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domingo, 29 de novembro de 2020

Dois Humes

Roger Scruton, Breve História da Filosofia Moderna
«Podemos ler Hume de duas maneiras. Na primeira, vendo-o como um cético que defende, a partir de premissas empiristas, a ideia de que as convicções comuns quanto à possibilidade do conhecimento são indefensáveis. Na segunda, como o proponente da “filosofia natural” do homem, partindo de observações empíricas sobre a mente humana para concluir que esta foi inadequadamente compreendida pelos metafísicos. As duas leituras não são incompatíveis (…).
O “naturalismo” de Hume é newtoniano: Hume procura construir uma ciência da mente sem se basear em pressupostos infundados e apoiando-se apenas na observação. Percebemos implicitamente que rejeita as teorias dos metafísicos por não encontrar fundamento para elas. Ao mesmo tempo não gostava de passar por cético radical, pois o ceticismo radical é contranatura. Hume é um cético apenas naquela vertente moderada defendida no passado na Academia de Platão – um cético que procura refrear as pretensões da razão humana e recordar-nos da nossa natureza de seres passionais e governados pelo costume. Desse modo, quando chega a uma conclusão cética, Hume tende a dar um passo atrás, informando o leitor de que está apenas a discutir as operações da mente humana e não a criticar as crenças que espontaneamente surgem em nós. Contudo, o seu estilo irónico, e o quase impercetível piscar de olhos quando propõe as suas “soluções céticas” tornam difícil ter certezas quanto às suas intenções.» 

Roger Scruton, Breve História da Filosofia Moderna, Guerra & Paz, Lisboa, 2010, pág. 160.

domingo, 15 de novembro de 2020

David Hume



«Numa nota autobiográfica a que chamou “oração fúnebre”, o próprio David Hume escreveu o seguinte: “Fui um homem de disposições moderadas, de temperamento controlado, com um humor aberto, social e alegre, capaz de vínculos, mas pouco suscetível a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões. Mesmo o meu amor pela fama literária, a minha paixão dominante, nunca azedou o meu temperamento, apesar dos meus frequentes desapontamentos.” Este autorretrato é o que seria de esperar de alguém que disse que gostaria de ter sido encorajado a ler Cícero, em vez das Escrituras, quando era jovem; e é um autorretrato cujo rigor é confirmado por tudo o que os outros disseram dele.»

A. C. Grayling, Uma História da Filosofia, Edições 70, Lisboa, 2020, pág. 285.

Pintura: retrato de David Hume da autoria de Louis Carrogis Carmontelle.

sábado, 16 de maio de 2020

O argumento teleológico de Tomás de Aquino e uma objeção


«Na sua obra mais importante e mais conhecida, Tomás conclui teleologicamente que Deus existe:

Vemos que as coisas sem inteligência, como os corpos naturais, atuam tendo em vista uma finalidade, e isto é evidente a partir do facto de atuarem sempre, ou quase sempre, da mesma maneira, de modo a obter o melhor resultado. Assim, é óbvio que não é fortuitamente, mas antes com desígnio, que atingem as suas finalidades. Ora, o que não tem inteligência não pode direcionar-se a uma finalidade, a menos que seja direcionada por um ser dotado de conhecimento e inteligência, como a flecha é disparada para o alvo pelo arqueiro. Logo, existe um ser inteligente por meio do qual todas as coisas naturais são direcionadas para as suas finalidades; e é a este ser que chamamos Deus. 

(Tomás de Aquino, Suma Teológica, Ia. Q2. A3.)

O raciocínio de Tomás parte da observação de finalidades na natureza, em entidades que não são dotadas de inteligência. As raízes de uma árvore cumprem a finalidade de captar a água de que a árvore precisa, mas, tal como a própria árvore, não têm qualquer inteligência. Uma vez que nenhuma entidade sem inteligência atua com vista a uma finalidade, alguma outra entidade inteligente dirige as raízes da árvore. Essa entidade é Deus. Daí a analogia com a flecha: sem uma inteligência que a direcione para a sua finalidade, que é atingir o alvo, a seta não fará tal coisa, por si mesma, precisamente porque não tem qualquer inteligência.»

