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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Filosofia e rigor

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No inico da Ética a Nicómaco, Aristóteles defende que não devemos procurar o mesmo grau de rigor no estudo de todos os assuntos. Segundo ele, é próprio de uma pessoa instruída requerer em cada investigação “apenas tanto rigor quanto a natureza do tema em tratamento admitir. Na verdade, parece um erro equivalente aceitar conclusões aproximadas a um matemático e exigir demonstrações a um orador.” 1

Aristóteles conclui que na ética não é possível um rigor matemático, mas podemos aplicar essa conclusão à filosofia em geral (exceto, talvez, à lógica).

Contudo, o facto de na filosofia não ser possível alcançar o rigor matemático não significa que não seja possível algum rigor nem que não valha a pena tentar alcançá-lo. Por isso, o facto de a filosofia não poder ser tão rigorosa como a matemática não é desculpa para os autores de alguns manuais de filosofia para o ensino secundário cometerem certas imprecisões e incoerências.

Dois exemplos.

Alguns manuais definem a ação humana como sendo essencialmente livre e logo a seguir, na discussão do problema do livre-arbítrio, apresentam a teoria conhecida como Determinismo Radical, que defende (com argumentos poderosos) que nenhuma ação humana é livre. Ora, se se discute filosoficamente a existência ou não de ações livres, então não tem sentido começar por dizer – como se fosse algo consensual e estabelecido – que “a ação humana é livre”.

Nesses manuais define-se os juízos de valor como sendo essencialmente subjetivos e pouco depois, a propósito da discussão da natureza dos juízos de valor morais, apresentam-se teorias que defendem (com plausibilidade) que esses juízos não são subjetivos (o Relativismo defende que são culturalmente relativos e o Objetivismo ou Realismo Moral defende que são objetivos). Ora, se se discute filosoficamente se esses juízos são ou não subjetivos, então não tem sentido começar por dizer – como se fosse algo consensual e estabelecido – que “os juízos de valor são subjetivos”.

1 Aristóteles, Ética a Nicómaco, 1094b11, tradução de António Caeiro, Quetzal Editores, Lisboa, 2004, pp. 20-21.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Da escolha dos manuais à escolha da escola

50 Lições de Filosofia -10º ano

Este texto aponta bem, apesar de certas imprecisões, alguns danos que os maus manuais podem provocar na aprendizagem das crianças. O efeito pode ser semelhante no caso dos adolescentes, principalmente se o professor não conseguir distinguir aquilo que ensina dos erros do manual e não os souber corrigir.

«Os adultos, pelo menos aqueles que tiveram uma formação científica, sabem que o saber é questionável e que devem estar sempre preparados para reformular as suas ideias. Mas a relativização do saber é uma operação conceptual complexa à qual só se chega convenientemente se se começar por construir um laço de confiança com o saber (o que implica um laço de confiança com as instituições, com as pessoas e com os instrumentos ligados à aprendizagem). Isto porque é justamente a partir do saber e com saber que se pode pôr em causa o saber.

A escrita de um manual é por isso um ato complexo e de grande responsabilidade – está em causa a criação desse laço de confiança – que tem de resultar de um conhecimento razoavelmente vasto das temáticas abordadas. Estas têm de ser trabalhadas de forma a poderem ser apresentadas numa linguagem e numa lógica formal compatível com a idade dos estudantes, mas sem que isso as afaste da justeza do conhecimento que esteve na base desse processo. Se uma criança conclui que o seu livro está errado, fica com uma grande margem de manobra para nos dizer: “Não estudo, porque esse livro é uma porcaria. Só diz parvoíces.” E é exatamente isso que por vezes acontece.»

Filomena Silvano, Livros de escola, crianças e a necessária confiança no saber, Público, 09-07-2014.

Ao contrário do que diz Filomena Silvano, reformular ideias e questionar o saber não significa uma “relativização do saber”: a falibilidade não implica falta de objetividade. Além disso, não é apenas a “formação científica” que confere capacidade de reformular ideias e pensar criticamente, uma vez que a filosofia também pode contribuir para isso. Tal como a literatura e as outras artes.

Tirando isso, concordo com o texto. E é com tristeza que constato que vários manuais de Filosofia, devido às suas incorreções e linguagem vaga e obscura, podem levar os alunos a dizer “Não estudo, porque esse livro é uma porcaria: só diz parvoíces.”

Os alunos poderiam até acrescentar: se estudar por este manual terei respostas erradas no exame nacional de Filosofia.

