terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Um programa de filosofia mais pequeno e mais… filosófico

filosofia

Um dos muitos defeitos do atual programa de Filosofia para o ensino secundário é ser enorme. Mesmo depois de depurado pelas Orientações para efeitos de avaliação sumativa externa das aprendizagens na disciplina de Filosofia continua a ser demasiado grande. O facto de, em muitas escolas, a carga horária da disciplina ter diminuído agrava o problema.

Com a depuração feita pelas Orientações é possível “cumprir” o programa, ou seja, lecionar todos os conteúdos obrigatórios. Infelizmente fica pouco tempo para coisas muito importantes. Não me refiro a filmes e visitas de estudo, embora não negue a importância dessas atividades e seja um facto que elas são prejudicadas pela falta de tempo. Refiro-me a algo mais essencial em termos filosóficos e sem o qual ensino da filosofia não faz muito sentido: pôr os alunos a pensar por eles próprios.

Para conseguir isso não basta o professor apresentar a filosofia de um modo crítico e não dogmático, procurando confrontar os filósofos e as teorias com objeções e contraexemplos, pois há sempre alunos que mesmo assim se mantêm passivos e encaram tanto Kant como as objeções contra Kant como coisas que não lhes dizem respeito e que é preciso decorar. Para conseguir isso é necessário realizar diversas atividades suscetíveis de tornar a filosofia uma coisa prática e realmente argumentativa.

Alguns exemplos. Confrontar os alunos com os problemas filosóficos (antes de apresentar as teorias filosóficas que os tentam resolver) e deixá-los discutir demoradamente esses problemas. Analisar e discutir exemplos concretos, dados pelo professor e solicitados aos alunos. Ir colocando, oralmente e por escrito, questões que levem os alunos a questionar as teorias e os seus argumentos e contra-argumentos. Promover muitos pequenos debates em certos momentos das aulas e por vezes debates planeados e organizados. Etc.

Todas essas atividades ocupam bastante tempo e não é possível realizá-las com um programa sobrelotado de temas. Um programa de Filosofia não deve ser tão extenso que dificulte a vida aos professores que tentam ensinar a filosofia de um modo… filosófico.

Oxalá a revisão do programa de Filosofia que está a ser feita tenha em conta essa necessidade e origine um programa mais pequeno.

E que, já agora, corrija outros defeitos do atual programa – como, por exemplo, a desorganização, a linguagem vaga e obscura e a irrelevância filosófica de alguns tópicos. Outro aspeto a precisar de uma revisão drástica é este: exceto o capítulo introdutório (que se quer breve, pois o que interessa não é caracterizar a filosofia mas sim mostrar e praticar a filosofia) e a lógica, todos os capítulos de um programa de Filosofia devem apresentar problemas filosóficos e as teorias mais relevantes acerca dos mesmos (duas ou três). O atual programa tem alguns capítulos em que existe uma mistura confusa de assuntos e em que não é claro qual é problema filosófico em causa.

Por fim, o programa deve ter uma linguagem imparcial e não tendenciosa. Dois exemplos, tirados do atual programa, do que deve ser evitado: expressões como “reconhecer a ação como um campo de possibilidades - espaço para a liberdade do agente” e “reconhecer a necessidade de encontrar critérios trans-subjetivos de valoração” (usadas nos objetivos a atingir pelo aluno) tomam partido por uma das teorias em confronto – o que é obviamente errado e incompatível com a intenção de promover a liberdade de pensamento dos alunos.

Critiquei há meses o modo como o processo de revisão do programa foi implementado, mas teria muito gosto em dar o braço a torcer e reconhecer que me enganei – caso essa revisão originasse, afinal, um bom programa de Filosofia.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Um T.P.C para dia 14 de fevereiro, Dia dos Namorados!

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Fotografia de Henri Cartier-Bresson, cidade de Tóquio no Japão, 1965.

Imaginando que tinha de optar por um filme, uma canção e um poema sobre o amor (um sentimento poderoso, belo mas também difícil, às vezes), eis as minhas escolhas:

1. O filme: “In the Mood for Love” do realizador Wong Kar Wai. O vídeo contém parte da banda sonora acompanhada de passagens do filme.

