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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Para que a história não se repita

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Na disciplina de Sociologia, no âmbito do estudo das metodologias, as alunas Débora Cabrita e Luana Batista, do curso profissional PREC 2, construíram o guião de uma entrevista sobre o tema: “A violência no namoro” e aplicaram-no, dando largas à imaginação.
Vale a pena ver o vídeo, pela informação pertinente e também pela forma viva como ambas a apresentam.

Um pequeno contributo para sensibilizar os mais jovens (e não só) para um problema que afecta muitas pessoas.
 

sexta-feira, 4 de março de 2016

O que é a vontade boa?

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«Na moral, o ponto de partida de Kant é o de que o único bem irrestrito é uma vontade boa. Talento, carácter, autodomínio e fortuna podem ser usados para alcançar maus fins; até mesmo a felicidade pode corromper. O que constitui o bem de uma vontade boa não é o que esta alcança; a vontade boa é um bem em si e por si (...)
Não foi para procurar a felicidade que os seres humanos foram dotados de vontade; para isso, o instinto teria sido muito mais eficiente. A razão foi-nos dada para originar uma vontade boa não enquanto meio para outro fim qualquer, mas boa em si. A vontade boa é o mais elevado bem e a condição de possibilidade de todos os outros bens, incluindo a felicidade.
Que faz, pois, uma vontade ser boa em si? Para responder a esta questão, temos de investigar o conceito de dever. Agir por dever é exibir uma vontade boa face à adversidade. Mas temos de distinguir entre agir de acordo com o dever e agir por dever. Um merceeiro destituído de interesse pessoal ou um filantropo que se deleite com o contentamento alheio podem agir de acordo com o dever. Mas acções deste tipo, por melhores e por mais agradáveis que sejam não têm, de acordo com Kant, valor moral. O nosso carácter só mostra ter valor quando alguém pratica o bem não por inclinação mas por dever — quando, por exemplo, um homem que perdeu o gosto pela vida e anseia pela morte continua a dar o seu melhor para preservar a sua própria vida, de acordo com a lei moral (…).
O que é, pois, agir por dever? Agir por dever é agir em função da reverência pela lei moral; e a maneira de testar se estamos a agir assim é procurar a máxima, ou princípio, com base na qual agimos, isto é, o imperativo ao qual as nossas acções se conformam. Há dois tipos de imperativos: os hipotéticos e os categóricos. O imperativo hipotético afirma o seguinte: se quisermos atingir determinado fim, age desta ou daquela maneira. O imperativo categórico diz o seguinte: independentemente do fim que desejamos atingir, age desta ou daquela maneira. Há muitos imperativos hipotéticos porque há muitos fins diferentes que os seres humanos podem propor-se alcançar. Há um só imperativo categórico, que é o seguinte: "Age apenas de acordo com uma máxima que possas, ao mesmo tempo, querer que se torne uma lei universal" (…).
Kant oferece uma formulação complementar do imperativo categórico. "Age de tal modo que trates sempre a humanidade, quer seja na tua pessoa quer na dos outros, nunca unicamente como meios, mas sempre ao mesmo tempo como um fim." Kant pretende, apesar de não ter convencido muitos dos seus leitores, que este imperativo é equivalente ao anterior e que permite retirar as mesmas conclusões práticas. Na verdade, é mais eficaz do que o anterior para expulsar o suicídio. Tirar a nossa própria vida, insiste Kant, é usar a nossa própria pessoa como um meio de acabar com o nosso desconforto e angústia.»
Anthony Kenny, História Concisa da Filosofia Ocidental, Ed. Temas e Debates.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Direitos humanos e liberdade de expressão

«Três homens vestidos de negro invadiram o hall da sede do semanário Charlie Hebdo, em Paris, com lança-foguetes e kalachnikovs. Há pelo menos 12 mortos, dois dos quais polícias, o diretor da publicação e três ilustradores. Presidente francês apelou à 'união do país' na luta contra o terrorismo: 'Este ato bárbaro nunca vai extinguir a liberdade de imprensa. Nós somos um país unido que vai reagir e não bloquear'.»

