“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
terça-feira, 14 de abril de 2020
O conceito de Deus
domingo, 12 de abril de 2020
O essencial sobre a existência de Deus
Na página da editora encontra uma amostra do livro.
sábado, 18 de janeiro de 2020
A definição de arte
segunda-feira, 10 de junho de 2019
A moralidade muda

«A moralidade é passada de geração em geração sem ser muito questionada. Mas pode mudar. Em tempos, a maioria das pessoas pensava que nada havia de errado em observar um urso a ser despedaçado por uma matilha de cães – dava um esplêndido dia de lazer para toda a família. Hoje, ficamos mais alarmados e perturbados com a crueldade desnecessária com os animais e pensamos que a perseguição aos ursos é uma coisa errada. Muitos de nós hoje pensam que a caça à raposa é provavelmente também cruel. E a maioria das pessoas deixou de pensar que a homossexualidade é perversa. Parece que a sociedade progrediu. Mas não há razão para nos tornarmos demasiado complacentes. Os seres humanos não estão necessariamente a ficar demasiado agradáveis, ano após ano. Ainda fazemos coisas más. E continuam a surgir novos problemas morais com que não sabemos lidar. Deveríamos permitir que o governo prendesse as pessoas sem julgamento, no caso de serem terroristas? Deveríamos permitir que torturassem suspeitos para obter mais informações?
Então, porque mudam desta maneira as crenças morais? De onde vêm, já agora?»
Dave Robinson, Ética no Quotidiano – Guia Prático, Gradiva, Lisboa, maio de 2019, pp. 9-10.
Algumas pessoas consideram que, dos factos referidos por Dave Robinson, se infere que a moral é relativa. Mas não é o caso do próprio autor: após a passagem citada ele acrescenta que dizer que as crenças morais vêm da sociedade “é a resposta fácil”.
Vale a pena ler mais!
quarta-feira, 25 de abril de 2018
Poderá haver um regime político melhor que a democracia?
Hoje é um bom dia para chamar a atenção para este livro: Contra a Democracia, de Jason Brennan, editado pela Gradiva em 2017. O 25 de abril trouxe a democracia aos portugueses e pudemos descobrir pelos nossos próprios meios o que muitos outros já sabiam: a democracia não é um sistema perfeito, longe disso, mas é MUITO melhor que as alternativas existentes. Contudo, não será possível descobrir (ou talvez inventar) alternativas melhores? É precisamente isso que Jason Brennan tenta fazer neste livro: imaginar formas de organizar a vida política melhores que a democracia. Analisa sistematicamente muitos defeitos da democracia, como por exemplo a ignorância e falta de preparação dos eleitores, e discute os méritos e os defeitos de uma alternativa epistocrática, ou seja, o governo dos sábios. Brennan considera que há mais vantagens que desvantagens nesse tipo de solução e analisa várias possibilidades: algumas implicariam grandes alterações nos atuais regimes democráticos, outras implicariam apenas pequenos ajustes. É improvável que o autor conheça a afirmação de José Saramago (que, misturadas com muitas asneiras, também disse algumas coisas certas) de que não devemos considerar a democracia como um ponto de chegada, mas sim como um ponto de partida; contudo, é precisamente isso que ele tenta fazer. Este livro é, portanto, contra a democracia, mas não a favor da ditadura.
De qualquer modo, concorde-se ou não com Jason Brennan, não seria nada democrático não discutir o valor da democracia. Nesta, pelo contrário, costuma valorizar-se o espírito crítico e o debate livre de ideias – o que implica a possibilidade de discutir mesmo os valores mais fundamentais. A democracia só pode ganhar com uma tal discussão. Se desta resultar a refutação dos seus críticos, a democracia fica fortalecida. E não parece que perca se dessa discussão resultar a descoberta de um sistema melhor, quer este seja um aperfeiçoamento localizado do regime democrático quer envolva a sua substituição por um tipo de organização que continue a fazer bem o que a democracia faz bem e faça melhor o que a democracia faz mal.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
9 presentes de Natal filosóficos
Aos que já se iniciaram ou se querem iniciar na reflexão sobre os problemas filosóficos.
