domingo, 10 de maio de 2020

Um diálogo, no céu, entre duas cientistas: Maria Mayer e Lise Meitner

A física Maria Goeppert Mayer, vencedora do Nobel de Física de 1963.

A física austríaca, Lise Meitner, e o químico alemão Otto Hahn.
“Ambos trabalharam na fissão nuclear (quebra de um núcleo em dois mais pequenos), mas o mérito da descoberta foi atribuído exclusivamente a Hahn, que ganhou (sozinho) o prémio Nobel da Química em 1944. E isto apesar de, entre 1901 e 1965, Lise Meitner ter sido nomeada 29 vezes para o Nobel da Física e 19 vezes para o Nobel da Química.” Fonte: jornal online “Observador”
Em Cidadania e Desenvolvimento - no âmbito de uma DAC entre as disciplinas de Filosofia, Biologia e Física e Química - os alunos do 11º B realizaram vários trabalhos, subordinados ao tema “Mulheres na ciência: passado e presente”.
As alunas do 11º B, Beatriz André e Isabel Costa, são as autoras do trabalho que se segue, finalizado nas duas últimas semanas de aulas em condições diferentes das previstas inicialmente. Assim sendo, foi feita uma adaptação do projeto inicial e foi escrito um diálogo imaginário, que mistura humor e criatividade com informação científica e filosófica.
Agradeço a ambas as alunas o empenho, a disponibilidade e o interesse manifestado. Muito obrigada!

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Visita de estudo à Gulbenkian a propósito da Filosofia da arte



O trabalho que se segue foi realizado pela aluna Nicoleta Manoli, a quem agradeço a disponibilidade para partilhar a sua experiência.





No dia 21 de fevereiro de 2020 no período da tarde, a minha turma (11°F) e duas outras turmas do 11º ano (C e E) visitaram a Fundação Calouste Gulbenkian e fizeram visitas guiadas aos dois museus lá existentes, estas inseriram-se no âmbito da disciplina de Filosofia e do estudo do problema da definição de arte: como distinguir as obras de arte de outro tipo de objetos?
Nessa tarde, começamos por visitar uma exposição gratuita: “Downtime / Tempo de Respiração” de Manon de Boer enquanto esperávamos que a nossa visita guiada começasse. Essa exposição foi algo de diferente para mim e todos os meus colegas, pois exigia, tal como o nome indica, um tempo de respiração/uma pausa para absorver e perceber o sentido da mensagem que a artista queria passar através de vídeos.
Em seguida, realizámos uma visita guiada à Coleção Moderna acompanhados por uma guia, bastante interativa, que nos foi fazendo perguntas acerca das obras e explicando depois o que observámos, nomeadamente a mensagem que o artista pretendeu transmitir, as correntes artísticas em que estavam inseridas as obras e o contexto histórico em que foram produzidas, seguindo uma linha cronológica. A ideia era que, ao tentarmos interpretar as obras, desenvolvêssemos um pouco mais o nosso pensamento crítico e criativo e foi muito interessante conhecermos mais sobre artistas mais recentes que não costumamos estudar.
Nesta visita explorámos vários quadros, entre os quais destaco os de Amadeo de Souza-Cardoso, visto que foi um dos artistas de quem a nossa guia mais falou, destacando alguns aspetos das obras analisadas por vezes surpreendentes, como por exemplo: o quadro onde se retratam cães galgos ter sido pintado sobre uma pintura já existente.
No final, tivemos também a possibilidade de ver outras obras de arte pertencentes à coleção. Entre essas obras, algumas delas fizeram-nos pensar “Isto é arte?”, o que, coincidentemente, era o nome da visita orientada e a questão com a qual fomos confrontados pela nossa guia ao contemplar diferentes obras de arte.
Concluindo, gostei imenso de visitar o museu e ter a experiência de ver obras, que nunca tinha visto, da Coleção Moderna. É sempre curioso e diferente vê-las “ao vivo e a cores”, ao contrário do que acontece normalmente aquando do estudo de algumas obras artísticas.
Por fim, acrescento que a obra que mais me surpreendeu foi um quadro, pintado a óleo, de um pedaço de carne que, inicialmente, parecia uma fotografia. Este faz parte da corrente artística do hiper-realismo e foi-nos o último quadro apresentado na visita guiada.

Nicoleta Manoli, 11º F





Diversas versões do argumento cosmológico de Tomás de Aquino

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Duas objeções ao argumento cosmológico


Qual é a causa de Deus?

