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domingo, 25 de maio de 2014

Os juízos de valor morais podem ou não ser objetivos?

Imagem do Filme O apedrejamento de Soraya M

Imagem do Filme O apedrejamento de Soraya M.

Num teste realizado em Fevereiro perguntei aos alunos qual é a teoria mais plausível relativamente ao problema da objetividade dos juízos morais. Duas das melhores respostas foram dadas pelo Leonard Sá, que defendeu o Objetivismo Moral, e pelo Xavier Diaz, que defendeu o Subjetivismo Moral. Ei-las.

O problema da objetividade dos juízos morais pode formular-se assim: há juízos de valor morais objetivos ou todos os juízos de valor morais são ou subjetivos ou culturalmente relativos?

Nas aulas estudámos três teorias: o Subjetivismo Moral (SM), o Relativismo Cultural (RC) e o Objetivismo Moral (OM).

O SM defende que todos os juízos de valor são subjetivos, pois são reflexos dos gostos e preferências de cada pessoa. Como isso depende do individuo, não há, segundo esta teoria, pessoas que estejam erradas (a menos que não sejam sinceras), e nenhuma pessoa tem mais razão que as outras.

O RC afirma que todos os juízos de valor são culturalmente relativos, pois são relativos às sociedades e não existe nenhuma sociedade mais correta ou errada que outra. Alguém só pode estar errado se os juízos de valor em que acredita forem diferentes daqueles que são aceites pela sociedade a que pertence.

Por último, o OM diz que alguns, não todos, juízos de valor são objetivos. Ou seja, se um juízo de valor verdadeiro for x e alguém afirmar y, então, independentemente da sua sociedade e/ou gostos, está errada, e só está correta, se e só se afirmar x.

Das três teorias a que me parece mais plausível é o OM.

Não acho que o SM esteja correto devido a várias razões:

Os Subjetivistas afirmam que não existem meios objetivos de resolver conflitos de valores, ou seja, quando alguém diz que um juízo de valor está correto e outro individuo diz que esse mesmo juízo de valor está errado, não parece haver uma maneira objetiva de dizer quem tem razão, ao contrário do conflito de juízos de facto em que basta estudar cuidadosamente os factos. Logo, o SM está correto.

Uma objeção a este argumento, é que existem maneiras objetivas de resolver os conflitos de valores (isto não quer dizer que se pode resolver objetivamente todos os conflitos, só alguns). Imaginemos a seguinte situação: iria ser votada uma lei que beneficiava os homens e prejudicava as mulheres. Se cada pessoa pensasse apenas nos seus interesses, os homens iriam votar a favor e as mulheres iriam votar contra, por as prejudicar. Partindo do princípio que existia o mesmo número de homens e mulheres, chegar-se-ia a um impasse. Os Subjetivistas pensam que é inevitável que isto aconteça: não há maneira objetiva de resolver este conflito. Mas, se os votantes atuassem sob um véu de ignorância, ou seja, se não soubessem se a seguir à votação seriam homens ou mulheres, para não arriscarem a serem prejudicados (ou seja, não iriam pensar nos seus gostos e preferências), iriam todos votar contra. Parece então que existem maneiras objetivas de resolver conflitos de valores. Logo este argumento baseia-se numa premissa falsa.

Outro argumento que os Subjetivistas invocam é que os juízos de valor são subjetivos porque existem discordâncias em relação a estes.

Ora, isto é claramente uma mentira pois há juízos de valor consensuais. Além disso, vejamos os juízos de facto. Embora também exista discordâncias em relação a estes tipos de juízo, sabe-se que um está certo e outro errado, embora, às vezes, não se saiba qual é que está correto. Então porque é que não pode acontecer o mesmo com os juízos de valor? Mesmo com discordâncias, pode haver um que esteja certo e outro errado, independentemente dos gostos de cada pessoa.

Como tal, penso que o SM está errado.

Passemos ao RC. Não concordo com esta teoria por vários motivos:

Os Relativistas afirmam que se não aceitarmos os costumes da outra sociedade, não estamos a aceitar o relativismo dos valores, e como tal, estaremos a ser etnocêntricos (ou seja, achar que a nossa sociedade é melhor que as outras) e intolerantes. Como não devemos ser intolerantes, dizem os Relativistas, devemos aceitar o relativismo dos valores e consequentemente aceitar o RC.

Mas será que devemos aceitar todos os costumes e práticas, simplesmente por serem de outra sociedade? E será que caso não o façamos, estaremos a ser intolerantes? Eu penso que não é certo aceitar práticas que tragam dor e sofrimento a outras pessoas, pois apesar de pertencerem a outras sociedades, continuam a ser humanos. Existem sociedades que têm práticas intolerantes. Será que devemos aceitar essas práticas? Os Relativistas dizem que sim, ou então seremos intolerantes. Mas, então estaremos a tolerar a intolerância, o que é contraditório e vai contra o que o RC afirma. Finalmente, não acho que o facto de questionarmos um costume signifique que estamos a afirmar que a nossa sociedade é superior às outras e que estamos a ser intolerantes. A crítica e discussão de costumes e práticas, se feita de forma civilizada, pode levar à compreensão, e a compreensão pode levar à tolerância. Ou seja, aquilo a que os Relativistas chamam de intolerância (e que não o é, na verdade), pode levar, afinal de contas, à tolerância.