Notícia do Jornal Expresso. Vale também a pena ler este artigo de opinião de Henrique Monteiro: Je suis, somos todos, Charlie.

Nos cartoons  deste semanário francês também se caricaturavam outras religiões, a católica por exemplo. Não houve nunca manifestações violentas ou mortes devido a isso.

Porque não haveriam os cartoonistas de poder satirizar a religião islâmica e fazer o mesmo que fazem em relação às outras religiões? Porque é que se deveriam autocensurar neste caso?

Vivemos em países democráticos, onde a liberdade de pensamento e de expressão são direitos fundamentais. Este ataque terrorista é uma tentativa de mostrar que os que acreditam na democracia estão errados. Por isso, todos os cidadãos democratas foram hoje alvo deste ataque e não apenas os jornalistas que foram assassinados. Por isso, não devemos deixar-nos dominar pelo medo e abdicar da nossa liberdade.

No vídeo a seguir apresentado explica-se - em linguagem clara e acessível - o que são direitos humanos. Aconselho o seu visionamento.

No final do vídeo é defendida uma ideia (a mais importante, a meu ver): os direitos humanos só existem, para lá do que está escrito, se cada um de nós os colocar em prática e os respeitar no dia a dia. É bom não esquecer isto!

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O que é a ética?

Elementos de Filosofia Moral

A reflexão acerca dos problemas abordados na ética ou filosofia moral, além de ter um enorme interesse teórico, tem a vantagem de nos fazer repensar as nossas ações e as dos que nos rodeiam.

Que critério podemos utilizar para distinguir uma ação moralmente certa de uma errada?

O que significa uma pessoa ter ética ou não ter ética (uma expressão vulgarmente utilizada no dia a dia)?

O livro "Elementos de Filosofia moral", do filósofo James Rachels, é uma excelente introdução acerca de alguns dos problemas e teorias  mais relevantes desta área de estudo da Filosofia.

Para quem quer saber do que trata a ética, eis uma resposta  possível (que não é uma citação do livro referido, mas se encontra na revista de Filosofia online, Crítica):

«A ética (também chamada filosofia moral) é uma disciplina central da filosofia. Na sua acepção mais abrangente, é o estudo dos princípios que permitem a vida boa. Era esta a acepção de ética dos filósofos da antiguidade grega, como Epicuro ou Aristóteles. Mais tarde, tornou-se comum uma perspectiva mais restritiva da ética, segundo a qual esta estuda a questão de saber como temos o dever de agir. Era neste sentido que, tal como muitos filósofos contemporâneos, Kant e Mill entendiam a ética.

A ética divide-se em três grandes áreas: a metaética, a ética normativa e a ética aplicada.

Em metaética estuda-se a natureza da própria ética. Trata-se de saber qual é a natureza dos juízos éticos; por exemplo, serão os juízos éticos relativos à cultura? Será a acção intrinsecamente egoísta?

Na ética normativa estuda-se dois problemas centrais relacionados: O que é o bem último? O que é uma ação correcta? No primeiro caso trata-se de saber quais são os bens últimos, distinguindo-os cuidadosamente dos bens instrumentais. A felicidade, por exemplo, ou a vontade boa, são candidatos muito discutidos ao título de bens últimos. No segundo caso trata-se de saber o que faz uma acção correcta ser correcta. Por exemplo, será que no que respeita à correcção de uma acção tudo o que conta é as suas consequências? Ou conta também, e sobretudo, a intenção com que foi executada?

A ética aplicada é o estudo dos problemas práticos da ética; por exemplo, será sempre incorrecto fazer um aborto, seja qual for a circunstância?

As palavras “ética” e “moral” são hoje em dia geralmente usadas como sinónimas (mas não o eram por Hegel, no séc. XIX), dado que originalmente o termo latino moralis foi criado por Cícero a partir do termo mores para traduzir o termo grego ethos; e tantomores como ethos significam “costumes.”»

(Aires Almeida e Desidério Murcho, Pensar com os Filósofos)

Texto retirado daqui.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A cigarra, a formiga e os valores

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Quais são os valores a que o cartoon se refere?

Que juízos de valor se podem formular a partir do cartoon?

Qual é, na sua opinião, o juízo de valor verdadeiro? Porquê?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Argumentos contra o racismo

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A imagem foi retirada deste sítio.

«(…) É irónico que, embora o racismo seja uma realidade – e uma realidade chocante - a própria raça seja uma ficção. O conceito de raça não tem fundamento (…).

O racismo findará quando os indivíduos virem os outros apenas em termos individuais. “Não há indicações de ‘branco’ ou ‘negro’ nos cemitérios de guerra”, observou John F. Kennedy – e há uma moral significativa nessa observação.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Gradiva.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Quem não te respeita não te merece

A propósito da relação entre a ação e os valores - um tema do programa do 10º ano - e do modo como as nossas ideias podem influenciar as nossas escolhas e o modo como agimos, vale a pena ver um vídeo contra a violência da campanha da  APAV intitulado: "Quem não te respeita não te merece".

Alguns problemas como o bullying e a violência no namoro decorrem de ideias erradas partilhadas e seguidas acriticamente por alguns jovens (e também adultos). Todavia, o conformismo e o facto de alguns adolescentes seguirem, sem questionar, algumas ideias feitas e preconceitos não significa que não se possam mudar atitudes e comportamentos. Porém, para isso acontecer, é preciso que as vítimas dos abusos tenham noção do que está mal e de quais são as ideias certas a seguir.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Quais são as acções que têm valor moral?

Ficha de trabalho - 10ºano

Indique o número correspondente a cada uma das alíneas:

  1. Acção praticada contra o dever.
  2. Acção praticada por dever.
  3. Acção praticada em conformidade com o dever – por interesse.
  4. Acção praticada em conformidade com o dever – motivada por sentimentos.

A. O Godofredo obedece à norma moral: “não roubar” apenas por medo de ser preso.

B. Não minto porque se o fizer, arrisco-me a que o meu namorado já não goste de mim.

C. Há adolescentes que se divertem a maltratar mendigos na rua.

D. Para ganhar o jogo fiz batota.

E. O Abelardo ajudou uma pessoa que se encontrava doente na expectativa de receber uma recompensa pelo seu incómodo.

F. Ajudo um mendigo na rua apenas por ter pena dele.

G. A Guilhermina resolveu falsificar a sua assinatura num cheque para poder ficar com o dinheiro.

H. A Tristana faz doações para acções de caridade apenas para aumentar a sua popularidade entre os amigos.

I. Aristides de Sousa Mendes e Oskar Schindler, durante a segunda guerra mundial, salvaram muitos judeus, fazendo o que consideravam correcto e não o que era mais fácil fazer, nem o que lhes traria mais benefícios.

J. O Gregório é contra a pena de morte por considerar que a vida humana é um valor em si e por isso deve ser respeitada de modo incondicional.

Bom trabalho!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Valores do século XXI

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                                                                                                                       Quino

Uma caricatura do presente ou uma descrição fiel da realidade?

 Nota: Agradeço à minha colega Cláudia Benedito o envio destes cartoons do genial Quino.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Devemos mentir para salvar a vida de um amigo? – Não, diz Kant (2)

Kant defende que a proposição “deve-se dizer a verdade” deve ser posta em prática em qualquer circunstância. De acordo com a primeira formulação do imperativo categórico – que é um critério distintivo do que é moralmente certo e do que é moralmente errado -, dizer a verdade é uma acção universalizável; e, de acordo com a segunda formulação desse imperativo, trata-se de uma acção que não instrumentaliza as pessoas e em que estas são consideradas fins em si mesmas e não apenas meios.

Deste modo, a norma: “deves dizer a verdade” é um princípio moral objectivo, independente da situação, dos desejos particulares do agente e das consequências possíveis da sua aplicação.

Esta ideia do valor moral da acção depender da obediência a uma regra vinculativa para todas as pessoas, aplicada de modo imparcial, pode também ser encontrada no senso comum, por exemplo na expressão: “agir sem segundas intenções”. Significa isto que ser honesto apenas por interesse, para receber algo em troca, pode ser sinónimo, na linguagem comum, de instrumentalizar as outras pessoas, de realizar uma acção incorrecta ou pelo menos de valor duvidoso.

