Mostrar mensagens com a etiqueta Quotidiano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Quotidiano. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Qual é o balanço de 2011?

polícia grego em chamas

Polícia grego em chamas após ser atingido por uma bomba de petróleo atirada por manifestantes, em Atenas, no dia 23 de Fevereiro de 2011.

bpm

Aurora boreal, no Alasca, a 9 de Março de 2011.

(Fotografias encontradas aqui, entre dezenas de outras excelentes fotografias de acontecimentos ocorridos em 2011.)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Carpe diem!

Esta tarde, enquanto observava o meu filho a brincar no escorrega, assisti a uma zaragata motivada por divergências acerca do futebol. Empurrões e murros utilizados como “argumentos” a favor e contra a qualidade do plantel de um certo clube. A atenção fanática que é dedicada ao futebol pode suscitar considerações muito diversas, mas naquele momento a mim ocorreu-me que, não havendo certamente uma vida depois desta, perder tempo desse modo é um desperdício insensato. E veio-me à memória o célebre poema   em que Horácio nos aconselha  a  “carpe diem” - expressão que David Mourão-Ferreira  traduziu por “colher o dia”.

"Não procures, Leuconoe, - ímpio será sabê-lo -
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
Melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê ainda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança."

Horácio, Odes, I.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Beleza e tristeza

“Tomaso Albinoni foi um dos maiores compositores do barroco italiano, mas o chamado "Adagio de Albinoni" não foi composto por ele. O verdadeiro autor desta belíssima peça foi um musicólogo italiano do séc XX chamado Remo Giazotto, que a compôs em 1945, com base num andamento de uma sonata de Albinoni.” Informação tirada daqui.

Há dias vi na rua um antigo aluno que uma vez me disse detestar música clássica, excepto o "Adagio de Albinoni", por ser “tão, tão triste”. Ia rua abaixo gesticulando e falando sozinho. De vez em quando parava e, para embaraço dos outros transeuntes, levantava a voz: “Hipócrita… és uma hipócrita! Andaste este tempo todo a brincar com os meus sentimentos!”

Não creio que seja necessário estar triste, e muito menos de cabeça perdida, para gostar desta música, apesar da sua melancólica lentidão - que, de resto, não constitui por si só uma qualidade estética (contrariamente ao que é sugerido pelo tom elogioso da expressão “tão, tão triste”).

Mesmo assim, foi do Adagio de Albinoni e Giazotto que me lembrei quando – após uns rápidos “Olás” - reparei que esse ex-aluno, além de uma cara triste e desesperada, ostentava claros sinais de alcoolismo.

(Já agora: a música vale por si e dispensaria qualquer acompanhamento visual, mas o vídeo tem interesse e merece ser visto.)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Deus existe ou não? Vai uma aposta?

Enquanto empurrava o neto no baloiço uma senhora idosa ia conversando com uma senhora mais jovem.

- O que tu precisas, filha, é de Deus e não de comprimidos e psicólogos. Nem de cigarros, já agora.

- Quem a ouvisse pensaria que basta acreditar em Deus para os problemas desaparecerem. Seja como for, eu não acredito…

- Então começa a acreditar!

- Mas, mãe, como é que…

- O que tens a perder? Começa a acreditar… Reza, vai à missa, lê a Bíblia. Curas a depressão e ganhas a felicidade eterna.

- Não é assim que as coisas se passam. As pessoas não decidem acreditar: acreditam ou não acreditam, independentemente de quaisquer decisões.

- Porquê? Como te disse, não tens nada a perder. Repara: se acreditares em Deus e ele de facto existir estás do lado certo, por assim dizer. Ganhas a aposta, percebes?

- Aposta?

- É uma maneira de falar, Maria Francisca. Se Deus afinal não existir… Bem, paciência. Mas a confiança e a tranquilidade dadas pela fé já ninguém tas tirará.

Como resposta a Maria Francisca abanou a cabeça e acendeu um cigarro.

- Se há alguma coisa que eu sei, filha é que Deus existe. Mas não interessa o que eu sei. Exista ou não exista, ganhas em acreditar.

- Não percebo como é que uma pessoa tão religiosa como a mãe pode defender uma ideia dessas. Parece um negócio: arranjar fé porque dá lucro. Se Deus existe e é tão sábio e bondoso como a mãe acredita que é, aposto que não fica nada satisfeito com as pessoas que fazem isso… Esta aposta parece-me bem melhor que a outra.