Boas leituras a todos!
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
Problemas da Filosofia
Problemas da Filosofia, de James Rachels
Tradução de Pedro Galvão
Revisão científica de Aires Almeida
Gradiva, maio de 2009, 337 pp.
Reli há semanas os dois capítulos de Problemas da Filosofia dedicados ao livre-arbítrio para me ajudar a preparar algumas aulas, mas depois não resisti e reli vários outros capítulos. Entre outros temas, o livro fala também de Deus, da identidade pessoal, da inteligência artificial e do sentido da vida.
Porque é que este livro é tão bom e irresistível?
Como outros livros da coleção Filosofia Aberta, é um livro introdutório de grande qualidade, que alia o rigor filosófico e a simplicidade, sendo suficientemente claro para ser entendido por pessoas que nunca tenham lido nada acerca dos assuntos que aborda. Contudo, é um livro introdutório ainda melhor que os outros.
Problemas da Filosofia está muito bem escrito, mesmo de um ponto de vista literário. James Rachels escreve de maneira envolvente e cria um interesse crescente no leitor – que quer chegar depressa ao final do capítulo para ver se o problema tem solução, à semelhança do leitor de um policial que quer descobrir quem é o criminoso. Poderá uma máquina realmente pensar? Os argumentos a favor da existência de Deus serão ou não mais fortes que os argumentos contrários? Afinal, a ética é ou não objetiva?
Alguns filósofos, mesmo em artigos ou livros introdutórios, discutem os problemas filosóficos de maneira um pouco seca e genérica. Por exemplo, no caso do livre-arbítrio, para discutir se as nossas ações são ou não livres, falam genericamente das leis da natureza e dos acontecimentos passados e depois mergulham rapidamente nas teorias. James Rachels, contudo, além de dar exemplos do dia a dia muito cativantes (veja-se, na pág. 195, o exemplo da amiga cinéfila que, como ele previra, prefere Os Despojos do Dia a McQuade, o Lobo Solitário), apela aos conhecimentos da Biologia, da Psicologia, da Sociologia e de outras ciências e analisa factos da natureza e da sociedade para averiguar se podem ou não determinar as nossas ações. De modo conciso mas esclarecedor, descreve, por exemplo, os estudos com gémeos idênticos, os efeitos do óxido nítrico (um neurotransmissor), a taxa de presidiários dos EUA e algumas experiências clássicas da psicologia social (nomeadamente a célebre experiência de Milgram sobre a obediência).
Rachels tem essa abordagem em todo o livro. Por exemplo, ao discutir se a existência de um Deus bom e omnipotente é compatível com a existência de tanto mal no mundo, em vez de falar genericamente de sofrimento refere concretamente doenças como o Ébola e a epidermólise bolhosa, “uma doença de pele genética que provoca bolhas por todo o corpo, de tal forma que o bebé não pode ser agarrado ou mesmo ficar deitado de costas sem sentir dor” (pág. 58).
Os problemas filosóficos são concetuais e não empíricos, mas isso não significa que alguns dados empíricos não possam contribuir para os esclarecer e, eventualmente, solucionar. Por isso, essa abordagem não é uma exibição gratuita de erudição. James Rachels justifica-a deste modo impressivo:
“Alguns filósofos acreditam que a filosofia é uma investigação ‘pura’ que pode ser desenvolvida à margem das ciências. Não partilho esta ideia. A melhor forma de abordar os problemas da filosofia é usar todos os recursos disponíveis. W. V. Quine observou uma vez que ‘O universo não é a universidade’. A divisão da investigação humana em disciplinas distintas pode ser útil para organizar os departamentos académicos, mas tem pouco interesse quando estamos a tentar descobrir como é o mundo. Neste livro irá encontrar referências à biologia, à psicologia, à história e até às descobertas do Espantoso Randi. Tudo isto faz parte de um único projeto - a tentativa humana de compreender o mundo e o lugar que nele ocupamos.” (pág. 12)
A propósito da ética Rachels diz que em qualquer questão difícil “há muito a dizer a favor de ambos os lados” (pág. 250). Talvez se possa dizer o mesmo de todo e qualquer problema filosófico: há boas ideias em qualquer um dos lados da controvérsia. Além disso, como os problemas filosóficos têm sido discutidos ao longo da história por pessoas muito inteligentes ou mesmo geniais, é fácil ficar impressionado com os argumentos e explicações de qualquer um dos lados. Por isso, são frequentes as introduções à filosofia que se limitam a expor as diferentes perspetivas filosóficas, esquecendo uma questão essencial: quem tem razão?
