quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Discordar e criticar pode ser respeitoso

«Ouvir os outros não é o mesmo que estar sempre a ceder-lhes. (…) Aceitar cegamente o que outra pessoa diz não é ouvi-la atentamente, mas antes ouvir passivamente e aceitar o que ela diz. Ouvir verdadeiramente é envolver-se, além de ouvir, e isso pode implicar desacordo. Não é respeitoso acreditar que alguém não consegue lidar com críticas e desafios.»

 Julian Baggini, Pensar como um Filósofo, Gradiva, Lisboa, 2026, pág. 63.

Imagem: pedi ao ChatGPT para criar uma fotografia com Bertrand Russell a escutar Ludwig Wittgenstein e eis o resultado. 



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A arte de lembrar e esquecer

«Quando lemos versos que são realmente admiráveis, realmente bons, temos a tendência para o fazer em voz alta. Um verso bom não permite ser lido em voz baixa ou em silêncio. (…) O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi canto.

Há duas frases que o confirmam. Uma é a de Homero ou a dos gregos que designamos por Homero, que diz na Odisseia: “os deuses tecem desventuras aos homens para que as gerações vindouras tenham alguma coisa que cantar”. A outra, muito posterior, é de Mallarmé e repete o que disse Homero com menos beleza: “Tout aboutit en un livre” (“Tudo vai dar a um livro”). Aqui temos as duas diferenças: os gregos falam de gerações que cantam, Mallarmé fala de um objeto, de uma coisa entre as coisas, um livro. Mas ideia é a mesma, a ideia de que nós somos feitos para a arte, somos feitos para a memória, somos feitos para a poesia ou possivelmente somos feitos para o esquecimento. Mas há algo que resta e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente diferentes.»

 Jorge Luís Borges, “A Divina Comédia” in Sete Noites, Quetzal, Lisboa, 2024, pp. 14-15.

 Imagem: A Poesia, de Rafael.

 A inscrição "Numine Afflatur" significa “Inspirada pelo Divino”.




sexta-feira, 7 de novembro de 2025

A beleza

As coisas belas podem tirar-nos o fôlego. Podem extasiar-nos, encantar-nos, dar-nos talvez um sentido de assombro ou deslumbramento. Esta experiência “faz-nos sair de nós próprios”, dá-nos uma espécie de êxtase, e pode dar-nos energia e ser revitalizante, deixando-nos (…) uma impressão de que as nossas vidas foram enriquecidas. Sentimo-nos gratos com a existência de coisas belas e pela experiência que nos proporcionam. Dizemos que as coisas são belas quando a experiência que temos delas nos dá este tipo específico de prazer. É uma impressão de que essas coisas são como devem ser, de que há algo de perfeitamente adequado nelas. 

Simon Blackburn, As Grandes Questões da Filosofia, Gradiva, Lisboa, 2018, pág. 191 (Texto adaptado).



Pintura: Jacopo Pontormo, Visitazione, c. 1528-1530. 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

De nada adianta ter certezas

«Somos falíveis. Por isso, por mais cuidado que tenhamos, podemos estar enganados. E de nada adianta ter certezas. A certeza é apenas a convicção profunda de que não estamos enganados; mas se podemos estar enganados quando cremos que sabemos, também podemos estar enganados quando damos à nossa convicção a força da certeza. A certeza não é um botão mágico que elimina a possibilidade de erro e ilusão. 
Somos falíveis. Mas não estamos sozinhos. Podemos recorrer a várias outras pessoas. Elas são todas igualmente falíveis, mas se todos discutirmos abertamente e procurarmos a verdade, podemos corrigir melhor os nossos erros.»

Desidério Murcho, Filosofia em Directo, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, 2011, pág. 82. 




