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domingo, 27 de novembro de 2016

Um homem livre que não acreditava no livre-arbítrio

Clarence Darrow

O advogado norte-americano Clarence Darrow (1856-1938) defendia que não existe livre-arbítrio. Curiosamente, muitas das suas ações parecem ser (pelo menos aos olhos de um defensor do livre-arbítrio) exemplos lapidares de liberdade.

Os pais de Richard Loeb e Nathan Leopold - dois adolescentes de Chicago que raptaram e assassinaram um rapaz contra o qual nada os movia, “apenas para provar que conseguiam fazê-lo”1 – contrataram Clarence Darrow para os defender. Loeb e Leopold já tinham admitido ser culpados, pelo que, de acordo com a legislação vigente, teriam de ser condenados ou à prisão perpétua ou à pena de morte. Darrow, que era um conhecido adversário da pena de morte, conseguiu que os rapazes fossem apenas condenados a prisão perpétua. A sua argumentação baseou-se na seguinte ideia: não existe livre-arbítrio e, portanto, Loeb e Leopold não foram responsáveis pelo que fizeram.

Noutro caso judicial célebre em que participou estavam envolvidos o líder de um sindicato de ferroviários e uma companhia de comboios. Inicialmente Darrow era advogado dessa companhia, mas demitiu-se para poder defender o sindicalista no tribunal, tendo perdido bastante dinheiro com a troca, pois este pagava-lhe muito menos que a companhia ferroviária. Darrow valorizava o dinheiro e quando os seus clientes podiam pagar cobrava honorários elevados, mas também defendeu muitas pessoas pro bono (gratuitamente) ou por pouco dinheiro. 2

«Darrow era conhecido como o paladino das causas impopulares – defendeu sindicalistas, comunistas e um negro acusado de ter morto um membro de uma turba racista. No seu caso mais famoso defendeu John Scopes, do Tennessee, da acusação de ter ensinado a [teoria da] evolução numa aula do ensino secundário. (…) Em 1902, tendo sido convidado pelo diretor da Prisão de Cook County para dar uma conferência aos presidiários disse-lhes o seguinte:

Na verdade, não acredito minimamente no crime. No sentido habitual da palavra, não existem crimes. Não acredito em qualquer distinção entre as verdadeiras condições morais das pessoas que estão dentro e das que estão fora da prisão. São iguais. Do mesmo modo que as pessoas que estão aqui dentro não poderiam ter evitado estar aqui, as pessoas que estão lá fora também não poderiam ter evitado estar lá fora. Não acredito que as pessoas estejam na prisão porque o mereçam. Estão na prisão apenas porque não puderam evitá-lo, devido a circunstâncias que ultrapassam inteiramente o seu controlo e pelas quais não são minimamente responsáveis.» 3

Notas:

1 James Rachels, Problemas da Filosofia, Gradiva, Lisboa, 2009, pág. 155.

2 Wikipédia, “Clarence Darrow”: https://pt.wikipedia.org/wiki/Clarence_Darrow

3 James Rachels, op. cit., pág. 156.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Problemas da Filosofia

Problemas da Filosofia, de James Rachels

Tradução de Pedro Galvão

Revisão científica de Aires Almeida

Gradiva, maio de 2009, 337 pp.

James Rachels Problemas da Filosofia

Reli há semanas os dois capítulos de Problemas da Filosofia dedicados ao livre-arbítrio para me ajudar a preparar algumas aulas, mas depois não resisti e reli vários outros capítulos. Entre outros temas, o livro fala também de Deus, da identidade pessoal, da inteligência artificial e do sentido da vida.

Porque é que este livro é tão bom e irresistível?

Como outros livros da coleção Filosofia Aberta, é um livro introdutório de grande qualidade, que alia o rigor filosófico e a simplicidade, sendo suficientemente claro para ser entendido por pessoas que nunca tenham lido nada acerca dos assuntos que aborda. Contudo, é um livro introdutório ainda melhor que os outros.

Problemas da Filosofia está muito bem escrito, mesmo de um ponto de vista literário. James Rachels escreve de maneira envolvente e cria um interesse crescente no leitor – que quer chegar depressa ao final do capítulo para ver se o problema tem solução, à semelhança do leitor de um policial que quer descobrir quem é o criminoso. Poderá uma máquina realmente pensar? Os argumentos a favor da existência de Deus serão ou não mais fortes que os argumentos contrários? Afinal, a ética é ou não objetiva?

