O fotográfo Andy Craddock usou uma igreja anglicana do século XIII como cenário para um ensaio fotográfico erótico e não escapou a um processo judicial (sendo acusado de violação da propriedade privada, pois fotografou sem autorização). Segundo as autoridades anglicanas, o que Craddock fez é uma blasfémia. Em entrevista ao jornal i, Craddock defendeu-se dizendo que a Igreja Anglicana só poderia acusá-lo de blasfémia se provasse que Deus existe. (Leia mais aqui.)
O único aspecto da história que merece alguma atenção é essa afirmação de Craddock. Se – por hipótese - se provasse que Deus existe, já seria racionalmente defensável a Igreja Anglicana acusar alguém de blasfémia? Vou procurar mostrar que não.
Se – por hipótese - descobríssemos que um dos argumentos clássicos a favor da existência de Deus (por exemplo o argumento ontológico ou o argumento do desígnio) prova a existência de um tal ser, não saberíamos ainda assim qual das religiões é verdadeira.
O “ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado” do argumento ontológico é compatível com qualquer uma das religiões monoteístas. Por isso, mesmo que considerássemos verdadeira a conclusão (“Deus existe”) desse argumento, isso por si só não nos permitiria decidir qual dessas religiões é verdadeira. (Para ler mais sobre o argumento ontológico veja aqui e aqui.)
Quanto ao argumento do desígnio a situação é ainda mais confusa, pois esse argumento é compatível não só com as religiões monoteístas mas também com muitas religiões politeístas. Este argumento procura mostrar que o Universo teve necessariamente um Criador inteligente. Ora, mesmo que se admitisse essa necessidade isso não implicaria que esse Criador tivesse as características referidas pelas religiões monoteístas: poderia tratar-se, por exemplo, de um ser muito poderoso, mas não omnipotente; muito sábio mas não omnisciente; poderia não ser sequer o único Criador – como sucede em diversas religiões politeístas. (Para ler mais sobre o argumento do desígnio veja aqui.)
Numa religião existem diversas crenças específicas associadas à crença na existência de Deus. Religiões como o Judaísmo, o Cristianismo ou o Islamismo têm crenças específicas diferentes, apesar de partilharem uma concepção de Deus bastante semelhante. Quando atrás escrevi que, mesmo que a existência de Deus fosse provada, não saberíamos qual das religiões é verdadeira, queria dizer que essa prova não nos permitiria escolher racionalmente entre os vários conjuntos de crenças específicas que existem.
Uma acusação de blasfémia implica algumas dessas crenças específicas. Por isso, mesmo que descobríssemos que um desses argumentos é sólido não seria racionalmente defensável fazer uma afirmação como “a ideia Y é blasfema”.