segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A diferença entre educação (moral) e doutrinação

A Lição de Salazar Uma casa portuguesa Deus Pátria Família

«A educação moral genuína (…) não é o que os políticos têm em mente quando pensam em transmitir, por exemplo, “valores ecológicos” às crianças, ou quando pensam na “educação para a cidadania”. Este género de educação é doutrinação, e não educação moral. A genuína educação moral é ensinar a raciocinar em termos de fins e meios, a ponderar razões e a justificar corretamente o que valorizamos – em suma, ensinar a pensar eticamente, e não ensinar a repetir slogans ecológicos, igualitários, nacionalistas, multiculturalistas ou outros.»

Desidério Murcho, 7 ideias filosóficas que toda a gente devia conhecer, Bizâncio, Lisboa, 2011, pág. 55.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O fim de uma tradição da Escola Secundária Pinheiro e Rosa

Estátua de Sócrates, um filósofo ateniense (469 A.C - 399 A.C) do período clássico da Grécia Antiga.

Desde que há testes intermédios e exames nacionais na disciplina de Filosofia que os autores deste blogue (apenas um deles é agora professor na ESPR, eu) descrevem aqui os resultados obtidos e refletem acerca destes. Ver por exemplo AQUI, AQUI e AQUI.

Este ano o exame nacional de Filosofia da 1ª Fase foi acessível, as questões estavam formuladas com clareza e correção, tal como os critérios, e incidiam em conteúdos programáticos relevantes. Contudo, e pela primeira vez, quebrou-se uma tradição de anos da Pinheiro e Rosa: classificações positivas no exame (uma das disciplinas com melhores resultados na escola) e acima da média nacional (ver posts deste blogue de anos anteriores: 2014, 2013 e 2012).

Este ano a média obtida pelos alunos internos da escola foi de 9,12 e a média das classificações atribuídas pelos professores (a classificação interna) foi 12,8. A diferença entre esta e as médias obtidas no exame foi de 3,68. A média nacional obtida pelos alunos internos foi de 10,8 (ver informação IAVE).

Vinte e cinco alunos da escola fizeram o exame como internos. Desses vinte e cinco só quatro eram meus alunos (tive apenas uma turma do 11º, de ciências, com vinte alunos). A média que obtiveram foi de 11,75 e a diferença entre as classificações internas e a do exame foi de 2,5 valores. Os outros vinte e um não eram meus alunos.

Este blogue (que começou em 2008) e os resultados dos exames nacionais na disciplina de Filosofia têm contribuído para divulgar a imagem da ESPR. Para quem tem investido muito tempo na divulgação da escola e da disciplina, para não falar na preparação das aulas, os resultados negativos deste ano produzem alguma tristeza. Muita tristeza, na verdade.

Ensinada de forma adequada a filosofia é intelectualmente estimulante e tem um papel fundamental, diria mesmo insubstituível, na formação dos alunos do secundário. Não é, além disso, uma disciplina muito difícil e não há nenhuma razão para os alunos não terem classificações positivas num exame - se, repito, for adequadamente ensinada e estudada.

domingo, 19 de julho de 2015

O resultado das reformas educativas em Portugal

Do cartoonista Luís Afonso, no Público, online de hoje:

 

Info CURSOS: informações úteis para os candidatos à universidade

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«O portal criado há dois anos pelo Ministério da Educação para dar mais informação aos alunos na hora de escolher o curso de ensino superior a que se querem candidatar, o Infocursos, tem desde este sábado uma nova funcionalidade, quer permite fazer várias ordenações, com base em diferentes indicadores, e comparar assim licenciaturas e mestrados integrados da mesma área, por exemplo.

No ranking do desemprego - registos no Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) em dezembro de 2014 face ao número de diplomados nos últimos anos - pode constatar-se que o curso de Criminologia da Universidade Fernando Pessoa é o que apresenta a taxa mais elevada: 42 em 61 diplomados entre 2010 e 2013 estavam inscritos no IEFP, o que equivale a uma taxa de desemprego de 69%.

Não quer dizer que não haja outros cursos com mais alunos desempregados, que não estejam inscritos no IEFP e que, por isso, não contem para estas estatísticas. Mas este é o único dado relativo a saídas profissionais existente neste momento.»