Alguns filósofos, mesmo em artigos ou livros introdutórios, discutem os problemas filosóficos de maneira um pouco seca e genérica. Por exemplo, no caso do livre-arbítrio, para discutir se as nossas ações são ou não livres, falam genericamente das leis da natureza e dos acontecimentos passados e depois mergulham rapidamente nas teorias. James Rachels, contudo, além de dar exemplos do dia a dia muito cativantes (veja-se, na pág. 195, o exemplo da amiga cinéfila que, como ele previra, prefere Os Despojos do Dia a McQuade, o Lobo Solitário), apela aos conhecimentos da Biologia, da Psicologia, da Sociologia e de outras ciências e analisa factos da natureza e da sociedade para averiguar se podem ou não determinar as nossas ações. De modo conciso mas esclarecedor, descreve, por exemplo, os estudos com gémeos idênticos, os efeitos do óxido nítrico (um neurotransmissor), a taxa de presidiários dos EUA e algumas experiências clássicas da psicologia social (nomeadamente a célebre experiência de Milgram sobre a obediência).

Rachels tem essa abordagem em todo o livro. Por exemplo, ao discutir se a existência de um Deus bom e omnipotente é compatível com a existência de tanto mal no mundo, em vez de falar genericamente de sofrimento refere concretamente doenças como o Ébola e a epidermólise bolhosa, “uma doença de pele genética que provoca bolhas por todo o corpo, de tal forma que o bebé não pode ser agarrado ou mesmo ficar deitado de costas sem sentir dor” (pág. 58).

Os problemas filosóficos são concetuais e não empíricos, mas isso não significa que alguns dados empíricos não possam contribuir para os esclarecer e, eventualmente, solucionar. Por isso, essa abordagem não é uma exibição gratuita de erudição. James Rachels justifica-a deste modo impressivo:

“Alguns filósofos acreditam que a filosofia é uma investigação ‘pura’ que pode ser desenvolvida à margem das ciências. Não partilho esta ideia. A melhor forma de abordar os problemas da filosofia é usar todos os recursos disponíveis. W. V. Quine observou uma vez que ‘O universo não é a universidade’. A divisão da investigação humana em disciplinas distintas pode ser útil para organizar os departamentos académicos, mas tem pouco interesse quando estamos a tentar descobrir como é o mundo. Neste livro irá encontrar referências à biologia, à psicologia, à história e até às descobertas do Espantoso Randi. Tudo isto faz parte de um único projeto - a tentativa humana de compreender o mundo e o lugar que nele ocupamos.” (pág. 12)

A propósito da ética Rachels diz que em qualquer questão difícil “há muito a dizer a favor de ambos os lados” (pág. 250). Talvez se possa dizer o mesmo de todo e qualquer problema filosófico: há boas ideias em qualquer um dos lados da controvérsia. Além disso, como os problemas filosóficos têm sido discutidos ao longo da história por pessoas muito inteligentes ou mesmo geniais, é fácil ficar impressionado com os argumentos e explicações de qualquer um dos lados. Por isso, são frequentes as introduções à filosofia que se limitam a expor as diferentes perspetivas filosóficas, esquecendo uma questão essencial: quem tem razão?

James Rachels, pelo contrário, não desiste de comparar as teorias e argumentos na tentativa de mostrar quem tem razão, embora não seja simplista na avaliação e pese bem os argumentos de ambos os lados. Vários capítulos têm uma conclusão em que é feito um balanço, uma avaliação da discussão do problema, mas, mesmo nos capítulos em que não há uma conclusão explícita, o autor não deixa de comparar as teorias e de fazer uma avaliação da sua plausibilidade – com imparcialidade, de modo equilibrado e não tendencioso. Claro que outros autores e alguns leitores poderão discordar das suas avaliações e conclusões, mas o facto de as apresentar ajuda o leitor a pensar filosoficamente e a formar as suas próprias ideias.

Esse procedimento crítico inicia-se, com algum simbolismo, logo no capítulo inicial, intitulado “O legado de Sócrates”, em que James Rachels, além de descrever as circunstâncias em que este foi condenado à morte, analisa os argumentos que o levaram a aceitar essa condenação e a preferir a morte ao exílio. Rachels considera esses argumentos fracos. Sócrates é, para muitas pessoas, uma personificação da própria filosofia, mas isso não impede Rachels de o criticar: “nenhum dos argumentos prova que Sócrates tinha de beber a cicuta. Mas isto deixa-nos com uma questão embaraçosa: como pôde Sócrates ter cometido um erro tão desastroso?” (pág. 24) Ao criticar Sócrates, James Rachels não está a menosprezá-lo mas sim a continuar a tradição socrática de discutir livre e imparcialmente ideias (que é, justamente, uma das características mais marcantes da filosofia). No fundo, tanto nesse capítulo como no resto do livro, James Rachels seguiu um conselho que, segundo Platão conta, Sócrates terá dado aos amigos com quem debatia:

“Se querem um conselho, preocupem-se pouco com Sócrates e muito mais com a verdade! Se vos parecer que o que eu digo é verdadeiro, pois dêem-me razão; caso contrário, apresentem-me tudo o que têm a objetar.” 1

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1 Platão, Fédon, 91c, tradução de Maria Teresa Schiappa Azevedo, 5ª edição, Lisboa Editora, 1997, pág. 88.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O ponto de vista do senso comum sobre a ética é relativista ou objetivista?

«Quando julgamos algo como um bem ou um mal não pensamos que estamos apenas a dar livre expressão às nossas emoções — se fosse essa a nossa vontade, bastava apenas dizer se gostamos disso ou não. Nem nos vemos simplesmente a aplicar os padrões da nossa sociedade — apesar de tudo, sabemos que os padrões da nossa sociedade podem estar errados. Em vez disso, queremos afirmar algo que seja objetivamente verdadeiro, independente dos nossos sentimentos ou dos padrões da nossa sociedade. (...) Pensamos, por exemplo, que a escravatura é uma injustiça e que quem pensa o contrário tem de estar enganado. Mas não é fácil defender este ponto de vista do senso comum.»

James Rachels, “A questão da objetividade em ética”, Crítica - http://criticanarede.com/fil_objectietica.html

James Rachels considera que esta concepção objetivista da ética é “a nossa compreensão comum da ética”, o “ponto de vista do senso comum” que se opõe ao subjetivismo e ao relativismo cultural  (ele tenta defender filosoficamente o objetivismo).

Contudo, pelo que tenho observado ao longo de anos nas aulas, os alunos – antes de estudarem filosofia e alguns até depois – defendem espontaneamente o subjetivismo e o relativismo cultural e resistem ao objetivismo. Aliás, não são só os alunos que parecem pensar assim: o “isso é subjetivo” e o “aquilo é relativo” estão muitas vezes na ponta da língua de muito boa gente. Afinal, o ponto de vista do senso comum sobre a ética é relativista ou objetivista? Como é óbvio, qualquer um desses pontos de vista  pode ser – e tem sido – defendido filosoficamente. Mas qual será o mais próximo do senso comum?

escravatura

sábado, 17 de agosto de 2013

Para termos amigos temos de saber ser amigos

fotografia de Pierre Verger 

«Se fosse preciso provar que os seres humanos são essencialmente criaturas sociais , a existência da amizade fornecer-nos-ia tudo o que desejássemos. Como afirmou Aristóteles: “Ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo que tivesse todos os outros bens”. (…)

Os amigos prestam auxílio, mas os benefícios da amizade vão muito além da assistência material. Sem amigos, estaríamos psicologicamente perdidos. Os nossos triunfos parecem vazios a menos que tenhamos amigos para os partilhar, e os nossos fracassos tornam-se suportáveis graças à sua compreensão. Até mesmo o nosso amor-próprio depende em grande medida das garantias dos amigos: ao retribuírem o nosso afeto, confirmam o nosso valor como seres humanos.

Se necessitamos de amigos, necessitamos igualmente das qualidades de caráter que nos capacitam para ser amigos. No topo da lista está a lealdade. Os amigos são pessoas com quem se pode contar. Apoiam-se mutuamente mesmo quando as coisas ficam feias, ou mesmo quando, falando objetivamente, o amigo merecia ser abandonado. Fazem concessões entre si; perdoam ofensas e refreiam juízos mais duros. Há limites, naturalmente. Por vezes, um amigo será a única pessoa capaz de nos dizer as verdades mais duras sobre nós mesmos. Mas as críticas são aceitáveis da parte de amigos porque sabemos que as sua repreensão não significa rejeição (…).

Todos precisam de amigos, e para termos amigos temos de saber ser amigos; por isso, todos precisamos de lealdade.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pp 255-256, 260.

