domingo, 21 de setembro de 2008

O que será fazer um bom uso do tempo?


«Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.

Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é nosso. A natureza concedeu-nos a posse desta coisa transitória e evanescente da qual quem quer que seja nos pode expulsar. É tão grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto – mau grado o seu valor mínimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuperável – lhes é emprestado, mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir.»


Séneca, Cartas a Lucílio, 1, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.


Como interpreta a expressão: “o tempo devora a vida”?

A propósito da questão filosófica do sentido da vida


«Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.

(…) Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a “ciência” que trata da vida; era justamente do que eu necessitava – pôr ciência na minha vida.

Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! Não ganhei nada.

(…) Imaginava eu que havia tratados da vida das pessoas, como há tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim parecidos com o tratamento que há para os animais domésticos, não é?

(…) Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.

Não achas Mãe? Por exemplo: há um cão vadio, sujo e com fome; cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças lhe fazem festas.

Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si – não saber cuidar de si é ser cão.

Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim (…).

Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar e nenhuma era para copiar.»

Almada Negreiros, Obras Completas, Vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1990, pp. 153-4.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Exemplo de um argumento válido com premissas falsas e conclusão verdadeira



Todos os imperadores romanos foram presidentes dos E.U.A.
Lincoln foi um imperador romano.
Logo, Lincoln foi um presidente dos E.U.A.


A. H. Basson a D. J. O'Connor, Introduction to Symbolic Logic


Belo e verdadeiro



Te Deum

Not because of victories
I sing,
having none,
but for the common sunshine,
the breeze,
the largess of the spring.

Not for victory
but for the day's work done
as well as I was able;
not for a seat upon the dais
but at the common table.

Charles Reznikoff



Aprender a viver


E Aprendemos


Após um tempo,
Aprendemos a diferença subtil
Entre segurar uma mão
E acorrentar uma alma,
E aprendemos
Que o amor não significa deitar-se
E uma companhia não significa segurança
E começamos a aprender...
Que os beijos não são contratos
E os presentes não são promessas
E começamos a aceitar as derrotas
De cabeça levantada e os olhos abertos
Aprendemos a construir
Todos os seus caminhos de hoje,
Porque a terra amanhã
É demasiado incerta para planos...
E os futuros têm uma forma de ficarem
Pela metade.
E depois de um tempo
Aprendemos que se for demasiado,
Até um calorzinho do sol queima.
Assim plantamos nosso próprio jardim
E decoramos nossa própria alma,
Em vez de esperarmos que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
Que somos realmente fortes,
Que valemos realmente a pena,
E aprendemos e aprendemos...
E em cada dia aprendemos.

Jorge Luis Borges, Tradução para Português de Luís Eusébio, http://pt.weblog.com.pt

O que é a verdade?



Truth


"Truth," said a traveller,
"Is a rock, a mighty fortress;
Often have I been to it,
Even to its highest tower,
From whence the world looks black."

"Truth," said a traveller,
"Is a breath, a wind,
A shadow, a phantom;
Long have I pursued it,
But never have I touched
The hem of its garment."

And I believed the second traveller;
For truth was to me
A breath, a wind,
A shadow, a phantom,
And never had I touched
The hem of its garment.


Stephen Crane