Felizmente não é o caso dos livros de Filosofia que escolhemos na Pinheiro e Rosa: o 50 Lições de Filosofia -10º ano e o 50 Lições de Filosofia -11º ano, de Aires Almeida e Desidério Murcho.

Estes livros são simultaneamente rigorosos, claros e estimulantes para os alunos, conforme podemos verificar ao longo deste ano.

Esta opinião pode ser testada através de uma experiência simples. Caso o leitor conheça algum jovem que afirma não conseguir perceber o que é dito no seu manual de Filosofia, leve-o a uma livraria e peça-lhe para ler duas ou três páginas do 50 Lições de Filosofia e duas ou três páginas do capítulo equivalente do outro manual. Certifique-se que a leitura é atenta e verá que o veredito do jovem coincide com a minha opinião.

Devido à sua importância para a construção das aulas e para o estudo dos alunos, a qualidade dos manuais adotados é um fator que deve ser ponderado na hora de escolher a escola que se vai frequentar.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Lições de Filosofia ainda melhores

50 Lições de Filosofia 11º ano

Na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa escolhemos hoje o manual que usaremos no 11º ano nos próximos anos. Por unanimidade a escolha recaiu no 50 Lições de Filosofia – 11º ano, de Aires Almeida e Desidério Murcho.

No post Os melhores manuais de filosofia para o 11º ano referi cinco manuais que “apresentam corretamente a filosofia aos alunos: como uma discussão crítica de problemas, onde o próprio aluno é chamado a intervir e argumentar, e não como um discurso dogmático. Conseguem, além disso, um equilíbrio entre o rigor filosófico e a clareza e simplicidade, que é indispensável num livro destinado a adolescentes.”

Pois bem, parece-me que o 50 Lições consegue fazer isso ainda um pouco melhor que os outros quatro. Trabalhámos no presente ano letivo com o 50 Lições de Filosofia – 10º ano e foi uma boa experiência. Não me arrependo, pelo contrário, dos elogios que escrevi há cerca de um ano: Boas lições de Filosofia. Ora, o livro do 11º ano consegue ser ainda melhor que o livro do 10º em termos de organização, clareza, adequação das atividades, recursos disponibilizados para os professores, etc.

É um livro que apetece continuar a ler e não apenas consultar. Será por isso um bom instrumento de estudo e um estímulo para o pensamento crítico dos alunos.

Uma palavra de apreço para o Como pensar tudo isto?, de Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida, que é na minha opinião o segundo melhor manual de todos os que analisei. Além das qualidades já referidas no post sobre os melhores manuais, destaco os excelentes vídeos com interessantes experiências mentais e, sobretudo, o uso que faz da lógica em todos os capítulos. Nesse aspeto em particular, é melhor que qualquer outro manual e consegue dar sentido à expressão “estudar lógica é estudar as ferramentas do ofício filosófico”.

A bem do ensino da filosofia em Portugal, espero que o 50 Lições, o Como pensar tudo isto? e os outros manuais que destaquei sejam escolhidos pela maioria das escolas portuguesas.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Os melhores manuais de filosofia para o 11º ano

FILOSOFIA

Não contei os manuais escolares propostos para o 11º ano que me chegaram às mãos, mas foram muitos (mais de uma dúzia, julgo). Há de tudo: maus, sofríveis, razoáveis, bons e muito bons.

Não me vou dar aos trabalho de identificá-los a todos e de justificar os adjetivos usados. Quero apenas destacar os cinco que considero melhores.

Esses cinco manuais, embora de maneiras diferentes, fornecem instrumentos de trabalho bem concebidos e diversificados que ajudarão os alunos a estudar melhor e auxiliarão os professores a preparar as aulas, a fazer testes, fichas, guiões de filmes, etc. E todos, embora de maneiras diferentes, apostam nas novas tecnologias, em grafismos apelativos, na interação com os professores, etc.

Contudo, isso não é o mais importante. O mais importante é que, embora com estilos diferentes, apresentam corretamente a filosofia aos alunos: como uma discussão crítica de problemas, onde o próprio aluno é chamado a intervir e argumentar, e não como um discurso dogmático. Conseguem, além disso, um equilíbrio entre o rigor filosófico e a clareza e simplicidade, que é indispensável num livro destinado a adolescentes.