(Fotografia de Pierre Verger)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A filosofia pode mudar o mundo?

as ideias podem mudar o mundo

«Os filósofos gostam de pensar que as suas ideias podem mudar o mundo. Geralmente, trata-se de uma vã esperança: escrevem livros que são lidos por pensadores como eles, enquanto o resto da humanidade prossegue o seu caminho, indiferente. Algumas vezes, uma teoria filosófica pode, no entanto, alterar a forma como as pessoas pensam.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pág. 135.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Algumas regras morais são universais

Há «valores que têm de ser mais ou menos universais. Imagine-se o que seria uma sociedade que não valorizasse a verdade. Quando uma pessoa falasse com outra, não poderia partir-se do princípio de que estaria a dizer a verdade, pois poderia facilmente estar a mentir. Nessa sociedade não haveria qualquer motivo para dar atenção ao que os outros dizem. (Pergunto que horas são e alguém responde “quatro horas”. Mas não posso presumir que a pessoa está a dizer a verdade; poderia facilmente ter dito a primeira coisa que lhe tivesse passado pela cabeça. Não tenho, pois, qualquer razão para dar atenção à sua resposta. De facto, não faz qualquer sentido ter-lhe sequer perguntado.) A comunicação seria então extremamente difícil, senão mesmo impossível. E uma vez que as sociedades complexas não podem existir sem comunicação entre os seus membros, a vida em sociedade tornar-se-ia impossível. Daqui se conclui que em qualquer sociedade complexa tem de haver uma presunção em favor da boa-fé. Pode haver exceções a esta regra: pode haver situações nas quais se considere permissível mentir. No entanto, estas serão exceções a uma regra que está em vigor na sociedade. (…)

Há aqui uma conclusão teórica geral, a saber, há algumas regras morais que todas sociedades têm em comum, pois essas regras são necessárias para a sociedade poder existir. As regras contra a mentira e o homicídio são dois exemplos disso, pois, de facto, encontramos estas regras instituídas em todas as culturas viáveis. As culturas podem diferir relativamente ao que encaram como exceções legítimas às regras, mas esta discordância existe contra um acordo de fundo nas questões fundamentais. Logo, é um erro sobrestimar as diferenças entre culturas. Nem todas as regras morais podem variar de sociedade para sociedade.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pp. 46-47.

Elementos de Filosofia Moral de James Rachels

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Quanto mal é necessário?

 criança com epidermólise bolhosa

Criança com epidermólise bolhosa

Se Deus existe e é bom e omnipotente, como explicar a existência de mal no mundo? De modo resumido, esta questão apresenta o chamado problema do mal (veja aqui uma formulação mais extensa e explícita).

Alguns filósofos religiosos, tentando solucionar esse problema, afirmam que caso não existisse mal não conseguíamos reconhecer e apreciar o bem, pois muitas vezes compreendemos e valorizamos as coisas boas comparando-as com as coisas más. Por exemplo: percebemos melhor o valor da democracia se soubermos o que é uma ditadura, damos valor à saúde se soubermos como é difícil estar doente, etc.

Afirmam também que, se o mal não existisse, não teríamos oportunidade de desenvolver o nosso carácter moral, pois se não existissem situações más e difíceis para enfrentarmos não existiriam também virtudes como a coragem, a perseverança ou a generosidade, uma vez que estas são reacções aos problemas e dificuldades que surgem. Dito por outras palavras: num mundo perfeito e sem mal, seriamos pessoas com menos valor.

Mas, mesmo que admitamos que essas afirmações são verdadeiras, isso não dissipa as dúvidas em relação a Deus e não resolve o problema do mal. A existência de algum mal pode ser de facto necessária para apreciarmos o bem e desenvolvermos o nosso carácter moral - mas seria necessário tanto mal para conseguir esses efeitos? Admitamos, por exemplo, que é necessário existirem males como as violações sexuais e as doenças. (Como é evidente, às violações e às doenças poderíamos acrescentar muitas outras coisas: fome, catástrofes naturais, roubos, guerras, etc.) Contudo, não bastaria que fossem violadas pessoas adultas? Um Deus realmente bom desejaria que os efeitos referidos fossem alcançados sem ser necessário que crianças pequenas fossem também violadas e caso fosse realmente omnipotente conseguiria que tal sucedesse.

mãos de criança com epidermólise bolhosa Informacao-Voce-conhece-EB-Os-meninos-borboletas Quanto às doenças, um Deus realmente bom e omnipotente conseguiria certamente dar as lições de vida necessárias sem recorrer a tantas e tão dolorosas enfermidades. Como escreveu James Rachels, “se, por exemplo, o número de pessoas que morrem de cancro por ano fosse reduzido para metade, isso seria ainda suficiente para nos fazer apreciar a saúde. E, com já temos de lidar com o cancro, não precisamos da SIDA, da distrofia muscular, da paralisia cerebral, da espinha bífida, da difteria, do Ébola, das doenças cardíacas, da doença de Alzheimer, da peste bubónica e da epidermólise bolhosa (uma doença de pele genética que provoca bolhas por todo o corpo, de tal forma que o bebé não pode ser agarrado ou mesmo ficar de costas sem sentir dor)” [adaptado, pp. 58 e 60].

