domingo, 5 de julho de 2009

Quem gosta de ler não regula bem da cabeça!

Há dias observei na praia de Faro um grupo de adolescentes: rapazes e raparigas, todos manifestamente amigos. Depois de umas braçadas, uma das raparigas tirou da mochila um livro e começou a lê-lo. Um dos rapazes disse-lhe admirado: “Ainda a estudar? Pensava que tinhas feito os exames todos na 1ª fase”. A rapariga sorriu e respondeu: “Não estou a estudar. É um romance, olha… chama-se ‘O Fim do Sr. Y’ e é muito interessante!” O rapaz virou-se para os outros e exclamou: “Malta, a Yolanda não está boa da cabeça! Está a ler um livro na praia e ainda por cima está a gostar!”

Nota: não sei se o livro é bom ou mau, pois não o li.

Publiquei um post igual no blogue Aula Aberta.

A voz interior

Pode-se perceber o que é o bem e ser capaz de distinguir as acções boas das más, mas optar por praticar o mal… A consciência moral (a chamada voz interior) nem sempre fala mais alto.

tintin_tibete4

As Aventuras de Tintim são clássicos da banda desenhada.

Esta página foi retirada do álbum Tintim no Tibete, que é merecidamente considerado uma das obras primas de Hergé. Vale mesmo a pena ler ou reler, em qualquer idade.

Tintin no Tibete

sábado, 4 de julho de 2009

The Blue Nile: Saturday Night

 

A canção chama-se Saturday Night, dos The Blue Nile. O nome do disco: Hats (de 1989).

No vídeo são mostrados quadros do pintor americano Edward Hopper (1882-1967).

Não conhecia os The Blue Nile. Descobri-os no 'Crítica: Blog', numa lista de bons conselhos musicais.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Como é que uma criança decide tornar-se cientista?

Espíritos curiosos

“Costumava sentar-me aos pés da cama para olhar pela janela para o pátio das traseiras. Ouvia o bairro. Mais ao longe, escutava os carros ou os camiões a passarem, e havia insectos que valia a pena ouvir, tudo a servir de banda sonora para minha solidão nocturna. Ficava a contemplar o pedaço de céu encaixado entre as árvores inclinadas para o relvado bem cuidado do vizinho. Perguntava a mim própria até onde é que conseguia ver, com que profundidade no espaço.

E todos os dias aconteciam coisas assim, e depois de centenas de dias destes receberia diplomas e trabalhos e títulos e tornar-me-ia cientista. São estas as linhas de que me lembro, as coisas que eu acho que sei. Como é que estas experiências se conjugaram para eu me tornar cientista e não música ou médica ou dona de casa? Não faço ideia.

Só sei que costumava ficar com um sentimento quase extático de orgulho ao pensar no nosso planeta belo e azul a rodopiar submissamente num mar de escuridão, num cosmos magnífico e imenso (…). Queria ver mais longe. Queria voar através da janela por entre as árvores, em direcção à cor densa do céu, e fundir-me com o que lá existisse. Noite após noite. Com a cara tão colada que embaciava o vidro da janela. Queria ver mais, saber mais, ser mais.

Quando as frustrações da ciência me desgastam, quando não suporto escrever mais uma candidatura a uma bolsa, fazer mais um cálculo detalhado, ouvir mais um seminário, ler mais um artigo cujo título é logo impenetrável (…), gostava às vezes de ter escolhido um caminho diferente. Já olhei para trás e perguntei-me como é que tinha chegado até aqui. Mas então, algum tempo depois, volta tudo ao seu lugar: continuo a ser a mesma miúda sentada sozinha em plena noite, entusiasmada só de olhar pela janela para o meu pedaço de universo, a querer saber que outras coisas existirão lá fora.”

Janna Levin, professora de Física e Astronomia na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

«(…) o meu avó oferecera-me um texto emoldurado de Pavlov, o “Legado à Juventude Académica da Rússia” – ou, como ficou conhecido o Último Testamento de Pavlov -, escrito pouco antes de morrer em 1936, com oitenta e sete anos. Eis a passagem que ele me destacou:

Nunca tentem encobrir uma insuficiência de conhecimento, nem que seja através da mais audaciosa suposição ou hipótese. Mesmo que essa bola de sabão delicie os vossos olhos com o seu efeito, ela acabará inevitavelmente por rebentar e só vos restará a vergonha…

Por mais perfeita que seja a asa de um pássaro, nunca conseguiria fazer o pássaro levantar voo se não pudesse contar com o ar. Os factos são o ar de um cientista. Sem eles, nunca conseguirão voar. Sem eles, as vossas “teorias” não passam de esforços inúteis.»

