quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Desresponsabilizar é desrespeitar

ataque terrorista contra o jornal francês Charlie Hedbo atentados terroristas de 11 de setembro de 2001

Porque é que aconteceu o ataque terrorista contra o jornal francês Charlie Hedbo que, no dia 7 de Janeiro de 2015, provocou doze mortos?

Por incrível que possa parecer a um leitor imparcial e sensato, há quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela - foi da austeridade e do desinvestimento no Estado Social. Há também quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela - é da política externa do governo francês, que não é suficientemente crítica de Israel e dos EUA. Há também quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela - é dos próprios jornalistas e cartoonistas assassinados, pois abusaram da liberdade de expressão e ofenderam a religião muçulmana. Há também quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela - é dos cristãos, pois no passado diversas igrejas cristãs, com destaque para a Igreja Católica, perseguiram pessoas de outras religiões, nomeadamente os muçulmanos. Há também quem diga que a culpa – ou pelo menos parte dela – é dos muçulmanos moderados que não se demarcam publicamente dos muçulmanos fundamentalistas e radicais. E, claro, há quem junte algumas dessas culpabilizações.

Por incrível que possa parecer a um leitor imparcial e sensato que tenha estado em coma nos últimos 15 anos e tenha agora acordado, explicações equivalentes costumam ser dadas quando se trata de explicar os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, que visaram vários alvos nos EUA, nomeadamente as Torres Gémeas em Nova Iorque, em que morreram quase três mil pessoas.

Contudo - seja o que for que pensemos sobre a política externa deste ou daquele país ou sobre a história e a convivência das várias religiões existentes, para não falar do modo como a actual crise económica está a ser enfrentada nos países envolvidos nos acontecimentos mencionados -, devia ser óbvio que a responsabilidade ou culpa de tais ações é, em primeiro lugar, de quem as praticou e, em segundo lugar, de quem as apoiou logisticamente e de quem as inspirou através de influências religiosas ou outras.

A responsabilidade relaciona-se com a autoria das ações. Dizer que uma pessoa é responsável por uma ação significa que sem a sua intervenção isso não teria sucedido. Se a pessoa é responsável por uma ação então deve responder por ela, ou seja, deve prestar contas. Se se tratar de uma ação errada diz-se que a pessoa é culpada – nesse caso, a responsabilidade significa culpa. Se se tratar de uma ação correta diz-se que a pessoa tem mérito – nesse caso, a responsabilidade significa mérito.

Atribuir a responsabilidade de acções como o 11 de Setembro ou o atentado de Paris a factores sociais económicos ou políticos - mesmo que estes sejam problemas a precisar de solução - constitui não só uma desresponsabilização dos seus autores como também a sua menorização enquanto pessoas e agentes livres e racionais. Dizer que realizaram essas acções - que envolveram grande premeditação, planeamento e preparação prática – apenas devido à influência nefasta destas ou daquelas entidades exteriores é apresentá-los como uma espécie de marionetas e negar-lhes o livre-arbítrio e a autonomia. Esse tipo de desculpabilização, portanto, constitui um desrespeito pelas pessoas desculpabilizadas. E, claro, pelas suas vítimas.

(No post De quem é a culpa? encontrará uma história de Fernando Savater que coloca o dedo na ferida relativamente à questão da responsabilidade por ações eticamente erradas, como é o caso do homicídio.)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Direitos humanos e liberdade de expressão

«Três homens vestidos de negro invadiram o hall da sede do semanário Charlie Hebdo, em Paris, com lança-foguetes e kalachnikovs. Há pelo menos 12 mortos, dois dos quais polícias, o diretor da publicação e três ilustradores. Presidente francês apelou à 'união do país' na luta contra o terrorismo: 'Este ato bárbaro nunca vai extinguir a liberdade de imprensa. Nós somos um país unido que vai reagir e não bloquear'.»

Notícia do Jornal Expresso. Vale também a pena ler este artigo de opinião de Henrique Monteiro: Je suis, somos todos, Charlie.

Nos cartoons  deste semanário francês também se caricaturavam outras religiões, a católica por exemplo. Não houve nunca manifestações violentas ou mortes devido a isso.

Porque não haveriam os cartoonistas de poder satirizar a religião islâmica e fazer o mesmo que fazem em relação às outras religiões? Porque é que se deveriam autocensurar neste caso?

Vivemos em países democráticos, onde a liberdade de pensamento e de expressão são direitos fundamentais. Este ataque terrorista é uma tentativa de mostrar que os que acreditam na democracia estão errados. Por isso, todos os cidadãos democratas foram hoje alvo deste ataque e não apenas os jornalistas que foram assassinados. Por isso, não devemos deixar-nos dominar pelo medo e abdicar da nossa liberdade.

No vídeo a seguir apresentado explica-se - em linguagem clara e acessível - o que são direitos humanos. Aconselho o seu visionamento.

No final do vídeo é defendida uma ideia (a mais importante, a meu ver): os direitos humanos só existem, para lá do que está escrito, se cada um de nós os colocar em prática e os respeitar no dia a dia. É bom não esquecer isto!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O Farol: um retrato do que a vida tem de melhor

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Este é um maravilhoso filme de animação - simples e muito, muito belo - a propósito do problema do sentido da vida. Apresenta uma resposta possível, há outras. Mas vale a pena conhecer esta.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Os preconceitos dos filósofos

maquiavel acerca dos preconceitos

 

«A filosofia deve pôr em questão os pressupostos básicos da época. Creio que pensar crítica e cuidadosamente naquilo que a maioria das pessoas tem por garantido é a tarefa principal da filosofia – é esta a tarefa que faz da filosofia uma actividade valiosa. Lamentavelmente, a filosofia nem sempre está à altura do seu papel histórico. Os filósofos são seres humanos e estão sujeitos a todos os preconceitos da sociedade a que pertencem. Por vezes conseguem libertar-se da ideologia prevalecente; com maior frequência, tornam-se os seus defensores mais sofisticados.

[Um exemplo disso é o especismo na filosofia contemporânea, ou seja, a ideia de que a espécie humana merece sempre um tratamento privilegiado relativamente às outras espécies animais.] Neste caso, a filosofia, como hoje é praticada nas universidades, não desafia os preconceitos sobre as nossas relações com as outras espécies. Através do que escrevem, os filósofos que se ocupam de problemas relacionados com a questão mostram que aceitam os mesmos pressupostos dogmáticos que a maior parte dos outros seres humanos, e aquilo que dizem contribuem para reforçar no leitor os seus confortáveis hábitos especistas.»

Peter Singer, “Todos os animais são iguais”, in Os animais têm direitos? – Perspectivas e Argumentos, organizado e traduzido por Pedro Galvão, Dinalivro, Lisboa, 2011, pp. 40-41.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Um Ano Novo que mereça este nome

mafalda ano novo mundo melhor

A capa do Tintin publicado no primeiro número de 1947

calvin hobbes new years resolutions resoluções de ano novo

 o-que-o-ano-novo-ira-nos-trazer-365-oportunidades-2126

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

Um 2015 :)