A existência desse mal excessivo e desnecessário sugere, portanto, que ou Deus não existe ou existe mas não tem todas as características que lhe são habitualmente atribuídas, nomeadamente a bondade e a omnipotência. Ou não?

 

Bibliografia:

James Rachels, Problemas da Filosofia, Gradiva, Lisboa, 2009.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Objectivismo Moral

Muitos filósofos defendem que a ética é objectiva e que o valor de verdade dos juízos morais é independente quer das preferências e sentimentos pessoais quer dos costumes sociais. Defendem também que a ética é independente da religião e que a verdade ou falsidade dos juízos morais não deriva da vontade de Deus. Discordam portanto do Subjectivismo Moral, do Relativismo Moral Cultural e da Teoria dos Mandamentos Divinos.

Mas, se os juízos morais são independentes dos sentimentos, dos costumes sociais e da vontade divina, baseiam-se em quê? Segundo os objectivistas morais, baseiam-se na razão, ou seja, na capacidade humana de “raciocinar, compreender, ponderar, ajuizar, etc.” (1) - numa palavra, na capacidade de pensar. Ao pensar sobre questões morais como o aborto, a mentira ou a pena de morte, não nos limitamos a emitir juízos, tentamos também justificar esses juízos através das melhores razões que conseguirmos descobrir.

Nas palavras do filósofo James Rachels:

«Um juízo moral - ou qualquer outro tipo de juízo de valor - tem de ser apoiado em boas razões. Se alguém disser que uma determinada acção seria errada, pode-se perguntar porque razão seria errada e, se não houver uma resposta satisfatória, pode-se rejeitar esse conselho por ser infundado. Neste aspecto, os juízos morais são diferentes de meras expressões de preferência pessoal. Se alguém diz “Eu gosto de café”, não necessita de ter uma razão para isso; poderá estar a declarar o seu gosto pessoal e nada mais. Mas os juízos morais requerem o apoio de razões, sendo, na ausência dessas razões, meramente arbitrários. (…)

As verdades morais são verdades da razão; isto é, um juízo moral é verdadeiro se for sustentado por razões melhores que os juízos alternativos.

Assim, se quisermos entender a natureza da ética, devemos atentar nas razões. Uma verdade em ética é uma conclusão apoiada em razões: a resposta correcta a uma questão moral é simplesmente a resposta que tem do seu lado o peso da razão. Tais verdades são objectivas no sentido em que são verdadeiras independentemente do que possamos querer ou pensar. Não podemos tornar algo bom ou mau pelo simples desejo de que seja assim (…). Isto explica igualmente a nossa falibilidade: podemos enganar-nos sobre o que é bom ou mau porque podemos estar enganados sobre o que a razão recomenda. A razão diz o que diz, alheia às nossas opiniões e desejos.» (2)

(No post Subjectivismo moral (3): Haverá provas em ética? pode encontrar – num texto de James Rachels - um exemplo ilustrativo da ideia de que um juízo moral verdadeiro é um juízo sustentado por melhores razões que os juízos alternativos, bem como a refutação da ideia de que não há provas em ética.)

De acordo com os objectivistas morais, existem critérios transubjectivos e transculturais de valoração. Esses critérios ultrapassam a perspectiva de cada pessoa e de cada sociedade, proporcionando uma forma de avaliar com imparcialidade as acções e as práticas sociais. Podem ser compreendidos e aplicados por todos os indivíduos racionais, independentemente das suas motivações e interesses particulares, bem como da cultura em que foram educados. (3) São culturalmente neutros e independentes dos sentimentos pessoais dos indivíduos.

Um desses critérios é o de a acção individual ou a prática social em questão ser benéfica ou prejudicial para as pessoas que são afectadas por ela. As boas acções e as boas práticas sociais beneficiam as pessoas; as más acções e as más práticas sociais prejudicam as pessoas. (4)

Se avaliarmos práticas como a violação e a excisão à luz desse critério concluiremos que elas são más, pois prejudicam as pessoas. Esse juízo é verdadeiro pois pode ser justificado com boas razões e essa verdade é objectiva: pode ser compreendida, e eventualmente aceite, pelas pessoas envolvidas, independentemente dos seus sentimentos, interesses pessoais e costumes sociais.