Desidério Murcho, A existência de Deus – O essencial, Plátano, 2020, pp. 17-18

(Trata-se de um Ebook, ainda sem edição em papel: 

Há várias objeções ao argumento teleológico. Uma delas alega que, mesmo que admitamos a necessidade de o mundo ter um criador inteligente, isso não implica a sua identificação com o Deus teísta (omnipotente, sumamente bom, etc.) nem sequer monoteísta – pois pode suceder, por exemplo, que tenha vários criadores imperfeitos.

David Hume formulou essa objeção do seguinte modo (não cito diretamente o livro de Hume - Diálogos sobre a Religião Natural -, mas um artigo da revista Crítica que inclui, além de excertos do filósofo, breves explicações).

«Em vez de ser a obra de um único Deus, o mundo pode ser a obra de muitos deuses, todos mais finitos e imperfeitos do que a sua própria obra.

“Mas, mesmo que este mundo fosse uma produção tão perfeita, continuaria a ser duvidoso que se pudesse corretamente atribuir ao artífice todas as perfeições da obra. Se examinarmos um navio, que ideia elevada não formaremos do engenho do carpinteiro que construiu uma máquina tão complicada, útil e bela? E que surpresa não deveremos sentir ao verificarmos que se trata de um estúpido mecânico que imitou outros e copiou uma arte que, durante uma longa sucessão de épocas, após múltiplas tentativas, enganos, correcções, deliberações e controvérsias, foi gradualmente melhorada? Muitos mundos podem ter sido atamancados e destruídos ao longo de uma eternidade, antes que este sistema tenha surgido; muito trabalho perdido; muitas tentativas infrutíferas feitas; e um lento, mas gradual aperfeiçoamento na arte de fazer mundos ter sido levado a cabo durante épocas sem fim”. (Diálogos, Parte V). (…)

Tem de se admitir todas as hipóteses imagináveis para explicar o mundo, desde uma divindade infantil a um deus senil passando por uma divindade inferior e subalterna.

“Por aquilo que se sabe, quando comparado com um padrão superior, este mundo é muito defeituoso e imperfeito; e foi apenas a primeira e grosseira tentativa de uma Deidade infantil, que a seguir o abandonou, envergonhada da sua defeituosa realização; é meramente a obra de uma Deidade inferior e subalterna e constitui o objecto de troça dos seus superiores; é a produção de velhice e de senilidade de uma Deidade aposentada e, desde a sua morte, continua, à aventura, devido ao primeiro impulso e à força activa que dela recebeu” (Diálogos, Parte V)

Álvaro Nunes, “Será que Deus existe?”, Crítica - https://criticanarede.com/anunesseraquedeusexiste.html

(Infelizmente desconheço o autor e a origem da imagem.)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A origem do orgulho em si próprio

Vaidade, de Auguste Toulmouche (1829 - 1890)


«Acontece muitas vezes que, depois de termos vivido tempo considerável numa cidade mesmo que a princípio esta possa ter-nos desagradado à medida que nos familiarizamos com os objetos e nos familiarizamos mesmo que apenas com as ruas e edifícios, a nossa aversão diminui gradualmente e por fim transforma-se na paixão contrária. A mente encontra satisfação e à-vontade ao ver os objetos aos quais está habituada e prefere-os naturalmente a outros que, embora talvez em si mais valiosos, lhe são menos conhecidos. A mesma qualidade da mente leva-nos a ter boa opinião de nós próprios e de todos os objetos que nos pertencem. Estes objetos aparecem a uma luz mais forte, são mais agradáveis e por conseguinte mais apropriados do que qualquer outro para se tornarem motivos de orgulho e vaidade.»

David Hume, Tratado da Natureza Humana, Gulbenkian, Lisboa, 2012, pág. 415.