Nem todos os alunos que estudarem por esses manuais irão gostar de filosofia, mas dificilmente irão desprezá-la. Ora, é isso que sucede quando os alunos têm manuais que dizem asneiras (por exemplo: “o argumento dedutivo consiste em extrair uma conclusão particular e desconhecida de premissas gerais e conhecidas”) ou apresentam discursos vagos e pastosos (por exemplo: “Neste mundo enriquecido pela diversidade dos possíveis, as velhas dicotomias entre o certo e o errado, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, as razões e as paixões, não resolvem os problemas; fala-se mais de respeito pelo outro, de gosto situado, de verdades prováveis, de inteligência emocional. A rigidez da verdade deu lugar à plasticidade. A imaginação inteligente cria novas leituras.”).

Não há razão nenhuma para os professores escolherem manuais que reduzem a filosofia a uma caricatura. Os bons manuais, como é o caso destes cinco, são mais fáceis de usar que os outros. São mais fáceis para os alunos e para os próprios professores, mesmo que estes não estejam habituados à abordagem da filosofia proposta pelo manual. Se esses professores experimentarem verão que os resultados – melhores aulas, melhores aprendizagens – justificam largamente a mudança.

Pelos motivos indicados, acentuei algumas semelhanças entre estes cinco manuais, mas isso não significa que não sejam bastante diferentes em muitos aspetos. Os professores de filosofia portugueses têm, portanto, a sorte de poder escolher entre cinco projetos diferentes de grande qualidade.

Embora todos os cinco manuais sejam bons, julgo que há um que consegue ser ainda melhor que os outros. Depois de conversar com os meus colegas de grupo direi qual é.

Esses cinco manuais são:

50 Lições de Filosofia – 11º ano, de Aires Almeida e Desidério Murcho, Didáctica Editora.

Cogito -11º, de Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristóvão, Asa.

Como pensar tudo isto?, de Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolanda Almeida, Sebenta.

Desafios – 11º, de Faustino Vaz e Marta Brites, Santillana.

Filosofia – 11º ano, de Luís Rodrigues, Plátano Editora.

50 de Filosofia 11º ano   Cogito 11º ano   Como pensar tudo isto 10º ano

Desafios Filosofia 11.º Ano   Filosofia 11º ano

domingo, 8 de junho de 2014

Quem tem medo da filosofia analítica?

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Há dias encontrei um colega, professor de Filosofia, que não via há anos. Quando falámos de manuais escolares a conversa tornou-se menos cortês. Disse-lhe o nome do manual de Filosofia (50 Lições de Filosofia) que na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa adotámos para o 10º ano e ele acusou-me de ser “analítico” e por isso de escolher manuais “analíticos”.

Não foi a primeira vez que ouvi essa palavra ser usada com intuito pejorativo. Contudo, ser “analítico” será algo criticável?

Penso que ser “analítico” na filosofia é algo bom e não mau. Não vou apresentar aqui a história da filosofia analítica para justificar essa ideia, mas apenas referir brevemente alguns aspetos que caracterizam a filosofia analítica atual.

Quando chamamos “analítico” a um filósofo não estamos a caracterizar as suas ideias. Não estamos a dizer que defende a existência de Deus nem que é ateu. Não estamos a dizer que é liberal nem que é comunista. Não estamos a dizer que é contra o aborto nem que é a favor do aborto. Não estamos a dizer que defende o livre-arbítrio nem que defende o determinismo. Não estamos a dizer que considera a vida humana absurda nem que julga que esta tem sentido, religioso ou não. A lista poderia, naturalmente, continuar.

Na verdade existem filósofos analíticos a defender todas essas ideias. Existem filósofos analíticos em qualquer um dos lados de uma discussão filosófica: Bertrand Russel era ateu, mas Richard Swinburne e Alvin Plantinga são crentes. Peter Singer defende o aborto, mas Harry Gensler considera o aborto errado. Mais uma vez, a lista poderia continuar, continuar, continuar.

Não são, portanto, os temas nem as opiniões que distinguem os filósofos analíticos.

Quando chamamos “analítico” a um filósofo estamos a dizer principalmente duas coisas:

1. Que se preocupa com a clareza do que diz, ou seja, tenta não ser ambíguo nem vago, tenta ser compreensível e não se refugia atrás de frases obscuras.

2. Que se preocupa com a justificação do que diz: apresenta argumentos em defesa das suas ideias e compara-as com as ideias contrárias, discutindo criticamente ambas.

