terça-feira, 23 de julho de 2013

Ciência Política: um projeto que merecia continuar

Procurar a democracia no sítio errado - um dos posts do Homo Politicus

Um dos posts do Homo Politicus.

Não se inscreveram alunos suficientes a Ciência Política para que no próximo ano letivo a disciplina possa abrir.

Lamento muito esse facto, por três razões diferentes.

Em primeiro lugar, porque considero que a Sara fez um excelente trabalho como professora de Ciência Política (como qualquer pessoa pode constar através do Homo Politicus) e merecia dar continuidade ao projeto. Até porque, como é óbvio para quem conhece a Sara, ela não iria sentar-se à sombra da bananeira e tentaria fazer ainda melhor.

Em segundo lugar, porque é uma disciplina interessante e útil, que traria algo de novo aos alunos – tanto de Humanidades como de Ciências.

Em terceiro lugar, porque isso encolhe a oferta formativa da escola: uma ESPR com Ciência Política no currículo seria uma ESPR melhor. Uma prova de que a variedade da oferta formativa oferecida por uma escola aos alunos é fundamental é que todos os anos há alunos que saem da ESPR descontentes com o leque de opções existentes no 12º ano. Por isso, o que está em causa não é apenas a Ciência Política, mas sim a diversidade de escolhas.

O facto de não ter havido inscrições suficientes para a disciplina de Ciência Política funcionar deixa-me com algumas dúvidas e questões.

Talvez seja ingenuidade, mas surpreende-me que muitos alunos tenham como principal critério de escolha a facilidade ou dificuldade de uma disciplina e não o seu interesse intelectual ou sequer a sua utilidade futura.

Na ESPR temos de nos questionar acerca do modo como os alunos são informados acerca do currículo, das opções que nele existem e das consequências futuras de fazer esta ou aquela escolha.

Na ESPR temos também de nos questionar acerca da fronteira entre informação e persuasão, porque não é ético que um professor, a pretexto de informar os alunos acerca dos temas e das saídas profissionais desta ou daquela disciplina, aproveite para influenciar os alunos e condicionar a sua escolha. Persuadir desse modo tem um nome: manipulação.

Na ESPR temos ainda de nos questionar acerca do modo como a escola apoia e divulga (se é que apoia e divulga) as boas práticas que cá existem – e é inequívoco que o trabalho feito pela Sara em Ciência Política merece essa qualificação.

Publicamente é isto que quero dizer, mas espero que internamente o debate possa ir mais longe.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Como diminuir o fosso entre as notas dos exames e as notas dadas pelos professores?

Calvin não gosta de estudar

As classificações dos exames nacionais, além de serem baixas na maior parte das disciplinas, desviaram-se muito das classificações internas (ou seja, das classificações dadas pelos professores). As médias nacionais destas foram muito superiores às médias daquelas. Em algumas disciplinas essa diferença é de aproximadamente quatro valores. (Para mais informações, veja aqui.)

Explicação? Há quem diga que alguns exames eram excessivamente difíceis ou que estavam mal concebidos. Ou ainda que os critérios de correção eram demasiado restritivos.

Relativamente às outras disciplinas não sei se isso é verdade ou não. No caso da Filosofia não é verdade, pois tanto o exame (e respetivos critérios) da 1ª fase como o exame (e respetivos critérios) da 2ª fase estavam globalmente bem concebidos e os seus pontuais defeitos não impediam os alunos que estudaram de ter classificações de acordo com as suas capacidades.

Seja como for, quero apontar uma causa do desvio referido que raramente é mencionada.

Em muitas escolas portuguesas existe uma enorme inflação de notas: muitos professores atribuem classificações demasiado elevadas face ao que os alunos realmente aprenderam e estes não conseguem mantê-las nos exames.

Uma das causas dessa inflação é o facto do parâmetro das atitudes ter um peso excessivo em detrimento dos parâmetros cognitivos. Graças a isso, alunos com resultados fracos nos testes, relatórios, fichas, etc., ficam com classificações melhores (e muitas vezes as negativas até se transformam em positivas), pois têm bom comportamento, são assíduos e pontuais e são – ou parecem ser - esforçados. Por vezes essa situação é agravada pelo facto de alguns professores entenderem a avaliação das atitudes como um modo de subir as notas dos alunos e não serem rigorosos (nem sequer com os alunos mal comportados, pouco assíduos e nada pontuais).