Outra objeção ao RC está relacionada com o facto de as sociedades não serem homogéneas. Se dentro de uma sociedade existem práticas, costumes, crenças, etc. diferentes, como podemos afirmar que segundo esta sociedade isto ou aquilo está certo/errado, quando só parte dela (mesmo que seja a maioria) é que a defende? Além disso, se uma pessoa for criada em contacto com duas ou mais sociedades, como é que vai saber segundo qual é que deve viver e qual é a melhor sociedade? Só poderá saber se existirem juízos de valor objetivos.

Sobra-me então o OM, que eu penso que é o mais plausível.

Vejamos a seguinte pergunta: Será que a crença que os juízos de valor são subjetivos/relativos é subjetiva/relativa? Se a resposta for sim, então ambas teorias podem estar corretas para uns e erradas para outros, dependendo dos gostos (no caso do SM) ou da sociedade (no caso do RC), e isso não faz sentido, pois uma teoria ou está certa para todos ou para ninguém. Se a resposta for não, então esse juízo de valor é objetivo.

Anteriormente, referi que os Relativistas afirmam que não devemos ser intolerantes. Se o juízo de valor “devemos ser tolerantes” fosse relativo apenas às sociedades, seria aceitável que outras sociedades fossem intolerantes. É óbvio que isto é mentira, e é assim, porque este juízo de valor é objetivo, todos devemos ser tolerantes, independentemente da sociedade a que pertencemos (mas isto não quer dizer que caso questionemos um costume sejamos intolerantes ou que devemos aceitar tudo, como já referi previamente).

Parece então que existem juízos de valor objetivos e que o OM está correto.

Leonard Sá, 10º B.

Das três teses relativas à objetividade ou subjetividade dos juízos de valor morais, eu defendo a do Subjetivismo Moral pois penso que os juízos de valor morais variam de acordo com o individuo.

O Objetivismo Moral dita que estes juízos de valor são objetivos, mas, se assim for, como é que podemos diferenciar um determinado juízo de valor que é certo de outro que é errado? O que se discute na Ética são ideias e essas mesmas ideias vão variar de pessoa para pessoa e não vai haver um fundamento teórico-científico quando se diz, por exemplo, “Matar é certo” para sabermos se, de facto, este juízo de valor está correto ou errado, contrariamente ao que sucede quando se afirma “A água é composta por H2O”. Com efeito, o facto de ser certo ou errado matar vai depender nas nossas próprias emoções e convicções e não de um facto ou de uma fórmula matemática qualquer, ou seja, não vai haver um “critério” que nos diga com certeza absoluta que determinado juízo de valor seja certo.

Outro argumento possível seria: Como se resolvem os conflitos de valor se estes são objetivos? Porque se fossem verdadeiramente objetivos não deveria haver tanta contrariedade ao solucioná-los. É verdade que certos conflitos podem ser resolvidos fazendo um simples exercício mental nas condições em estejamos num véu de ignorância e em que sejamos imparciais; no entanto, estes exercícios mentais geralmente resultam apenas em conflitos de valor razoavelmente simples e na maior parte dos casos as situações não são assim tão fáceis e lineares. Um bom exemplo disso é o problema do aborto: será este moralmente correto? Mesmo fazendo um exercício mental que nos faça estar sob um véu de ignorância e ser imparciais, como diz o Objetivismo Moral, ainda assim há discordâncias ao resolver este problema. Portanto, se os juízos de valor são mesmo objetivos, porque não sabemos que escolha estará certa neste caso?

Outro problema com o Objetivismo Moral é que este alega que os juízos de valores são objetivos na medida em que são imparciais. Daí os exercícios mentais como forma para resolver os conflitos de valores, visto que estes requerem que sejamos imparciais. Mas quão imparcial pode uma pessoa ser? Porque todas as pessoas são influenciadas por determinados fatores nos quais não possuem qualquer controlo, tal como por exemplo: fatores genéticos, psicológicos, sociais, entre muitos outros. E estes fatores influenciam como um individuo age, pensa e interage, tanto conscientemente como inconscientemente, e isso vai tornar esse mesmo individuo parcial. Ora, isso acontece com todos nós, ou seja, ninguém é verdadeiramente imparcial, ou pelo menos cem por cento imparcial. Um exemplo real poderiam ser os juízes que trabalham num tribunal, em vários casos diferentes mas do mesmo género (exemplo: abusos infantis): certos juízes dão uma sentença mais severa do que outros pois estes são afetados inconscientemente pelo caso, o que os vai levar a deliberar uma sentença mais severa ou mais benevolente. Se as pessoas que supostamente devem ser cem por cento imparciais para que haja justiça são incapazes de tal, então muito menos será um cidadão regular. Logo, se as pessoas não são capazes de serem totalmente imparciais, então como podem os seus juízos de valor serem objetivos?

Devido aos argumentos apresentados penso que o Objetivismo Moral é uma tese defeituosa e considero o Subjetivismo Moral a tese mais correta e mais apropriada à realidade.

Xavier Diaz, 10º B.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Matriz do 3º teste de Filosofia: turmas B e C do 10º ano

relativismo cultural

Objetivos:

1. Discutir o problema do livre-arbítrio e justificar a opinião própria sobre o assunto.

2. Explicar o que é a Ética.

3. Distinguir Metaética, Ética Normativa e Ética Aplicada.

4. Explicar o que são valores.

5. Distinguir juízos de facto e juízos de valor.

6. Perceber o problema da objetividade dos juízos de valor morais.

7. Explicar a tese defendida pelo Subjetivismo moral.

8. Explicar os argumentos a favor do Subjetivismo moral.

9. Explicar as objeções ao Subjetivismo moral.

10. Explicar os conceitos de cultura, diversidade cultural e etnocentrismo.

11. Explicar a tese defendida pelo Relativismo cultural.

12. Explicar os argumentos a favor do Relativismo cultural.

13. Explicar as objeções ao Relativismo cultural.

14. Explicar a tese defendida pelo Objetivismo moral.

15. Explicar os argumentos a favor do Objetivismo moral.

16. Explicar as objeções ao Objetivismo moral.

17. Comparar e discutir as três teorias.

18. Justificar a opinião própria sobre o problema da objetividade dos juízos de valor morais.

19. Construir argumentos válidos a partir de ideias apresentadas.

20. Conhecer exemplos ilustrativos das ideias referidas.

Duração: 90 minutos.

Leituras:

Páginas indicadas do manual 50 Lições de Filosofia e do Caderno do Estudante.

Problema do livre-arbítrio: Matriz do 3º mini teste: turmas B e C do 10º ano 

Subjetivismo moral:

Onde está o mal?
Subjetivismo moral: a moralidade é algo muito pessoal

Relativismo cultural:

O que é a cultura?

A diversidade do vestuário

Capacidade de adaptação

O que vamos almoçar: larvas ou sardinhas?

Nós…
O bem e o mal dizem apenas respeito à sociedade e à cultura?
Enterrar viva uma pessoa é errado ou isso é relativo?
Uma tradição admissível, segundo os relativistas culturais
A tolerância não implica o relativismo
A ideia de que todas as ideias são preconceituosas não será também preconceituosa?
Qual é, afinal, a tradição?

Se há progresso moral, o relativismo é falso

Algumas regras morais são universais

Objetivismo moral:

A divergência de opiniões é incompatível com a objetividade?
Tem razão quem se apoiar nas melhores razões
Objectivismo Moral
relativismo cultural no tribunal

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O ponto de vista do senso comum sobre a ética é relativista ou objetivista?

«Quando julgamos algo como um bem ou um mal não pensamos que estamos apenas a dar livre expressão às nossas emoções — se fosse essa a nossa vontade, bastava apenas dizer se gostamos disso ou não. Nem nos vemos simplesmente a aplicar os padrões da nossa sociedade — apesar de tudo, sabemos que os padrões da nossa sociedade podem estar errados. Em vez disso, queremos afirmar algo que seja objetivamente verdadeiro, independente dos nossos sentimentos ou dos padrões da nossa sociedade. (...) Pensamos, por exemplo, que a escravatura é uma injustiça e que quem pensa o contrário tem de estar enganado. Mas não é fácil defender este ponto de vista do senso comum.»

James Rachels, “A questão da objetividade em ética”, Crítica - http://criticanarede.com/fil_objectietica.html

James Rachels considera que esta concepção objetivista da ética é “a nossa compreensão comum da ética”, o “ponto de vista do senso comum” que se opõe ao subjetivismo e ao relativismo cultural  (ele tenta defender filosoficamente o objetivismo).

Contudo, pelo que tenho observado ao longo de anos nas aulas, os alunos – antes de estudarem filosofia e alguns até depois – defendem espontaneamente o subjetivismo e o relativismo cultural e resistem ao objetivismo. Aliás, não são só os alunos que parecem pensar assim: o “isso é subjetivo” e o “aquilo é relativo” estão muitas vezes na ponta da língua de muito boa gente. Afinal, o ponto de vista do senso comum sobre a ética é relativista ou objetivista? Como é óbvio, qualquer um desses pontos de vista  pode ser – e tem sido – defendido filosoficamente. Mas qual será o mais próximo do senso comum?

escravatura

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Onde está o mal?

“Imagine-se qualquer ação reconhecidamente viciosa [ou seja, errada]: homicídio voluntário, por exemplo. Examinemo-la sob todas as perspetivas, e vejamos se conseguimos encontrar esse facto ou realidade que chamamos vício. (…) Nunca conseguimos descobri-lo até voltarmos a reflexão para nós mesmos e descobrirmos um sentimento de reprovação, que nasce em nós, perante essa ação.”

David Hume, Tratado da Natureza Humana

(citado por James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pág. 55).

Suspected Pakistani infiltrators bayoneted by Kaderia Bahini guerrillas during the Bangladesh Liberation War, 1971

Na fotografia, datada de 1971: membro de um grupo de guerrilha favorável à independência do Bangladesh mata com golpes de baioneta homens suspeitos de serem paquistaneses infiltrados.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

sábado, 26 de maio de 2012

Vídeos filosóficos filmados e pensados por alunos

Sugeri aos alunos do 10º ano um trabalho facultativo: realizar um pequeno vídeo em que um problema filosófico fosse discutido. Eis três deles.