Maria Francisca riu-se ao dizer estas últimas palavras. Não ouvi a resposta da mãe, pois acompanhei a retirada do meu filho do baloiço para o escorrega. Enquanto tentava acompanhar os seus rápidos passinhos, procurei recordar as palavras do filósofo e matemático francês Blaise Pascal (certamente um desconhecido para as duas senhoras) que, no século XVII, argumentou a favor da existência de Deus recorrendo à ideia de “aposta” – a aposta de Pascal.

“Deus existe ou não existe. Mas para que lado nos vamos inclinar [nós que somos tão imperfeitos e ignorantes]? (…) É preciso apostar. Pesemos as vantagens e as desvantagens de apostar na existência de Deus. Calculemos estes dois casos: se ganharmos, ganhamos tudo; se perdermos, nada perdemos. Apostemos então sem hesitar que ele existe.”

Pascal, Pensées, nº 233, Garnier-Flammarion, 1986, pág. 114.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sócrates na praia

É pouco frequente ver alguém ler um livro na praia. Por isso, foi com surpresa que ontem vi - na praia da Altura - uma mulher a ler o Fédon, de Platão.praia da altura

Era uma senhora dos seus quarenta e poucos anos. Com a cabeça entre as mãos e a cara enfiada no livro, parecia pertencer a uma espécie animal diferente da dos outros banhistas, entretidos a apanhar conquilhas e absorvidos em conversas cujo assunto menos pessoal era – a avaliar por algumas amostras recolhidas ao acaso – uma alarmante notícia televisiva sobre o cancro da pele. Quando os filhos vinham a correr mostrar-lhe uma concha especialmente bonita, a mulher levantava os olhos do livro e sorria com doçura, mas de modo breve e regressava logo à leitura. (Procedia do mesmo modo, excepto no que diz respeito ao sorriso, quando o marido lhe tentava desviar a atenção para uma colorida revista de automóveis.)

E o que ela lia era a descrição das últimas horas de vida de Sócrates. Este tinha sido condenado à morte e, apesar de se considerar inocente, recusou fugir quando teve oportunidade para isso, pois na sua opinião a fuga seria ainda mais errada que a condenação. Ao conversar com alguns amigos que se tinham ido despedir dele à prisão, Sócrates afirmou que não há razão para um homem justo temer a morte, pois a alma é imortal e após a morte do corpo vai para um lugar melhor que esta vida. Os amigos pediram-lhe para justificar essa crença na imortalidade da alma, o que levou Sócrates a apresentar e discutir com os amigos diversos argumentos. Nessa discussão foram ainda analisados outros assuntos, como por exemplo o suicídio, a natureza da filosofia e o sentido da vida.

Excelentes tópicos, não há dúvida nenhuma, para ocupar o pensamento num domingo de manhã numa praia do Algarve!

Por vezes, a mulher fechava o livro durante alguns momentos e olhava pensativamente para o mar – muito recuado, devido à maré-vazia. Estaria ela a pensar em objecções aos frágeis argumentos de Sócrates a favor da imortalidade da alma? Ou estaria a pensar como era admirável um homem que, a poucas horas de ser morto, não só aceita discutir um problema filosófico como incentiva os seus interlocutores a criticar tudo o que ele dissesse de menos sólido e que – face à admiração respeitosa destes – lhes diz “preocupem-se pouco com Sócrates e muito mais com a verdade”? Ou talvez pensasse apenas que, caso ela estivesse no lugar de Sócrates, ficaria inquieta e amedrontada e não serena como ele… Ela e a grande maioria das pessoas!

No final da conversa, quando se aproximava a hora da execução, Sócrates disse aos amigos que ia tomar banho para “poupar às mulheres o incómodo de lavarem um cadáver”. O que pensará aquela mulher dessas palavras? Julgará que foram apenas uma observação casual de um homem educado numa sociedade onde as mulheres eram consideradas muito inferiores aos homens? Ou acreditará, pelo contrário, que exprimiam respeito e consideração ética (comoventes, em alguém que sabe que vai morrer) por outras pessoas, ainda que socialmente desfavorecidas?

O receio de ser indelicado e o calor do meio-dia (que obrigou a uma retirada precoce da praia), impediram-me de procurar junto da senhora respostas para essas perguntas. Mas não faz mal, pois Sócrates tornou-se um símbolo do pensamento crítico e da Filosofia precisamente porque incentivava as pessoas a pensar pela própria cabeça, em vez de ficarem à espera que alguém encontrasse as respostas por elas. Não falei com a senhora tal como não falei com Sócrates – mas, como disse o Professor Mário Jorge de Carvalho, numa distante aula de uma disciplina de opção cujo nome já nem recordo, “o que importa é sermos o nosso próprio Sócrates”.