James Rachels, pelo contrário, não desiste de comparar as teorias e argumentos na tentativa de mostrar quem tem razão, embora não seja simplista na avaliação e pese bem os argumentos de ambos os lados. Vários capítulos têm uma conclusão em que é feito um balanço, uma avaliação da discussão do problema, mas, mesmo nos capítulos em que não há uma conclusão explícita, o autor não deixa de comparar as teorias e de fazer uma avaliação da sua plausibilidade – com imparcialidade, de modo equilibrado e não tendencioso. Claro que outros autores e alguns leitores poderão discordar das suas avaliações e conclusões, mas o facto de as apresentar ajuda o leitor a pensar filosoficamente e a formar as suas próprias ideias.
Esse procedimento crítico inicia-se, com algum simbolismo, logo no capítulo inicial, intitulado “O legado de Sócrates”, em que James Rachels, além de descrever as circunstâncias em que este foi condenado à morte, analisa os argumentos que o levaram a aceitar essa condenação e a preferir a morte ao exílio. Rachels considera esses argumentos fracos. Sócrates é, para muitas pessoas, uma personificação da própria filosofia, mas isso não impede Rachels de o criticar: “nenhum dos argumentos prova que Sócrates tinha de beber a cicuta. Mas isto deixa-nos com uma questão embaraçosa: como pôde Sócrates ter cometido um erro tão desastroso?” (pág. 24) Ao criticar Sócrates, James Rachels não está a menosprezá-lo mas sim a continuar a tradição socrática de discutir livre e imparcialmente ideias (que é, justamente, uma das características mais marcantes da filosofia). No fundo, tanto nesse capítulo como no resto do livro, James Rachels seguiu um conselho que, segundo Platão conta, Sócrates terá dado aos amigos com quem debatia:
“Se querem um conselho, preocupem-se pouco com Sócrates e muito mais com a verdade! Se vos parecer que o que eu digo é verdadeiro, pois dêem-me razão; caso contrário, apresentem-me tudo o que têm a objetar.” 1
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1 Platão, Fédon, 91c, tradução de Maria Teresa Schiappa Azevedo, 5ª edição, Lisboa Editora, 1997, pág. 88.
domingo, 15 de março de 2015
Platão e um Ornitorrinco entram num Bar...
Texto publicado na edição online da Revista Sábado, em 09-03-2015.
Platão e um Ornitorrinco entram num Bar..., de Thomas Cathcart e Daniel Klein
Dom Quixote, Agosto de 2008
244 páginas.
“Uma mulher saía de casa todas as manhãs e exclamava: - Que esta casa esteja protegida dos tigres! Um dia uma vizinha perguntou-lhe: - Para que é aquilo? Não há um único tigre num raio de mil e quinhentos quilómetros. - Estás a ver? Resulta! – respondeu a mulher.”
Esta é uma das anedotas contadas no livro Platão e um Ornitorrinco entram num Bar..., de Thomas Cathcart e Daniel Klein, cujo subtítulo é Filosofia com humor. É contada (na pág. 54) para exemplificar a falácia post hoc: “o erro de presumir que, se uma coisa sucede a outra, essa coisa foi causada pela outra”.