2. Uma canção: "Eu Já Não Sei" escrita por Domingos Gonçalves Costa e Carlos Rocha. Neste vídeo, cantam Roberta Sá e António Zambujo, acompanhados por Yamandú Costa e Ricardo Cruz.

3. Um poema (e uma canção): “Gaivota” de Alexandre O'Neill.

Poema cantado por Amália Rodrigues, com música de Alain Oulman.

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.


Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.


Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.


Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.


Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Meu amor na tua mão
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração

As vossas escolhas quais seriam?

E o que é o amor?

Um T.P.C para dia 14 de fevereiro, Dia dos Namorados! Smile

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Será correto sacrificar uma pessoa para salvar centenas?

Dois Caminhos

Uma doença muito grave está a matar imensas pessoas na Terra da Boa Vida, uma região muito isolada e de difícil acesso. Já morreram algumas centenas de pessoas e prevê-se que morrerão muitas mais nas próximas semanas. Na Terra da Boa Vida há uma única pessoa imune à doença e um cientista descobre que poderia fazer um medicamento capaz de curar a doença utilizando algum sangue dessa pessoa. Mas há um problema: essa pessoa tem uma outra doença e esta faz com que não possa perder mais sangue. Se lhe retirarem um litro de sangue para fazer o medicamento ela morre. Esta não se oferece como voluntária.

Deverão as autoridades obrigá-la a dar sangue? Será correto obrigá-la, sabendo que isso causará a sua morte? Coloque-se no lugar das autoridades: o que decidiria? Porquê?

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Nada mesmo?

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Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural.
Pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Dois olhares sobre a presença dos portugueses no Japão

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Biombos Namban no Museu Nacional de Arte Antiga.

”A chegada dos portugueses ao Japão, em 1543, originou um intercâmbio comercial e cultural que ficou assinalado nestes dois pares de biombos: a curiosidade e o ambiente festivo pela chegada do barco negro dos namban jin (os bárbaros do sul, como eram designados os portugueses) ao porto de Nagasáqui.
A minúcia com que são representados os vários intervenientes, a descrição da nau e da sua valiosa carga e a presença dos missionários jesuítas determinante neste contexto, tornam estas peças num documento histórico e visual ímpar sobre as relações entre Portugal e o Japão.”
Informação retirada do site do museu. Para saber mais, ver o artigo do Observador: AQUI.
No filme “Silêncio” podemos observar exemplos que ilustram as diferenças culturais existentes entre os portugueses e os japoneses no século XVII. A história centra-se no confronto entre diferentes pontos de vista religiosos: a tradição budista e a religião cristã, que os missionários jesuítas levaram até estas longinquas paragens.
Como é possível viver a fé cristã num ambiente hostil e sanguinário? O que é a fé em Deus? Renunciar a Deus, publicamente, para salvar a vida de pessoas inocentes será pecado? Um crente deve ou não deve fazê-lo? E se o fizer isso coloca em causa a autenticidade da sua fé ou não?
Por último, a ausência de fé será justificável diante do martírio de inocentes e o silêncio de Deus perante um mal moral tão atroz? E se a morte dos martíres for em vão e não existir nada?
Vale a pena ver o filme.




sábado, 4 de fevereiro de 2017

À luz da filosofia

À Luz da Razão é um programa radiofónico da Antena 2 da autoria de Ana Paula Ferreira em parceria com a Sociedade Portuguesa de Filosofia: “Entrevista e análise de alguns dos principais eventos e fenómenos sociopolíticos da atualidade à luz de ideias e conceitos da filosofia”.

No passado dia 6 de janeiro o entrevistado foi Desidério Murcho. Este falou sobre o papel da filosofia na compreensão do mundo, nomeadamente a distinção entre filosofia e ciência e o problema do sentido da vida. O subtítulo do programa é “Em busca da clareza” e o entrevistado faz-lhe jus. Vale a pena ouvir.

À Luz da Razão com Desidério Murcho

Desidério Murcho