Mas, se é assim, a filosofia analítica não é uma grande novidade. Bem vistas as coisas, os filósofos analíticos são os continuadores de uma tradição que inclui Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Stuart Mill e muitos outros, pois todos eles tentaram que as suas investigações filosóficas tivessem as duas características anteriormente referidas.

A prática analítica da filosofia, tal como se assemelha à prática desses filósofos, distingue-se da prática de filósofos como, por exemplo, Heidegger, Derrida ou Deleuze. Mas não se poderá dizer o mesmo de Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Kant e Stuart Mill? O esforço para ser claro e a constante atitude argumentativa desses filósofos parece ter mais afinidade com o trabalho dos filósofos analíticos, como por exemplo Bertrand Russel e Peter Singer, do que com as ambíguas obscuridades de Heidegger, Derrida ou Deleuze.

Não vale a pena, por isso, recear a filosofia analítica. O facto de um manual de filosofia ser “analítico” não é, naturalmente, condição suficiente para ser um bom manual. Contudo, isso também não é condição suficiente para ser um mau manual e talvez valha a pena perguntar se não é, pelo contrário, uma condição necessária para ser um bom manual de filosofia.

Note-se que não escrevi filosofia analítica, mas simplesmente filosofia.

Se quiser ler textos sobre a filosofia analítica mais claros e bem argumentados que o meu pode começar por estes:

Filosofia analítica

A filosofia analítica em ação

Má filosofia analítica

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Boas lições de Filosofia

50 lições de filosofia

No próximo ano na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa trabalharemos com o manual 50 Lições de Filosofia, da autoria de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho. A escolha foi consensual. Trata-se, de longe, do melhor manual que analisámos. Não é o único – felizmente - que é filosoficamente rigoroso, mas é o que melhor concilia esse rigor com a clareza e a simplicidade necessárias num livro destinado a adolescentes que dão os primeiros passos na filosofia.

O 50 Lições de Filosofia destaca-se também dos outros manuais devido à sua estrutura inovadora: os temas estão distribuídos por cinquenta aulas, que no manual ocupam três páginas e que são lecionáveis, em princípio, em 90 minutos. Contudo, uma vez que existem temas opcionais, os professores terão que lecionar não as cinquenta lições apresentadas mas apenas trinta e seis: 36! Ou seja: sem deixar de cumprir o programa terão tempo para realizar outras atividades: debates, filmes, etc.

Outra qualidade do 50 Lições de Filosofia é que distingue muito bem as explicações destinadas aos alunos das informações e enquadramentos destinados aos professores. Estes são fornecidos no Livro do Professor e num blogue de apoio, também chamado 50 Lições de Filosofia. Desse modo evita-se sobrecarregar o manual com conceitos e distinções que seria inadequado fazer nas aulas, mas que os professores devem dominar se quiserem ser rigorosos. Isso permite que o manual esteja escrito a pensar nos alunos.
Como se pode verificar, por exemplo, nas etiquetas Tabela e Powerpoint do referido blogue, os utilizadores do manual terão ao seu dispor uma grande variedade de quadros comparativos e esquemas muito bem feitos e que serão certamente úteis. Existem também textos complementares que permitem, caso o professor assim decida, aprofundar este ou aquele tema.

Contudo, todas essas qualidades são secundárias face a esta: o 50 Lições de Filosofia apresenta a filosofia como ela realmente é – uma discussão crítica e racional de problemas que nos dizem respeito e onde o que conta são os argumentos e não os nomes dos filósofos. Uma discussão onde os alunos, página a página, são convidados a participar.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Cinco ideias centrais sobre Rawls

Os autores do manual 50 Lições de Filosofia têm partilhado, no blogue homónimo, diversos materiais pedagógicos que fazem parte do manual (em papel e digital): esquemas, quadros comparativos, textos, etc. Esses materiais conciliam a clareza com o rigor. São simples sem serem simplistas. Muitos, como é o caso desta apresentação sobre Rawls, são também criativos e inovadores. Clique no título do manual e veja outros exemplos.

John Rawls

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Novos manuais de Filosofia em Faro

Os autores dos manuais de Filosofia que usamos atualmente na Pinheiro e Rosa têm novos projetos para o 10º ano. Alguns deles virão a Faro, no próximo sábado, dia 4 de Maio, pelas 9.15 para apresentar os seus novos manuais.

Local: Hotel Eva.

Os manuais em causa são:

50 Lições de Filosofia, de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho.

Filosofia – 10º ano, de Luís de Sousa Rodrigues.

Para se inscrever veja aqui.

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