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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

O passado cheira mal

«Na época a que nos referimos [séc. XVIII] dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas tresandavam a lixo, os saguões tresandavam a urina, as escadas das casas tresandavam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas tresandavam a mofo, os quartos de dormir tresandavam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas tresandavam a suor e a roupa por lavar; as bocas tresandavam a dentes podres, os estômagos tresandavam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, tresandavam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios tresandavam, as praças tresandavam, as igrejas tresandavam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de verão quer de inverno.»

Patrick Süskind, ‘O Perfume’, Ed. Presença, Lisboa, 2023, pp. 9-10.

Pintura: Étienne Jeaurat, ‘Les Écosseuses de pois de la Halle’ (1763).


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Os vírus por vezes são nossos aliados




Desde que a pandemia de Covid 19 começou tem-se falado bastante de livros que possam ajudar a compreender o que se está a passar, como A Peste, de Albert Camus. Um livro que talvez possa dar um contributo para isso é a Guerra dos Mundos de H. G. Wells. Este descreve a invasão da Terra por marcianos, tecnologicamente muito superiores aos humanos. Contudo, os invasores, depois de vencerem rapidamente os seres humanos, acabam por morrer vítimas dos vírus e bactérias terrestres.   

Uma das várias adaptações cinematográficas feitas do livro de Wells é da autoria de Steven Spielberg (2005). O filme termina com a voz impressionante de Morgan Freeman a dizer algumas das seguintes palavras:

«E, espalhados por ali, (…) estavam os marcianos – mortos – aniquilados pela bactéria da doença e da putrefação contra a qual os seus organismos não estavam preparados; aniquilados (…), depois de todos os engenhos humanos terem falhado, pelas coisas mais humildes que Deus, na sua sabedoria, colocou na Terra. (…)
Estes gérmenes da doença tinham cobrado direitos à Humanidade desde o começo das coisas - tinham cobrado direitos aos nossos antepassados pré-humanos mal a vida brotou na Terra. Mas, graças a esta seleção natural da nossa espécie, desenvolveu-se em nós o poder de resistência; não sucumbimos a nenhuns gérmenes sem uma luta, e a muitos deles – os que causam a putrefação da matéria morta, por exemplo – os nossos corpos vivos são totalmente imunes. Mas não existem bactérias em Marte e, mal estes invasores chegaram, mal comeram e beberam, os nossos aliados microscópicos começaram a trabalhar para a sua destruição. Quando eu os observara já estavam irremediavelmente condenados; embora andassem de um lado para o outro, estavam a morrer e a apodrecer. Isto era inevitável. Pelo preço de um milhão de mortos, o homem comprou o seu direito de viver na Terra, e este pertence-lhe contra todos os forasteiros; continuaria a pertencer-lhes ainda que os marcianos fossem dez vezes maiores. Pois os homens não vivem nem morrem em vão.»

H. G. Wells, A Guerrra dos Mundos, Ulisseia, Lisboa, 2005, pp. 173-174.

A narração de Morgan Freeman:


Trailer do filme:



domingo, 26 de fevereiro de 2017

O pesadelo da igualdade

HarrisonBergeron harrisonbergeron 2

Imagine uma sociedade que, em nome da igualdade, obrigasse os cidadãos mais rápidos a usar pesos que impediam que a sua velocidade superasse a dos outros. Imagine também que os cidadãos mais inteligentes eram obrigados a ouvir permanentemente um ruído perturbador que os impedia de ser mais perspicazes que os outros. Talvez não fosse uma sociedade boa para viver.

O escritor norte-americano Kurt Vonnegut descreveu uma sociedade desse género no conto Harrison Bergeron. Pode lê-lo, traduzido por Desidério Murcho, na revista Crítica: Harrison Bergeron. Começa assim:

“Era o ano 2081, e toda a gente era finalmente igual. Não apenas perante Deus e a lei. Igual em todos os aspectos. Ninguém era mais inteligente. Ninguém era mais bem parecido. Ninguém era mais forte ou rápido. Toda esta igualdade era devida às 211.ª, 212.ª e 213.ª emendas constitucionais, e à vigilância incessante dos agentes da Direcção-Geral Incapacitante dos Estados Unidos.”