Aula sobre o relativismo moral cultural:

Trabalho realizado por: Ana Rita Mendonça, Cláudia Ferreira, Ricardo Martins e Rui Branco, do 10º C.

Cimeira sobre os Direitos Humanos:

Trabalho realizado por: Beatriz Cabrita, Daniela Rodrigues, Igor Albernaz e Lucas Sá, do 10º A.

Debate sobre o subjetivismo moral:

Trabalho realizado por: Bruno Cardoso e Ricardo Garcia, do 10º A.

terça-feira, 13 de março de 2012

Tem razão quem se apoiar nas melhores razões

diálogo e debate de ideias entre diferentes culturasContrariamente ao que algumas pessoas pensam, afirmar que existem juízos morais objetivos (e recusar, portanto, o relativismo e o subjetivismo na moralidade) não é sinal de arrogância intelectual nem de dogmatismo. Defender essa ideia não consiste em dizer “nós – as pessoas que partilham a cultura X - estamos certos e eles estão errados” ou sequer “eu estou certo e tu estás errado”, mas sim que é possível alguém estar objetivamente certo e alguém estar objetivamente errado – nós ou eles, eu ou tu. Ou seja: não se trata de defender que nós é que temos a verdade no bolso ou que eu é que sei tudo, mas sim de recusar a ideia de que nenhum dos lados pode estar errado. Com efeito, segundo algumas teorias éticas (relativismo moral cultural e subjetivismo moral) em relação aos assuntos morais não pode haver verdades objetivas mas apenas verdades relativas – à cultura ou ao indivíduo; pelo que dois juízos morais opostos podem ser ambos verdadeiros (um é verdadeiro para X e o outro é verdadeiro para Y, mas nenhum deles é verdadeiro em si mesmo).

Defender a objetividade dos juízos morais envolve também a ideia de que o lado que está certo está certo porque os seus juízos morais estão melhor justificados, independentemente dos desejos, sentimentos e costumes das pessoas envolvidas. Tem razão quem se apoiar nas melhores razões. E essa justificação pode ser compreendida e aceite por pessoas com personalidades e culturas diferentes umas das outras.

Se pensarmos em juízos morais como “as mulheres devem ter direitos semelhantes aos homens” ou “a tortura é errada”, podemos plausivelmente dizer que as pessoas que os consideram verdadeiros estão certas e que as pessoas que os consideram falsos estão erradas, pois existem razões fortes a favor desses juízos.

Se pensarmos em juízos morais como “o aborto é sempre errado” ou “o aborto é correto em certas situações”, temos de ser mais cautelosos, uma vez que mesmo entre os maiores especialistas existem divergências profundas sobre esse problema e está em disputa qual dos juízos é realmente verdadeiro. Contudo, se defendermos o objetivismo moral podemos acrescentar: não podemos garantir qual dos juízos é verdadeiro, mas um deles é verdadeiro e o outro falso. E é precisamente por isso que esse problema é tão debatido: para tentar estabelecer qual é a verdade acerca dele.

A  respeito desta questão pode ver também os posts:

Objectivismo Moral

Haverá provas em ética?

A divergência de opiniões é incompatível com a objetividade?

Defender a objetividade não significa que se seja dogmático.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A divergência de opiniões é incompatível com a objetividade?

Para defender a ideia de que os juízos morais são subjetivos argumenta-se que as pessoas, individualmente consideradas, discordam imenso acerca deles. Para defender a ideia de que os juízos morais são culturalmente relativos argumenta-se que as diversas sociedades têm normas e valores morais muito diferentes. E em ambos os casos nega-se que existam verdades objetivas na ética.

Contudo, o facto de em relação a um assunto Y existirem divergências de opinião implicará que não possam existir verdades objetivas acerca de Y? Esse facto implicará que os juízos feitos acerca de Y sejam subjetivos ou então culturalmente relativos? Esse facto impedirá que se possam avançar ideias acerca de Y compreensíveis e aceitáveis em qualquer sociedade e por qualquer indivíduo capaz de pensar?

Suponha que Y é uma questão científica como, por exemplo, a idade do planeta Terra ou a causa da SIDA. Depois, suponha que Y é uma questão ética como, por exemplo, a excisão ou a violência doméstica. Há, naturalmente, bastantes diferenças entre a ciência e a ética, mas serão elas suficientes para impedir que as respostas às perguntas anteriores sejam semelhantes quer Y seja um assunto científico quer Y seja um assunto ético?

mulher ocidental e mulher muçulmana

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Subjetivismo moral: a moralidade é algo muito pessoal

EU«Segundo o subjetivismo moral, na ética só há opiniões pessoais e não verdades universais; cada um tem a sua “verdade”. Para os subjetivistas, os juízos morais descrevem apenas os nossos sentimentos de aprovação ou reprovação acerca do das pessoas e daquilo que elas fazem. O certo e o errado dependem, portanto, dos sentimentos de cada um. Assim, quando afirmamos que uma acção é errada estamos apenas a dizer que temos sentimentos negativos em relação a ela.»

Aires Almeida e outros, Arte de Pensar – 10º ano, vol. 1, Didática Editora, Lisboa, 2007, pág. 106.

Assim, um juízo moral é verdadeiro se estiver de acordo com os sentimentos de uma pessoa. Só é falso se não estiver de acordo com esses sentimentos.

