quarta-feira, 8 de abril de 2020

A origem do orgulho em si próprio

Vaidade, de Auguste Toulmouche (1829 - 1890)


«Acontece muitas vezes que, depois de termos vivido tempo considerável numa cidade mesmo que a princípio esta possa ter-nos desagradado à medida que nos familiarizamos com os objetos e nos familiarizamos mesmo que apenas com as ruas e edifícios, a nossa aversão diminui gradualmente e por fim transforma-se na paixão contrária. A mente encontra satisfação e à-vontade ao ver os objetos aos quais está habituada e prefere-os naturalmente a outros que, embora talvez em si mais valiosos, lhe são menos conhecidos. A mesma qualidade da mente leva-nos a ter boa opinião de nós próprios e de todos os objetos que nos pertencem. Estes objetos aparecem a uma luz mais forte, são mais agradáveis e por conseguinte mais apropriados do que qualquer outro para se tornarem motivos de orgulho e vaidade.»

David Hume, Tratado da Natureza Humana, Gulbenkian, Lisboa, 2012, pág. 415.

Pintura: Vaidade, de Auguste Toulmouche (1829 - 1890).

terça-feira, 7 de abril de 2020

Como comunicar e planificar no ensino à distância?

O vídeo mostra um webinar do professor Carlos Pinheiro acerca do ensino à distância.  Informações e sugestões acerca da comunicação e da planificação nesta modalidade de ensino.  

Ocorreu hoje, dia 7 de abril de 2020, e nos próximos dias realizar-se-ão mais dois, versando a concecão de recursos didáticos e a avaliação. 




domingo, 5 de abril de 2020

Um dilema ético gerado pela covid-19

«Imagine-se que amanhã chegam três pacientes em estado grave a um hospital com recursos escassos: um rapaz de 15 anos com diabetes, uma mãe de 25 anos sem historial de doenças e um avô com 80 anos. Por causa do novo coronavírus, eles estão a lutar pela vida e só nos resta um ventilador. A quem o devemos administrar? Qual é a acção correcta? Este não é um cenário meramente ficcional de uma aula teórica de ética; é algo que já está a acontecer em Itália, Espanha e, em breve, é provável suceder em Portugal.
Como possível resposta para esse dilema ético, há duas teorias éticas rivais: o consequencialismo das regras e a deontologia. Essas duas teorias aceitam que uma acção é moralmente correcta se, e só se, não infringir as regras morais correctas. Onde há desacordo é na concepção e fundamentação do que são “regras morais correctas”. Para o consequencialista das regras, tudo o que importa para determinar a correcção moral de uma determinada regra são as suas consequências, ao passo que, para o deontologista, há regras morais que não podemos quebrar mesmo que tenham as melhores consequências.
Por um lado, de acordo com o consequencialismo das regras, com raízes em Stuart Mill, as “regras morais correctas” são aquelas que, a serem adoptadas por todas ou quase todas as pessoas, mais promovem o bem de uma forma imparcial no máximo grau possível. Assim, devemos seguir aquelas regras que têm as melhores consequências. Para sabermos se uma regra moral é correcta, devemos imaginar como seria o mundo se todos ou quase todos a aceitassem. Se descobrirmos que a aceitação geral de uma regra seria prejudicial para a promoção do bem geral, teremos de considerá-la incorrecta. Mas se entendermos que a sua aceitação geral teria um impacto muito positivo no bem geral, então poderemos considerá-la correcta.
Por outro lado, de acordo com o deontologismo, com raízes em Kant, as “regras morais correctas” são (1) aquelas que podemos querer que sejam adoptadas universalmente e (2) aquelas que nos levam a tratar as pessoas como fins e não como meros meios. A ideia da cláusula (1) não consiste em ver se teria boas ou más consequências que todos agissem de acordo com uma determinada regra. Consiste, antes, em mostrar se é ou não possível todos agirem segundo uma tal regra. Já a cláusula (2) salienta que, seguindo uma regra moral correcta, nunca poderemos manipular as pessoas, ou instrumentalizá-las para alcançar os nossos objectivos.
Seguindo essas teorias éticas, que regra devemos adoptar para solucionar o dilema ético inicial? A quem devemos administrar o nosso único ventilador? Em Itália adoptou-se a seguinte regra para resolver esses casos: dar prioridade àqueles doentes com maior probabilidade de sucesso e esperança de vida. Mas será essa uma regra moral correcta, de acordo com as teorias acima descritas?
Podemos dizer que sim. Pois, por um lado, seguindo a ética consequencialista das regras, se violarmos essa regra e adoptarmos uma regra alternativa em que aplicamos o nosso único ventilador ao doente que tem menos probabilidade de recuperar, gera-se um estado de coisas que tem piores consequências: nessa situação é provável que todos morram. Por outro lado, seguindo a ética deontológica, pode-se argumentar que naquela situação de recursos escassos é possível todos agirem de acordo com a regra adoptada pela Itália e, além disso, será implausível defender que, ao adoptar-se uma tal regra, estamos a “instrumentalizar” as pessoas com menos probabilidade de sucesso de recuperação para alcançar os nossos objectivos. Simplesmente, dada a situação ilustrada pelo nosso dilema inicial, seria impossível dar a mesma assistência médica aos três doentes. Portanto, as duas principais tradições rivais da ética acabam por concordar nesta situação trágica.»