Acho que vou reler o Fédon

As afirmações citadas foram retiradas de: Platão, Fédon, (91c e 115b), Lisboa Editora, 1997, pp. 88 e 119.

Fotografia de António Carlos Moreira, retirada daqui.

sábado, 25 de julho de 2009

O que é pior: sofrer a injustiça ou cometê-la?

Chegou apressado ao pé dos amigos, sentados na esplanada a beber cerveja e a falar de futebol. Pediu desculpa pelo atraso e explicou que, ao estacionar, se tinha distraído e batido no carro do lado. “Ficou um bocado amolgado… Por sorte ninguém me viu! Fui pôr o meu carro noutra rua, pois tem um risquinho à frente e se o tivesse deixado lá as pessoas iriam provavelmente relacionar as coisas.” Quando lhe perguntaram se conhecia o proprietário disse que sim e perguntou: “Acham que lhe devo dizer que fui eu e pagar o prejuízo?” Os outros riram-se e disseram em coro: “Estás maluco ou quê?”

Pediram mais cervejas e regozijaram-se todos com a sorte do amigo não ter sido apanhado. De repente, perceberem que estavam a falar demasiado alto e que podiam ser escutados e calaram-se, atrapalhados. Apesar das mesas mais próximas estarem vazias e eu ter a cabeça enterrada num livro, a conversa foi retomada com as peripécias das transferências de jogadores de futebol.

O livro não era o Górgias de Platão, mas não pude deixar de recordar as palavras de Sócrates, que depois fui reler:

“Não desejo nem uma nem outra; mas se fosse preciso escolher entre sofrer a injustiça e cometê-la, preferiria sofrê-la.”

“O homem culpado, tal como o injusto, é infeliz em qualquer caso, mas é-o sobretudo se não pagar as suas faltas e não sofrer o respectivo castigo; é-o menos, pelo contrário, se as pagar e se for castigado pelos deuses e pelos homens.”

Se aqueles bebedores de cerveja fizessem parte do grupo de pessoas que – segundo conta Platão no diálogo Górgias - ouviu Sócrates tentar persuadir Polo acerca da verdade dessas afirmações, certamente bradariam: “Estás maluco ou quê?”

(As afirmações citadas foram retiradas de: Platão, Górgias, (469c e 472e), Lisboa Editora, 1995, pp. 78 e 83.)

domingo, 5 de julho de 2009

Quem gosta de ler não regula bem da cabeça!

Há dias observei na praia de Faro um grupo de adolescentes: rapazes e raparigas, todos manifestamente amigos. Depois de umas braçadas, uma das raparigas tirou da mochila um livro e começou a lê-lo. Um dos rapazes disse-lhe admirado: “Ainda a estudar? Pensava que tinhas feito os exames todos na 1ª fase”. A rapariga sorriu e respondeu: “Não estou a estudar. É um romance, olha… chama-se ‘O Fim do Sr. Y’ e é muito interessante!” O rapaz virou-se para os outros e exclamou: “Malta, a Yolanda não está boa da cabeça! Está a ler um livro na praia e ainda por cima está a gostar!”

Nota: não sei se o livro é bom ou mau, pois não o li.

Publiquei um post igual no blogue Aula Aberta.

domingo, 14 de junho de 2009

Boa sorte para os exames e votos de alguma…ansiedade!

Esta manhã vi um rapaz na praia que, enquanto ia dando uns toques na bola, repetia: “terça-feira começam os exames, mas eu não estou nervoso!” Depois de repetir a frase cinco ou seis vezes, chutou a bola para o mar e deixou-se cair na areia, dizendo desanimado: “ok, estou nervoso!”

rapariga a estudar Li não sei onde que (segundo a generalidade dos psicólogos) o excesso de ansiedade é prejudicial, pois faz com que a pessoa “bloqueie” e não consiga mostrar aquilo que sabe, mas que alguma ansiedade é benéfica, pois estimula a atenção e a concentração.

Espero que os estudantes portugueses, nomeadamente os que foram meus alunos, que vão fazer os exames nacionais, sintam apenas níveis moderados de ansiedade e que consigam mostrar aquilo que sabem.

Aproveito para lamentar que em Portugal não exista exame nacional em muitas disciplinas, nomeadamente em Filosofia.

Boa sorte para todos e votos de bom trabalho! E boas férias, claro!

Publiquei um post semelhante no blogue Caderno de Sociologia.