quarta-feira, 17 de junho de 2009

Uma crença pode ser útil mas falsa

Alguns autores defendem que o papel da religião na vida humana é muito positivo, pois esta constitui um apoio psicológico fundamental para as pessoas, nomeadamente devido ao consolo que proporciona perante a morte.

Ao comentar essa ideia, Richard Dawkins (A Desilusão de Deus, Casa das Letras, 2007, pp.30-31) observa que «é assombroso o número de pessoas incapazes de compreender que ‘X é reconfortante’ não implica dizer que ‘X é verdadeiro’» e que «a eventual carga de consolo de uma determinada crença não faz subir o respectivo valor em termos de verdade».

Pode-se fazer o mesmo raciocínio relativamente a outras coisas apreciadas devido à sua utilidade: o facto de K ser fácil não implica que K seja verdadeiro; o facto de W dar prazer não implica que W seja verdadeiro; o facto de Z ser oportuno politicamente não implica que Z seja verdadeiro; etc.

(Por outro lado, o facto de Y me aborrecer não implica que Y seja falso.)

Uma crença útil (porque consola, porque favorece interesses políticos ou pessoais, etc.) mas falsa, terá uma utilidade duradoura ou apenas imediata? Essa utilidade será genuína ou meramente aparente?

O que é a amizade?

Dedico este post à minha colega, professora Luísa Madeira

“Analisemos agora a amizade. De facto, trata-se de uma certa excelência, ou algo de estreitamente ligado à excelência; além disso, é do que mais necessário há para a vida. Pois ninguém há-de querer viver sem amigos, mesmo tendo em conta os restantes bens. E até os ricos, os que têm posição e poder, têm uma necessidade extrema de amigos (…).

Contudo, uma amizade que tem como fim em vista o que cada um é em si próprio existe apenas entre homens de bem, porque os ordinários não podem sentir prazer nenhum uns com os outros, a não ser que possam obter uma qualquer vantagem. E só a amizade entre os bons é capaz de resistir à calúnia. Na verdade, não é fácil acreditar no que se diz sobre um amigo que foi posto à prova por nós próprios durante longo tempo. Na amizade entre boas pessoas há confiança mútua (…).

Agora, parece que não é possível ser-se amigo de muitas pessoas, pelo menos no sentido pleno da amizade, do mesmo modo que não é possível amar ao mesmo tempo muitas pessoas (tal parece que, na verdade seria excessivo; e o amor costuma nascer naturalmente em relação a uma única pessoa), porque não é possível agradar de modo totalmente satisfatório a muitos ao mesmo tempo, nem eventualmente até para as pessoas de bem. Por outro lado, para se criar uma amizade tem de se ter experiência conjunta de dificuldades e ganhar confiança mútua, o que é muito difícil (…).”

Aristóteles, Ética a Nicómaco, tradução do grego de António C. Caeiro,Quetzal Editores, Lisboa, 2004, pp. 180, 185 e 188.


As características referidas por Aristóteles (384-322 a.C.) continuarão a fazer parte daquilo que chamamos amizade? Haverá outras?

O desenvolvimento tecnológico e a consequente facilidade de comunicação (entre outros aspectos da vida actual, nomeadamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres) terão transformado de tal modo as relações entre as pessoas que a amizade já não é o que era na época de Aristóteles?

Etica a Nicomaco

terça-feira, 16 de junho de 2009

Como manter o poder?

«E, de repente, alguém obcecado pela mania dos segundos sentidos, pega em Heródoto. Quantas pistas lá encontrará! São nove livros que compõem Histórias e cada um deles está cheio de segundos sentidos. Por exemplo, casualmente abre o livro V e lê que em Corinto, depois de trinta anos de governo sanguinário, morreu o tirano chamado Cípselos, que foi substituído pelo filho Periandros, este ainda mais cruel que o pai. Periandros, sendo ainda um ditador novato, queria saber qual a melhor forma de ficar com o poder e mandou um mensageiro a Trasíbulos, ditador de Mileto, perguntando o que era preciso fazer para amedrontar as pessoas como escravos subjugados.

Trasíbulos, escreve Heródoto, levou o arauto de Periandros para fora da cidade e entrou na sua companhia num campo cultivado; percorrendo um trigal, ele interrogava repetidamente o arauto a respeito da sua vinda de Corinto, e ao mesmo tempo cortava todas as espigas que aos seus olhos pareciam ultrapassar as outras em altura; uma vez cortadas essas espigas Trasíbulos jogava-as ao chão, até que, agindo dessa maneira, havia destruído as espigas mais belas e mais carregadas de grão entre todas as existentes na seara. Percorrido o campo, e sem dar uma palavra sequer de conselho Trasíbulos mandou o arauto embora. Quando este regressou a Corinto Periandros procurou saber ansiosamente saber qual tinha sido o conselho tão esperado. O arauto respondeu que Trasíbulos não lhe havia dado conselho algum; ele manifestou estranheza pelo facto de Periandros tê-lo mandado procurar um homem como aquele, desequilibrado e destruidor das suas próprias coisas, e em seguida relatou o que vira Trasíbulos fazer. Periandros compreendeu o sentido desse procedimento, e percebeu que o conselho de Trasíbulos era mandar matar todos os cidadãos que sobressaíssem entre os outros; e desde então ele mostrou toda a espécie de malignidade em relação aos Coríntios. Tudo o que Cípselos havia deixado inacabado em matéria de assassínio e banimento Periandros terminou.»