Nicholas Humphrey, Professor Catedrático na London School of Economics, é um psicólogo teórico, conhecido internacionalmente pelo seu trabalho sobre a evolução da inteligência e da consciência humanas.

Estes dois excertos foram retirados do livro “Espíritos curiosos”, organizado por John Brockman e publicado em Portugal pela Editora Gradiva.

Este livro reúne um conjunto de testemunhos de vários cientistas (vinte e sete) reconhecidos internacionalmente pelo seu trabalho, nas diversas áreas da ciência, que respondem a esta questão: o que leva uma criança a decidir tornar-se cientista?

Permite-nos, também, reflectir acerca de algumas questões que se colocam no âmbito da filosofia da ciência, como por exemplo:

Qual é a natureza do conhecimento científico?

Como se caracteriza a actividade dos cientistas?

Como se pode distinguir o que é ciência e o que não é ciência?

Pela diversidade de experiências e de pontos de vista apresentados, julgo que é uma boa sugestão de leitura - para as férias e não só.

Votos de boas leituras!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sem Deus tudo seria permitido?

«Afirma-se muitas vezes que é prejudicial atacar uma religião, porque ela torna os homens virtuosos. Confesso que não estou convencido disso. Conheceis, por certo, a paródia que Samuel Butler fez deste argumento no sue livro Erewhon Revisited.

Estais recordados de que um certo Higgs chegou a uma remota região onde passa algum tempo e depois se escapa num balão. Vinte anos depois, tendo aí regressado, ficou Albrecht Durer's Praying Hands rezar surpreendido ao deparar com um novo culto no qual ele próprio era adorado sob o nome de Filho do Sol. Recorde-se que, com efeito, subiu aos céus. Estava para breve a celebração da Festa da Ascensão, quando ouviu (…) [dois] altos dignitários da religião dos Filhos do Sol confidenciar uma ao outro que nunca tinham visto o chamado Higgs e que esperavam que jamais isso acontecesse. Cheio de indignação, aproximou-se e disse-lhes: ‘Vou esclarecer neste dia toda esta mistificação e dizer ao povo de Erewhon que eu, Higgs, sou apenas um homem como os outros e que, simplesmente, me servi de um balão para deixar o vosso país.’ Responderam-lhe: ‘Não faças isso, porque todos os princípios morais deste povo estão ligados a esse mito, e se souberem que não subiste ao céu, transformar-se-ão todos em malfeitores’. Persuadido, abandonou o país silenciosamente.»

Bertrand Russell, Porque não sou Cristão, Brasília Editora, Porto, s/d, pp. 28-29.

Os sacerdotes convenceram Higgs a não dizer a verdade argumentando que sem a fé religiosa não haveria razões suficientemente fortes para convencer as pessoas a agir moralmente: cumprir regras, respeitar os outros e os seus bens, etc. O romancista russo Fiódor Dostoiévski exprimiu essa ideia através destas célebres palavras: “Sem Deus tudo seria permitido”.

A ideia de que as pessoas não agiriam moralmente se não tivessem uma motivação religiosa presta-se a objecções óbvias, nomeadamente esta: há imensas pessoas que não têm qualquer crença religiosa e mesmo assim procuram agir moralmente. Por isso, é possível que mesmo sem Deus nem tudo fosse permitido.

Mas, mesmo que admitíssemos a necessidade de uma tal motivação religiosa, isso não seria – como sugere a história contada por Bertrand Russell – uma prova a favor da existência de Deus ou de outro ser sobrenatural qualquer. Com efeito, para se adquirir esse tipo de motivação e para que esta seja eficaz, não é necessário que Deus exista – basta que as pessoas acreditem que existe.

[Uma discussão mais detalhada destas ideias levar-nos-ia a considerar vários tópicos filosóficos, nomeadamente a teoria dos mandamentos divinos (acerca da natureza dos juízos morais) e o argumento moral a favor da existência de Deus.]

Na imagem: Betende Hände, Desenho a pincel sobre papel azul de Albrecht Dürer (1471-1528).

Tirou-me as palavras da boca!

Vale a pena lêr o post “Traímos várias gerações de crianças” de Helena Damião, no blogue De Rerum Natura. Nele são citadas estas palavras de Susan Hill, que apesar de não terem sido escritas a pensar em Portugal se aplicam que nem uma luva:

“Em muitos aspectos, traímos várias gerações de crianças - demos prioridade ao ensino por competências, em detrimento dos conhecimentos, fizemos exames mais fáceis em nome de uma falsa igualdade social, permitimos que elas fizessem as suas escolhas morais no contexto confuso do politicamente correcto, enfatizámos a importância do computador, como se ele fosse mais do que uma ferramenta útil, e supusemos que a internet era mais rica do que os livros em conteúdos.”