Com base no conto foi feito um filme. O conto é muito melhor que o filme, mas mesmo assim não é tempo perdido vê-lo depois de ter lido o conto.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Ninguém é uma ilha

1.-Nusa-Lembongan-Island1  A fotografia foi tirada daqui
O livro citado neste post é constituído por um espantoso conjunto de poemas (em prosa e em verso) que vale mesmo a pena ler: uma luz na escuridão.
«(...) "Ninguém é uma ilha." Fortalecemo-nos uns  com os outros, mas também com nós próprios. Com aquilo que, dentro de nós, o outro não vê. Aquilo que tem o seu igual só em si mesmo. O paradoxo mais profundo, a flor que brota do chão da garagem, o ventilador voltado para o negrume benéfico. Uma bebida efervescente num copo vazio. Um altifalante que emite silêncio. Um atalho que fica intransitável à medida que por ele avançamos. Um livro que só pode ser lido nas trevas."
Tomas Tranströmer, 50 Poemas, Relógio D’Água, Lisboa, 2012, pág. 15.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A balada de uma juíza

A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan.
Gradiva, Abril de 2015 (2ª edição).
190 páginas.

 

Enquanto enfrenta uma crise no seu casamento de trinta e tal anos, a Meritíssima juíza Fiona Maye tem de julgar alguns casos delicados que chegam ao Tribunal de Família. Pelo meio recorda casos passados e preocupa-se com a execução de certas peças musicais, pois é também pianista amadora e grande apreciadora de música.

Que fazer quando dois gémeos siameses não podem sobreviver ambos e os pais não autorizam a sua separação cirúrgica? Um dos gémeos tornar-se-á provavelmente uma criança normal e saudável se for separado, mas o outro é inviável e morrerá de qualquer modo; se não forem separados morrerão os dois.

Que fazer quando o pai e a mãe de duas meninas discutem o direito de as educar de acordo com princípios muito diferentes? O pai é um haredi, um judeu ultraortodoxo, e pretende que as filham vivam de acordo com os seus rígidos costumes: não quer que convivam com pessoas exteriores a essa comunidade nem que continuem a estudar após a escola primária, de modo a que um dia possam casar com outros haredis, ter muitos filhos e ser boas donas de casa. A mãe é também judia e, embora não renegue o judaísmo, saiu da comunidade haredi após o divórcio e pretende que as filhas continuem a estudar, convivam com pessoas diferentes e possam mais tarde escolher o rumo das suas vidas.

Que fazer quando um hospital pede autorização ao tribunal para realizar uma transfusão de sangue contra a vontade do paciente (o Adam Henry que dá nome ao livro) e de seus pais? Todos eles são Testemunhas de Jeová e acreditam que as transfusões de sangue são contrárias à vontade de Deus e portanto erradas. Adam Henry está a poucos meses de fazer 18 anos. Se já tivesse atingido a maioridade a sua recusa da transfusão seria soberana, mas assim tem de ser a juíza a decidir. Caso a transfusão não seja rapidamente feita Adam Henry morrerá em poucos dias.

Ian McEwan é demasiado bom escritor para colocar as personagens a desbobinar artificialmente teorias filosóficas. Contudo, nas reflexões e sentenças da juíza Fiona Maye não deixam de aparecer diversos tópicos filosóficos: a diferença entre a ética e o direito; o confronto entre a abordagem deontológica e a abordagem consequencialista dos problemas éticos; a dificuldade de conciliar diferentes direitos, como por exemplo a autonomia pessoal, a protecção das crianças e a liberdade religiosa. Esses tópicos são introduzidos naturalmente no livro, na medida em que são requeridos pelos casos em julgamento e pela justificação das decisões da juíza.

O que, além da mestria de Ian McEwan, ilustra a centralidade e até a inevitabilidade das questões filosóficas. Quer se queira quer não, estas estão envolvidas nas situações fundamentais da nossa vida.

A Balada de Adam Henry é, portanto, um livro que vale a pena ler por razões literárias, mas também por razões filosóficas.

balada-de-adam-henry-CAPA de Ian McEwan

sábado, 25 de outubro de 2014

Ou isto ou aquilo

Para os meus alunos do 11º A e 10º D com votos de bom estudo para o teste!