Pintura: Vaidade, de Auguste Toulmouche (1829 - 1890).

sexta-feira, 27 de março de 2020

A mistura do bem e do mal



«O bem e o mal, a felicidade e a miséria, a sabedoria e a tolice, a virtude e o vício estão universalmente amalgamados e misturados. Nada é puro e feito de uma única coisa. Todas as vantagens estão acompanhadas de desvantagens. Uma compensação universal prevalece em todas as condições do ser e da existência. E para nós é impossível, com os nossos desejos mais quiméricos, formar a ideia de um estado ou situação completamente desejável. (…)
Quanto mais delicado é um bem, do qual recebemos uma pequena amostra, mais agudo é o mal que lhe está aliado, e existem poucas exceções a esta uniforme lei da natureza.»

David Hume, Obras sobre religião, “História natural da religião”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2005, pág. 235.

Pintura: Hans Zatzka

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Matriz do 2º teste do 11º ano

David Hume

Ano letivo: 2018/2019

Duração: 90 minutos.

Estrutura: contém itens de escolha múltipla, correspondências, itens de ordenação, itens de resposta curta, itens de resposta restrita e itens de resposta extensa.

Objetivos:

1. Explicar o que é o empirismo.

2. Mostrar como Hume classifica e relaciona os diversos conteúdos mentais.

3. Explicar em que consiste o princípio da cópia.

4. Explicar a rejeição empirista das ideias inatas.

5. Distinguir as questões de facto e as relações de ideias.

6. Discutir a opinião de Hume de que nenhum conhecimento a priori é substancial.

7. Explicar o modo como Hume entende a causalidade.

8. Explicar as objeções à perspetiva de Hume acerca da causalidade

9. Explicar a análise feita por Hume ao problema da indução.

10. Mostrar porque é que David Hume se considera um cético moderado.

11. Comparar a perspetiva racionalista e a perspetiva empirista quanto ao problema da origem do conhecimento.

12. Avaliar e discutir as ideias de David Hume acerca do conhecimento.

Para estudar:

Fotocópias.

Fichas de trabalho enviadas por email.

No blogue Dúvida Metódica:

Cegos que começam a ver: impressões e ideias

O problema da causalidade

A crença na causalidade é instintiva

Sol vai nascer amanhã? Não podemos saber!

Three Minute Philosophy - David Hume e Descartes  (vídeo)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Rebelde sem causa

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Entre um clássico do cinema e um clássico da Filosofia haverá afinidades?

A banda desenhada sobre Hume e outros filósofos poder ser lida AQUI.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Matriz do 4º teste do 11º ano

David Hume

Duração: 90 minutos + 10 minutos de tolerância.

Objetivos:

1. Explicar e discutir as críticas de Hume a Descartes.

2. Mostrar como Hume classifica e relaciona os conteúdos mentais.

3. Explicar em que consiste o princípio da cópia.

4. Explicar a rejeição empirista das ideias inatas.

5. Distinguir as questões de facto e as relações de ideias.

6. Distinguir conhecimento a priori e a posteriori.

7. Discutir a opinião de Hume de que nenhum conhecimento a priori é substancial.

8. Explicar o modo como Hume entende a causalidade.

9. Explicar a objeção à perspetiva de Hume acerca da causalidade segundo a qual a existência de conexões causais é a explicação mais plausível das conjunções constantes.

10. Explicar as objeções de Thomas Reid à perspetiva de Hume acerca da causalidade.

11. Explicar a análise feita por Hume ao problema da indução.

12. Mostrar porque é que David Hume se considera um cético moderado.

13. Comparar a perspetiva racionalista e a perspetiva empirista quanto ao problema da origem do conhecimento.

14. Avaliar e discutir as ideias de David Hume acerca do conhecimento.

Natureza das questões:

Escolha múltipla; identificação e avaliação de exemplos; questões de resposta curta e de resposta extensa.

Para estudar:

No Manual: da pág. 171 à pág. 191. 

PDF’s dados aos alunos.

No blogue Dúvida Metódica:

Links sobre David Hume

sábado, 5 de março de 2016

Como transformar a ignorância numa virtude?