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

O que devemos fazer

«Queremos andar pelos nossos próprios pés e olhar para o mundo de forma justa e objetiva – os seus factos bons, os seus factos maus, as suas belezas e as suas fealdades; ver o mundo tal como é, e não temê-lo. Conquistar o mundo pela inteligência e não ficarmos escravizados pelo medo. (…) Temos de nos erguer e encarar francamente o mundo. Temos de tornar o mundo o melhor possível e, mesmo que não seja tão bom quanto desejamos, será ainda assim melhor do que o construído no passado. Um mundo bom precisa de conhecimento, bondade e coragem; não precisa de nostalgia do passado nem da censura da inteligência livre (…). Precisa de um olhar destemido e de uma inteligência livre. Precisa de esperança no futuro e não de olhar para um passado que está morto, que esperamos que seja em muito ultrapassado pelo futuro que a nossa inteligência é capaz de construir.»

Bertrand Russell, Por que não sou Cristão, Edições 70, Lisboa, 2020, pág. 35. 



domingo, 28 de julho de 2024

Animais que fazem surf: filósofos, golfinhos…

«Muitos dos meus melhores momentos no surf têm mais que ver com a experiência do esplendor e do poder das ondas do que com a minha aptidão para as surfar. De facto, aquando do meu momento mais mágico de surf, não estava sequer numa onda. Na baía de Byron, a ponta mais a leste da Austrália, estava a remar em direção às ondas. O Sol brilhava, o mar era azul e eu estava ciente dos milhares de milhas do oceano Pacífico, que se estende sem nenhuma interrupção até à costa do Chile.

Um impulso de energia gerado nessa vasta extensão de água aproximou-se de uma linha submersa de rochas e levantou-se à minha frente num paredão verde. Quando a onda começou a quebrar-se, um golfinho saltou à sua frente, saindo completamente da água.

Foi um momento sublime, mas não tão raro como isso. Como muitos dos meus colegas surfistas sabem, somos o único animal que joga ténis ou futebol, mas não o único que gosta de surfar.»

Peter Singer, Ética no Mundo Real, Edições 70, Lisboa, 2024, págs. 423-424.

 


Fotografia: Kalbarri, na Austrália, de Matt Hutton. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

A utilidade da filosofia para a ciência

«Concordo plenamente consigo quanto à importância e ao valor educativo da metodologia e bem assim da história e da filosofia da ciência. Hoje, muitas pessoas — e mesmo cientistas profissionais — parecem-me alguém que viu milhares de árvores mas nunca uma floresta. Um conhecimento das bases históricas e filosóficas fornece aquele tipo de independência dos preconceitos da sua geração que afectam muitos cientistas. Esta independência criada pelo conhecimento filosófico é — na minha opinião — a marca de distinção entre um mero artesão ou especialista e um verdadeiro pesquisador da verdade.»

Albert Einstein in “Albert Einstein como filósofo da ciência”, de Don A. Howard - https://criticanarede.com/cie_einstein.html

Essas palavras fazem parte da resposta de Albert Einstein a Robert A. Thornton - professor de Introdução à Física na Universidade de Porto Rico –, que queria introduzir alguma filosofia da ciência nas suas aulas e pediu ajuda a Einstein para convencer os seus relutantes colegas.  

 


Pintura: O Astrónomo, de Johannes Vermeer. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

O passado cheira mal

«Na época a que nos referimos [séc. XVIII] dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas tresandavam a lixo, os saguões tresandavam a urina, as escadas das casas tresandavam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas tresandavam a mofo, os quartos de dormir tresandavam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas tresandavam a suor e a roupa por lavar; as bocas tresandavam a dentes podres, os estômagos tresandavam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, tresandavam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios tresandavam, as praças tresandavam, as igrejas tresandavam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de verão quer de inverno.»

Patrick Süskind, ‘O Perfume’, Ed. Presença, Lisboa, 2023, pp. 9-10.

