segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A arte de lembrar e esquecer

«Quando lemos versos que são realmente admiráveis, realmente bons, temos a tendência para o fazer em voz alta. Um verso bom não permite ser lido em voz baixa ou em silêncio. (…) O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi canto.

Há duas frases que o confirmam. Uma é a de Homero ou a dos gregos que designamos por Homero, que diz na Odisseia: “os deuses tecem desventuras aos homens para que as gerações vindouras tenham alguma coisa que cantar”. A outra, muito posterior, é de Mallarmé e repete o que disse Homero com menos beleza: “Tout aboutit en un livre” (“Tudo vai dar a um livro”). Aqui temos as duas diferenças: os gregos falam de gerações que cantam, Mallarmé fala de um objeto, de uma coisa entre as coisas, um livro. Mas ideia é a mesma, a ideia de que nós somos feitos para a arte, somos feitos para a memória, somos feitos para a poesia ou possivelmente somos feitos para o esquecimento. Mas há algo que resta e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente diferentes.»

 Jorge Luís Borges, “A Divina Comédia” in Sete Noites, Quetzal, Lisboa, 2024, pp. 14-15.

 Imagem: A Poesia, de Rafael.

 A inscrição "Numine Afflatur" significa “Inspirada pelo Divino”.




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