Statue of David Hume by Alexander Stoddart

«Os filósofos que se dão ares de superior sabedoria e confiança têm uma dura tarefa quando se encontram com pessoas de feitio inquiridor, que os expulsam de todos os cantos onde se refugiam e não podem deixar de acabar por os fazer cair em algum dilema perigoso. O melhor expediente para evitar esta confusão é sermos modestos nas nossas pretensões, e até sermos nós mesmos a apontar as dificuldades antes de elas serem apresentadas como objeções contra nós. Podemos por este meio converter nossa a própria ignorância numa espécie de mérito.»

David Hume, Tratados I: Investigação sobre o Entendimento Humano, tradução de João Paulo Monteiro, Lisboa, INCM, 2002, pág. 48.

Na imagem: Estátua de David Hume de Alexander Stoddart, em Edimburgo.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Objeção à teoria da causalidade de David Hume

causa e efeito problema da causalidade objeção a david hume

“Hume conclui que a crença na realidade de conexões causais não tem justificação racional, dado que apenas observamos conjunções constantes. Contudo, há ainda algo que carece de explicação: as próprias conjunções constantes que observamos na natureza. Como explicar tal coisa? A resposta mais plausível é que as conjunções constantes ocorrem precisamente porque há conexões causais na natureza. (…)

A nossa crença na realidade das conexões causais (…) e do mundo exterior está racionalmente justificada, apesar de não haver uma demonstração lógica irrefutável a seu favor [pois é uma explicação plausível e melhor que as explicações alternativas].”

Aires Almeida e outros, A Arte de Pensar – 11º ano, Didáctica Editora, 2008, Lisboa, pág. 165.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A crítica de David Hume a Descartes

david hume caricature gary brown     #      descartes

“Existe uma espécie de ceticismo, anterior a qualquer estudo ou filosofia, muito recomendado por Descartes e outros como sendo a soberana salvaguarda contra os erros e os juízos precipitados. Este cepticismo recomenda uma dúvida universal, não apenas quanto aos nossos princípios e opiniões anteriores, mas também quanto às nossas próprias faculdades, de cuja veracidade, diz ele, devemos nos assegurar por meio de uma cadeia argumentativa deduzida de algum princípio original que seja totalmente impossível tornar-se enganador ou falacioso. Mas nem existe qualquer princípio original como esse, dotado de qualquer prerrogativa sobre outros que são evidentes e convincentes; nem, se existisse, poderíamos avançar um passo além dele, a não ser pelo uso daquelas mesmas faculdades das quais se supõe que já suspeitamos. A dúvida cartesiana, portanto, se jamais fosse capaz de ser alcançada por qualquer criatura humana (o que claramente não é), seria totalmente incurável, e nenhum raciocínio poderia alguma vez nos levar a um estado de segurança e convicção acerca de qualquer assunto.

Deve-se todavia confessar que o ceticismo, quando é mais moderado, pode ser entendido num sentido muito razoável, e constitui uma preparação para o estudo da filosofia, preservando uma adequada imparcialidade nos nossos juízos e libertando-nos o espírito de todos os preconceitos de que possamos ter sido impregnados pela educação ou por opiniões precipitadas.”

David Hume, Tratados I: Investigação sobre o Entendimento Humano, tradução de João Paulo Monteiro, Lisboa, INCM, 2002, pp. 161-162.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A minha vida

O neurologista e escritor Oliver Sacks, ao descobrir que provavelmente lhe restam apenas alguns meses de vida, escreveu este texto, intitulado "A minha vida". O título deve-se a David Hume que também escreveu um texto autobiográfico quando percebeu que estava próximo da morte. Existem vários livros de Oliver Sacks publicados em Portugal, como por exemplo Despertares, Um Antropólogo em Marte e O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu. Vale a pena lê-los, tal como este pequeno texto, por várias razões, sendo uma delas o facto de terem muitas vezes interesse filosófico.