Pintura: Étienne Jeaurat, ‘Les Écosseuses de pois de la Halle’ (1763).


domingo, 3 de dezembro de 2023

O que nos une


 «Penso que a melhor descrição dos liberais como nós é mais moral do que política ou cultural: somos, ou aspiramos a ser, abertos, generosos e tolerantes. Somos capazes de viver com a ambiguidade; estamos dispostos a ter discussões que não sentimos que são para ganhar. Seja qual for a nossa ideologia, seja qual for a nossa religião, não somos dogmáticos; não somos fanáticos. Ou, como a atriz Lauren Bacall disse a um entrevistador, um liberal é alguém que “não tem uma mente pequenina”. (…)

Acredito que os democratas e os republicanos – quer sejam ou não membros dos respetivos partidos –, os libertários e os socialistas podem e devem ser este género de liberais. Para todos estes grupos, considerados no seu melhor, a moralidade liberal faz parte do território comum.»

 Michael Walzer, A Luta por uma Política Decente – “Liberal” Como Adjectivo,

Gradiva, Lisboa, 2023, pp. 16-17.

 


sábado, 25 de setembro de 2021

Ceticismos




«Há vários graus de ceticismo. Um cético pode ser simplesmente alguém que nega a possibilidade de conhecimento genuíno (em algumas ou em todas as áreas de investigação). Um cético deste tipo não precisa de criticar a posse de crenças sobre vários assuntos, se a pessoa que as possui não alegar que essas crenças têm o estatuto de conhecimento. Ele próprio pode muito bem ter crenças, incluindo a crença de que não há conhecimento. Não há aqui qualquer inconsistência desde que ele não alegue saber que não há conhecimento. Arcesilau chegou ao ponto de criticar Sócrates por este ter afirmado saber que nada sabia. 
Um cético mais radical, no entanto, pode questionar não só a possibilidade de conhecimento, mas também a legitimidade da crença. Pode recomendar que nos abstenhamos não só do assentimento resoluto característico da certeza, mas também do assentimento precário característico da opinião. Arcesilau parece ter sido um cético deste tipo: sustentou, diz-nos Cícero, que “ninguém deve declarar ou afirmar algo, ou assentir nisso”.»

Anthony Kenny, Nova História da Filosofia Ocidental – volume 1, Filosofia Antiga, Gradiva, Lisboa, 2010, pág. 192.

Pintura: Caravaggio, A Incredulidade de São Tomé, c.1601–1602.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Por que razão há filósofos?

«Todas estas questões indescritivelmente esquisitas sobre números, propriedades, indivíduos, espaço, tempo, causalidade, mentes, possibilidade, probabilidade, necessidade, obrigação, razões, leis, Deus… Não só são as questões individualmente esquisitas, como em conjunto não formam mais do que um caos, sendo um desafio a qualquer tentativa de as reduzir a uma sequência racional. E para mais nenhuma das questões parece alguma vez chegar a ser finalmente respondida. É realmente uma cena perturbadora, quando nos afastamos e contemplamos o todo. O mais penoso é o contraste que apresenta relativamente à ciência, tomada como um todo. Na verdade, dificilmente é possível a alguém […] não se perguntar por que razão há-de haver filósofos, de todo em todo (…)

O Professor de História, IJ, nem sempre consegue calar as suas perplexidades sobre a inevitabilidade histórica, e dá consigo a perguntar, como os filósofos, quais são as condições de verdade de uma afirmação como “Hitler teria ganho a guerra se não tivesse atacado a Rússia”. KL, o Professor de Medicina, ainda que nada mais o empurre nessa direção, é levado pela sua nova tecnologia a enfrentar deliberações agonizantes sobre os deveres de um médico para com os seus doentes. E assim por diante. Por outras palavras, as pessoas inteligentes, entregues a si mesmas, acabarão por filosofar, mais tarde ou mais cedo, seja qual for o campo de trabalho intelectual a que se entreguem, ou mesmo que a nenhum se entreguem. O impulso para a filosofia é de facto tão natural e tão forte que nada se conhece, exceto o terror totalitarista, que consiga reprimi-lo em absoluto. Numa sociedade não-totalitarista, pois, a filosofia será feita, e a única questão prática que resta é como haverá melhores hipóteses de ser bem feita, ou por quem.»