Ryszard Kapuscinski, Andanças com Heródoto, Editora Campo das Letras, Porto, 2007, pp 11-12.

Ryszard Andanças com Heródoto Herodoto Histórias livro 1

domingo, 14 de junho de 2009

Boa sorte para os exames e votos de alguma…ansiedade!

Esta manhã vi um rapaz na praia que, enquanto ia dando uns toques na bola, repetia: “terça-feira começam os exames, mas eu não estou nervoso!” Depois de repetir a frase cinco ou seis vezes, chutou a bola para o mar e deixou-se cair na areia, dizendo desanimado: “ok, estou nervoso!”

rapariga a estudar Li não sei onde que (segundo a generalidade dos psicólogos) o excesso de ansiedade é prejudicial, pois faz com que a pessoa “bloqueie” e não consiga mostrar aquilo que sabe, mas que alguma ansiedade é benéfica, pois estimula a atenção e a concentração.

Espero que os estudantes portugueses, nomeadamente os que foram meus alunos, que vão fazer os exames nacionais, sintam apenas níveis moderados de ansiedade e que consigam mostrar aquilo que sabem.

Aproveito para lamentar que em Portugal não exista exame nacional em muitas disciplinas, nomeadamente em Filosofia.

Boa sorte para todos e votos de bom trabalho! E boas férias, claro!

Publiquei um post semelhante no blogue Caderno de Sociologia.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A matemática é a priori mas não é inata

«O matemático obtém o rigor e a certeza a priori, significando isto que não recorre a qualquer observação para chegar às suas conclusões matemáticas (*), nem estas conclusões, em si e por si mesmas, implicam observações, pelo que nada que experimentemos pode abalar os fundamentos que possuímos para as conhecer. Não há qualquer experiência que possa desmentir, por exemplo, que 5+7=12. Se adicionássemos 5 coisas a outras 7 e chegássemos a um resultado de 13, contaríamos de novo. Se, após termos repetido a soma, obtivéssemos 13 coisas, concluiríamos que uma das 12 se dividira em duas ou que estávamos a ver a dobrar ou a sonhar (#) ou até a ficar loucos. A verdade é que 5+7=12 é usado para avaliar as experiências de adição, e não o contrário.

A natureza a priori da matemática é (…) o que a torna tão conclusiva, tão incorrigível: uma vez demonstrado, um teorema fica imune à revisão empírica. Existe, em geral, uma espécie de invulnerabilidade na matemática, precisamente por esta ser a priori.

(*) No entanto, isto não significa que essas crenças sejam inatas, i. e., que nascemos com elas. Como é óbvio, precisamos primeiro de adquirir os conceitos e a linguagem para as expressar, antes que possamos acreditar que 5+7=12. O carácter inato é uma noção psicológica, ao passo que o apriorismo é uma noção epistemológica, que tem a ver com a forma como a crença é justificada, o que conta como prova, quer a favor, quer contra esta.»

Rebecca Goldstein, Incompletude – A demonstração e o paradoxo de Kurt Gödel, Gradiva, Lisboa, 2009, pág.16.

(#) Segundo Descartes, a veracidade da matemática mantém-se mesmo durante os sonhos: “quer eu esteja acordado quer durma, dois e três somados são sempre cinco e o quadrado nunca tem mais do que quatro lados”. Assim, para Descartes, mesmo que a hipótese céptica da vida ser um sonho fosse verdadeira isso não implicaria por si só a falsidade da matemática.

incompletude Gödel Se clicar no nome do livro e na imagem, poderá ler informações úteis sobre o mesmo.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Dia de Camões

No dia de Camões, uma pausa na Filosofia para ouvir duas canções com as palavras deste poeta:

A primeira, “Dura Memória”, é interpretada por Amália Rodrigues e tem música de Alain Oulman.

A segunda, “Verdes são os campos”, é interpretada por Zeca Afonso.

Dura Memória

Memória do meu bem, cortado em flores,
Por ordem de meus tristes e maus fados
Deixai-me descansar com meus cuidados
Nesta inquietação dos meus amores.

Basta-me o mal presente, e os temores
Dos sucessos que espero infortunados
Sem que venham, de novo, bens passados
Afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi numa hora tudo quanto em termos
Tão vagarosos e largos, alcancei;
Deixai-me, com as lembranças desta glória.

Cumpre-se e acaba a vida nestes ermos
Porque neles com meu mal acabarei
Mil vidas não, uma só - dura memória!...

Verdes são os campos

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.