Na perspectiva kantiana, a moralidade da acção depende da intenção ou motivo. Os seres humanos, por serem racionais, são dotados de consciência moral e, por isso, podem compreender que determinados princípios morais (como não mentir, não matar, dizer a verdade) são deveres incondicionais e absolutos. Há também a possibilidade de, enquanto seres sensíveis que somos, seguirmos os nossos sentimentos e inclinações sensíveis. Contudo, cabe à vontade, em vez de se orientar por desejos ou necessidades particulares, subordinar-se apenas a motivações racionais e agir exclusivamente por respeito ao dever, praticando o bem pelo bem.

Que razões poderão justificar que não se minta, mesmo para salvar a vida de um amigo?

O contra-exemplo apresentado, conhecido como a pergunta do assassino, é uma situação concreta que pretende mostrar que a proposição “deve-se dizer sempre a verdade” não é verdadeira, ao contrário do que Kant diz.

Este argumenta que, mesmo nessa circunstância extrema, o princípio moral universal não deve ser posto em causa, pois o dever da verdade é o fundamento de muitos outros deveres. Estes deixariam de fazer sentido se a mentira fosse moralmente admissível. Por exemplo: que sentido faria a exigência, em termos morais, de sermos justos ou leais se não considerássemos a verdade como um valor fundamental?

Na perspectiva kantiana, a responsabilidade moral deve depender apenas de aspectos racionais que se encontram ao alcance da vontade – como é o caso da intenção. Quando se faz depender o valor moral da acção do sentimento de compaixão ou das consequências consideram-se factores que não são controláveis pelo agente.

Assim, devemos dizer a verdade ao assassino, pois não é possível prever se as consequências da mentira serão, de facto, boas como desejaríamos. Kant salienta que, por mais bem-intencionada que seja a mentira, nada nos garante que conseguiremos alcançar os efeitos desejados. Por outro lado, caso as consequências da mentira sejam negativas, teremos de assumi-las moral e juridicamente.

Todavia, este contra-exemplo (e outros de natureza semelhante em que existe um conflito de deveres) constitui uma forte objecção à ética kantiana. Sentimos como “imoral” considerar o dever de dizer a verdade como mais importante que o dever de salvar uma vida. A aplicação cega de um princípio moral abstracto – dizer a verdade – sem ter em conta as consequências possíveis – pôr fim à vida de alguém – faz-nos colocar a questão de saber se, caso a morte do nosso amigo ocorra por dizermos a verdade, não teremos igualmente responsabilidade moral?

No entanto, Kant parece não considerar a existência de responsabilidade moral pelas consequências de dizer a verdade.

Face à resposta kantiana, experienciamos uma dificuldade comparável, julgo eu, à constatação feita por um amigo meu (aquando da morte de um familiar próximo): há uma enorme diferença entre o que lemos nos livros sobre a perda e o facto de perdermos alguém de quem gostávamos muito. As teorias podem-nos ajudar a compreender os factos, mas estes não se deixam encerrar nelas.

Porém, apesar da eficácia maior ou menor dos contra-exemplos enquanto meios de refutação, uma perplexidade subsiste: como é possível defender uma teoria ética onde se admitam excepções a princípios morais, como o dever de não mentir, salvaguardando a sua aplicação a certas situações particulares? A exigência de universalidade dos princípios morais não será, como salienta Kant, incompatível com a existência de excepções? Como poderemos saber se numa dada situação aquilo que nos leva a mentir é um “suposto amor à humanidade” e não o nosso amor-próprio?

Como conciliar estas duas ideias, aparentemente, contraditórias: a exigência da moralidade depender da aplicação imparcial de determinados princípios universais e a necessidade de, em termos práticos, admitirmos excepções a esses princípios?

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Subjectivismo moral (3): Haverá provas em ética?

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Para mais informações sobre este livro ver aqui e aqui.