Ou Isto ou Aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!


Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!


Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.


É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!


Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.


Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!


Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.


Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

sábado, 18 de outubro de 2014

O nome das coisas: documentário

São quase 60 minutos de um excelente documentário sobre a escritora e poetisa Sophia.

Vale mesmo a pena ver até ao fim.

sábado, 7 de junho de 2014

O elogio da leitura: um portefólio de Literatura Portuguesa


O aluno Miguel Rodrigues, do 11º D, ao longo deste ano letivo estudou e analisou - nas aulas da professora Dina Ferreira - vários obras literárias de escritores e poetas portugueses. A partir dessas leituras, elaborou um excelente portefólio para apresentar na disciplina de Literatura Portuguesa. Decidi partilhá-lo com os leitores deste blogue. Creio que a melhor maneira de incentivar à leitura é através do trabalho de alguém que, visivelmente, tem prazer em ler e ... aprender.
Obrigada Miguel!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Encontro com a escritora Luísa Ducla Soares na escola EB1 nº5 de Faro

Hoje, numa das escolas básicas do Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa (a EB1 nº 5, mais conhecida por Escola de Vale Carneiros), os alunos do primeiro ciclo poderão falar com a escritora Luísa Ducla Soares, um privilégio que eu gostaria de ter para lhe agradecer os maravilhosos (e muitos) livros que tem escrito para crianças.

Os meus dois filhos, um deles já adulto, aprenderam o alfabeto e o gosto pela leitura nos livros desta escritora: bem escritos, divertidos, numa linguagem simples e acessível, imaginativos, abordando questões que nos fazem pensar (e sonhar) acerca dos assuntos mais diversos.

Há várias gerações de crianças em Portugal que lhe devem muito. Obrigada!

Deixo-vos duas sugestões de publicações recentes, cuja leitura aconselho também a adultos. Imperdíveis!

O burro de Buridan

Era uma vez um filósofo chamado Buridan.

- Mas que vem a ser um filósofo? - perguntam vocês.

- É um homem cuja profissão é pensar.

Pensa, pensa e ensina os outros a pensar.

O nosso filósofo tinha um burro, que pensava pouco e carregava muito, como em geral acontece com os burros. Carregava cântaros de água da fonte, lenha para a lareira, sacos de farinha, livros e mais livros. Até carregava o dono que andava de terra em terra a dar lições a quem queria aprender a pensar.

Certo dia, nas suas andanças, chegaram a uma terra e procuraram uma hospedaria.

O burro como burro ficou no pátio, atado a uma árvore. Buridan como sábio, entrou na sala onde encontrou um jovem a chorar (…).

- Porque choras? – perguntou o filósofo.

- Quando cá estive a semana passada os teus olhos riam como dois sóis.

- Antes ria porque era feliz. Tencionava casar-me… Tinha-me apaixonado por uma rapariga tão bela, tão maravilhosa que julguei que no mundo não houvesse outra igual.

- Mas havia? – quis saber Buridan, já curioso.

- Apresentou-me a irmã gémea! É impossível distingui-las. Agora já não sei qual hei-de amar. O filósofo pôs-se a pensar a pensar. Não era essa a sua especialidade?

- Aí está um problema sem solução. Dizem que o homem é livre de fazer escolhas mas, diante de duas pessoas iguais como há-de decidir?

- Então estou condenado a ficar solteiro?

- Bem, tu ainda tens sorte porque um homem pode viver sem casar. Mas um caso de indecisão pode levar até à morte.

O filósofo Buridan image

A gente que entretanto se tinha reunido na estalagem ouvia atentamente aquelas palavras graves.

- Sim! Sim! – insistiu Buridan. – Vão ver a tragédia que vai acontecer ao meu burro.

Mandou buscar dois fardos de palha iguaizinhos.

Colocou o burro no meio do pátio com um fardo de cada lado, à mesma distância.

- Como ele não pode decidir entre dois objetos iguais vai hesitar, hesitar até morrer de fome.

As pessoas puseram-se a espreitar em silêncio.

