quarta-feira, 30 de setembro de 2009

sábado, 26 de setembro de 2009

Defesa do voto e crítica da abstenção

Amanhã há eleições legislativas em Portugal. Em diversas eleições passadas a percentagem de eleitores que se absteve foi elevada. Por exemplo: 35,7% nas últimas eleições legislativas e 63,5% nas últimas eleições para o Parlamento Europeu.

votar Na minha opinião, as pessoas que valorizam o facto de viverem num país democrático deviam votar sempre e nunca se abster. A existência de eleições livres é uma das principais diferenças entre uma democracia e uma ditadura. As pessoas que votam, além de escolherem quem vai exercer o poder, exprimem simultaneamente o seu apoio à democracia e à existência de eleições livres. Quem se abstém e não vota faz uma escolha que pode ser interpretada como uma rejeição da democracia ou, pelo menos, como indiferença perante o facto de viver numa democracia ou numa ditadura.

Algumas pessoas justificam o facto de se absterem nas eleições com a circunstância de discordarem de todos os candidatos. É perfeitamente possível, e até razoável (atendendo ao que se vê e ouve em muitas campanhas eleitorais), que um eleitor discorde de todos os candidatos. No entanto, a abstenção não é a melhor maneira de exprimir essa discordância. O voto em branco exprime de modo mais claro e inequívoco uma tal discordância, pois, contrariamente à abstenção, o voto em branco não pode ser confundido com a rejeição da democracia ou com a demissão cívica das pessoas que não vão votar porque preferem ir passear. Quem vota em branco está a dizer que recusa votar naquelas candidatos, mas que quer votar e que é favorável à existência de eleições e de democracia.

Tal não significa, porém, que (como sucede nalguns países) o voto deva ser obrigatório. Se existir uma qualquer sanção para quem não for votar, isso diminuirá o significado político do acto de votar. Este deixará de exprimir um apoio do eleitor à existência de eleições e de democracia. Mesmo as pessoas que rejeitam a democracia ou que lhe são indiferentes tenderão a ir votar para evitar a sanção, pelo que esse acto não poderá ser visto como uma escolha inteiramente livre – em que o cidadão, além de escolher quem exercerá o poder, manifesta o seu apoio ao regime democrático em que vive.

Seja quem for o vencedor das eleições de amanhã, seria bom que a percentagem da abstenção fosse baixa e que quase todos os 9,4 milhões de leitores (ver mais detalhes aqui) fossem votar. Se tal sucedesse seria a democracia que ganharia as eleições.

(A respeito deste assunto vale a pena espreitar aqui.)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Como é que filosofamos?

cabeça_vazia

O cartoon, sem referência de autor, foi retirado deste sítio.

«Como é que filosofamos? É visivelmente apenas a partir do momento em que nos encontramos em diálogo com os filósofos. Isso implica debatermos com eles os problemas (...). Uma coisa é constatar e descrever as opiniões dos filósofos, outra completamente diferente é debater o que eles dizem.»

Martin Heidegger, Qu’est ce que la philosophie?, Gallimard.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Em Filosofia estudamos “os problemas da vida”?

O filósofo Ludwig Wittgenstein Ludwig Wittgenstein (1889-1951).

O filósofo Ludwig Wittgenstein escreveu, num livro intitulado Tratado Lógico-filosófico, o seguinte:

“Sentimos que mesmo quando todas as possíveis questões da ciência fossem resolvidas os problemas da vida ficariam ainda por tocar.”(Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-filosófico, tradução de M.S. Lourenço, Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987, pág. 141.)

Como é que se pode entender a expressão “problemas da vida”?

Será a afirmação de Wittgenstein verdadeira? Porquê?

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Problemas filosóficos e problemas não filosóficos

Um certo fenómeno pode ser estudado simultaneamente por diferentes disciplinas. A religião, por exemplo, interessa nomeadamente à Sociologia, à Psicologia, à História e à Filosofia. Todavia, isso não significa que estudem a mesma coisa. Os problemas de que se ocupa a Filosofia da Religião são muito diferentes dos problemas de que se ocupam os estudos sociológicos (ver o post Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia), históricos e psicológicos da religião. Contrariamente à Filosofia, nenhuma dessas disciplinas procura determinar se, por exemplo, a afirmação “Deus existe” é verdadeira ou falsa.

Outro exemplo possível é a pena de morte.

«Vamos considerar como as diferentes Ciências Sociais podem abordar o tema polémico da pena de morte. Os historiadores estariam interessados no desenvolvimento [nos EUA] da pena capital do período colonial até ao presente. Os economistas poderiam fazer uma pesquisa para comparar os custos das pessoas encarceradas durante toda a vida com as despesas dos recursos que ocorrem nos casos de pena de morte. Os psicólogos observariam os casos individuais e avaliariam o impacto da pena de morte na família da vítima e na do preso executado. Os cientistas políticos estudariam as diferentes posições assumidas pelos políticos eleitos e as implicações dessas posições nas suas campanhas para a reeleição.

E qual seria a abordagem dos sociólogos? Eles poderiam verificar [entre outros aspectos] como a raça e a etnia afectam o resultado dos casos de pena de morte. De acordo com um estudo publicado em 2003, 80% dos casos de pena de morte nos Estados Unidos envolvem vítimas de cor branca, apesar de apenas 50% de todas as vítimas de assassinato serem brancas. Parece que a raça da vítima influencia a decisão sobre se o réu será condenado à pena capital (...). Assim, o sistema de justiça criminal parece tender a impor penas mais pesadas quando as vítimas são brancas do que quando elas pertencem a uma das minorias.”

Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pp. 6-7.

Por seu turno, os filósofos discutem se a pena de morte é justa ou injusta, ou seja, se é certa ou errada em termos morais.

Mas porque é que problemas como “será que Deus existe?” ou “a pena de morte é justa ou injusta” são filosóficos e, por exemplo, a relação entre a raça das vítimas e a aplicação da pena de morte não é um problema filosófico?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia

O 1º e o 2º parágrafos do texto apresentam alguns dos aspectos que, no estudo da religião, interessam à Sociologia. O 3º parágrafo refere alguns dos aspectos que, nesse estudo, interessam à Filosofia.

«Em 2002, o Pew Center, uma empresa de opinião pública (…), perguntou a pessoas de 44 países em que medida a religião era importante para elas. Nos EUA 59 % disseram que a religião desempenhava um papel “muito importante” na sua vida. Esta percentagem é invulgarmente alta. Em Inglaterra, apenas 33 por cento disseram que a religião era importante. Noutros países, as percentagens foram as seguintes: 27% em Itália, 21 % na Alemanha, 12% no Japão e 11 % na França. No entanto, as percentagens relativamente à Bolívia, à Venezuela e ao México foram semelhantes à dos EUA, o que levou os analistas a concluir, de forma pouco generosa, que as atitudes norte-americanas “estão mais próximas das atitudes das pessoas das nações em vias de desenvolvimento do que das pessoas das nações desenvolvidas”.

Entretanto, na sondagem Gallup International Millenium Survey, perguntou-se a pessoas de 60 países se acreditavam em Deus. Apenas 45 % disseram acreditar num Deus “pessoal”, ao passo que outros 30 % disseram acreditar “numa espécie de espírito ou força vital”. A sondagem Gallup mostrou não só que a crença religiosa é mais forte nos mais velhos e nos que têm menos educação, mas também que o índice de crença é mais elevado na África Ocidental, onde predomina o Islão. Aí, 99 % acreditam num Deus pessoal. Nos EUA, 86 % têm essa crença, enquanto os europeus, conclui a sondagem, “são os mais agnósticos”. (…)

No entanto, não queremos apenas saber no que acreditam as pessoas – queremos saber se as crenças religiosas são verdadeiras. (…) Existirá alguma boa razão para acreditar que o mundo foi criado por uma divindade todo-poderosa? (…) Será possível apresentar boas razões que apoiem a crença em Deus?»

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.27-29.

Se clicar no nome do livro e na imagem, poderá ler informações úteis sobre o mesmo.

james rachels problemas da filosofia