«Se o subjectivismo ético [ou moral] não é verdadeiro, porque razão se sentem algumas pessoas atraídas por ele? Uma das razões tem que ver com o facto de a ciência fornecer o nosso paradigma de objectividade, e quando comparamos a ética à ciência, à ética parecem faltar as características que tornam a ciência tão irresistível. Por exemplo: a inexistência de provas em ética parece uma grande deficiência. Podemos provar que o mundo é redondo, que não existe o maior número primo e que os dinossauros viveram antes dos seres humanos. Mas poderemos provar que o aborto é certo ou errado?

A ideia geral de que os juízos morais não se podem provar é apelativa. Qualquer pessoa que já tenha debatido um tema como o aborto sabe como pode ser frustrante tentar “provar” que o seu ponto de vista é correcto. No entanto, se examinarmos esta ideia mais de perto, revela-se dúbia (…).

É fácil imaginar (…) exemplos:

Jones é um homem mau. Tem o hábito de mentir; manipula as pessoas; engana-as quando pensa poder fazê-lo sem ser descoberto; é cruel com os outros e assim por diante;

Uma determinada vendedora de automóveis é desonesta. Esconde defeitos dos automóveis; aproveita-se de pessoas sem recursos pressionando-as a pagar preços exorbitantes por automóveis que sabe terem problemas; coloca anúncios publicitários enganadores em qualquer jornal que aceite publicá-los e assim por diante.

(…) Se uma das nossas razões para afirmar que Jones é um homem mau é ele mentir habitualmente, podemos prosseguir e explicar porque motivo mentir é mau. Mentir é mau, primeiro porque prejudica as pessoas. Se alguém dá uma falsa informação a outra pessoa e essa pessoa confiar nela, as coisas podem correr mal de diversas maneiras. Segundo, mentir é mau por ser uma violação da confiança. Confiar noutra pessoa significa ficarmos vulneráveis e desprotegidos. Quando se confia em alguém, acredita-se simplesmente no que essa pessoa diz, sem tomar precauções; e quando uma pessoa mente aproveita-se da nossa confiança. É por isso que ser enganado constitui uma ofensa tão íntima e pessoal. Por fim, a regra exigindo que não se minta é necessária para a sociedade poder existir - se não pudéssemos partir do princípio que as outras pessoas dirão a verdade, a comunicação tornar-se-ia impossível e, se a comunicação fosse impossível, a sociedade seria impossível.

Portanto, podemos apoiar os nossos juízos em boas razões, e podemos oferecer explicações do porquê de essas razões terem importância. Se podemos fazer tudo isto, (…) que mais “provas” poderia alguém desejar? É absurdo afirmar que os juízos éticos não podem ser mais do que “meras opiniões” (…).

Por fim, é fácil misturar duas coisas que são na realidade muito diferentes:

1. Provar a correcção de uma ideia;

2. Persuadir alguém a aceitar as nossas provas.

Podemos ter um argumento exemplar que alguém recusa a aceitar. Mas isso não significa que tenha de estar alguma coisa errada com o argumento ou que a “prova” seja, de alguma forma, inatingível. Pode apenas significar que alguém está a ser teimoso. Quando isto acontece não devemos surpreender-nos. Em ética é de esperar que as pessoas por vezes se recusem a dar ouvidos à razão. Afinal de contas, a ética pode exigir a realização de coisas que não queremos fazer, sendo, pois, muito previsível que tentemos evitar ouvir as suas exigências.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp. 68-71.

Outras passagens deste livro podem encontrar-se neste blogue aqui.

Subjectivismo moral (2): Será a ética subjectiva?

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Esta fotografia da NASA foi retirada daqui.

«Um juízo moral - ou qualquer outro tipo de juízo de valor - tem de ser apoiado em boas razões. Se alguém disser que uma determinada acção seria errada, pode-se perguntar porque razão seria errada e, se não houver uma resposta satisfatória, pode-se rejeitar esse conselho por ser infundado. Neste aspecto, os juízos morais são diferentes de meras expressões de preferência pessoal. Se alguém diz “Eu gosto de café”, não necessita de ter uma razão para isso; poderá estar a declarar o seu gosto pessoal e nada mais. Mas os juízos morais requerem o apoio de razões, sendo, na ausência dessas razões, meramente arbitrários.

