“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
sábado, 25 de abril de 2020
A propósito do 25 de abril: Sapere aude!
domingo, 3 de setembro de 2017
Porque o mundo não é a preto e branco, é preciso discutir ideias

A imagem pode ser vista aqui.
Bem vindos à filosofia!
Terão fundamento as ideias em que acreditamos? Que razões temos para as defender?
Sócrates interrogou-se a si mesmo e aos que estavam à sua volta acerca de diferentes problemas filosóficos. Cabe a cada um de nós aceitar ou não o seu desafio.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Hereges e proscritos
Crónica do historiador Rui Tavares no jornal Público de hoje (17-02-2014). Vale a pena ler.
“Tendes talvez mais medo vós, que pronunciais essas palavras, do que eu, que as escuto.” Não é preciso estar em frente à Inquisição romana, a ouvir a sua própria sentença de morte, para invejar a coragem de alguém capaz de reagir assim.
E quem reagiu assim foi Giordano Bruno, após nove anos nos cárceres do Santo Ofício, quando o chamaram para lhe comunicar que ele seria queimado numa fogueira, no Campo das Flores, em Roma, no dia 17 de fevereiro de 1600 — há exatamente 414 anos.
A ideia que fazemos do nosso mundo por comparação com o mundo pré-moderno é a de um mundo em que se circula e viaja muito, e em que existe uma cultura da celebridade transnacional. No mundo pré-moderno, pensamos nós, as pessoas nasciam, viviam e morriam no mesmo lugar — sem contacto com a maior parte dos outros humanos. Mas não era bem assim, e Giordano Bruno é um grande contra-exemplo. Nascido na pequena aldeia de Noli, perto de Nápoles, viajou por toda a Europa, ensinando em universidades e casas particulares de Paris, de Londres ou de Praga. Em Toulouse, encontrou-se com o médico e filósofo português Francisco Sanches. Giordano Bruno tinha muitas certezas. Francisco Sanches era tão cético — um “pirronista”, como então se dizia — que a sua obra-prima se chamava Que Nada Se Pode Saber.
Giordano achava que tudo se podia saber, e muito se podia memorizar. E por isso se tornou uma celebridade no seu tempo. Reis e príncipes de todos os reinos e principados queriam aprender a memorizar, porque achavam que memória era poder. Alguns acreditavam até que memória era feitiçaria. Um nobre veneziano chamado Giovanni Mocenigo, chamou Giordano Bruno à sua casa para aprender a arte mágica. Um dia, quando se fartou, denunciou Giordano Bruno à Inquisição.
O dia 17 de fevereiro é um dia muito importante, e não só por ter sido o dia em que queimaram Giordano Bruno na fogueira.
Quase setenta e três anos mais tarde, adoeceu em cena o dramaturgo francês Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido por Molière. Por azar estava a encenar — e representar — uma comédia contra os médicos, uma das melhores dele, o Doente Imaginário. O seu sarcasmo era tão profundo que não foi para admirar quando, depois de se sentir mal, nenhum médico quis cuidar dele.
Mas os médicos não eram os únicos inimigos de Molière. Os padres e outros devotos também não gostavam dele, e, ao saber que Molière estava moribundo, prepararam a vingança que lhes escapava desde que contra eles Molière escrevera O Tartufo. Quando a notícia da morte de Molière chegou, moveram os seus esforços para que lhe fosse negada a sepultura em cemitério.
E foi assim que o dramaturgo mais famoso da sua época, que em tempos tinha sido o favorito do Rei-Sol Luís XIV, foi enterrado em solo não-consagrado, como um proscrito. Era um dia chuvoso, 17 de fevereiro de 1673. Dizem que era terça-feira de Carnaval.