O livro tem dez capítulos (além de um glossário e de uma enigmática conclusão) onde são abordados diversos problemas metafísicos, éticos, lógicos, epistemológicos, etc. Cada capítulo começa e acaba com um pequeno diálogo entre duas personagens: Dimitri e Tasso, respetivamente o discípulo e uma espécie de mestre. A título de exemplo, eis o diálogo que encerra o capítulo dedicado ao relativismo e que visa mostrar que este se autorrefuta (pág. 220):
“Dimitri: Pareces ser uma daquelas pessoas que pensam que não existe uma verdade absoluta, que toda a verdade é relativa.
Tasso: Certo.
Dimitri: Tens a certeza disso?
Tasso: Absoluta.”
O livro inclui também alguns divertidos cartoons e uma não menos divertida cronologia filosófica. Dois exemplos desta última: “1650 – Descartes pára de pensar durante um segundo e morre”; “1900 – Nietzsche morre, Deus morre de desgosto seis meses depois”.
Os autores fazem pequenas introduções aos problemas filosóficos abordados e apresentam anedotas e histórias cómicas para ilustrar ou criticar as ideias em causa (algumas anedotas constituem contraexemplos, outras funcionam como reduções ao absurdo, outras…). O humor não se encontra apenas nas anedotas, mas também na parte explicativa: misturadas com explicações “sérias” surgem muitas vezes afirmações humorísticas. Por exemplo, depois de caracterizarem o utilitarismo como a perspetiva “moral de que os atos corretos são aqueles que trazem mais bem-estar para as pessoas afectadas” que os atos alternativos, acrescentam: a “utilidade limitada desta filosofia moral torna-se evidente quando tentamos agradar à mãe e à sogra no Dia de Acção de Graças” (pág. 241).
Essas pequenas introduções destinam-se a fornecer breves enquadramentos às anedotas e a mostrar que a filosofia pode ser divertida. Não são, nem pretendem ser, apresentações rigorosas e completas dos problemas abordados nem das teorias mencionadas. Não contêm, ainda assim, erros escandalosos – exceto as primeiras linhas da página 49, onde, além de se dizer absurdamente que o silogismo é o principal argumento dedutivo, se repete a célebre asneira de que a “lógica dedutiva raciocina do geral para o particular”.
Platão e um Ornitorrinco entram num Bar... merece ser lido e as suas anedotas contadas aos amigos e até aos inimigos. Mas, pelas razões indicadas, não é o livro certo para estudar filosofia. O que não o impede de ajudar a compreender os problemas filosóficos que aborda, uma vez que o humor, além de nos divertir, pode lançar alguma luz sobre as coisas em que incide. O livro pode ser, por isso, uma fonte de exemplos imaginativos e engraçados, útil para alunos e professores – e até para pessoas interessadas em contar anedotas inteligentes e inesperadas.
“Demonstraremos como os conceitos filosóficos podem ser iluminados por piadas” e que muitas “piadas estão repletas de conteúdos filosóficos fascinantes”, prometem os autores na introdução (pág. 12) e sem dúvida que cumprem essa promessa.
Thomas Cathcart e Daniel Klein justificam o seu projecto alegando existir uma grande afinidade entre a filosofia e o humor. “A construção e reação às piadas e a construção e reação aos conceitos filosóficos são feitas do mesmo material. Estimulam a mente de formas semelhantes. Isto acontece porque a filosofia e as piadas têm origem no mesmo impulso: confundir a nossa perceção das coisas, virar os nossos mundos de pernas para o ar e deslindar as verdades escondidas, e muitas vezes desagradáveis, sobre a vida.” (pág. 10)
Talvez a afinidade não seja tão grande como isso. O humor pode também resultar de outros “impulsos” e a filosofia, embora implique pensamento crítico, não implica necessariamente a rejeição do senso comum pressuposta no “virar os nossos mundos de pernas para o ar”. Contudo, isso não retira valor a esta tentativa de apresentar a filosofia com humor, uma vez que o livro é realmente divertido e faz pensar. Por outro lado, rir de Platão ou Kant talvez contribua para diminuir o respeito acrítico e bacoco pelos “grandes nomes” que tanto mal faz à filosofia e ao pensamento em geral.
Para terminar, uma das várias anedotas acerca de Deus e da religião existentes no livro (pág. 215):
“Um homem está a rezar a Deus.