Ou seja: dizer “X é correto” significa “gosto de X” ou “aprovo X”; dizer “Y é incorreto” significa “não gosto de Y” ou “desaprovo Y”.

Um exemplo.

Se a Maria Felismina sente repulsa pelo sofrimento dos animais, dirá: “fazer sofrer os animais é moralmente errado” e, para ela, esse juízo é verdadeiro. Se a Leopoldina não sente essa repulsa nem outro sentimento negativo e pelo contrário gosta de caçar e de usar casacos de peles, dirá “fazer sofrer os animais não é moralmente errado” e, para ela, esse juízo é verdadeiro.

Segundo o subjetivismo moral, têm ambas razão – cada uma delas tem a sua verdade. O juízo de uma não vale mais que o juízo da outra. Trata-se de duas perspetivas igualmente “válidas” sobre o assunto. Nos temas éticos não há lugar para uma verdade objetiva e universal, face à qual se pudesse dizer que o juízo contrário é falso.

Fazer sofrer os animais não é mau ou bom em si mesmo. Nada é bom ou mau em si mesmo, mas apenas em relação aos sentimentos de uma certa pessoa. E, como os sentimentos são subjetivos e variam imenso de pessoa para pessoa, uma mesma ação pode ser má para uma pessoa e boa para outra. E, como foi dito, ambas têm razão.

Essa maneira de pensar é defendida por algumas pessoas, porque parece favorecer a liberdade de cada pessoa, ao sustentar que ninguém deve impor aos outros as suas convicções morais; e porque parece promover a tolerância entre pessoas com convicções morais diferentes. Contudo, podem levantar-se contra ela várias objeções muito fortes. Quais?

Leituras:

Aires Almeida e outros, Arte de Pensar – 10º ano, vol. 1, Didática Editora, Lisboa, 2007.

Harry Gensler, “Ética e subjetivismo” – Crítica, Revista de Filosofia: http://criticanarede.com/fil_subjectivismo.html

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Fichas de Filosofia sobre a acção e os valores

Disponibilizo as fichas que apliquei nas aulas do 10º ano sobre os temas:

A acção e os valores. O problema da justificação dos juízos morais: as teorias do subjectivismo moral e relativismo moral e cultural.

Espero que possam ser úteis aos leitores do Dúvida Metódica, a quem agradeço as críticas e sugestões.

2010-11 Ficha de trabalho 10º sobre o problema da justificação dos juízos morais

domingo, 23 de maio de 2010

A transitoriedade da vida retira-lhe o sentido? (2)

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Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a fome.

O problema do sentido da vida é sinónimo, para muitas pessoas, de angústias ditas “existenciais” ou, então, “filosóficas”. Este último termo assume, neste contexto, uma conotação negativa, significa um devaneio infrutífero, cujo resultado - previsível e inevitável - é a dúvida.

Reflectir sobre a finalidade da vida é algo que, ao nível do senso comum, ocorre apenas em momentos difíceis ou de mudança, por exemplo. Contudo, em Filosofia, é um problema, tal como outros, acerca do qual se podem defender, argumentando, diferentes pontos de vista.

Se vamos todos, mais cedo ou mais tarde desaparecer, assim como aquilo que nós fazemos, para quê esforçar-nos por realizar certas actividades e alcançarmos determinados objectivos? Não será inútil e uma enorme perda de tempo? Se vamos deixar de existir, como refere um dos personagens - Alvy - do filme de Woody Allen (no vídeo do post anterior), para quê, então, fazer os trabalhos de casa?

Podemos responder que a brevidade da vida é, antes pelo contrário, um bom motivo para pensar no modo como gastamos o nosso precioso tempo e nos objectivos que são para nós valiosos.

Mas  esses objectivos terão todos igual valor?

Imaginemos alguém que faz depender o sentido da sua vida do prazer pessoal de possuir e ostentar roupas de marca e telemóveis de última geração. E suponhamos alguém que trabalha numa associação de voluntariado - como por exemplo Isabel Jonet do Banco Alimentar contra a Fome - a ajudar pessoas carenciadas de todo o país. No primeiro caso a felicidade é um fim em si mesma e esgota-se no prazer pessoal. No segundo caso, há a realização de actividades, cujo valor ético, não é meramente subjectivo. É claro que a prática destas acções solidárias poderá ter, eventualmente, como consequência um sentimento de satisfação ou de felicidade.

Os filósofos defensores das teorias objectivistas consideram que para a vida ter sentido não basta a pessoa sentir e pensar que isso acontece. É necessário analisar o valor objectivo das actividades realizadas, este pode ser ético, cognitivo ou outro. Assim sendo,  só o segundo exemplo ilustra uma vida com sentido.

Concorda com esta perspectiva? Porquê?

sábado, 13 de março de 2010

A defesa dos direitos humanos e do relativismo cultural serão compatíveis?

Desidério Murcho escreveu na Crítica (revista de Filosofia online) um interessante e informativo artigo sobre ética e direitos humanos de que a seguir transcrevo algumas passagens. Este artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Aconselho a sua leitura, sobretudo aos alunos do 10º ano.

«(…) A ética não é um mero conjunto mais ou menos arbitrário de códigos de conduta; entre outras coisas, é o estudo cuidadoso das razões a favor ou contra a nossa conduta. Isto significa que em ética se dá muita importância à argumentação: queremos saber que razões há para agir ou não agir de determinada maneira, por exemplo.

