quarta-feira, 10 de junho de 2009

Tudo pela nação e nada contra a nação???

«O nacionalismo é um mal. Provoca guerras e tem as suas raízes na xenofobia e no racismo. (…) Disfarçado de patriotismo e amor pelo país, tira partido da sem-razão da psicologia de massas para fazer parecer aceitável, e mesmo honroso, vários horrores. Por exemplo, se alguém lhe dissesse: ‘Vou mandar o teu filho matar o filho dos teus vizinhos’, com certeza protestaria veementemente. tudo pela nação selo Mas deixe seduzir-se com os seus gritos de ‘Rainha e Nação!’, ‘A Pátria!’, ‘O meu país, com razão ou sem ela!’ e vai dar consigo a permitir que ele mande todos os seus filhos matar não apenas os filhos de outras pessoas, como outras pessoas indiscriminadamente – que é o que fazem as bombas e as balas.

Os demagogos sabem muito bem o que fazem quando pregam o nacionalismo. Hitler disse: ‘A eficácia do chefe verdadeiramente nacionalista está em evitar que o seu povo disperse a atenção, mantendo-a assestada num inimigo comum’. E ele sabia a quem apelar: Goethe observara há muito que os sentimentos nacionalistas ‘conhecem a sua maior força e violência junto das pessoas com menor grau de cultura’. (…)

A ideia de nacionalismo depende da ideia de ‘nação’. A palavra não tem sentido: todas as ‘nações’ são híbridas, no sentido em que mais não são que uma mistura de imigrações e miscigenação de povos ao longo do tempo. Assim, a ideia de etnia é sobretudo cómica, excepto nos locais onde se pretende que a comunidade permaneceu tão remota e isolada (…) durante a maior parte da história, que conseguiu manter a sua reserva genética ‘pura’ (um cínico diria ‘consanguínea’).

estado novo nacionalismo Diz-se muitos disparates sobre as nações enquanto entidades: Emerson referiu o ‘génio’ de uma nação como algo independente dos seus cidadãos numéricos; Giraudoux descreveu o ‘espírito da nação’ como ‘a expressão dos seus olhos’; e abundam as afirmações sem sentido deste género.

As nações são construções artificiais cujas fronteiras foram traçadas no sangue das últimas guerras. E não se deve confundir cultura e nacionalidade: não existe país no mundo que não albergue mais do que uma cultura diferente mas geralmente coexistente. Património cultural não é a mesma coisa que identidade nacional.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 99-101.

Nota: “Tudo pela nação, nada contra a nação” era um slogan do Estado Novo, da autoria de Salazar (inspirado, creio, em Mussolini).

domingo, 7 de junho de 2009

sábado, 6 de junho de 2009

A palavra ‘provado’ devia ser usada com mais cuidado!

Se quiser observar o “eduquês” no máximo do seu pálido esplendor, leia a entrevista de Ana Maria Bettencourt (presidente do Conselho Nacional da Educação, professora e investigadora na área das Ciências da Educação, tendo já sido deputada do PS e assessora para a Educação do Presidente da República Jorge Sampaio) ao Público.

A senhora repete os disparates do costume (os alunos não deviam reprovar, os exames não são necessários para haver sucesso educativo, o ensino centrado no aluno, etc.) acrescentando sempre “está provado que…”

Aconselhar Ana Maria Bettencourt a ler Karl Popper talvez fosse excessivo da minha parte, pois a senhora ao informar-se sobre o critério de falsificabilidade podia concluir que a maioria dos estudos feitos no âmbito das Ciências da Educação são pseudo-científicos e lá se ia o trabalho de uma vida...

Mesmo assim, se conhecesse a presidente do Conselho Nacional da Educação, eu sugerir-lhe-ia que reflectisse acerca de afirmações como esta:

«Nunca se pode provar nem afirmar que uma teoria científica é verdadeira. Quanto muito, pode provar-se que é falsa – se se realizar um teste cujos resultados sejam contrários às suas previsões».

Jorge Buescu, O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias, 9ª edição, Gradiva, Lisboa, 2004, pág. 13.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Citizen Kane: o dinheiro, o poder, a felicidade e o sentido da vida

Citizen Kane

Mostrei nas aulas, a propósito do problema do sentido da vida, o filme “Citizen Kane” (“O Mundo a Seus Pés”, em português) de Orson Welles.