Domingos Faria, Jornal Público, 5 / 4 / 2020


sábado, 4 de abril de 2020

George Dickie

Morreu George Dickie (1926-2020), o autor da teoria institucional da arte. Depois de propor uma primeira versão da teoria teve em conta objeções que lhe foram feitas e reformulou-a. Um bom exemplo, portanto, do que por vezes se chama “atitude filosófica”.  

«O mundo da arte não requer procedimentos rígidos; admite e até encoraja a frivolidade e o capricho sem pôr em causa o seu propósito sério. Contudo, se não é possível cometer um erro na atribuição de estatuto envolvida na produção da arte, é possível cometer um erro ao conferir o estatuto de candidato à apreciação. Ao conferir um tal estatuto a um objeto, assume-se uma certa responsabilidade pelo objeto no seu novo estatuto. Apresentar um candidato à apreciação coloca-nos sempre perante a possibilidade de ninguém o apreciar e que em virtude disso a pessoa responsável pela atribuição perca a credibilidade. É possível fazer uma obra de arte a partir da orelha de uma porca, mas isso não a torna necessariamente uma bolsa de seda.»
         George Dickie, Introdução à Estética, Bizâncio, Lisboa, 2008, pp. 136-137.



sexta-feira, 3 de abril de 2020

Humanos como nós


"Um líder de uma tribo protegida da Amazónia foi encontrado morto, o que constitui a quinta morte violenta nos últimos seis meses numa região assolada por conflitos entre madeireiros ilegais e as tribos da zona."

Leia a notícia inteira no jornal Público. 

Esta notícia triste fez-me lembrar um caso mais antigo, mas que na cabeça de algumas pessoas parece não estar ainda resolvido:

«Quando Espanha estava a colonizar o Novo Mundo no tempo de Filipe II (1527-1598) surgiu uma discordância amarga entre os conquistadores sedentos de lucro e os frades pios que, às ordens do rei, acompanhavam sempre as suas explorações. O objeto da discordância era o estatuto dos nativos locais, os povos indígenas das Américas. Eram eles - como os frades sustentavam - seres humanos com almas para salvar e vidas para serem integradas na comunidade da Igreja? Ou eram eles - como os conquistadores preferiam pensar - como alguns dos maiores hominídeos de África, mamíferos sofisticados disponíveis para trabalhar nas minas de ouro e prata, análogos aos camelos e bois que serviam de bestas de carga? Eram realmente seres humanos ou eram simplesmente de encarar como uma espécie de símios algo mais desenvolvidos?
Quando os frades que resistiam à exploração dos povos indígenas insistiram em defender a sua posição, Filipe II reenviou a questão para alguns dos melhores especialistas disponíveis daquele tempo - os melhores dos melhores entre os teólogos e estudiosos de Espanha. Reuniram-se em 1550-1551 para resolver a questão num debate escolástico na Universidade de Valladolid (...).
O frade dominicano Bartolomeu de las Casas (...) defendeu a posição dos frades com tal eloquência e cogência que os sábios reunidos, para seu crédito eterno, puseram-se do lado da humanidade. (Não que isto tenha feito assim tanta diferença para os homens sem escrúpulos que exerciam cargos de chefia nas Américas.)»

Nicholas Rescher, Uma viagem pela filosofia em 101 episódios, Gradiva, Lisboa, 2018, pp. 129-130.

Os vírus por vezes são nossos aliados




Desde que a pandemia de Covid 19 começou tem-se falado bastante de livros que possam ajudar a compreender o que se está a passar, como A Peste, de Albert Camus. Um livro que talvez possa dar um contributo para isso é a Guerra dos Mundos de H. G. Wells. Este descreve a invasão da Terra por marcianos, tecnologicamente muito superiores aos humanos. Contudo, os invasores, depois de vencerem rapidamente os seres humanos, acabam por morrer vítimas dos vírus e bactérias terrestres.   

Uma das várias adaptações cinematográficas feitas do livro de Wells é da autoria de Steven Spielberg (2005). O filme termina com a voz impressionante de Morgan Freeman a dizer algumas das seguintes palavras:

«E, espalhados por ali, (…) estavam os marcianos – mortos – aniquilados pela bactéria da doença e da putrefação contra a qual os seus organismos não estavam preparados; aniquilados (…), depois de todos os engenhos humanos terem falhado, pelas coisas mais humildes que Deus, na sua sabedoria, colocou na Terra. (…)
Estes gérmenes da doença tinham cobrado direitos à Humanidade desde o começo das coisas - tinham cobrado direitos aos nossos antepassados pré-humanos mal a vida brotou na Terra. Mas, graças a esta seleção natural da nossa espécie, desenvolveu-se em nós o poder de resistência; não sucumbimos a nenhuns gérmenes sem uma luta, e a muitos deles – os que causam a putrefação da matéria morta, por exemplo – os nossos corpos vivos são totalmente imunes. Mas não existem bactérias em Marte e, mal estes invasores chegaram, mal comeram e beberam, os nossos aliados microscópicos começaram a trabalhar para a sua destruição. Quando eu os observara já estavam irremediavelmente condenados; embora andassem de um lado para o outro, estavam a morrer e a apodrecer. Isto era inevitável. Pelo preço de um milhão de mortos, o homem comprou o seu direito de viver na Terra, e este pertence-lhe contra todos os forasteiros; continuaria a pertencer-lhes ainda que os marcianos fossem dez vezes maiores. Pois os homens não vivem nem morrem em vão.»

H. G. Wells, A Guerrra dos Mundos, Ulisseia, Lisboa, 2005, pp. 173-174.

A narração de Morgan Freeman:


Trailer do filme: