.
1. A tolerância não nos impede de ter convicções e de, eventualmente, achar erradas as convicções das outras pessoas, apenas nos impede de impor pela força física ou psicológica as nossas convicções. Por isso, a tolerância não nos impede de comparar os costumes das diferentes sociedades nem de considerar que, eventualmente, alguns são melhores que outros. Ou seja: a tolerância não nos impede de pensar.
Convém acrescentar que o resultado da comparação não é necessariamente favorável aos nossos próprios costumes: pode perfeitamente suceder que alguém descubra que um certo costume da sua sociedade é pior, por exemplo em termos morais, que um costume estrangeiro alternativo.
A tolerância não só não nos impede de considerar que as pessoas cujos costumes toleramos estão erradas, como, pelo contrário, pressupõe isso – pois consiste precisamente em aceitar que os outros digam e façam coisas que achamos erradas. Sendo assim, o relativismo esvazia de sentido a tolerância, pois diz que no fundo ninguém está errado e que, do seu próprio ponto de vista, todos têm razão, não sendo nenhum ponto de vista melhor que outro. Ora, a tolerância consiste em aceitar a existência de algo que consideramos errado e não em deixar de pensar que isso é errado. Se o relativismo fosse verdadeiro não haveria propriamente nada para tolerar [v].
Quero sublinhar um aspeto. Dizer que na moralidade nem tudo é relativo não é sinal de arrogância intelectual. Defender essa ideia não consiste em dizer “nós estamos certos e eles estão errados”, mas sim que é possível alguém estar objetivamente certo e alguém estar objetivamente errado – nós ou eles. Ou seja: não se trata de defender que nós é que temos a verdade no bolso e que nós é que sabemos tudo, mas sim de recusar a ideia de que nenhum dos lados pode estar errado.
2. A tolerância pressupõe que discordamos das pessoas cujas ideias ou ações toleramos, mas será intolerante dar expressão pública a esse desacordo? Quando toleremos um certo costume deveremos abster-nos de o criticar publicamente? A tolerância será incompatível com a crítica? Vimos que a tolerância nos deixa pensar – mas deixar-nos-á falar? Por exemplo: se um português disser a um saudita que a poligamia é errada pois implica uma desigualdade de direitos entre homens e mulheres, estará a ser intolerante? Penso que não. Contrariamente ao que defende o relativismo cultural, a tolerância não é incompatível com a crítica.
Se a tolerância fosse incompatível com a crítica seria também incompatível com a liberdade de expressão, o que é muito pouco plausível, para não dizer absurdo, pois isso significaria que concedíamos liberdade e direitos aos outros à custa da nossa própria liberdade e direitos.
Quando toleramos abstemo-nos de impor e reprimir, abdicamos de interferir negativamente. Mas criticar uma certa ideia e defender uma ideia alternativa não pode ser visto como repressão nem como imposição, a menos que se recorra à violência física ou psicológica. Caso não seja acompanhada de agressões, ameaças ou chantagens, a argumentação não pode ser vista como uma forma de força. A argumentação racional é, pelo contrário, um diálogo: discordamos de uma pessoa e damos-lhe simultaneamente a possibilidade de discordar de nós, tentamos convencê-la e permitimos que ela nos tente convencer a nós. Criticar, no contexto da argumentação racional, não é ofensivo nem desrespeitoso e não deve fazer parte das coisas que uma pessoa se abstém de fazer por ser tolerante. A crítica não conta como interferência. Criticar não é, portanto, um ato intolerante. Assim, se um português disser a um saudita que discorda da poligamia e tente civilizadamente convencê-lo a mudar de opinião não estará a agir contra a tolerância.