Qualquer teoria adequada da natureza da avaliação moral deveria, portanto, ser capaz de dar conta das relações entre os juízos morais e as razões que os sustentam (…).

Hume sublinhava que se examinarmos as acções malévolas - “homicídio voluntário por exemplo” - não encontramos “matéria de facto” que corresponda à maldade (…). Esta tomada de consciência tem frequentemente sido entendida como motivo de desespero, porque as pessoas presumem que isto deve significar que os valores não têm um estatuto “objectivo”. Mas porque razão deveria a observação de Hume surpreender-nos? Os valores não são o tipo de coisas que possam existir como existem as estrelas e os planetas (Concebido desta maneira, qual seria o aspecto de um “valor”?) Um erro fundamental no qual incorrem muitas pessoas quando pensam sobre este assunto é partir do princípio de que há apenas duas possibilidades:

1. Há factos morais da mesma maneira que há factos sobre estrelas e planetas; ou

2. Os nossos valores não são mais do que a expressão dos nossos sentimentos subjectivos.

Isto é um erro porque descura uma terceira possibilidade crucial. As pessoas não têm apenas sentimentos, têm também razão, e isso faz uma grande diferença. Pode pois ser que

3. As verdades morais são verdades da razão; isto é, um juízo moral é verdadeiro se for sustentado por razões melhores que os juízos alternativos.

Assim, se quisermos entender a natureza da ética, devemos atentar nas razões. Uma verdade em ética é uma conclusão apoiada em razões: a resposta correcta a uma questão moral é simplesmente a resposta que tem do seu lado o peso da razão. Tais verdades são objectivas no sentido em que são verdadeiras independentemente do que possamos querer ou pensar. Não podemos tornar algo bom ou mau pelo simples desejo de que seja assim (…). Isto explica igualmente a nossa falibilidade: podemos enganar-nos sobre o que é bom ou mau porque podemos estar enganados sobre o que a razão recomenda. A razão diz o que diz, alheia às nossas opiniões e desejos.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp. 65-67.

 

quinta-feira, 5 de março de 2009

“Mentiras boas” e outras objecções à ética kantiana

Judeus num campo de concentração nazi, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Kant considera que o valor moral da acção depende da submissão da vontade a motivos de ordem racional: agir apenas por dever, isto é por respeito à lei moral (fazer apenas aquilo que é universalizável e não instrumentaliza as pessoas).

Todavia, em muitas circunstâncias, agimos por outras motivações, nomeadamente sentimentais ou afectivas, e não por simples respeito ao dever. E sentimos que está certo ter essas motivações afectivas e seria errado e “desumano” não as ter.

Se o valor moral da acção depende exclusivamente da intenção (a que apenas cada pessoa tem acesso) e não das consequências do acto praticado, como podemos saber se esta esconde ou não motivos egoístas? Se Kant tiver razão, no limite, não poderemos avaliar o valor moral das acções das outras pessoas.

A lei moral diz respeito apenas à forma como devemos agir em qualquer situação. No entanto, quando existe um conflito de deveres, há situações em que a aplicação da lei moral se revela problemática – durante a Segunda Guerra Mundial os pescadores holandeses mentiam aos nazis para proteger os judeus, que levavam escondidos, possibilitando que estes acedessem a um país neutral e assim pudessem salvar a vida (1). Neste caso as consequências não terão importância? Os pescadores deveriam obedecer à lei moral e dizer a verdade? Parece profundamente errado responder que sim. Neste caso, a mentira parece ser algo moralmente correcto, aquilo que em Inglês se chama “white lie”.

Que outras razões podemos apresentar para discordar de Kant?

Ou, pelo contrário, terá este filósofo razão?

(1) Este exemplo é apresentado por James Rachels no livro Elementos de Filosofia moral (Edições Gradiva, pág. 184) uma excelente leitura para quem quiser discutir o ponto de vista de Kant. Este livro existe na Biblioteca da escola.