Oliver Sacks jovem Oliver Sacks

«Há um mês sentia-me de boa saúde, de perfeita saúde mesmo. Aos 81 anos ainda nado mais de mil e quinhentos metros por dia. Mas a minha sorte acabou - há poucas semanas fiquei a saber que tenho múltiplas metástases no fígado. Há nove anos descobriu-se que eu tinha um tumor raro no olho, um melanoma ocular. Apesar de a radiação e o tratamento com laser terem acabado por me deixar cego desse olho, só em casos muito raros é que esses tumores metastizam. Eu estou entre os pouco afortunados 2%.

Sinto-me grato por me terem sido concedidos nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O cancro ocupa um terço do meu fígado e, apesar de o seu avanço poder ser retardado, este tipo específico de cancro não pode ser detido.

Agora está na minha mão escolher como viver os meses que me restam. Tenho de viver da forma mais rica, mais profunda, mais produtiva que conseguir. A este respeito sinto-me encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava mortalmente doente aos 65 anos, escreveu uma autobiografia curta num único dia de abril de 1776. Deu--lhe o título de A Minha Vida.

"Antecipo agora um fim rápido", escreveu. "Padeci muito poucas dores com a minha doença; e o que é mais estranho, não obstante o grande declínio da minha pessoa, nunca sofri um momento de abatimento do meu espírito. Possuo o mesmo ardor de sempre no estudo e a mesma alegria na companhia dos outros."

Tive a sorte suficiente para viver para lá dos 80 e os 15 anos que me foram concedidos para além das seis dezenas e meia de Hume foram igualmente ricos em trabalho e em amor. Durante esse tempo publiquei cinco livros e terminei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as poucas páginas de Hume) para ser publicada nesta primavera; tenho vários outros livros quase acabados.

Hume disse ainda: "Sou... um homem de disposição suave, de temperamento controlado, de um humor alegre, aberto e social, capaz de criar laços, mas pouco suscetível a inimizades e de grande moderação em todas as minhas paixões."

Aqui afasto-me de Hume. Apesar de ter vivido relacionamentos amorosos e amizades e não ter verdadeiras inimizades, não posso dizer (nem o dirá qualquer pessoa que me conheça) que sou um homem de disposição suave. Pelo contrário, sou um homem de disposição veemente, com violentos entusiasmos e extrema imoderação em todas as minhas paixões.

E, no entanto, uma linha do ensaio de Hume atinge-me como particularmente verdadeira: "É difícil ser-se mais desligado da vida do que eu sou neste momento", escreveu ele.

Durante os últimos dias fui capaz de ver a minha vida a partir de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem, e com um sentido profundo da ligação de todas as suas partes. Isto não significa que a vida tenha acabado para mim.

Pelo contrário, sinto-me intensamente vivo e quero e espero que no tempo que me resta possa aprofundar as minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se tiver força para tal, atingir novos níveis de compreensão e discernimento.

Isso envolverá audácia, clareza e sinceridade; tentar acertar as minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para me divertir (e até mesmo para algum disparate ainda).

Sinto, de repente, uma perspetiva e um objetivo claros. Não há tempo para nada que não o essencial. Tenho de me concentrar em mim, no meu trabalho e nos meus amigos. Já não verei o noticiário todas as noites. Já não prestarei qualquer atenção à política ou a debates sobre o aquecimento global.

Isto não é indiferença, mas antes desprendimento - ainda me preocupo profundamente com o Médio Oriente, o aquecimento global, a desigualdade crescente, mas estas coisas já não me dizem respeito; pertencem ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos - até mesmo o que fez a biópsia e diagnosticou as minhas metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Nos últimos dez anos tornei-me cada vez mais consciente das mortes entre os meus contemporâneos. A minha geração está de saída e senti cada morte como um descolamento, um arrancar de uma parte de mim. Não haverá ninguém como nós quando desaparecermos, mas também não há ninguém igual a ninguém, nunca. Quando as pessoas morrem, elas não podem ser substituídas. Deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino - o destino genético e neural - de cada ser humano ser um indivíduo único, para encontrar o seu próprio caminho, viver a sua própria vida, morrer a sua própria morte.