A ideia, muito comum, de que a tolerância consiste em “respeitar as opiniões das pessoas” presta-se a equívocos. O que deve ser respeitado não são as opiniões em si mesmas (ou seja, o seu conteúdo cognitivo), mas sim a sua existência e livre expressão. Respeitar o conteúdo das opiniões que consideramos falsas seria impedirmo-nos de pensar, ou pelo menos de dizer, que essas opiniões são falsas – o que seria uma forma de autocensura e impediria o livre exercício do pensamento. Criticar uma opinião que consideramos falsa não nos impede de a tolerar nem constitui um desrespeito para com os seus defensores, com quem nos disponibilizamos para debater. Desidério Murcho exprimiu essa ideia deste modo: “tolerar é tolerar humanamente, não é tolerar epistemicamente” [vi]. Neste contexto, vale também a pena recordar a célebre afirmação atribuída a Voltaire: “Discordo do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”.
3. O relativismo cultural não distingue entre costumes com relevância moral e costumes sem relevância moral, uma vez que o que importa é a aprovação social. Desde que esta exista, a excisão tem tanta legitimidade como as regras relativas ao horário das refeições ou aos talheres usados durante as mesmas. Como disse William Sumner, “O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo”. Sublinho o “seja o que for”. Se concordarmos com o relativismo cultural ficamos intelectualmente paralisados e impedidos de pensar sobre os costumes sociais, pois estes são vistos como dogmas, como algo que não pode ser analisado nem questionado. E, mais uma vez, as palavras de William Sumner são reveladoras: “Quando abordamos os hábitos populares a nossa análise chega ao fim”.
Essa maneira de pensar não permite perceber bem a tolerância. Como mostrei no post O que é a tolerância?, esta supõe diversas distinções. É preciso distinguir entre aquilo que consideramos moralmente correto e o que consideramos moralmente incorreto mas tolerável. Depois é preciso distinguir entre o tolerável e o intolerável. Por exemplo: A obrigação, existente nalgumas sociedades e grupos islâmicos, das mulheres taparem rosto com um véu é correta, incorreta mas tolerável ou intoleravelmente errada? E, para continuar com exemplos atuais, tem sentido fazer as mesmas perguntas acerca de práticas como a excisão e a lapidação.
A atitude acrítica promovida pelo relativismo cultural não permite analisar e discutir esses casos, pois para essa teoria tudo o que há a dizer é que são práticas aprovadas nalgumas comunidades pelo que, para elas, são corretas. O relativismo cultural, ao considerar a mera aprovação social como critério do bem moral, faz essas distinções desaparecerem e impede-nos portanto de distinguir entre casos que, independentemente do modo como os julgarmos moralmente, se apresentam à partida como muito diferentes e com um impacto muito diferente na vida das pessoas. As consequências de usar um véu que tapa apenas os cabelos e o pescoço são diferentes das consequências de usar um véu integral que só deixa à vista os olhos e são ainda mais diferentes das consequências da excisão, que por sua vez são menos drásticas que as consequências da lapidação. No entanto, para o relativismo cultural todos esses costumes estão em pé de igualdade em termos de legitimidade nas comunidades em que a maioria das pessoas os aprova. Identificar a tolerância com essa aceitação indiscriminada e acrítica das diferenças culturais impede-nos de perceber as próprias diferenças culturais e impede qualquer debate sobre elas. O que, no mínimo, não é nada tolerante.
Por isso, a tolerância não só não implica o relativismo cultural, como, pelo contrário, parece ser incompatível com ele.
Notas:
[i] Gensler, Harry, “Ética e Relativismo Cultural”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/fil_relatcultural.html
[ii] Rachels, James, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 2004, pág. 35 e ss.
[iii] Pojman, Louis, Terrorismo, Direitos Humanos e a Apologia do Governo Mundial, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2007, pág. 148.
[iv] Rachels, James, Ibid., pág. 36.
[v] Murcho, Desidério, “Ética e direitos humanos”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/valoresrelativos.html.
[vi] Murcho, Desidério, “Tolerância e ofensa”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/ed_118.html
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Lágrimas iguais
«Quando um chinês ou um africano choram, essa lágrima é sempre a mesma, não é antropológica ou sociológica, não tem lá dentro um certo tipo de cultura, religião ou costume, não tem nada, excepto a humanidade que todos partilhamos.»
Antonio Tabucchi
(Citação encontra aqui.)
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Os valores serão objetivos ou não?

Subjetivismo moral (1): A verdade dos juízos morais depende da opinião pessoal?