Mas é claro que nem todas as pessoas reconhecerão a verdade desse juízo moral. Por exemplo: um violador e um executante da excisão poderão considerá-lo falso. Na sua opinião, essa possibilidade é suficiente para mostrar que esse juízo (e qualquer outro juízo moral) afinal não é objectivo?

 

(1) Dicionário Escolar de Filosofia.

(2) James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Gradiva, pp. 65-67.

(3) Aires Almeida e outros, A Arte de Pensar – 10º ano, vol. 1, Didáctica Editora, Lisboa, 2007, pp. 131-132.

(4) James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pág.243.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Subjectivismo moral (3): Haverá provas em ética?

elementosdafilosofiamoral

Para mais informações sobre este livro ver aqui e aqui.

«Se o subjectivismo ético [ou moral] não é verdadeiro, porque razão se sentem algumas pessoas atraídas por ele? Uma das razões tem que ver com o facto de a ciência fornecer o nosso paradigma de objectividade, e quando comparamos a ética à ciência, à ética parecem faltar as características que tornam a ciência tão irresistível. Por exemplo: a inexistência de provas em ética parece uma grande deficiência. Podemos provar que o mundo é redondo, que não existe o maior número primo e que os dinossauros viveram antes dos seres humanos. Mas poderemos provar que o aborto é certo ou errado?

A ideia geral de que os juízos morais não se podem provar é apelativa. Qualquer pessoa que já tenha debatido um tema como o aborto sabe como pode ser frustrante tentar “provar” que o seu ponto de vista é correcto. No entanto, se examinarmos esta ideia mais de perto, revela-se dúbia (…).

É fácil imaginar (…) exemplos:

Jones é um homem mau. Tem o hábito de mentir; manipula as pessoas; engana-as quando pensa poder fazê-lo sem ser descoberto; é cruel com os outros e assim por diante;

Uma determinada vendedora de automóveis é desonesta. Esconde defeitos dos automóveis; aproveita-se de pessoas sem recursos pressionando-as a pagar preços exorbitantes por automóveis que sabe terem problemas; coloca anúncios publicitários enganadores em qualquer jornal que aceite publicá-los e assim por diante.

(…) Se uma das nossas razões para afirmar que Jones é um homem mau é ele mentir habitualmente, podemos prosseguir e explicar porque motivo mentir é mau. Mentir é mau, primeiro porque prejudica as pessoas. Se alguém dá uma falsa informação a outra pessoa e essa pessoa confiar nela, as coisas podem correr mal de diversas maneiras. Segundo, mentir é mau por ser uma violação da confiança. Confiar noutra pessoa significa ficarmos vulneráveis e desprotegidos. Quando se confia em alguém, acredita-se simplesmente no que essa pessoa diz, sem tomar precauções; e quando uma pessoa mente aproveita-se da nossa confiança. É por isso que ser enganado constitui uma ofensa tão íntima e pessoal. Por fim, a regra exigindo que não se minta é necessária para a sociedade poder existir - se não pudéssemos partir do princípio que as outras pessoas dirão a verdade, a comunicação tornar-se-ia impossível e, se a comunicação fosse impossível, a sociedade seria impossível.

Portanto, podemos apoiar os nossos juízos em boas razões, e podemos oferecer explicações do porquê de essas razões terem importância. Se podemos fazer tudo isto, (…) que mais “provas” poderia alguém desejar? É absurdo afirmar que os juízos éticos não podem ser mais do que “meras opiniões” (…).

Por fim, é fácil misturar duas coisas que são na realidade muito diferentes:

1. Provar a correcção de uma ideia;

2. Persuadir alguém a aceitar as nossas provas.

Podemos ter um argumento exemplar que alguém recusa a aceitar. Mas isso não significa que tenha de estar alguma coisa errada com o argumento ou que a “prova” seja, de alguma forma, inatingível. Pode apenas significar que alguém está a ser teimoso. Quando isto acontece não devemos surpreender-nos. Em ética é de esperar que as pessoas por vezes se recusem a dar ouvidos à razão. Afinal de contas, a ética pode exigir a realização de coisas que não queremos fazer, sendo, pois, muito previsível que tentemos evitar ouvir as suas exigências.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp. 68-71.

Outras passagens deste livro podem encontrar-se neste blogue aqui.

Subjectivismo moral (1): A verdade dos juízos morais depende da opinião pessoal?

Utilizamos palavras como “bem”, “mal”, “altruísmo”, “egoísmo” e “solidariedade”, por exemplo, para caracterizar certas acções, pessoas ou situações. Expressamos, então, “juízos de valor”. Quando estes se referem àquilo que devemos ou não fazer, ao que está certo ou errado, chamam-se “juízos morais”.

