quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Na filosofia pode-se discutir tudo

a-gentlemans-debate-benjamin-eugene-fichel

“A glória da filosofia — e seguramente um dos aspectos imediatamente interessantes para os que se sentem atraídos por ela — é nada estar interdito, nem mesmo o valor da razão, ou, na verdade (embora isto possa parecer paradoxal), o próprio estatuto da filosofia. Não há restrições. Só algo como argumentação e a discussão sem limites parece constante. É uma liberdade maravilhosa.”

John Shand, “O que é a filosofia?”, Crítica - http://criticanarede.com/oqefilosofia.html

Imagem: Benjamin Eugène Fichel, A Gentleman's Debate, 1881.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Para além da argumentação

manipulação retórica

Se a excisão faz as mulheres sofrerem desnecessariamente, então não deve ser realizada.
A excisão faz as mulheres sofrerem desnecessariamente.
Logo, a excisão não deve ser realizada.

Se existem rochas com milhões de anos, então o mundo não começou há cerca de seis mil anos como diz a Bíblia.
Existem rochas com milhões de anos.
Logo, o mundo não começou há cerca de seis mil anos como diz a Bíblia.

A lógica diz-nos que estes argumentos são válidos. Serão sólidos? A reflexão ética dá-nos boas razões para pensar que o primeiro é sólido. A ciência mostra que o segundo é sólido.

Ainda assim, há pessoas que os rejeitam e acham as suas premissas e conclusões falsas.

Será possível persuadir essas pessoas? Além de argumentos sólidos que recursos temos para convencer uma pessoa acerca da verdade de uma tese?

Segundo Aristóteles, um orador tem à sua disposição três meios de persuasão: os argumentos (logos) com que defende a sua tese, o seu próprio carácter (ethos) e o estado emocional (pathos) do auditório que pretende convencer.

«As provas de persuasão fornecidas pelo discurso são de três tipos: umas residem no carácter moral do orador; outras, no modo como se dispõe o ouvinte; outras, no próprio discurso, naquilo que ele demonstra ou parece demonstrar. Persuade-se pelo carácter quando o discurso é proferido de modo a deixar a impressão do orador ser digno de confiança. Acreditamos mais e mais depressa em pessoas honestas (…). Persuade-se pela disposição dos ouvintes, quando estes são levados a sentir emoção por causa do discurso, pois os juízos que emitimos variam conforme sentimos tristeza ou alegria, amor ou ódio. […] Persuadimos, enfim, pelo raciocínio quando mostramos a verdade ou o que parece verdade, a partir do que é persuasivo em cada caso particular.»

Aristóteles, Retórica

Nos posts Ethos, logos, pathos, Ethos, Logos, Pathos & pizza e Como usar a retórica para conseguir o que queremos? encontra diversos exemplos.

A retórica ocupa-se dos aspetos da persuasão que vão além da argumentação. A retórica é muitas vezes definida como a arte de bem falar, ou seja, a arte de convencer através do discurso.

Os especialistas em retórica estudam a melhor forma de persuadir as pessoas. Dão atenção a muitos aspetos, além da qualidade dos argumentos – que por vezes pode até ser considerada secundária.

A ideia central é que é preciso adequar a mensagem aos destinatários – ou seja, ao auditório. Para isso é preciso conhecer as suas características: idade, nível educacional, interesses, gostos, preocupações, opiniões, etc. O pathos aristotélico é um aspeto entre outros.

Para ser eficaz, o discurso do orador deve ser construído em função dessas características. Por exemplo: a escolha de palavras mais ou menos simples deve ser feita em função da idade e nível educacional do auditório, dar mais ou menos atenção a certos temas depende do que se conhece dos interesses, preocupações e opiniões do auditório, etc.

Imagine um médico que tem de dar palestras acerca de uma doença nova e muito contagiosa. Se falar para ouvintes pouco escolarizados deve usar ou evitar termos técnicos da medicina?