(…) A estalajadeira pôs-se a esfregar as mãos de contentamento, tecendo planos em voz alta.

- Então com a pele dele vou fazer uma mala para guardar o enxoval. Transformo o rabo em vassoura. Com a carne vou cozinhar um banquete para os meus hóspedes e deito os ossos aos cães.

O burro até espetou as orelhas ao ouvir estas palavras.

Deu um par de coices no ar, não hesitou mais. Trotou até ao fardo da direita e comeu metade, trotou até ao fardo da esquerda e comeu outra metade.

Depois, feliz por se ver livre, para mais com a barriga cheia, largou a galope até uma encruzilhada de onde partiam duas estradas iguais.

Não perdeu tempo a decidir, meteu pelo campo.

Para que é que um burro precisa de estradas?

(…) o filósofo Buridan, agora sem montada, achou que o melhor era sentar-se a escrever para não cansar as pernas. E escreveu um livro que muitos leram em que falava dum burro imaginário que morreu por ser incapaz de decidir. Lê-lo, de certeza, nunca passou pela cabeça de qualquer burro com juízo.”

Luísa Ducla Soares com ilustrações de Eunice Rosado, O burro de Buridan, Civilização Editora, Lisboa 2010.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Futurismo próximo

Gostava de ver este filme: O Congresso, de Ari Folman, baseado no livro O Congresso Futurológico, de Stanislaw Lem.

Duas opiniões sobre o filme, uma positiva e outra negativa:

Grande filme: 'O congresso' de Ari Folman

O Congresso Futurológico - Lem Vs. Folman

sábado, 5 de outubro de 2013

Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

GreteStern os sonhos sobre cansaço 1949

Poema dum funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só
António Ramos Rosa


Fotografia: Os sonhos sobre cansaço, de Grete Stern, 1949.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Desprezo pela superstição

H. G. Wells    david lodge

Um Homem de Partes, o livro mais recente de David Lodge, é um excelente romance biográfico sobre o escritor H. G. Wells, o famoso autor de A Guerra dos Mundos e A Máquina do Tempo.

Eis um excerto. Pode ler aqui outro excerto apetitoso.

«Na primavera de 1944, Hanover Terrace, uma elegante fiada de moradias de Nash no perímetro ocidental de Regent’s Park, apresenta-se claramente danificada pela guerra. A sua fachada de estuque creme, sem conservação desde 1939, está enegrecida, cheia de fendas e com a pintura a estalar; muitas janelas, estilhaçadas pela explosão das bombas ou pelas ondas de choque provocadas pelas baterias antiaéreas de Primrose Hill, estão entaipadas (…).

Só uma casa, a n. º 13, foi permanentemente ocupada durante a guerra pelo seu proprietário, Mr. H. G. Wells. Durante o Blitz [bombardeamentos aéreos perpetrados pela aviação nazi] sobre Londres, em 1940-1, foi frequentemente importunado com a sugestão de que o número da sua porta podia dar azar, ao que reagiu, em coerência com o desprezo que sempre tivera pelas superstições, mandando pintar um “13” maior ao lado da porta da entrada. Recusou-se obstinadamente a ir viver para o campo, dizendo que ”o Hitler (ou, se estava em companhia masculina, ‘esse Hitler de merda’) não me vai obrigar a fugir”, e manteve-se firme em Hanover Terrace enquanto os seus vizinhos, um a um, se esgueiravam sorrateiramente para refúgios rurais seguros e as respetivas casas eram subarrendadas ou ficavam devolutas. (…)

[Mas] H. G. nunca arredou pé, fiel à sua rotina de escrever livros, responder a cartas, dar o seu passeio higiénico diário - atravessando a rua, entrando no parque e indo até ao Zoo ou ao Rose Garden, ou descendo Baker Street até ao Savile Club, em Brook Street, com uma paragem pelo caminho para dar uma olhadela pelos livros na livraria Smith’s.»