Nestes dias, perante as imagens avassaladoras da destruição provocada pelo sismo no Haiti, o significado de algumas expressões dos manuais de Filosofia como “os valores orientam e justificam as acções humanas” podem, talvez, tornar-se mais compreensíveis:

- Quando vemos médicos a lutar, por vezes impotentes e sem meios, para salvar pessoas, percebemos melhor o autêntico significado do valor da solidariedade.

- Quando vemos os bombeiros de Nova Iorque a salvar crianças dos escombros, percebemos melhor o sentido do amor ao próximo e do altruísmo.

- Quando vemos pessoas que usam a violência para se aproveitarem, nestas circunstâncias, da miséria e da desgraça alheias, percebemos melhor o significado da maldade e do egoísmo.

Referi estes exemplos nas aulas, ao explicar a teoria do subjectivismo moral. Segundo esta teoria filosófica, o valor de verdade dos juízos morais é relativo ao indivíduo, ou seja, varia de acordo com o sujeito em causa: os seus valores morais, ideias e sentimentos num dado momento e numa certa situação. Assim sendo, não há, por exemplo, acordo quanto ao valor de verdade a atribuir às proposições que expressam acções boas: tanto pode ser verdadeiro como falso, depende de uma apreciação que é sempre subjectiva.

Portanto, juízos morais como: “Os médicos que se encontram no Haiti são solidários”, “Os bombeiros, ao salvarem vidas, praticaram actos altruístas” e “As pessoas que pilharam e roubaram as vítimas do sismo praticaram actos moralmente incorrectos” serão verdadeiros ou falsos, dependendo da perspectiva adoptada por cada um de nós.

Mas será esta posição defensável? Será a verdade dos juízos morais uma mera questão de opinião pessoal?

Alguns exemplos, como estes, parecem contrariar a posição defendida pelo subjectivismo moral. Contudo, se analisarmos o ponto de vista que as pessoas adoptam - ao nível do senso comum - ao discutir assuntos polémicos como o aborto, a eutanásia, a pena de morte ou a homossexualidade, constatamos que a discordância leva a conversa (muitas vezes) a acabar assim: Isso é a tua opinião! Tens as tuas ideias e sentimentos sobre o assunto e eu tenho as minhas. E ponto final na discussão, pois presume-se que em relação a estes assuntos polémicos - na ausência de certeza ou consenso - qualquer ponto de vista é aceitável.

Ora, esta forma habitual de pensar e argumentar não faz sentido. Podemos apresentar, tal como faz James Rachels (nos Elementos de Filosofia Moral), um conjunto de razões para demonstrar que as ideias defendidas pelos subjectivistas morais não são racionalmente justificáveis.

Os argumentos de James Rachels - contra o subjectivismo moral - podem ser lidos nos posts seguintes.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia

O 1º e o 2º parágrafos do texto apresentam alguns dos aspectos que, no estudo da religião, interessam à Sociologia. O 3º parágrafo refere alguns dos aspectos que, nesse estudo, interessam à Filosofia.

«Em 2002, o Pew Center, uma empresa de opinião pública (…), perguntou a pessoas de 44 países em que medida a religião era importante para elas. Nos EUA 59 % disseram que a religião desempenhava um papel “muito importante” na sua vida. Esta percentagem é invulgarmente alta. Em Inglaterra, apenas 33 por cento disseram que a religião era importante. Noutros países, as percentagens foram as seguintes: 27% em Itália, 21 % na Alemanha, 12% no Japão e 11 % na França. No entanto, as percentagens relativamente à Bolívia, à Venezuela e ao México foram semelhantes à dos EUA, o que levou os analistas a concluir, de forma pouco generosa, que as atitudes norte-americanas “estão mais próximas das atitudes das pessoas das nações em vias de desenvolvimento do que das pessoas das nações desenvolvidas”.

Entretanto, na sondagem Gallup International Millenium Survey, perguntou-se a pessoas de 60 países se acreditavam em Deus. Apenas 45 % disseram acreditar num Deus “pessoal”, ao passo que outros 30 % disseram acreditar “numa espécie de espírito ou força vital”. A sondagem Gallup mostrou não só que a crença religiosa é mais forte nos mais velhos e nos que têm menos educação, mas também que o índice de crença é mais elevado na África Ocidental, onde predomina o Islão. Aí, 99 % acreditam num Deus pessoal. Nos EUA, 86 % têm essa crença, enquanto os europeus, conclui a sondagem, “são os mais agnósticos”. (…)

No entanto, não queremos apenas saber no que acreditam as pessoas – queremos saber se as crenças religiosas são verdadeiras. (…) Existirá alguma boa razão para acreditar que o mundo foi criado por uma divindade todo-poderosa? (…) Será possível apresentar boas razões que apoiem a crença em Deus?»