- Senhor – reza -, gostaria de te fazer uma pergunta.
O Senhor responde:
- Não há problema. Podes perguntar.
- Senhor, é verdade que para ti um milhão de anos é apenas um segundo?
- Sim, é verdade.
- Bem, nesse caso o que é um milhão de dólares para ti?
- Para mim, um milhão de dólares é apenas um cêntimo.
- Ah, nesse caso, Senhor – diz o homem -, podes dar-me um cêntimo?
- Claro – respondeu o Senhor. – Espera só um segundo.”
quinta-feira, 12 de março de 2015
Elementos Básicos de Filosofia
Texto publicado na edição online da Revista Sábado, em 02-03-2015.
Elementos Básicos de Filosofia, de Nigel Warburton
Edição revista e aumentada
Tradução de Desidério Murcho e Aires Almeida
Revisão científica de António Franco Alexandre
Gradiva, Abril de 2007, 284 pp.
Há muitas introduções à filosofia, mas poucas são melhores que Elementos Básicos de Filosofia, de Nigel Warburton. A primeira edição portuguesa data de 1998 e a segunda (revista e aumentada) de 2007.
O livro contém sete capítulos, cada um com um tema diferente: Deus, Bem e mal, Política, O mundo exterior, Ciência, Mente e Arte. Em cada um dos capítulos existe uma breve apresentação dos problemas filosóficos associados ao tema geral e depois é feita a sua discussão: após a exposição de uma teoria ou argumento são sempre apresentadas críticas. No final de cada capítulo existe uma breve conclusão e uma pequena lista de leituras complementares. O livro inclui ainda uma introdução, um índice analítico e um glossário inglês-português.
Os capítulos são independentes uns dos outros, pelo que podem ser lidos pela ordem que a curiosidade ou a necessidade do leitor ditarem.
A lista de problemas filosóficos discutidos no livro é extensa e variada. No espaço de algumas dezenas de páginas o leitor é confrontado com questões tão diversas como estas: Devemos dizer sempre a verdade ou por vezes pode ser correto mentir? Qual é a justificação e a finalidade do castigo? Qual é realmente a relação entre a mente e o corpo? Será que um quadro original tem mais valor artístico que uma imitação perfeita?
Apesar disso, a lista não é exaustiva - nem poderia ser, dado o carácter introdutório do livro e a imensidão dos assuntos que interessam à filosofia. Um problema fundamental que não é discutido é o livre-arbítrio. A lógica também está ausente.
Na introdução, onde Nigel Warburton tenta caracterizar a natureza da filosofia, é dito que o "leitor ideal" de Elementos Básicos de Filosofia "será aquele que o ler criticamente, questionando constantemente os argumentos usados e concebendo contra-argumentos". O leitor de um livro de filosofia deve ter essa atitude porque a filosofia é "uma actividade: uma forma de pensar acerca de certas questões", pelo que recebê-la passivamente seria antifilosófico. Daí que Warburton também diga que o seu "objectivo é oferecer ao leitor instrumentos para pensar por si próprio".
Para alcançar esse objectivo o livro, além da estrutura argumentativa que já referi (cada teoria é sempre confrontada com várias objecções), conta com uma linguagem clara e acessível: "tentei evitar a gíria desnecessária e explicar os termos desconhecidos a par e passo". Em nenhum momento o texto pressupõe conhecimentos filosóficos prévios por parte do leitor.
O que se pode ganhar com a leitura deste livro e com o estudo da filosofia em geral? Nigel Warburton indica vários benefícios, mas vou referir apenas dois deles. As pessoas têm geralmente muitas crenças cuja veracidade nunca questionaram e que aceitam acriticamente. Ora, isso é "como conduzir um automóvel que nunca foi à revisão". Considere-se por exemplo a crença comum de que "não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Que justificação existe para dizer que não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra ‘dever’?" Analisar e discutir esse género de ideias, como faz a filosofia, ajuda a clarificar e, eventualmente, a justificar melhor aquilo em que acreditamos. Permite também desenvolver a capacidade argumentativa, que pode depois ser aplicada em outras áreas.
Por todas essas razões, este é um livro ideal para figurar em bibliotecas escolares e para oferecer a adolescentes ou adultos curiosos relativamente a assuntos como a eutanásia, Deus, o sentido da vida ou – para dar um exemplo de actualidade óbvia – a liberdade de expressão. Mais que isso, é um bom livro para o caro leitor ler.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Platão e um Ornitorrinco entram num Bar...
segunda-feira, 2 de março de 2015
Elementos Básicos de Filosofia
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
sábado, 27 de dezembro de 2014
Pensar de A a Z
Pensar de A a Z, de Nigel Warburton.
Tradução de Vítor Guerreiro. Revisão científica e prefácio de Desidério Murcho.
Editorial Bizâncio, Setembro de 2012, 240 pp.
Imagine que um colega seu afirma que uma certa ideia - por exemplo que se deve apostar na produção de vinho - é falsa pois Salazar também a defendia. O leitor compreende que há algo de errado nessa afirmação, mas tem dificuldade em explicar porquê.
E como mostrar o erro de um vizinho que nega a existência de Deus alegando que é ridículo acreditar num velho de barbas brancas sentado numa nuvem?
O livro Pensar de A a Z, do filósofo inglês Nigel Warburton, poderia dar-lhe uma ajuda. Ensinar-lhe-ia, por exemplo, que o seu colega cometeu a falácia das más companhias e o vizinho a falácia do espantalho. Com uma linguagem clara e simples, Warburton explica o que é uma falácia (um argumento que parece correto mas não é) e analisa algumas das falácias mais frequentes. Assim, a falácia das más companhias ocorre quando se rejeita uma ideia apenas porque foi defendida por alguém muito censurável (claro que Warburton não dá o exemplo de Salazar mas sim de Hitler) e a falácia do espantalho ocorre quando alguém caricatura ou distorce uma perspectiva rival para a derrubar mais facilmente. Mas essa ajuda também poderia vir, por exemplo, das páginas dedicadas à falácia democrática, à falácia do custo perdido ou à falácia de Van Gogh.
Pensar de A a Z, além das falácias, aborda vários outros tópicos importantes da chamada lógica informal: estratégias de persuasão como a culpa partilhada, o advogado do diabo e envenenar o poço; erros como a confusão entre alguns e todos, a confusão entre correlação e causa e a precisão inapropriada; e conceitos lógicos fundamentais como validade, dedução e indução.
As explicações dadas por Nigel Warburton são sempre ilustradas com exemplos muito esclarecedores e não pressupõem conhecimentos prévios, pelo que podem ser compreendidas por leitores sem formação filosófica.
Nas palavras do autor, o livro é “uma introdução ao pensamento crítico” e oferece “alguns instrumentos básicos para o raciocínio claro acerca de qualquer assunto”. A intenção é ajudar o leitor a identificar falácias e outros erros argumentativos comuns, de modo a não se enganar nem ser enganado, mas sobretudo ajudá-lo a defender melhor as suas ideias e a pensar pela sua própria cabeça.
O livro está organizado por ordem alfabética e com entradas que remetem muitas vezes para outras entradas (por exemplo, mentir remete para parcimónia com a verdade e pedantismo, por sua vez, remete para ambiguidade e retórica), pelo que pode ser lido do princípio ao fim ou começando numa entrada interessante e depois seguindo essas referências cruzadas.
Inclui ainda um “Prefácio à edição portuguesa” da autoria de Desidério Murcho, que, além de esclarecer de modo breve mas rigoroso muitos conceitos lógicos, explica a importância da lógica para a reflexão e para a argumentação.
Por isso, a leitura deste livro pode ser proveitosa para pessoas muito diferentes. Como é dito no prefácio, os tópicos que aborda estão presentes “não só na nossa vida diária, como também na nossa vida económica, científica, tecnológica, artística, religiosa, política e pessoal” e sem dominá-los “não é fácil ter uma vida humana plenamente realizada”.