Porque decidi escrever sobre hereges e proscritos não sei. Sei que devemos muito a estes dois em particular. E por isso merecem que celebremos a vida neste dia das suas mortes.
domingo, 31 de março de 2013
Conversas sobre o ateísmo
Os vídeos que se seguem são de um programa da BBC em que são entrevistados os filósofos Daniel Dennett e Colin McGinn, o físico Steven Weinberg e o biólogo Richard Dawking.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
O maior perigo
“Nothing in the world is more dangerous than sincere ignorance and consciencious stupidity.”
Martin Luther King
domingo, 7 de outubro de 2012
Adaptações da alegoria da caverna em vídeo
Em ambos os vídeos estão presentes algumas das ideias fundamentais que Platão apresenta no texto da alegoria da caverna. O segundo vídeo - uma passagem do filme "Matrix" (1) - foi uma sugestão de vários alunos do 10º E (a quem agradeço), após terem visionado na aula o primeiro vídeo.
quarta-feira, 14 de março de 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
A estupidez
“Reflecte pois nisto meu filho. Errar é comum a todos os homens. Mas quando errou, não é imprudente nem desgraçado aquele que, depois de ter caído no mal, lhe dá remédio e não permanece obstinado. A teimosia merece o nome de estupidez.”
Sófocles, Antígona, traduzido do grego por Maria Helena da Rocha Pereira, Edição Fundação Calouste Gulbenkian, 8ª Edição, Lisboa 2008, pág. 9.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Muito pior que o erro
«Errar pode ser humano, mas persistir no erro e não o reconhecer é coisa de besta.
*
É verdade que ninguém é perfeito, mas não tentar aperfeiçoar-se é preguiça e cobardia.
*
Porque será que expressões populares como as anteriores (“errar é humano” e “ninguém é perfeito”), mesmo quando são verdadeiras, são geralmente usadas como argumentos a nosso favor, quando isso nos convém ou dá jeito, mas muito raramente a favor de outros, mesmo quando seria para os justificar pelos mesmíssimos erros ou imperfeições que rapidamente desculpamos a nós próprios? “Ninguém sabe”, pois não?!»
João Carlos Silva, A Natureza das Coisas do Ponto de Vista da Eternidade (aforismos 803, 804 e 805), Chiado Editora, Lisboa, 2010.
(Se clicar no título ou na capa poderá obter mais informações sobre o livro.)
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Viver e nada mais talvez seja pouco
“Quando chegámos a África [vindos do norte da Índia], ninguém saberia dizer-me. O que não admira, não éramos gente que se preocupasse com essas coisas. Limitávamo-nos a viver, viver e nada mais; fazíamos o que se esperava que fizéssemos, o que as gerações anteriores tinham feito. Nunca perguntávamos porquê; nunca escrevemos a nossa história. (…)
Na nossa casa nunca houve uma discussão política. Não eram tolos ou ingénuos os meus familiares. O meu pai e os irmãos dele eram comerciantes, negociantes; à sua maneira tinham de se adaptar às mudanças dos tempos. Eram capazes de avaliar situações; corriam riscos e por vezes mostravam-se mesmo audaciosos. Mas estavam tão profundamente envolvidos nas suas vidas que nunca seriam capazes de parar para examinar a natureza dessas vidas.”
V.S. Naipaul, A curva do rio, Quetzal, Lisboa, 2011, pp. 21-22 e 28.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Sabias que és parecido a uma pessoa acorrentada no fundo de uma caverna?
Segundo Platão, eu, __________________________ (nome), sou parecido(a) aos prisioneiros da Alegoria da Caverna. Julgo que Platão está _________________(certo/errado), pois_______.
No primeiro teste de Filosofia do 10º da turma D, realizado no passado mês de Outubro, esta era a pergunta 8. Houve várias respostas boas, mas as melhores foram dadas pelos alunos Fábio Gonçalves e Rafael Fonseca. Pedi-lhes para conversarem um com o outro e com base nas respostas dadas no teste construírem um texto com que ambos concordassem. Ei-lo.
Segundo Platão, nós somos parecidos aos prisioneiros da Alegoria da caverna. Julgamos que Platão está certo, pois, tal como os prisioneiros, nós - Fábio e Rafael, mas também os outros seres humanos – muitas vezes adotamos crenças acriticamente. Tal como os prisioneiros, estamos presos por “correntes” (metafóricas, claro) que nos iludem, parcialmente ou mesmo globalmente, acerca do que é real e do que não é.
A Alegoria da Caverna fala-nos de um grupo de seres humanos que se encontram presos no fundo de uma caverna. A única coisa que conseguem ver são sombras e julgam que estas são reais – julgam que são a realidade. Depois, há um prisioneiro que sai da caverna: vivia numa ilusão mas liberta-se das correntes da ignorância e alcança o conhecimento após um árduo processo de aprendizagem.
Os prisioneiros viveram sempre com a certeza de que as sombras eram a realidade e não as viam como aparências ou ilusões, mas estavam errados. Julgavam saber o que era a realidade mas não sabiam. Como foi dito, esses prisioneiros podem ser comparados a cada um de nós, pois nós podemos estar iludidos como eles - parcialmente ou até globalmente.
Vejamos primeiro a hipótese da ilusão parcial. Uma pessoa pode estar “acorrentada”, querendo isto dizer que vive iludida relativamente a certos aspetos da realidade. Por causa de coisas como o amor, o ódio, a preguiça, experiências traumáticas, etc., pode ignorar alguns aspetos da sua vida ou até vivê-los de uma forma falsa. Por exemplo: uma pessoa que esteve na guerra pode ter alucinações visuais ou sonoras quando confrontada com uma situação que lhe lembre uma situação passada traumatizante. Uma pessoa que ama outra de forma intensa pode não conseguir perceber que a outra pessoa a engana ou então pode suavizar e desculpar coisas erradas que a outra pessoa faz, como agredi-la ou insultá-la. Essas pessoas vivem convencidas que as coisas da sua vida são de um certo modo e afinal a realidade é muito diferente.
Mas pode suceder que a nossa ilusão não seja apenas parcial mas sim global. Não é impossível, embora seja pouco plausível, que toda a nossa vida atual seja uma ilusão e estejamos, por exemplo, a sonhar. Talvez toda a nossa vida seja um sonho ou uma ilusão semelhante à descrita no filme Matrix. Quem sabe? Talvez exista uma outra vida, uma outra verdade, completamente transcendente e diferente daquilo em que habitualmente acreditamos. Embora a hipótese seja pouco plausível não a devemos rejeitar sem discussão: que razões temos para considerar que a realidade é aquilo que julgamos ser?
O prisioneiro libertado regressou à caverna mas os outros prisioneiros não o quiseram ouvir nem discutir ideias com ele. Isto pode ser interpretado como o uso da filosofia para a discussão das nossas crenças básicas. As pessoas que não aceitam as crenças acriticamente e usam a Filosofia como um instrumento de sabedoria (isto é, uma forma de procurar a verdade) podem ser comparadas ao prisioneiro que se libertou e descobriu o que era de facto a realidade e que tudo o que tinha visto até então era falso. Aquelas pessoas que se recusam a discutir as suas crenças e as aceitam acriticamente - talvez por terem medo de não terem as mesmas ideias da maioria - são comparáveis aos prisioneiros que, no fim, se recusaram a sair da caverna. São dogmáticas, ou seja, acham as suas ideias tão corretas que nem se preocupam em justifica-las e recusam discuti-las e compará-las com as ideias das outras pessoas.
De qualquer forma, a conclusão é que qualquer um de nós pode estar parcialmente ou globalmente iludido, pelo que somos comparáveis aos prisioneiros descritos por Platão.
sábado, 17 de dezembro de 2011
domingo, 2 de outubro de 2011
Porquê perguntar porquê?
Fotografia de Armanda de Sousa, encontrada no blogue A Educação do Meu Umbigo.
sábado, 4 de junho de 2011
"Dos homens e dos deuses": a propósito da filosofia da religião
No âmbito da filosofia da religião, os alunos irão ver nas aulas da próxima semana o filme "Dos homens e dos deuses" (2010) realizado por Xavier Beauvois.
Neste filme são abordados alguns dos assuntos tratados nas aulas, como o perspectiva religiosa da existência humana, a fé, o fundamentalismo religioso... bons pretextos para o seu visionamento, além do argumento, do desempenho dos actores e da música maravilhosa (a do trailer é a sinfonia nº 7 de Beethoven, pode-se ouvir no post seguinte).
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Julgar que se sabe
Cartoon de Mordillo.
Uma das dificuldades com que os professores se confrontam diariamente é o facto de alguns alunos revelarem lacunas ao nível dos conhecimentos básicos e, sobretudo, falta de apetência por superá-las. Esses alunos sentem-se pouco incomodados com aquilo que não sabem e não estudam ou estudam de modo inadequado: decoram em vez de compreender e discutir as ideias. Neste ponto de vista provinciano, despreza-se o conhecimento porque não se tem consciência de que quem não o possui está preso mesmo sem o saber.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Devemos acomodar-nos ou pensar por nós próprios?
Fotografia de Gérard Castello Lopes.
“(…) É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida.
Porque a imensa maioria dos homens (…) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de boa vontade tomaram a seu cargo a superintência deles. Depois de, primeiro, terem embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois aprenderiam por fim muito bem a andar.”
Kant, “Resposta à pergunta: que é o Iluminismo?” em Paz perpétua e outros opúsculos, tradução de Artur Morão, Lisboa, 1992, Edições 70. pp 11-12.
sábado, 14 de novembro de 2009
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Pseudoprofundidade: como não ser um filósofo
Este texto de Stephen Law insere-se num capítulo do seu livro chamado “Ferramentas da Filosofia” e apresenta um exemplo de uma prática intelectual fraudulenta, mas muito comum: apresentar ideias triviais de um modo vago e obscuro para parecer que são profundas e intelectualmente valiosas. A ideia é que o treino crítico e argumentativo proporcionado pelo estudo da Filosofia pode ser uma arma contra esse género de aldrabices.
«Por todo o lado, multidões veneram especialistas de marketing, treinadores pessoais, místicos, líderes religiosos e outros pretensos gurus, à espera de uma revelação profunda. Como é que esses indivíduos iluminados obtêm a sua sabedoria? Infelizmente, em alguns casos o público é enganado por uma pseudoprofundidade.
A arte de parecer profundo é bastante fácil de dominar. Também você poderá fazer declarações com aspecto de profundas e sérias se seguir algumas regras básicas. Primeiro, tente declarar o incrivelmente óbvio. Mas faça-o m-u-i-to d-e-v-a-g-a-r, acenando com ar de entendido. Isso resultará especialmente bem se a sua observação tiver a ver com um dos grandes temas da vida: o amor, a morte e o dinheiro. Eis alguns exemplos: “A morte toca a todos”; “Todos queremos ser amados”; “O dinheiro usa-se para comprar coisas”. Experimente você. Se declarar o óbvio com seriedade suficiente, seguido de uma pausa sugestiva, talvez em breve veja os outros acenar em sinal de concordância e murmurar: “Isso é bem verdade”.
Agora que já fez o aquecimento passemos a outra técnica. Algumas palavras grandes e difíceis de perceber podem reforçar a ilusão de profundidade. Só é preciso um pouco de imaginação. Para começar, tente inventar alguns termos com significado semelhante a palavras familiares, mas que delas difiram de modo subtil e não totalmente claro. Por exemplo, não diga que as pessoas são alegres ou tristes, diga que têm “orientações comportamentais positivas ou negativas”, o que é muito mais impressionante. (…)
Além disso, quer seja um guru dos negócios, um líder religioso ou um místico, é sempre benéfico falar de “energias” e “equilíbrios”. Dá a impressão de que você descobriu um algum poder ou mecanismo profundo que possivelmente pode ser dominado e usado pelos outros. Assim será muito mais fácil convencer as pessoas de que, se não acreditarem nos seus conselhos, sairão a perder.
