terça-feira, 13 de agosto de 2013

A educação não impede o mal, mas torna-o um pouco menos provável

A woman and her child are killed as they run across the fields

«O ensino – e, em especial, o “ensino liberal” – é aquilo que torna possível a sociedade civil. (…)

Com “ensino liberal” refiro-me ao ensino que inclui literatura, história e apreciação das artes, atribuindo-lhe um peso igual ao que é dado às matérias científicas e práticas. O ensino nestas áreas oferece-nos a possibilidade de viver mais reflexiva e conhecedoramente, especialmente no que diz respeito à gama da experiência e do sentimentos humanos, tal como existe aqui e agora, assim como alhures e no passado. Isso, por sua vez, faz-nos entender melhor os interesses, necessidades e desejos dos outros, permitindo que os tratemos com respeito e compreensão, por muito diferentes das nossas que sejam as escolhas que fazem ou as experiências que moldaram as suas vidas. Quando o respeito e a compreensão são retribuídos, tornando-se mútuos, as brechas que poderiam suscitar fricção entre as pessoas, e até guerra, são unidas ou, pelo menos, toleradas. E basta o último caso.

A visão é utópica: não há dúvida que havia oficiais das SS que liam Goethe e ouviam Beethoven, e a seguir iam trabalhar para as câmaras de gás – portanto, o ensino liberal não produz automaticamente pessoas melhores. Mas fá-lo muito mais frequentemente do que a estupidez e o egoísmo que acompanham a falta de conhecimento e o discernimento medíocre.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pág. 187.

Lembrei-me destas palavras de Grayling ao ler que “the highest proportion of Nazi party members came from the educated classes” (aqui, no 15º parágrafo).

domingo, 11 de agosto de 2013

Tem que se fazer justiça, nem que o céu desabe

“Os prejuízos que alguns possam enfrentar devido à dissolução de alguma prática ou instituição não serve para defender que permitamos a sua manutenção. Ninguém tem o direito a ser protegido de prejuízos se a proteção em questão envolver a violação dos direitos dos outros. Ninguém tem o direito a ser protegido pela manutenção de uma prática injusta, que viola os direitos dos outros. Tem de se fazer justiça, nem que o céu desabe.”

Tom Regan, The Case for Animal Rights

(Citado por Carl Cohen, no ensaio “Os animais têm direitos?”, do livro Os animais têm direitos? – Perspectivas e Argumentos, organizado e traduzido por Pedro Galvão, Dinalivro, Lisboa, 2011, pág. 66).

touro de fogo em espanha

Segundo Tom Regan, não são apenas os seres humanos que têm tais direitos mas também muitos animais não humanos. As duas principais questões que lhe podemos colocar são:

Os animais não humanos terão realmente direitos?

Haverá direitos absolutos e invioláveis?

(Informações sobre os touros de fogo aqui.)

5 anos

O Dúvida Metódica faz hoje cinco anos e… Adiante, que o calor desencoraja os balanços. Este foi o primeiro post: Filosofar. Se quiser soprar as velas clique, por exemplo, aqui.

Filósofos-em-Ação-Volume-1

o pensador

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Algumas regras morais são universais

Há «valores que têm de ser mais ou menos universais. Imagine-se o que seria uma sociedade que não valorizasse a verdade. Quando uma pessoa falasse com outra, não poderia partir-se do princípio de que estaria a dizer a verdade, pois poderia facilmente estar a mentir. Nessa sociedade não haveria qualquer motivo para dar atenção ao que os outros dizem. (Pergunto que horas são e alguém responde “quatro horas”. Mas não posso presumir que a pessoa está a dizer a verdade; poderia facilmente ter dito a primeira coisa que lhe tivesse passado pela cabeça. Não tenho, pois, qualquer razão para dar atenção à sua resposta. De facto, não faz qualquer sentido ter-lhe sequer perguntado.) A comunicação seria então extremamente difícil, senão mesmo impossível. E uma vez que as sociedades complexas não podem existir sem comunicação entre os seus membros, a vida em sociedade tornar-se-ia impossível. Daqui se conclui que em qualquer sociedade complexa tem de haver uma presunção em favor da boa-fé. Pode haver exceções a esta regra: pode haver situações nas quais se considere permissível mentir. No entanto, estas serão exceções a uma regra que está em vigor na sociedade. (…)

Há aqui uma conclusão teórica geral, a saber, há algumas regras morais que todas sociedades têm em comum, pois essas regras são necessárias para a sociedade poder existir. As regras contra a mentira e o homicídio são dois exemplos disso, pois, de facto, encontramos estas regras instituídas em todas as culturas viáveis. As culturas podem diferir relativamente ao que encaram como exceções legítimas às regras, mas esta discordância existe contra um acordo de fundo nas questões fundamentais. Logo, é um erro sobrestimar as diferenças entre culturas. Nem todas as regras morais podem variar de sociedade para sociedade.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pp. 46-47.

Elementos de Filosofia Moral de James Rachels

sábado, 3 de agosto de 2013

Ateísmo

“Não se trata apenas de eu não acreditar em Deus e de, como é natural, esperar ter razão. Trata-se de eu ter a esperança de que não exista Deus! Não quero que exista Deus; não quero que o universo seja dessa maneira.”
Thomas Nagel, A Última Palavra, Gradiva, Lisboa, 1999, pág. 155.
Thomas Nagel