Se esse médico falar para pessoas que, presumivelmente, não têm grande capacidade de concentração (como crianças ou idosos), deve fazer um discurso longo ou breve? E como deve organizar as ideias: dizer o mais importante no princípio ou no final?

Imagine que um político português durante uma campanha eleitoral visita uma aldeia onde recentemente um imigrante assassinou uma pessoa. Seria prudente esse político dar grande relevância à questão dos refugiados e defender que Portugal deve receber muitos refugiados?

Imagine que um político durante uma campanha eleitoral visita uma aldeia onde recentemente várias pessoas morreram num grave acidente de viação. Seria adequado esse político falar em tom muito inflamado e entusiasmado? Ou seria preferível falar de maneira mais calma, grave e séria?

A retórica surgiu na Grécia, quando no século V a. C. a democracia surgiu em Atenas. Os políticos democráticos precisavam de falar bem para conseguir convencer os cidadãos nas Assembleias e votações. Muitos desses políticos recorreram aos serviços dos sofistas.

Os sofistas eram professores itinerantes que, entre outras coisas, ensinavam (a troco de dinheiro) retórica. Foram acusados por diversos filósofos, nomeadamente Platão, de fazer um mau uso da retórica – um uso não ético. Mais precisamente, foram acusados de promoverem a manipulação e não a persuasão racional.

Persuadir racionalmente consiste em tentar convencer as pessoas sem as enganar, sem usar mentiras e falácias. Manipular consiste em persuadir irracionalmente, tentando convencer as pessoas a todo o custo e sem olhar a meios, enganando-as se necessário.

Segundo Platão, os sofistas ensinavam as pessoas a vencer as discussões mesmo que não tivessem razão, recorrendo a mentiras e a qualquer outro artifício que fosse persuasivo. Devido a isso, ainda hoje a palavra “sofista” designa alguém engandor, alguém que usa sofismas – ou seja, argumentos propositamente falaciosos.

Para Platão esse comportamento era indigno de um filósofo. Para ele a retórica devia ser apenas uma defesa da verdade.

Leituras:

Aires Almeida e Desidério Murcho, 50 Lições de Filosofia – 11º ano, Didáctica Editora, Lisboa, 2014.

Paula Mateus e outros, Cogito – 11º ano, Asa, 2014.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

9 presentes de Natal filosóficos

Resultado de imagem para democracia bertrand

Aos que já se iniciaram ou se querem iniciar na reflexão sobre os problemas filosóficos.

Boas leituras a todos!

Resultado de imagem para elementos de filosofia moral

  Resultado de imagem para logicomix

Resultado de imagem para livros de divulgação filosófica Nigel warburton             Resultado de imagem para filosofar de A a z Nigel warburton

   Resultado de imagem para james rachels problemas da filosofia         Resultado de imagem para livros de pedro galvão na fundação manuel dos santos

Resultado de imagem para liberdade de expressão nigel warburton            Resultado de imagem para liberdade de expressão nigel warburton

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A opinião dos alunos: qual é o sentido da vida?

image

No DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA, lançámos aos alunos da escola e aos leitores deste blogue um desafio, ver AQUI:

A Filosofia está em todo o lado…dizem os alunos. Muitos explicaram como é que podemos responder aos problemas filosóficos propostos. Obrigada a todos!

Eis algumas das melhores opiniões:

Se afinal vamos morrer, que sentido faz viver?