Não posso fingir que não tenho medo. Mas o meu sentimento predominante é o de gratidão. Eu amei e fui amado; foi-me dado muito e dei algo em troca; li e viajei e pensei e escrevi. Eu tive uma relação com o mundo, a relação especial entre escritores e leitores.

Acima de tudo, eu tenho sido um ser senciente, um animal pensante neste belo planeta e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e uma enorme aventura.»

Oliver Sacks, “A minha vida” - The New York Times / Diário de Notícias (21-02-2015).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Hume e o problema da indução: vídeos da Kahn Academy

De acordo com o filósofo David Hume (1711-1776), tudo o que sabemos se divide em duas categorias: ou é uma relação de ideias (por exemplo: 2 + 2 =4) ou é uma questão de facto (por exemplo: o céu é azul). O primeiro vídeo explica esta distinção e o segundo analisa o argumento cético de Hume contra a indução.

Estes são dois dos vídeos da Academia Kahn que vale a pena conhecer e utilizar como complemento ao estudo da teoria do conhecimento de Hume.

sábado, 15 de março de 2014

Uma crítica de Hume a Descartes?

image

Tradução: - “A dúvida metódica em três Pontos: 1º tu duvidas, 2º tu duvidas e 3º tu duvidas.

               - Tens a certeza?”

 

O conteúdo deste cartoon pode-se relacionar com a afirmação de Hume de que "a dúvida cartesiana é incurável"?

Porquê?

terça-feira, 11 de março de 2014

Exemplos de inferências causais

"Quando lanço um pedaço de madeira seca numa lareira, o meu espírito é imediatamente levado a conceber que ele vai aumentar as chamas, não que as vai extinguir. Esta transição de pensamento da causa para o efeito não procede da razão […]. E como parte inicialmente de um objeto presente aos sentidos, ela torna a ideia ou conceção da chama mais forte e viva do que o faria qualquer devaneio solto e flutuante da imaginação."

  “(...) por muito que se pense no arrefecimento da água, nunca deduziremos a sua congelação e aquele que nunca tiver visto gelo, achará absurdo que a água ao arrefecer se torne dura e sólida”.

David Hume, «Investigação sobre o Entendimento Humano», in Tratados Filosóficos I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Sol vai nascer amanhã? Não podemos saber!

«(…) a minha experiência de regularidades no passado é tomada como justificação de crenças acerca de coisas de que não tenho experiência. É importante notar que este tipo de raciocínio é apresentado muitas vezes como relativo apenas ao nosso conhecimento do futuro, o que não é correto. Os argumentos indutivos dizem respeito ao futuro, ao presente e ao passado (…)

É importante que estejamos cientes da natureza radical da tese de Hume. Ele argumenta que todo o raciocínio indutivo é inválido: não temos razões a priori ou empíricas para aceitar crenças baseadas em inferências indutivas. Não temos justificação para acreditar que o Sol vai nascer amanhã. O ponto crucial é este: se eu afirmar que o Sol vai nascer amanhã e o meu amigo afirmar que ele se vai transformar num ovo estrelado gigante, a minha crença não é, de acordo com Hume, mais justificada do que a do meu amigo.

Claro que eu não tenho amigo algum que acredite nisso, e Hume tem uma explicação para esse facto. Devido ao “costume” ou ao “hábito”, todos pensamos em termos indutivos. Contudo, este tipo de pensamentos não é justificado; resulta apenas de certas disposições psicológicas que criaturas como nós possuem: “não é, portanto, a razão que é o guia da vida, mas sim o costume” (…). No seu Tratado de 1739, Hume sustenta esta tese fornecendo uma explicação causal rudimentar para o facto de termos as crenças que temos (…). Os animais também têm essas disposições: são guiados pelo costume e esperam que as regularidades que experienciaram continuem. Contudo, como observa Russell (1912), a galinha a que o agricultor dá de comer todos os dias pode ser degolada amanhã. A nossa posição é análoga à da galinha: esperamos que o Sol nasça todas as manhãs tal como a galinha espera o seu alimento, mas nenhum de nós tem qualquer justificação para as nossas crenças ou comportamento.