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.27-29.

Se clicar no nome do livro e na imagem, poderá ler informações úteis sobre o mesmo.

james rachels problemas da filosofia

sábado, 18 de julho de 2009

Ler bons livros diminui o calor no Verão e o frio no Inverno!

corot woman reading Problemas da Filosofia JR

Jean-Baptiste Camille Corot, “Mulher lendo com paisagem” (1869).

mulher lendo reading by th window - charles james lewis 1830 Na praia de Chesil Ian McEwan

Charles James Lewis, “Mulher lendo à janela” (1830).

Se clicar na capa dos livros poderá obter mais informações acerca dos mesmos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O dinheiro não traz a felicidade!

“Os filósofos antigos tiveram muito a dizer sobre a felicidade. Supunham que ‘a melhor vida’ e ‘a vida feliz’ eram a mesma coisa, e geralmente aceitavam que a felicidade consistia numa vida de razão e virtude. Epicuro (341-270 a. C.) recomendou uma vida simples, de modo a se evitarem sofrimentos e ansiedades. Os estóicos acrescentaram que um homem sábio não permitiria que a sua felicidade dependesse de coisas que estivessem fora do seu controlo, como a riqueza, a saúde, a boa aparência ou as opiniões dos outros. Não podemos controlar as circunstâncias externas, disseram, pelo que devemos ser indiferentes a essas coisas, aceitando-as como aparecem. Epitecto (c. 55-135 a. C.), um dos grandes professores estóicos, deu este conselho aos seus estudantes: ‘Não peçam que as coisas ocorram segundo a vossa vontade; façam com que a vossa vontade seja que as coisas ocorram como ocorrem de facto, e terão paz.’

Algumas destas ideias podem parecer questionáveis, mas uma parte significativa delas tem sido confirmada pela investigação psicológica moderna.

Moedas mão cheia de dinheiro Consideremos, por exemplo, a ideia de que a riqueza não traz felicidade. Dado que a maior parte das pessoas quer ser rica, poderíamos pensar que há alguma correlação entre a riqueza e a felicidade. Mas não há. Quando Ronald Inglehardt, cientista político da Universidade de Michigan, comparou os níveis de riqueza de países diferentes com aquilo que as pessoas desses países dizem sobre a sua satisfação com a sua vida, descobriu que as pessoas dos países mais ricos não são mais felizes do que as dos países mais pobres. Por vezes acontece o oposto: os alemães ocidentais têm o dobro da riqueza dos irlandeses, mas os irlandeses são mais felizes. Dentro de países específicos, encontrou a mesma ausência de correlação: as pessoas que têm mais dinheiro não são mais felizes que as outras. Portanto, sermos ricos não importa. As pessoas afectadas pela pobreza tendem a ser menos felizes do que aquelas que possuem o suficiente para viver; mas, para aqueles que estão acima da linha de pobreza, o dinheiro adicional faz pouca diferença. O psicólogo David Myers observa que ‘quando se ultrapassa a pobreza, o crescimento económico suplementar não melhora significativamente o ânimo dos seres humanos’.

Os estudos sobre os vencedores de lotarias confirmam isto de forma notável. Como é óbvio, os vencedores de lotarias ficam extremamente felizes quando sabem das boas notícias e a euforia tende a durar alguns dias. Mas, passado pouco tempo, regressam ao seu nível normal de felicidade. No essencial, as pessoas amuadas voltam a ficar amuadas. Podem ser capazes de deixar o emprego e de comprar muitas coisas, mas, no que respeita ao seu nível de felicidade, a riqueza recentemente adquirida não faz diferença. (…)

Então, o que tornará as pessoas felizes? Se não é a riqueza (…) o que será?”

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp. 286-288.

problemas da filosofia James Rachels

terça-feira, 2 de junho de 2009

Ler aos bocadinhos

capa de Problemas da Filosofia de Rachels

Ando a ler este livro (o mais recente da colecção Filosofia Aberta) em pequenos goles: um bocadinho de cada vez. Não por medo de me engasgar, mas por causa da correcção dos testes.

Pode ler uma breve mas informativa apresentação do livro aqui, na revista Crítica.

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009.