Pode continuar a ler este artigo do jornal Expresso, AQUI.

terça-feira, 14 de julho de 2015

10,8: a média dos alunos internos no exame de Filosofia da 1ª Fase

Este ano, a  classificação média no exame nacional de Filosofia, dos alunos internos, foi de 10,8 valores.

Em 2013 e 2014 tinha sido de 10,2 valores. É uma disciplina que não tem sofrido, em termos de médias, grandes variações nos últimos três anos. Tal como ser verificado na informação publicada pelo IAVE:

Resultados_Ensino_Secund_rio[1] by SaraRaposo

O número de alunos inscritos no exame de Filosofia, autopropostos e internos tem vindo a aumentar. Esses dados, tal como as classificações obtidas, a diferença entre as classificações internas atribuídas (CIF) e a classificação obtida no exame de Filosofia (e de todos os outros) e as taxas de reprovação podem consultados no outro comunicado que o IAVE tornou publico:

enes_hmlg2015_resumo[1] by SaraRaposo

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A balada de uma juíza

A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan.
Gradiva, Abril de 2015 (2ª edição).
190 páginas.

 

Enquanto enfrenta uma crise no seu casamento de trinta e tal anos, a Meritíssima juíza Fiona Maye tem de julgar alguns casos delicados que chegam ao Tribunal de Família. Pelo meio recorda casos passados e preocupa-se com a execução de certas peças musicais, pois é também pianista amadora e grande apreciadora de música.

Que fazer quando dois gémeos siameses não podem sobreviver ambos e os pais não autorizam a sua separação cirúrgica? Um dos gémeos tornar-se-á provavelmente uma criança normal e saudável se for separado, mas o outro é inviável e morrerá de qualquer modo; se não forem separados morrerão os dois.

Que fazer quando o pai e a mãe de duas meninas discutem o direito de as educar de acordo com princípios muito diferentes? O pai é um haredi, um judeu ultraortodoxo, e pretende que as filham vivam de acordo com os seus rígidos costumes: não quer que convivam com pessoas exteriores a essa comunidade nem que continuem a estudar após a escola primária, de modo a que um dia possam casar com outros haredis, ter muitos filhos e ser boas donas de casa. A mãe é também judia e, embora não renegue o judaísmo, saiu da comunidade haredi após o divórcio e pretende que as filhas continuem a estudar, convivam com pessoas diferentes e possam mais tarde escolher o rumo das suas vidas.

Que fazer quando um hospital pede autorização ao tribunal para realizar uma transfusão de sangue contra a vontade do paciente (o Adam Henry que dá nome ao livro) e de seus pais? Todos eles são Testemunhas de Jeová e acreditam que as transfusões de sangue são contrárias à vontade de Deus e portanto erradas. Adam Henry está a poucos meses de fazer 18 anos. Se já tivesse atingido a maioridade a sua recusa da transfusão seria soberana, mas assim tem de ser a juíza a decidir. Caso a transfusão não seja rapidamente feita Adam Henry morrerá em poucos dias.

Ian McEwan é demasiado bom escritor para colocar as personagens a desbobinar artificialmente teorias filosóficas. Contudo, nas reflexões e sentenças da juíza Fiona Maye não deixam de aparecer diversos tópicos filosóficos: a diferença entre a ética e o direito; o confronto entre a abordagem deontológica e a abordagem consequencialista dos problemas éticos; a dificuldade de conciliar diferentes direitos, como por exemplo a autonomia pessoal, a protecção das crianças e a liberdade religiosa. Esses tópicos são introduzidos naturalmente no livro, na medida em que são requeridos pelos casos em julgamento e pela justificação das decisões da juíza.

O que, além da mestria de Ian McEwan, ilustra a centralidade e até a inevitabilidade das questões filosóficas. Quer se queira quer não, estas estão envolvidas nas situações fundamentais da nossa vida.

A Balada de Adam Henry é, portanto, um livro que vale a pena ler por razões literárias, mas também por razões filosóficas.

balada-de-adam-henry-CAPA de Ian McEwan