Um dos maiores questionamentos do homem é o sentido da vida. O desconhecido é algo que sempre amedrontou a humanidade, afinal não temos nenhuma resposta que nos situe numa perspetiva indiscutível. Resta-nos refletir.
Na minha opinião, viver sabendo que a qualquer momento pode ser o meu último é, no mínimo, angustiante. E várias vezes me pergunto se o nosso destino final é o caixão porque damos tanto valor a preocupações menores como, por exemplo, uma simples nota negativa em provas escolares?
Bem, durante centenas de anos, o homem tentou explicar o sentido da vida. Vários filósofos tentaram e tentam dar explicações a essa pergunta. Na religião, um exemplo é o cristianismo que defende ser o sentido da vida a comunhão com Deus, tanto na vida como após a morte. Nas doutrinas que defendem a reencarnação da alma, o sentido da vida é evoluir e tornarmos-nos pessoas melhores a cada passagem pela Terra. No judaísmo, o sentido da vida é, de forma simplificada, a reverência perante a Deus e a sua vontade.
Não sou apegada a nenhuma religião e muito menos pretendo me apresentar como filósofa, porém penso que o sentido da vida é uma escolha e varia para cada um de nós. Ora, como vamos definir o sentido da vida para ser aplicado a todos, se a personalidade e os contextos, tanto social quanto económico das pessoas, são diferentes?
Mas deve-se ressaltar que na sociedade também somos levados a padronizar o nosso modo de viver, bem como a nos enquadrarmos dentro de uma determinada moral. Podemos mesmo lembrar exemplos extremos de conformismo aos modelos socialmente aceites, como o nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália.
De qualquer maneira, desde pequenos, somos ensinados que a única variável certa da vida é a morte. Todavia, não sabemos em que momento ela vai chegar.
“Se afinal vamos morrer, que sentido faz viver? ”
Ora, só porque sabemos o destino final, a viagem e o modo como ela é feita não é importante?
O sentido da vida, acredito eu, pode estar mais nas pequenas coisas, como ver as primeiras folhas espalharem-se pelo chão anunciando o começo do outono ou, simplesmente, ver o sol nascer.
Considero que temos de dar valor às lições que recebemos ao longo da vida - pode ser um conselho sábio de um idoso ou o estudo da filosofia – e construirmos e legarmos algo que auxilie as gerações futuras.
Por fim, penso que a busca pelo sentido de viver é algo que criamos para aceitar e suportar a verdade iniludível: vamos todos morrer um dia.
 
Luísa Torres, nº14, 11º8
 
Se afinal vamos morrer, que sentido faz viver?
A morte é, provavelmente, a única certeza que temos na vida, é algo inevitável, não temos opção de escolha. Vai chegar uma fase da nossa vida na qual iremos morrer. E momentos antes de tal suceder, talvez pensemos sobre o sentido que demos à nossa vida. Será que a aproveitámos da melhor forma? Será que queremos morrer com a sensação de que não vivemos o suficiente? Que não aproveitámos a vida ao máximo?
Bem, esta resposta depende de cada pessoa, dos seus objetivos e respetivos sonhos. Cabe a cada um escolher o sentido que quer dar à vida, fazer com que esta valha a pena e com que nos sintamos bem connosco próprios.
Estamos constantemente a ser postos à prova pela vida, por exemplo, ao longo desta vamos conhecendo pessoas, umas tornam-se amigas para uma vida inteira, outras passam por ela simplesmente para nos ensinar um qualquer tipo de lição.
Na minha opinião, não devemos nem podemos, em altura nenhuma, desperdiçar a vida com detalhes e pormenores desinteressantes (como por exemplo: dar demasiada importância às pessoas de quem não gostamos ou às que nos irritam diariamente).
Talvez tenhamos nascido com um propósito: o de vivermos felizes; de aproveitarmos a vida concretizando os nossos sonhos; de aprendermos e ensinarmos igualmente; de proporcionar a maior felicidade, tanto para nós como para os outros e, por fim, de praticarmos o bem, tanto para a sociedade como para os que nos são próximos.
Aristóteles, outrora, disse: "A felicidade depende de nós mesmos" e não deixa de ser verdade, pois cabe a cada um decidir ser feliz e como sê-lo, descobrindo o que dá sentido à sua vida.
 
Catarina Possante, nº4, 11º8

Outras opiniões dos alunos sobre problemas filosóficos:

Como deve ser uma sociedade justa?
As tradições serão todas respeitáveis?