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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A verdade, segundo Fernando Pessoa

Relatividade, de M. C. Escher


«Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora? Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza!
Quanto mais medito na capacidade, que temos, de nos enganar mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas. (…)
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão.
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.»

Fernando Pessoa [Bernardo Soares], Livro do Desassossego.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Dia Pessoal do Livro é todos os dias

Hoje é Dia Mundial do Livro. Veja aqui o que se ganha com a leitura, segundo Fernando Pessoa.

Nadja Pausch: Book Lover’s Romance

Fotografia de Nadja Pausch.

domingo, 31 de julho de 2011

Uma razão para ser tolerante

“Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.”

Fernando Pessoa, Bernardo Soares - Livro do Desassossego.

Lido aqui.

domingo, 29 de maio de 2011

A leitura liberta

«Leio e estou liberto. Adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo, toda ela notável, o sol que vê todos, a lua que malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves das encostas.»

Fernando Pessoa - Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

vaso grego Leitura

quarta-feira, 15 de abril de 2009

'Domínio Público' – uma biblioteca digital grátis

"Domínio Público" é uma biblioteca digital (desenvolvida em software livre), disponibilizada pelo governo brasileiro.

Nela pode encontrar gratuitamente inúmeras obras literárias, musicais e pictóricas. Fernando Pessoa, Dante, Shakespeare ou Leonardo Da Vinci, entre muitos outros, ao alcance de 2 ou 3 cliques.

Algumas pessoas, umas por ingenuidade e outras por hipocrisia, justificam a falta de hábitos de leitura e de outros hábitos culturais alegando que os livros, os discos, os vídeos, etc., são caros. Esta biblioteca ajuda a refutar esse mau argumento.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Ser vencido pela razão não é uma derrota


“Concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador.”

Fernando Pessoa


Antes de se decidir pelo título “Mensagem” Fernando Pessoa tinha pensado chamar “Portugal” a esse livro. No entanto, um amigo convenceu-o a pôr de lado esse título, com argumentos que agora não vêem ao caso (mas que podem ser facilmente encontrados na Internet, por exemplo em http://books.google.pt/books?id=NTr92RrFDOsC&pg=PA147&lpg=PA147&dq).


Foi ao justificar essa mudança que Fernando Pessoa escreveu as palavras citadas, que também poderiam ter sido ditas por Sócrates ou por qualquer outro filósofo digno desse nome.


Curiosamente, o autor de tais palavras é considerado um dos maiores poetas de um país em que se valoriza muito pouco a atitude crítica e a discussão livre e imparcial de ideias.


Um país em que muitas pessoas dizem “isso é discutível” não para iniciar um debate mas para declarar o debate inútil e acabar com a conversa. Um país em que, perante uma divergência de ideias publicamente assumida, é comum dizer-se “isso é a tua opinião, não é a minha” e depois não perguntar porque é que o interlocutor tem essa opinião nem fazer – cruzes canhoto! – qualquer esforço para a refutar (como se todas as opiniões valessem o mesmo e não fizesse sentido discuti-las e confrontá-las).


Nesse país muitas pessoas ficam ofendidas e sentem-se pessoalmente postas em causa se alguém discute e critica as suas ideias, acabando isso por conduzir à autocensura daqueles que estavam dispostos a discutir e debater. Nesse país é frequente as pessoas, depois de numa conversa terem divergido um pouco do seu interlocutor, se apressarem a esclarecer “mas isto não é uma crítica”. Nesse país é raro alguém ouvir esse “esclarecimento” e depois – à maneira da criança que disse “Olhem! O rei vai nu.” – perguntar: “Mas e se fosse uma crítica, que mal é que teria?”


Essa desvalorização da atitude crítica e da discussão livre e imparcial de ideias não ocorre apenas nos estádios de futebol (onde não surpreende encontrá-la), mas também na vida política, no jornalismo, em grupos profissionais tão importantes como os juízes e os médicos e nas escolas. Sim, nas escolas também.


Esse país provavelmente não mereceria que um livro tão belo e inteligente como a “Mensagem” se chamasse Portugal.