Subjetivismo moral (2): Será a ética subjectiva?
Subjetivismo moral (3): Haverá provas em ética?
Uma tradição admissível, segundo os relativistas culturais
Qual é, afinal, a tradição certa?
A defesa dos direitos humanos e do relativismo cultural serão compatíveis?
Se há valores morais objetivos, pode-se defender os direitos humanos
Tem razão quem se apoiar nas melhores razões
A divergência de opiniões é incompatível com a objetividade?
A cigarra, a formiga e os valores
Quais são os valores a que o cartoon se refere?
Que juízos de valor se podem formular a partir do cartoon?
Qual é, na sua opinião, o juízo de valor verdadeiro? Porquê?
sexta-feira, 20 de julho de 2012
A incoerência do relativismo
Thomas Nagel fornece aqui um possível ponto de partida para responder a esta questão.
«Habitualmente é uma boa estratégia perguntar se uma afirmação geral sobre a verdade ou o significado se aplica a si mesma. Muitas teorias (…) podem ser eliminadas imediatamente por meio deste teste. A noção familiar de que o relativismo se refuta a si mesmo continua válida apesar da sua familiaridade: não podemos criticar algumas das nossas próprias pretensões racionais sem usar a razão noutro momento qualquer para formular e apoiar essas críticas. O resultado pode ser a restrição do domínio dos juízos racionalmente defensáveis, mas não o seu desaparecimento. O processo de submeter as nossas convicções, alegadamente racionais, ao diagnóstico e à crítica externos deixa inevitavelmente intacta, para conduzir o processo, uma forma qualquer da prática de primeira ordem do raciocínio. O conceito de subjetividade exige sempre um quadro de referência objetivo, no interior do qual se localiza o sujeito e se descreve a sua perspetiva especial ou o seu conjunto de razões. Não podemos abandonar completamente o ponto de vista da justificação, que nos leva a procurar fundamentos objetivos.»
Thomas Nagel, A última palavra, tradução de Desidério Murcho, Gradiva, Lisboa, 1999, pág. 24.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
O relativismo acerca da verdade refuta-se a si mesmo?
O relativismo acerca da verdade refuta-se a si mesmo?
Esta é a questão colocada a concurso na edição de 2012 do Prémio de Ensaio Filosófico da Sociedade Portuguesa de Filosofia.
No site da SPF ainda não se encontra disponível o regulamento, mas pode consultar AQUI o regulamento da edição de 2011. No ano passado a data de entrega foi o final de Dezembro.
O autor do ensaio vencedor receberá um prémio monetário (3500 euros, no passado ano). O ensaio vencedor será publicado na Revista Portuguesa de Filosofia.
sábado, 26 de maio de 2012
Vídeos filosóficos filmados e pensados por alunos
Sugeri aos alunos do 10º ano um trabalho facultativo: realizar um pequeno vídeo em que um problema filosófico fosse discutido. Eis três deles.
Aula sobre o relativismo moral cultural:
Trabalho realizado por: Ana Rita Mendonça, Cláudia Ferreira, Ricardo Martins e Rui Branco, do 10º C.
Cimeira sobre os Direitos Humanos:
Trabalho realizado por: Beatriz Cabrita, Daniela Rodrigues, Igor Albernaz e Lucas Sá, do 10º A.
Debate sobre o subjetivismo moral:
Trabalho realizado por: Bruno Cardoso e Ricardo Garcia, do 10º A.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Discutir para ganhar
Numa passagem interessante do romance Pensamentos Secretos [i], Ralph Messenger (formado em filosofia e especialista em ciências cognitivas) recorda algumas conversas que teve com a romancista Helen Reed e pensa que esta, além de ser bonita e ter umas “boas pernas”, tem outras qualidades:
“é uma mulher (…) esperta, de inteligência rápida, boa a argumentar, preparada para defender os seus pontos de vista, gosto disso, há demasiadas pessoas que acham que discutir coisas que interessam, discutir para ganhar, é de certa forma de mau gosto”.