Uma resposta comum a esta posição céptica é que sabemos que o Sol irá nascer amanhã porque temos uma explicação científica para que tal aconteça, descrevendo o movimento da Terra em relação ao Sol. Aqui, no entanto, podemos ver todo o alcance do argumento de Hume. Chegámos à nossa narrativa através de sucessivas observações astronómicas. A nossa explicação do nascer do Sol é, portanto, indutiva, pelo que está igualmente sujeita ao argumento de Hume. De acordo com Hume, o cientista não pode justificar a sua crença de que a gravidade continuará a manter os corpos celestes nas órbitas que até agora temos observado.»

Dan O´ Brien, Introdução à teoria do conhecimento, Gradiva Editora, Lisboa: 2013, págs. 227-28.

1. Esclareça, a partir de exemplos, o que são argumentos indutivos.

2. Quais são as razões que levam Hume a considerar que os argumentos indutivos não se encontram justificados nem racionalmente nem empiricamente?

3. Explique o título atribuído a este post: “Não podemos saber se o Sol vai nascer amanhã.”

4. As inferências indutivas, para Hume, baseiam-se no hábito ou costume. Explique porquê.

5. Porque motivo a explicação científica do nascimento do Sol não permite ultrapassar as objeções cépticas de Hume?

6.  O cepticismo de Hume quanto à explicação científica dos fenómenos é refutável? Como?

Hume e a relação causa-efeito

“Todos os nossos raciocínios relativos a questões de facto, defende Hume, se baseiam na relação de causa e efeito. Mas como chegamos ao nosso conhecimento das relações causais? (…) Ao olhar apenas para a pólvora, nunca poderíamos descobrir que é explosiva; é preciso experiência para saber que o fogo queima as coisas. Mesmo as mais simples regularidades da natureza não poder estabelecidas a priori porque uma causa e um efeito são dois acontecimentos totalmente diferentes e um não pode ser inferido do outro. Vemos uma bola de bilhar a mover-se na direcção de outra e esperamos que transmita movimento à outra. Mas porquê?

A resposta, obviamente, é que descobrirmos as regularidades da natureza através da experiência. Mas Hume leva a sua indagação mais além. Mesmo depois de termos a experiência das operações de causa e de efeito, pergunta, que bases existem na razão para inferir conclusões dessa experiência? A experiência apenas nos dá informação sobre ocorrências passadas: porque haveria de ser alargada a objectos futuros, que, tanto como sabemos, só se assemelham aos objectos passados na aparência? O pão alimentou-me no passado, mas que razões tenho para acreditar que o irá fazer no futuro?"

Anthony Kenny, Ascenção da Filosofia moderna, Edições Gradiva, Lisboa 2011, págs. 170-171.

A crença nas superstições implica estabelecer nexos causais entre acontecimentos diferentes que não têm qualquer relação entre si. Por exemplo:

Vi um gato preto na rua (causa) e, logo a seguir, parti um pé (efeito).
Tive negativa no teste de Filosofia (efeito) porque este foi realizado numa sexta-feira, dia 13 (causa).

Esta crença em causalidades fictícias tem um fundamento subjectivo (é uma crença irracional do sujeito) e não se baseia nem na experiência nem na razão.

Segundo Hume, as relações causais efectuadas no âmbito do quotidiano e da ciência dependem de factores psicológicos como o hábito e não têm, por isso, uma justificação racional ou empírica. Assim sendo, no âmbito do conhecimento vulgar e do científico, adquirimos a crença que a água vai aquecer com base na experiência passada.

Como é que podemos refutar esta ideia defendida por Hume? Será que podemos mostrar que as explicações científicas estão racionalmente justificadas?

Outros posts sobre a causalidade:

O problema da causalidade

A crença na causalidade é instintiva