O relativismo cultural, em ética, distingue-se da mera diversidade cultural. A diversidade cultural é apenas a existência de diversas culturas, eventualmente com diferentes códigos de comportamento. O relativismo cultural é uma tese ética: um tipo particular de relativismo moral. O relativismo moral é qualquer posição que defenda que as acções são correctas ou incorrectas, e os estados de coisas são bons ou maus, relativa e não absolutamente. Relativamente a quê? Depende do tipo de relativismo moral. Quando se defende que são relativos ao tempo histórico, trata-se de relativismo histórico; quando se defende que são relativos a cada pessoa em particular, trata-se de subjectivismo; quando se defende que são relativos a culturas ou mentalidades, trata-se de relativismo cultural. Estes são três tipos de relativismo moral, e podem ser combinados entre si.

(…) Quem se opõe ao relativismo moral considera que as acções nem sempre são correctas ou incorrectas em função do que as pessoas consideram, e portanto que a maior parte das pessoas de uma dada cultura pode considerar que, por exemplo, excluir as mulheres e negros seja moralmente correcto, apesar de na realidade isso não ser moralmente correcto (…).

Assim, o relativismo cultural é a ideia de que todas acções são correctas ou incorrectas consoante são consideradas correctas ou incorrectas numa dada cultura. A negação disto é a ideia de que nem todas as acções são correctas ou incorrectas em função do que as pessoas pensam. O relativista nunca vê diferença entre considerar-se numa dada cultura que algo é moralmente correcto e algo ser moralmente correcto, ao passo que o seu opositor defende que pelo menos em alguns casos existe tal diferença.

O relativista moral tem de defender que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pelas Nações Unidas no dia 10 de Dezembro de 1948, não exprime princípios éticos universais em qualquer sentido robusto do termo. Apesar de esta declaração ter sido aprovada por unanimidade nas Nações Unidas (com a abstenção de alguns países, como a União Soviética, a Polónia e a África do Sul), o relativista cultural terá de defender que a violação de qualquer dos direitos consagrados na Declaração é eticamente permissível desde que seja permissível numa dada cultura. Assim, se numa dada cultura se considera que é correcto discriminar as pessoas com base na origem étnica ou no sexo, violando o artigo segundo da Declaração, o relativista tem de aceitar que nessa cultura é correcto fazer tal coisa e que a Declaração se limita a exprimir uma convicção diferente.

Muitas pessoas que aceitam o relativismo cultural rejeitam a ideia de que é eticamente permissível violar qualquer um dos direitos humanos consagrados na Declaração. Mas estas duas ideias são incompatíveis. O relativismo cultural é incompatível com a ideia de direitos humanos universais.

(…) o debate ético não é factual, nem diz respeito à verificação de factos. Diz respeito, antes, à argumentação, à apresentação de razões, cuidadosamente pensadas e pesadas. E por isso é largamente irrelevante que existam desacordos morais entre culturas — porque as pessoas enganam-se ao raciocinar. Pior: muitos desses enganos são mal-intencionados, pois são interesseiros. Como comecei por dizer, não acredito que algum alemão pudesse honestamente pensar que os judeus eram sub-humanos — mas era proveitoso pensar tal coisa e por isso tudo o que parecesse justificar tal ideia era aceite sem mais discussão.

Assim, perante a diversidade de comportamentos tidos como morais em diferentes sociedades, devemos perguntar que razões há a favor ou contra tais comportamentos. E a procura dessas razões não pode ser meramente a reafirmação dos preconceitos culturais da nossa própria cultura. É preciso procurar essas razões com probidade epistémica, procurando genuinamente saber que razões há para aceitar ou rejeitar que um dado comportamento é imoral. A cada passo temos de ver se não estamos a fazer confusões ou apenas a defender o que nos interessa defender, por qualquer motivo injustificável abertamente. E temos de fazer distinções conceptuais cuidadosas, como as seguintes:

1. Os comportamentos não se dividem todos entre moralmente obrigatórios e moralmente impermissíveis; também há actos permissíveis mas que não são obrigatórios. Por exemplo, é moralmente permissível comer maçãs com a mão esquerda, mas não é obrigatório fazer tal coisa. Quando não se tem formação filosófica há tendência para confundir estas categorias e condenar como moralmente impermissível comportamentos diferentes dos nossos só por serem diferentes. Os comportamentos sexuais dos nativos brasileiros, ou a sua nudez, eram muito diferentes dos europeus, e isso levou os europeus a condenar moralmente tais comportamentos; mas seria preciso mostrar primeiro que tais comportamentos têm alguma coisa a ver com a moralidade e não apenas com costumes moralmente neutros. Com certeza que andar nu e andar a matar pessoas na rua são coisas muito diferentes. A primeira pode ser culturalmente chocante, mas daí não se segue que seja imoral. A reflexão filosófica cuidadosa é um bom antídoto para o preconceito provinciano.