David Stove, “Por que razão há filósofos?”, Crítica - https://criticanarede.com/porquehafilosofos.html

Pintura: Gerrit Dou, “Astronomer by candlelight”.

 


domingo, 16 de maio de 2021

Na arte tudo vale, mas nem tudo funciona


A definição histórica da arte (X é uma obra de arte se alguém, com um legítimo direito de propriedade sobre X, tem a intenção não transitória de que X seja encarado do modo como foram tipicamente encaradas obras de arte anteriores) dá-nos “uma explicação poderosa e direta da unidade e continuidade inerentes ao desenvolvimento da arte. Resumidamente, algo ser uma obra de arte num dado momento consiste em esse algo estar intencionalmente relacionado com obras de arte que o precederam – nem mais nem menos. (…) 
A definição histórica da arte lança (…) luz sobre o facto de que na arte tudo vale, mas nem tudo funciona. A razão pela qual tudo vale é que não há limites claros ao género de coisas acerca de que as pessoas podem ter a intenção não transitória de que sejam por nós encaradas como obras de arte. A razão pela qual nem tudo funciona é que encarar algo como obra de arte envolve necessariamente fazer incidir o passado da arte sobre o que no presente é proposto como arte. Não há garantia de que o objeto presente e os modos de encarar pretéritos se irão combinar. A interação de ambos por vezes produzirá satisfação imediata, por vezes só após um intervalo. Por vezes ficamos chocados e perturbados, mas recuperamos e ficamos iluminados. Por vezes somos compelidos a adotar novos modos de encarar, deixando os antigos para trás. Contudo, por vezes ficamos simplesmente perplexos, aborrecidos, incomodados - ou tudo isso ao mesmo tempo – e de tal maneira que nunca o superamos. Nesses casos temos obras de arte, sim, mas essas obras não funcionam.”

Jerrold Levinson, Investigações Estéticas – Ensaios de Filosofia da Arte, Edições Afrontamento, Porto, 2020, pp. 39-40.

Este excerto pode encontrar-se no ensaio “Definir historicamente a arte”. 

O livro contém vários outros ensaios. Por exemplo: “Reagir com emoção à arte”, “Intenção e interpretação na literatura”, “O conceito de humor”, “Arte erótica e imagens pornográficas”…

As imagens apresentam dois exemplos dados por Levinson:

Rembrandt: A ronda da noite, 1642.
Carl Andre: Lever, 1996.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Os direitos garantidos pela justiça são inegociáveis


«A justiça é a virtude primeira das instituições sociais, tal como a verdade o é para os sistemas de pensamento. Uma teoria, por mais elegante ou parcimoniosa que seja, deve ser rejeitada ou alterada se não for verdadeira; da mesma forma, as leis e as instituições, não obstante o serem eficazes e bem concebidas, devem ser reformadas ou abolidas se forem injustas. Cada pessoa beneficia de uma inviolabilidade que decorre da justiça, a qual nem sequer em benefício do bem-estar da sociedade como um todo poderá ser eliminada. Por esta razão, a justiça impede que a perda da liberdade para alguns seja justificada pelo facto de outros passarem a partilhar um bem maior. Não permite que os sacrifícios impostos a uns poucos sejam compensados pelo aumento das vantagens usufruídas por um maior número. Assim sendo, numa sociedade justa a igualdade de liberdades e direitos entre os cidadãos é considerada como definitiva; os direitos garantidos pela justiça não estão dependentes da negociação política ou do cálculo dos interesses sociais. (…) Sendo as virtudes primeiras da atividade humana, a verdade e a justiça não podem ser objeto de qualquer compromisso.»

John Rawls, Uma teoria da justiça, Ed. Presença, Lisboa, 2013, pp. 27-28.