«Se um universo requer um deus para explicar a sua existência, o que explica a existência do próprio Deus? Da mesma maneira, ou Deus existiu desde sempre ou apenas apareceu ou então deve ter tido uma causa. No entanto, é tão implausível pensar que Deus sempre existiu ou que tenha simplesmente surgido, como pensar que também foi assim com o universo. O próprio raciocínio que nos leva a propor um deus como causa do universo deve levar-nos a propor um supradeus como causa de Deus. E, claro, o supradeus também precisa de uma causa, o suprasupradeus e assim infinitamente. Portanto, sejam quais forem as voltas que dermos, o que obtemos no fim é igualmente implausível. É tão implausível um deus incausado como um universo incausado, e é tão incrível uma série infinita de causas como uma série infinita de deuses.»

Limites da conclusão

«[Mesmo que aceitássemos o argumento, este] apenas provaria, no melhor dos casos, que a primeira causa existe, não que essa primeira causa seja Deus. Em vez disso, a primeira causa poderia ter sido o Diabo (um candidato plausível, dada a natureza do universo). E mesmo que o argumento tivesse provado que a primeira causa tinha de ser um deus, não provaria que ele tivesse de ser o seu Deus (se for um crente) ou um deus que encaixasse na imagem comum que os cristãos, judeus ou muçulmanos têm de Deus. Poderia ser qualquer um dos milhares de deuses diferentes em que os seres humanos acreditam ou, talvez, um deus em que os seres humanos nunca tenham pensado. De facto, o argumento da primeira causa abre a possibilidade de que tenha existido um Deus que criou o universo (ou talvez muitos deuses), mas que agora Deus está morto.»

Howard Kahane, “Há boas razões para acreditar que Deus existe?”, Crítica - https://criticanarede.com/hkahanehaboasrazoesparaacreditarq…

Pintura: William Blake, The Ancient of Days.

sábado, 2 de maio de 2020

Morrer de fome


QUARENTENA

Na pior hora da pior estação
do pior ano de todo um povo
um homem saiu do albergue com a mulher
e caminhou- caminharam os dois - para norte.

Ela estava doente com a febre da fome e não o conseguia acompanhar.
Ele levantou-a e colocou-a às costas.
E caminhou assim para oeste, para oeste e para norte,
até ao anoitecer, sob as estrelas geladas.

De manhã, os dois foram encontrados mortos.
De frio. De fome. Das toxinas de toda uma história.
Mas os pés dela apoiavam-se no esterno dele.
O último calor da sua carne foi o último presente para ela.

Que nenhum poema de amor jamais chegue a este limite.
Não há aqui lugar aqui para o impreciso
louvor da elegância e da sensualidade do corpo.
Apenas tempo para este inventário impiedoso:

A sua morte no inverno de 1847.
O que sofreram. E como viveram.
E o que existe entre um homem e uma mulher.
E em que escuridão se pode ver melhor.

Eavan Boland e Dorothea Lange

Eavan Boland foi uma poeta irlandesa: 1944-2020. A tradução é de Jorge de Sousa Braga.

Dorothea Lange foi uma fotógrafa norte-americana, que na década de 30 do século XX fotografou camponeses e outras pessoas pobres para documentar os efeitos da Grande Depressão. É autora de uma das mais célebres fotografias da história: “Mãe Migrante”, de 1936.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Não nos devemos resignar com a injustiça

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Fotografia de Lewis Hine 

Podemos «rejeitar a afirmação de que a ordenação das instituições é sempre deficiente porque a distribuição natural de talentos e as circunstâncias sociais são injustas, estendendo-se estas injustiças, inevitavelmente, às estruturas concebidas pelos homens. Por vezes, esta reflexão surge como uma desculpa para ignorar a injustiça, como se a recusa em aceitar a injustiça fosse da mesma natureza que a impossibilidade em aceitar a morte. A distribuição natural não é justa nem injusta; tal como não é injusto que se nasça numa determinada posição social. Trata-se de simples factos naturais. A forma como as instituições lidam com estes factos é que pode ser justa ou injusta. As sociedades aristocráticas ou de casta são injustas porque fazem desta circunstância a base que determina as classes sociais mais ou menos fechadas e privilegiadas. A estrutura básica destas sociedades incorpora a arbitrariedade que encontramos na natureza. Mas não é necessário que os homens se resignem a tais contingências. O sistema social não é uma ordem imutável, para lá do controlo humano, mas um padrão da ação humana. Na teoria da justiça como equidade os homens, os homens acordam em aproveitar os incidentes da natureza e as circunstâncias sociais apenas quando tal resulta em benefício de todos [de acordo com o princípio da diferença apenas são aceitáveis as desigualdades que redundem em benefício de todos e, principalmente, dos mais desfavorecidos]. Os dois princípios [da justiça] são uma forma equitativa de contrariar a arbitrariedade da sorte e, embora sejam sem dúvida imperfeitas quando analisadas sob outros ângulos, as instituições que satisfazem estes princípios são justas.»

John Rawls, Uma Teoria da Justiça, Editorial Presença, 3ª edição, 2013, Lisboa, pág. 96.

(Tradução de Carlos Pinto Correia.)