Quando li essas palavras lembrei-me logo de imensas situações a que assisti em que a tentativa de discutir ideias gerou mal-estar (e de que fiz uma breve descrição aqui). Aposto que em Portugal esse mal-estar, tipicamente relativista, é maior e mais frequente que em Inglaterra.
[i]David Lodge, Pensamentos secretos, Edições Asa, Porto, 2002, pág. 91.
terça-feira, 13 de março de 2012
Tem razão quem se apoiar nas melhores razões
Contrariamente ao que algumas pessoas pensam, afirmar que existem juízos morais objetivos (e recusar, portanto, o relativismo e o subjetivismo na moralidade) não é sinal de arrogância intelectual nem de dogmatismo. Defender essa ideia não consiste em dizer “nós – as pessoas que partilham a cultura X - estamos certos e eles estão errados” ou sequer “eu estou certo e tu estás errado”, mas sim que é possível alguém estar objetivamente certo e alguém estar objetivamente errado – nós ou eles, eu ou tu. Ou seja: não se trata de defender que nós é que temos a verdade no bolso ou que eu é que sei tudo, mas sim de recusar a ideia de que nenhum dos lados pode estar errado. Com efeito, segundo algumas teorias éticas (relativismo moral cultural e subjetivismo moral) em relação aos assuntos morais não pode haver verdades objetivas mas apenas verdades relativas – à cultura ou ao indivíduo; pelo que dois juízos morais opostos podem ser ambos verdadeiros (um é verdadeiro para X e o outro é verdadeiro para Y, mas nenhum deles é verdadeiro em si mesmo).
Defender a objetividade dos juízos morais envolve também a ideia de que o lado que está certo está certo porque os seus juízos morais estão melhor justificados, independentemente dos desejos, sentimentos e costumes das pessoas envolvidas. Tem razão quem se apoiar nas melhores razões. E essa justificação pode ser compreendida e aceite por pessoas com personalidades e culturas diferentes umas das outras.
Se pensarmos em juízos morais como “as mulheres devem ter direitos semelhantes aos homens” ou “a tortura é errada”, podemos plausivelmente dizer que as pessoas que os consideram verdadeiros estão certas e que as pessoas que os consideram falsos estão erradas, pois existem razões fortes a favor desses juízos.
Se pensarmos em juízos morais como “o aborto é sempre errado” ou “o aborto é correto em certas situações”, temos de ser mais cautelosos, uma vez que mesmo entre os maiores especialistas existem divergências profundas sobre esse problema e está em disputa qual dos juízos é realmente verdadeiro. Contudo, se defendermos o objetivismo moral podemos acrescentar: não podemos garantir qual dos juízos é verdadeiro, mas um deles é verdadeiro e o outro falso. E é precisamente por isso que esse problema é tão debatido: para tentar estabelecer qual é a verdade acerca dele.
A respeito desta questão pode ver também os posts:
A divergência de opiniões é incompatível com a objetividade?
Defender a objetividade não significa que se seja dogmático.
domingo, 11 de março de 2012
Qual é, afinal, a tradição?
Segundo uma notícia da TSF, no Iraque, “pelo menos 15 adolescentes foram mortos por se vestirem de maneira considerada desviante”. Esses jovens eram adeptos do estilo emo.
Mesmo que as sociedades fossem culturalmente homogéneas, a tese do relativismo moral cultural segundo a qual “moralmente correto” equivale a “socialmente aprovado numa determinada sociedade” prestar-se-ia a várias objeções.
Contudo, no mundo atual – em que os meios de transporte e os meios de comunicação social, como a TV e a Internet, permitem contactos constantes entre os indivíduos das mais diversas sociedades - pouquíssimas sociedades são culturalmente homogéneas. Se o critério do certo e do errado reside na aprovação social que devem fazer os indivíduos que pertencem simultaneamente a grupos sociais com valores e normas diferentes? Se cada grupo aprova valores e normas diferentes e cria tradições diferentes, qual é afinal a tradição que conta? O relativismo cultural não tem nenhuma resposta plausível para essa questão, tal como não permite justificar a censura destes assassinatos (perpetrados em nomes dos valores da maioria). Boas razões, portanto, para rejeitar essa teoria.