2. Os comportamentos prescritos ou condenados por uma dada religião não são sempre moralmente obrigatórios ou impermissíveis. Quando se justifica um dado comportamento ou proibição apelando a um dado texto sagrado, estamos já a excluir todas as pessoas que não pertencem a essa religião nem a consideram uma religião verdadeira. Se quisermos viver moralmente com pessoas que não partilham a nossa religião temos de encontrar uma base comum de entendimento moral, e essa base comum não pode obviamente ser a religião, porque pessoas diferentes professam religiões diferentes e algumas nenhuma. Tem de ser o simples facto de sermos agentes morais a fornecer uma base comum de entendimento moral.

3. A natureza raramente é um bom guia moral. Isto significa que o facto de um dado comportamento ser mais ou menos natural é geralmente irrelevante moralmente. Condenar moralmente comportamentos por não serem naturais é geralmente falacioso, além de ocultar geralmente uma mentira. Vejamos dois exemplos. A homossexualidade é um comportamento comum entre muitos animais; quem condena a homossexualidade por não ser natural ou mente ou é ignorante. Matar os filhos dos outros é um comportamento comum entre leões; mas dificilmente alguém quereria defender a moralidade de tal prática aplicada a nós com base na sua naturalidade. O objecto da moral não é o que é ou deixa de ser natural, mas o que é ou não justificável — e como os leões e outros animais inumanos são incapazes de justificação, não são os melhores guias morais.»                      

Desidério Murcho.

quarta-feira, 10 de março de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010

Objectivismo Moral

Muitos filósofos defendem que a ética é objectiva e que o valor de verdade dos juízos morais é independente quer das preferências e sentimentos pessoais quer dos costumes sociais. Defendem também que a ética é independente da religião e que a verdade ou falsidade dos juízos morais não deriva da vontade de Deus. Discordam portanto do Subjectivismo Moral, do Relativismo Moral Cultural e da Teoria dos Mandamentos Divinos.

Mas, se os juízos morais são independentes dos sentimentos, dos costumes sociais e da vontade divina, baseiam-se em quê? Segundo os objectivistas morais, baseiam-se na razão, ou seja, na capacidade humana de “raciocinar, compreender, ponderar, ajuizar, etc.” (1) - numa palavra, na capacidade de pensar. Ao pensar sobre questões morais como o aborto, a mentira ou a pena de morte, não nos limitamos a emitir juízos, tentamos também justificar esses juízos através das melhores razões que conseguirmos descobrir.

Nas palavras do filósofo James Rachels:

«Um juízo moral - ou qualquer outro tipo de juízo de valor - tem de ser apoiado em boas razões. Se alguém disser que uma determinada acção seria errada, pode-se perguntar porque razão seria errada e, se não houver uma resposta satisfatória, pode-se rejeitar esse conselho por ser infundado. Neste aspecto, os juízos morais são diferentes de meras expressões de preferência pessoal. Se alguém diz “Eu gosto de café”, não necessita de ter uma razão para isso; poderá estar a declarar o seu gosto pessoal e nada mais. Mas os juízos morais requerem o apoio de razões, sendo, na ausência dessas razões, meramente arbitrários. (…)

As verdades morais são verdades da razão; isto é, um juízo moral é verdadeiro se for sustentado por razões melhores que os juízos alternativos.

Assim, se quisermos entender a natureza da ética, devemos atentar nas razões. Uma verdade em ética é uma conclusão apoiada em razões: a resposta correcta a uma questão moral é simplesmente a resposta que tem do seu lado o peso da razão. Tais verdades são objectivas no sentido em que são verdadeiras independentemente do que possamos querer ou pensar. Não podemos tornar algo bom ou mau pelo simples desejo de que seja assim (…). Isto explica igualmente a nossa falibilidade: podemos enganar-nos sobre o que é bom ou mau porque podemos estar enganados sobre o que a razão recomenda. A razão diz o que diz, alheia às nossas opiniões e desejos.» (2)

(No post Subjectivismo moral (3): Haverá provas em ética? pode encontrar – num texto de James Rachels - um exemplo ilustrativo da ideia de que um juízo moral verdadeiro é um juízo sustentado por melhores razões que os juízos alternativos, bem como a refutação da ideia de que não há provas em ética.)

De acordo com os objectivistas morais, existem critérios transubjectivos e transculturais de valoração. Esses critérios ultrapassam a perspectiva de cada pessoa e de cada sociedade, proporcionando uma forma de avaliar com imparcialidade as acções e as práticas sociais. Podem ser compreendidos e aplicados por todos os indivíduos racionais, independentemente das suas motivações e interesses particulares, bem como da cultura em que foram educados. (3) São culturalmente neutros e independentes dos sentimentos pessoais dos indivíduos.

Um desses critérios é o de a acção individual ou a prática social em questão ser benéfica ou prejudicial para as pessoas que são afectadas por ela. As boas acções e as boas práticas sociais beneficiam as pessoas; as más acções e as más práticas sociais prejudicam as pessoas. (4)

Se avaliarmos práticas como a violação e a excisão à luz desse critério concluiremos que elas são más, pois prejudicam as pessoas. Esse juízo é verdadeiro pois pode ser justificado com boas razões e essa verdade é objectiva: pode ser compreendida, e eventualmente aceite, pelas pessoas envolvidas, independentemente dos seus sentimentos, interesses pessoais e costumes sociais.

Mas é claro que nem todas as pessoas reconhecerão a verdade desse juízo moral. Por exemplo: um violador e um executante da excisão poderão considerá-lo falso. Na sua opinião, essa possibilidade é suficiente para mostrar que esse juízo (e qualquer outro juízo moral) afinal não é objectivo?