Infelizmente, alguns líderes religiosos, gurus de negócios e místicos usam estas e outras técnicas para gerar a ilusão de que conhecem verdades profundas. Como pode ver, é muito fácil gerar as suas próprias pseudoprofundidades. De certeza que [o caro leitor] ficará menos impressionado da próxima vez que os encontrar.»
Stephen Law, Guias Essenciais – Filosofia, Civilização Editora, Porto, 2009, 214-215.
O cartoon é a autoria de John Chase e foi tirado daqui.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Sair da menoridade
A imagem foi tirada deste sítio.
“O Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.
A preguiça e a cobardia são as causas por que os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio continuem, no entanto, de boa vontade menores durante toda a vida; e também porque a outros se torna tão fácil assumirem-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral (…) então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida.”
Kant, “Resposta à pergunta: que é o Iluminismo?” em Paz perpétua e outros opúsculos, tradução de Artur Morão, Lisboa, 1992, Edições 70. pp 11-12.
Para ler outro interessante texto de Kant, clicar aqui.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Conformismo: a diferença entre o que pensamos e o que dizemos
Descartes escreveu não sei onde (provavelmente numa carta a um amigo de confiança) estas palavras, úteis tanto na guerra como na paz:
“Não digo tudo o que penso, mas penso em tudo o que digo”.
Se as interpretarmos para além do significado mais imediato (ou seja, não se deve falar precipitadamente, deve-se ser capaz de justificar aquilo que se afirma, etc.), são palavras cautelosas. Talvez pouco corajosas.
Mesmo assim, fazem figura de declaração heróica quando comparadas com as palavras e as atitudes de algumas pessoas muito conformistas. Perante leis de que discordam e contra as quais têm fundamentadas objecções, não se limitam a dizer que a lei é para cumprir mesmo quando se discorda dela. Dizem também que não vale a pena discutir e protestar. No fundo, o que dizem é: devemos obedecer sem pensar.
Claro que essas pessoas estão erradas. Se toda a gente fosse assim, as leis nunca mudariam. Podemos cumprir as leis e, mesmo assim, discordar delas e promover debates e outras actividades susceptíveis de provocar a sua alteração. Ou seja: mesmo quando obedecemos devemos pensar. Fazer isso não significa que somos maus cidadãos e é defensável que constitui, pelo contrário, um dever cívico.
Pode mesmo suceder que consideremos certas leis, não apenas politicamente erradas, mas também moralmente erradas. E nesse caso existe a possibilidade de lhes desobedecermos, não por interesse pessoal, mas devido a essa discordância moral. A essa atitude chama-se “desobediência civil”. E, como é óbvio, para sabermos se se trata realmente de um caso de genuína desobediência civil, e não de interesse pessoal disfarçado, é preciso pensar e discutir o assunto com outras pessoas. (Se clicar aqui pode ler mais acerca do assunto.)
Por isso, apesar de ser social e psicologicamente impossível dizer tudo o que pensamos, é defensável considerar que o devemos fazer com muito mais frequência do que aquela que é aconselhada pelo conformismo.
Não dei propositadamente nenhum exemplo – mas devo dizer que pensei em vários, pois na sociedade portuguesa o fenómeno não é, infelizmente, raro. Se a cara leitora ou o caro leitor, conhecerem algum e quiserem dizer o que pensam… Pensem duas vezes mas não três: a caixa de comentários está à vossa inteira disposição.
A fotografia é da autoria de Rui Lebreiro e pode ser encontrada aqui.
