quinta-feira, 6 de março de 2014

Sol vai nascer amanhã? Não podemos saber!

«(…) a minha experiência de regularidades no passado é tomada como justificação de crenças acerca de coisas de que não tenho experiência. É importante notar que este tipo de raciocínio é apresentado muitas vezes como relativo apenas ao nosso conhecimento do futuro, o que não é correto. Os argumentos indutivos dizem respeito ao futuro, ao presente e ao passado (…)

É importante que estejamos cientes da natureza radical da tese de Hume. Ele argumenta que todo o raciocínio indutivo é inválido: não temos razões a priori ou empíricas para aceitar crenças baseadas em inferências indutivas. Não temos justificação para acreditar que o Sol vai nascer amanhã. O ponto crucial é este: se eu afirmar que o Sol vai nascer amanhã e o meu amigo afirmar que ele se vai transformar num ovo estrelado gigante, a minha crença não é, de acordo com Hume, mais justificada do que a do meu amigo.

Claro que eu não tenho amigo algum que acredite nisso, e Hume tem uma explicação para esse facto. Devido ao “costume” ou ao “hábito”, todos pensamos em termos indutivos. Contudo, este tipo de pensamentos não é justificado; resulta apenas de certas disposições psicológicas que criaturas como nós possuem: “não é, portanto, a razão que é o guia da vida, mas sim o costume” (…). No seu Tratado de 1739, Hume sustenta esta tese fornecendo uma explicação causal rudimentar para o facto de termos as crenças que temos (…). Os animais também têm essas disposições: são guiados pelo costume e esperam que as regularidades que experienciaram continuem. Contudo, como observa Russell (1912), a galinha a que o agricultor dá de comer todos os dias pode ser degolada amanhã. A nossa posição é análoga à da galinha: esperamos que o Sol nasça todas as manhãs tal como a galinha espera o seu alimento, mas nenhum de nós tem qualquer justificação para as nossas crenças ou comportamento.

Uma resposta comum a esta posição céptica é que sabemos que o Sol irá nascer amanhã porque temos uma explicação científica para que tal aconteça, descrevendo o movimento da Terra em relação ao Sol. Aqui, no entanto, podemos ver todo o alcance do argumento de Hume. Chegámos à nossa narrativa através de sucessivas observações astronómicas. A nossa explicação do nascer do Sol é, portanto, indutiva, pelo que está igualmente sujeita ao argumento de Hume. De acordo com Hume, o cientista não pode justificar a sua crença de que a gravidade continuará a manter os corpos celestes nas órbitas que até agora temos observado.»

Dan O´ Brien, Introdução à teoria do conhecimento, Gradiva Editora, Lisboa: 2013, págs. 227-28.

1. Esclareça, a partir de exemplos, o que são argumentos indutivos.

2. Quais são as razões que levam Hume a considerar que os argumentos indutivos não se encontram justificados nem racionalmente nem empiricamente?

3. Explique o título atribuído a este post: “Não podemos saber se o Sol vai nascer amanhã.”

4. As inferências indutivas, para Hume, baseiam-se no hábito ou costume. Explique porquê.

5. Porque motivo a explicação científica do nascimento do Sol não permite ultrapassar as objeções cépticas de Hume?

6.  O cepticismo de Hume quanto à explicação científica dos fenómenos é refutável? Como?

Hume e a relação causa-efeito

“Todos os nossos raciocínios relativos a questões de facto, defende Hume, se baseiam na relação de causa e efeito. Mas como chegamos ao nosso conhecimento das relações causais? (…) Ao olhar apenas para a pólvora, nunca poderíamos descobrir que é explosiva; é preciso experiência para saber que o fogo queima as coisas. Mesmo as mais simples regularidades da natureza não poder estabelecidas a priori porque uma causa e um efeito são dois acontecimentos totalmente diferentes e um não pode ser inferido do outro. Vemos uma bola de bilhar a mover-se na direcção de outra e esperamos que transmita movimento à outra. Mas porquê?

A resposta, obviamente, é que descobrirmos as regularidades da natureza através da experiência. Mas Hume leva a sua indagação mais além. Mesmo depois de termos a experiência das operações de causa e de efeito, pergunta, que bases existem na razão para inferir conclusões dessa experiência? A experiência apenas nos dá informação sobre ocorrências passadas: porque haveria de ser alargada a objectos futuros, que, tanto como sabemos, só se assemelham aos objectos passados na aparência? O pão alimentou-me no passado, mas que razões tenho para acreditar que o irá fazer no futuro?"

Anthony Kenny, Ascenção da Filosofia moderna, Edições Gradiva, Lisboa 2011, págs. 170-171.

A crença nas superstições implica estabelecer nexos causais entre acontecimentos diferentes que não têm qualquer relação entre si. Por exemplo:

Vi um gato preto na rua (causa) e, logo a seguir, parti um pé (efeito).
Tive negativa no teste de Filosofia (efeito) porque este foi realizado numa sexta-feira, dia 13 (causa).

Esta crença em causalidades fictícias tem um fundamento subjectivo (é uma crença irracional do sujeito) e não se baseia nem na experiência nem na razão.

Segundo Hume, as relações causais efectuadas no âmbito do quotidiano e da ciência dependem de factores psicológicos como o hábito e não têm, por isso, uma justificação racional ou empírica. Assim sendo, no âmbito do conhecimento vulgar e do científico, adquirimos a crença que a água vai aquecer com base na experiência passada.

Como é que podemos refutar esta ideia defendida por Hume? Será que podemos mostrar que as explicações científicas estão racionalmente justificadas?

Outros posts sobre a causalidade:

O problema da causalidade

A crença na causalidade é instintiva

quarta-feira, 5 de março de 2014

O que era, e o que é, a Felicidade?

As doutrinas da felicidade na Antiguidade Clássica XV 2014 conferência de filosofia da escola secundária Manuel Teixeira Gomes

As doutrinas da felicidade na Antiguidade Clássica, por António Pedro Mesquita.

Eis a XV Conferência de Filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, no próximo dia 7, em Portimão.

terça-feira, 4 de março de 2014

domingo, 2 de março de 2014

Get Out!

Uma bonita história acerca do medo do desconhecido e da dificuldade de começar algo novo. O final é surpreendente e obriga o espetador a rever a sua interpretação da história.


Get Out por Esma-Movie