 

(1) Dicionário Escolar de Filosofia.

(2) James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Gradiva, pp. 65-67.

(3) Aires Almeida e outros, A Arte de Pensar – 10º ano, vol. 1, Didáctica Editora, Lisboa, 2007, pp. 131-132.

(4) James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pág.243.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Actividades para a aula de substituição de 5ª (turmas D e E do 10º ano)

Leia da página 137 à página 142 do manual e responda às seguintes questões:

1. Distinguem-se duas formas de relativismo moral. Indique quais.

2. Quais são as ideias comuns a essas duas perspectivas?

3. Qual é a tese do Subjectivismo Moral acerca da natureza dos juízos morais?

4. Como é que, do ponto de vista do Subjectivismo Moral, se pode avaliar o desacordo entre uma pessoa X que julga a pena de morte moralmente injusta e uma pessoa Y que julga a pena de morte moralmente justa?

5. Explique os seguintes argumentos a favor do Subjectivismo Moral: o argumento da liberdade e o argumento da tolerância.

6. Explique as seguintes objecções ao Subjectivismo Moral: É auto-refutante; inviabilizaria a discussão de questões morais; a discórdia existente em muitas questões morais não prova a inexistência de verdades objectivas nessa área.

7. Formule outra objecção ao Subjectivismo Moral.

8. O que é mais plausível, os argumentos a favor do Subjectivismo Moral ou as objecções? Porquê?

Bom trabalho!

E bom Carnaval!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Subjectivismo moral (3): Haverá provas em ética?

elementosdafilosofiamoral

Para mais informações sobre este livro ver aqui e aqui.

«Se o subjectivismo ético [ou moral] não é verdadeiro, porque razão se sentem algumas pessoas atraídas por ele? Uma das razões tem que ver com o facto de a ciência fornecer o nosso paradigma de objectividade, e quando comparamos a ética à ciência, à ética parecem faltar as características que tornam a ciência tão irresistível. Por exemplo: a inexistência de provas em ética parece uma grande deficiência. Podemos provar que o mundo é redondo, que não existe o maior número primo e que os dinossauros viveram antes dos seres humanos. Mas poderemos provar que o aborto é certo ou errado?

A ideia geral de que os juízos morais não se podem provar é apelativa. Qualquer pessoa que já tenha debatido um tema como o aborto sabe como pode ser frustrante tentar “provar” que o seu ponto de vista é correcto. No entanto, se examinarmos esta ideia mais de perto, revela-se dúbia (…).

É fácil imaginar (…) exemplos:

Jones é um homem mau. Tem o hábito de mentir; manipula as pessoas; engana-as quando pensa poder fazê-lo sem ser descoberto; é cruel com os outros e assim por diante;

Uma determinada vendedora de automóveis é desonesta. Esconde defeitos dos automóveis; aproveita-se de pessoas sem recursos pressionando-as a pagar preços exorbitantes por automóveis que sabe terem problemas; coloca anúncios publicitários enganadores em qualquer jornal que aceite publicá-los e assim por diante.

(…) Se uma das nossas razões para afirmar que Jones é um homem mau é ele mentir habitualmente, podemos prosseguir e explicar porque motivo mentir é mau. Mentir é mau, primeiro porque prejudica as pessoas. Se alguém dá uma falsa informação a outra pessoa e essa pessoa confiar nela, as coisas podem correr mal de diversas maneiras. Segundo, mentir é mau por ser uma violação da confiança. Confiar noutra pessoa significa ficarmos vulneráveis e desprotegidos. Quando se confia em alguém, acredita-se simplesmente no que essa pessoa diz, sem tomar precauções; e quando uma pessoa mente aproveita-se da nossa confiança. É por isso que ser enganado constitui uma ofensa tão íntima e pessoal. Por fim, a regra exigindo que não se minta é necessária para a sociedade poder existir - se não pudéssemos partir do princípio que as outras pessoas dirão a verdade, a comunicação tornar-se-ia impossível e, se a comunicação fosse impossível, a sociedade seria impossível.

Portanto, podemos apoiar os nossos juízos em boas razões, e podemos oferecer explicações do porquê de essas razões terem importância. Se podemos fazer tudo isto, (…) que mais “provas” poderia alguém desejar? É absurdo afirmar que os juízos éticos não podem ser mais do que “meras opiniões” (…).

Por fim, é fácil misturar duas coisas que são na realidade muito diferentes:

1. Provar a correcção de uma ideia;

2. Persuadir alguém a aceitar as nossas provas.

Podemos ter um argumento exemplar que alguém recusa a aceitar. Mas isso não significa que tenha de estar alguma coisa errada com o argumento ou que a “prova” seja, de alguma forma, inatingível. Pode apenas significar que alguém está a ser teimoso. Quando isto acontece não devemos surpreender-nos. Em ética é de esperar que as pessoas por vezes se recusem a dar ouvidos à razão. Afinal de contas, a ética pode exigir a realização de coisas que não queremos fazer, sendo, pois, muito previsível que tentemos evitar ouvir as suas exigências.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp. 68-71.

Outras passagens deste livro podem encontrar-se neste blogue aqui.