«Quando lemos versos que são realmente admiráveis, realmente
bons, temos a tendência para o fazer em voz alta. Um verso bom não permite ser
lido em voz baixa ou em silêncio. (…) O verso recorda sempre que foi uma arte
oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi canto.
Há duas frases que o confirmam. Uma é a de Homero ou a dos gregos
que designamos por Homero, que diz na Odisseia: “os deuses tecem desventuras
aos homens para que as gerações vindouras tenham alguma coisa que cantar”. A
outra, muito posterior, é de Mallarmé e repete o que disse Homero com menos
beleza: “Tout aboutit en un livre” (“Tudo vai dar a um livro”). Aqui temos as
duas diferenças: os gregos falam de gerações que cantam, Mallarmé fala de um
objeto, de uma coisa entre as coisas, um livro. Mas ideia é a mesma, a ideia de
que nós somos feitos para a arte, somos feitos para a memória, somos feitos
para a poesia ou possivelmente somos feitos para o esquecimento. Mas há algo
que resta e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente
diferentes.»
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