Ainda que alguns alunos tenham achado, inicialmente, uma certa ousadia da minha parte passar na aula um filme a preto e branco realizado em 1941, julgo que maioria deles acabou por não ficar indiferente à história relatada e ao fabuloso desempenho de Orson Welles.

Este filme permite-nos reflectir, entre outras coisas, acerca da relação entre o dinheiro, o poder e a felicidade.

O filme mostra que se pode possuir tudo aquilo que o dinheiro compra, ter poder para concretizar todos os desejos e acabar na mais completa solidão. Sendo assim, o que é verdadeiramente importante na vida?

É espantoso pensar que Orson Welles (simultaneamente realizador e actor principal) tinha apenas 25 anos quando o filme foi feito, tendo sido o primeiro  que realizou.

Bem, chega de palavras. Vejam o filme, que é, na minha opinião, genial.

citizenkane

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O dinheiro não traz a felicidade!

“Os filósofos antigos tiveram muito a dizer sobre a felicidade. Supunham que ‘a melhor vida’ e ‘a vida feliz’ eram a mesma coisa, e geralmente aceitavam que a felicidade consistia numa vida de razão e virtude. Epicuro (341-270 a. C.) recomendou uma vida simples, de modo a se evitarem sofrimentos e ansiedades. Os estóicos acrescentaram que um homem sábio não permitiria que a sua felicidade dependesse de coisas que estivessem fora do seu controlo, como a riqueza, a saúde, a boa aparência ou as opiniões dos outros. Não podemos controlar as circunstâncias externas, disseram, pelo que devemos ser indiferentes a essas coisas, aceitando-as como aparecem. Epitecto (c. 55-135 a. C.), um dos grandes professores estóicos, deu este conselho aos seus estudantes: ‘Não peçam que as coisas ocorram segundo a vossa vontade; façam com que a vossa vontade seja que as coisas ocorram como ocorrem de facto, e terão paz.’

Algumas destas ideias podem parecer questionáveis, mas uma parte significativa delas tem sido confirmada pela investigação psicológica moderna.

Moedas mão cheia de dinheiro Consideremos, por exemplo, a ideia de que a riqueza não traz felicidade. Dado que a maior parte das pessoas quer ser rica, poderíamos pensar que há alguma correlação entre a riqueza e a felicidade. Mas não há. Quando Ronald Inglehardt, cientista político da Universidade de Michigan, comparou os níveis de riqueza de países diferentes com aquilo que as pessoas desses países dizem sobre a sua satisfação com a sua vida, descobriu que as pessoas dos países mais ricos não são mais felizes do que as dos países mais pobres. Por vezes acontece o oposto: os alemães ocidentais têm o dobro da riqueza dos irlandeses, mas os irlandeses são mais felizes. Dentro de países específicos, encontrou a mesma ausência de correlação: as pessoas que têm mais dinheiro não são mais felizes que as outras. Portanto, sermos ricos não importa. As pessoas afectadas pela pobreza tendem a ser menos felizes do que aquelas que possuem o suficiente para viver; mas, para aqueles que estão acima da linha de pobreza, o dinheiro adicional faz pouca diferença. O psicólogo David Myers observa que ‘quando se ultrapassa a pobreza, o crescimento económico suplementar não melhora significativamente o ânimo dos seres humanos’.

Os estudos sobre os vencedores de lotarias confirmam isto de forma notável. Como é óbvio, os vencedores de lotarias ficam extremamente felizes quando sabem das boas notícias e a euforia tende a durar alguns dias. Mas, passado pouco tempo, regressam ao seu nível normal de felicidade. No essencial, as pessoas amuadas voltam a ficar amuadas. Podem ser capazes de deixar o emprego e de comprar muitas coisas, mas, no que respeita ao seu nível de felicidade, a riqueza recentemente adquirida não faz diferença. (…)

Então, o que tornará as pessoas felizes? Se não é a riqueza (…) o que será?”

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp. 286-288.

problemas da filosofia James Rachels

terça-feira, 2 de junho de 2009

Ler aos bocadinhos

capa de Problemas da Filosofia de Rachels

Ando a ler este livro (o mais recente da colecção Filosofia Aberta) em pequenos goles: um bocadinho de cada vez. Não por medo de me engasgar, mas por causa da correcção dos testes.

Pode ler uma breve mas informativa apresentação do livro aqui, na revista Crítica.

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009.