David Lodge, Um Homem de Partes, Asa, 2013, pp. 13-14.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Se Deus existisse talvez fôssemos como as personagens de um romance

   “Voltei para casa e tentei aferrar-me ao livro. Quando começo a escrever, verifico que há sempre uma personagem que, obstinadamente, se não torna viva. Nada tem de psicologicamente falso, mas não se mexe, precisa de ser empurrada, é necessário arranjar-lhe um vocabulário próprio, toda a minha técnica, em anos de trabalho, há que empregá-la em conseguir que essa personagem pareça viva ao leitor. Às vezes, colho uma satisfação desconsolada, quando um crítico ma louva como a mais bem desenhada de todas as personagens da obra: se não tiver sido desenhada, por certo foi puxada pelos cabelos. Uma personagem destas pesa-me no espírito, sempre que eu me disponho ao trabalho, como uma refeição mal digerida pesa no estômago, e rouba-me, em qualquer cena em que toma parte, o prazer da criação. Nunca pratica um ato inesperado, nunca me surpreende, nunca trata de si. As outras personagens ajudam todas; aquela só atrapalha.

   E, todavia, não se pode passar sem ela. Não me custa imaginar um Deus que, às vezes, a respeito de alguns de nós, sinta o mesmo. Os santos, supor-se-ia, em certo sentido criam-se a si próprios. Vivem por si. São capazes de um gesto ou de um dito surpreendente. Estão fora do enredo, não são por ele condicionados. Nós, porém, precisamos de ser empurrados. (…) Estamos inextrincavelmente ligados ao enredo, e Deus cansadamente nos força, aqui e além, segundo a intenção que é a sua: personagens sem poesia, sem livre-arbítrio, cuja única importância é que, algures, alguma vez, auxiliamos à composição de certa cena em que uma personagem viva se move e fala, e assim fornecemos talvez aos santos uma oportunidade de exercerem o livre-arbítrio deles.”

Graham Greene, O Fim da Aventura, tradução de Jorge de Sena, Edições Asa, 2002, pp. 256-257.

Graham Greene    Graham Greene, O Fim da Aventura

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Clarice Lispector para as escolas, na Gulbenkian

image

"As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.”

Clarice Lispector

A citação foi tirada do livro "Correio feminino". Para saber mais sobre o livro, clicar AQUI. Para saber mais acerca desta escritora, ver AQUI, no excelente site brasileiro de literatura (clicar na imagem para aceder).

Entender é sempre limitado

"Eu não entendo. Eu não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Eu sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples estado de espírito. Bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: eu quero entender um pouco, não demais. Mas pelo menos entender que eu não entendo."

Clarice Lispector

terça-feira, 2 de abril de 2013

Aos futuros leitores... uma sugestão literária e filosófica!

    

Maria-vai-com-as-outras...

"Maria era uma ovelha que  fazia sempre o que as outras faziam. Se todas iam para baixo ela ia também, se iam para cima, Maria seguia-as . Ela nunca fazia o que queria, até que um dia tomou uma decisão: trilhar os seus próprios caminhos."

Informação retirada daqui.

Vale a pena ler a história toda... a seguir.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Ethos, logos, pathos

Segundo Aristóteles, um orador tem à sua disposição três meios de persuasão: o seu próprio carácter (ethos), os argumentos (logos) com que defende a sua tese e o estado emocional (pathos) do auditório que pretende convencer.

Vejamos dois exemplos ilustrativos desses conceitos.

I

romance A vida de PiO Xavier quer persuadir alguns amigos e colegas da turma de que devem ler o romance A Vida de Pi, de Yann Martel (que fala de um rapaz que, após um naufrágio, se vê obrigado a partilhar um barco salva-vidas com um tigre e outros animais).

O Xavier começa por dizer que gostou muito do livro e que nunca o recomendaria se não o achasse realmente muito bom. Os colegas acreditam nele, pois acham-no uma pessoa sincera e confiam no seu carácter.

Depois, o Xavier argumentou que o livro está escrito de uma maneira bela e clara e que a história é divertida e interessante, pelo que prende o leitor da primeira à última página e o leva, até, a pensar em questões filosóficas importantes.

Os interlocutores de Xavier mostraram-se bastante interessados, mas este decidiu reforçar o seu esforço persuasivo com uma referência emocional: chamou a atenção para a relação, insólita mas especial e comovente, que o rapaz e o tigre estabeleceram e que, no fundo, não era muito diferente da relação que eles tinham com o Tareco Austero (o gato da escola que, para grande pena e tristeza de todos, tinha morrido havia pouco tempo).

II

Um político que na campanha eleitoral refere a sua experiência militar (quando é sabido que foi condecorado pela sua coragem em combate), tenta persuadir os eleitores baseando-se no seu próprio carácter.

Um político que na campanha eleitoral compara as suas propostas com as propostas dos adversários e tenta mostrar que as suas são melhores, tenta persuadir os eleitores baseando-se em argumentos.

Um político que na campanha eleitoral usa uma linguagem emotiva e privilegia temas que despertam emoções fortes em muitas pessoas (como por exemplo a criminalidade e a insegurança), tenta persuadir os eleitores baseando-se no estado emocional destes.

Pode ou não tratar-se do mesmo político, ou seja, esses meios de persuasão podem ser usados em conjunto ou separadamente. Presumivelmente, a eficácia será maior no primeiro caso.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Como tudo começou

Vale a pena ver o filme, mas vale ainda mais pena ler o livro. Eis a parte em que Bilbo Baggins encontra o anel, para confirmar que o filme não substitui o livro.

gandalf comes to hobbiton Hobbit de John Howe

Desenho de John Howe.

“Quando Bilbo abriu os olhos não teve a certeza de que os abrira, pois estava tão escuro como quando os tivera fechados. Não se encontrava ninguém perto dele. Imaginai o seu medo! Não ouvia nada, não via nada e não sentia nada além da pedra do chão.

Pôs-se de gatas, muito devagar, e tateou até tocar na parede do túnel; mas nem por ela abaixo nem por ela acima encontrou nada; absolutamente nada, nenhum sinal de gnomos, nenhum sinal de anões. Tinha a cabeça a andar à roda e nem sequer estava certo da direção em que seguiam quando caíra. Calculou o melhor que pôde e arrastou-se um bom bocado, até que, de repente, a sua mão encontrou o que, pelo tato, lhe pareceu um pequeno anel de metal frio caído no chão do túnel. Foi um ponto de viragem na sua carreira, mas ele não o soube.”

J.R.R. Tolkien, O Hobbit, Publicações Europa-América, 2003, pág. 68.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A felicidade é desinteressante?

David Lodge Pensamentos Secretos

«- Foi sempre fiel ao Martin? – perguntou Carrie (…).

- Claro – diz Helen, mostrando-se ligeiramente ofendida. – Se assim não fosse não me sentiria agora tão magoada [Helen, uma romancista célebre, descobriu que o marido a enganava meses depois da sua morte]. Não teria esse direito.

- Com certeza – diz Carrie. – Não quis insinuar… É só que, bem, os seus romances têm bastante infidelidade.

Helen ri-se, algo envergonhada (…). – Bem, como a maioria dos romances, na verdade. Não há grande potencial narrativo no casamento estável e monogâmico.

- Pois é. Como Tolstoi diz no início de Anna Karenina, “Todas as famílias felizes se assemelham…”

- “Mas as infelizes são diferentes à sua maneira. Francamente não sei se a primeira parte corresponde à verdade – diz Helen, franzindo o sobrolho. – As famílias felizes não são todas iguais. O problema é que não são muito interessantes – a não ser que por acaso se pertença a uma delas. A ficção alimenta-se da infelicidade. Precisa de conflitos, desilusões, transgressões. E já que os romances tratam sobretudo da vida pessoal e emocional, de relacionamentos, não admira que a maioria seja sobre o adultério. Ou melhor, a infidelidade, porque imensos casais não se casam hoje em dia – mas isso não parece fazer grande diferença para a sensação de se ser traído, pois não, quando um parceiro engana outro?

- Não.»

David Lodge, Pensamentos secretos, Edições Asa, Porto, 2002, pág. 229.

Pensamentos Secretos Thinks David Lodge

sábado, 18 de agosto de 2012

Balanço de vida

BILHETE-POSTAL NEGRO

I

Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
                acotovelam-se no cais.

II

Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
              é cosido em silêncio.

Tomas Tranströmer, 50 Poemas, Relógio D’Água, Lisboa, 2012, pág. 17.

Tomas Transtromer jovem