Outra causa dessa inflação é a pressão que existe em muitas escolas – e que descrevi em A cultura do laxismo e os resultados dos exames - para os professores darem boas notas. Se o leitor é professor já ouviu certamente o argumento patético de que “os alunos não são números”, que, aliado à “necessidade de considerar a situação global do aluno” e até o “contexto familiar”, pretende justificar classificações sem qualquer relação com o trabalho e as aprendizagens efetuadas pelos alunos. Como é óbvio, quando esses alunos fazem exames as classificações descem, muitas vezes vários valores.

Para acabar com essa cultura do laxismo em que ocorrem as pressões para subir as notas seriam necessárias muitas e difíceis mudanças. Mas para acabar com a inflação causada pelo peso das atitudes basta uma pequena e facilmente executável mudança – e que talvez possa contribuir para diminuir o laxismo. Diz-se em poucas palavras.

As atitudes só deveriam contar para a classificação do aluno quando fossem negativas, ou seja, quando fizessem baixar essa classificação. Nos outros casos não deviam ser tidas em conta e os elementos de avaliação deviam ser todos de natureza cognitiva (testes, relatórios, fichas, participação oral, etc.).

Se os alunos com atitudes incorretas (é preciso não esquecer que o mau comportamento prejudica os próprios mas também os colegas) fossem penalizados desse modo, isso teria certamente um efeito dissuasor e num futuro próximo o número de alunos com atitudes corretas cresceria.

Os alunos que têm atitudes corretas (que são bem educados, assíduos, pontuais, etc.) não fazem nada mais do que a sua obrigação. Aumentar devido a isso a sua classificação a Matemática ou a Filosofia é falsear a avaliação e descrever incorretamente as aprendizagem que realizaram.

Uma objeção possível é que esta medida é redutora, pois o objetivo da escola não é apenas a aquisição de conhecimentos e o treino de competências intelectuais, mas também promover a cidadania, o respeito mútuo, a cooperação, etc. Outra objeção possível é que se trata de uma medida injusta, pois se os alunos que têm atitudes incorretas merecem ser penalizados, então os alunos que têm atitudes corretas merecem ser recompensados.

Contudo, essas objeções não colhem, pois não defendo que as atitudes sejam esquecidas ou sequer desvalorizadas. Os alunos que têm atitudes corretas devem ser reconhecidos e louvados – mas isso deve ser independente da classificação obtida na disciplina.

Uma possibilidade que vale pena explorar seria atribuir duas classificações distintas e independentes. Uma classificação que exprimisse as aprendizagens efetuadas pelo aluno no domínio cognitivo e uma classificação (qualitativa ou numérica) que exprimisse as suas atitudes. (Se esta última não fosse positiva isso implicaria uma diminuição - predefinida nos critérios de avaliação - da classificação do domínio cognitivo.) Ambas as classificações seriam tornadas públicas e inscritas nos diplomas e certificados. As universidades, empresas e outras instituições a quem o aluno apresentasse o seu currículo ficariam assim com uma ideia mais exata das suas qualidades, capacidades e conhecimentos, para não falar do próprio aluno, que assim se aperceberia melhor do seu real valor.

Essas consequências são tão significativas que quase ofuscam esta outra: o fosso entre as classificações dos exames e as classificações de frequência diminuiria bastante.

Nota: A média nacional das classificações internas em Filosofia foi 14 e a média nacional do exame (1ª fase) foi 10,2; na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa a média das classificações internas (dos alunos que fizeram exame) foi 13,66 e a média do exame foi 12,33. (Ver aqui.)

terça-feira, 16 de julho de 2013

Critérios de correção e exame de Filosofia da 2ª fase

pensar

Versão 1 do exame de Filosofia da 2ª fase.

Versão 2 do exame de Filosofia da 2ª fase.

Critérios de correção do exame de Filosofia da 2ª fase.

Se Deus existisse talvez fôssemos como as personagens de um romance

   “Voltei para casa e tentei aferrar-me ao livro. Quando começo a escrever, verifico que há sempre uma personagem que, obstinadamente, se não torna viva. Nada tem de psicologicamente falso, mas não se mexe, precisa de ser empurrada, é necessário arranjar-lhe um vocabulário próprio, toda a minha técnica, em anos de trabalho, há que empregá-la em conseguir que essa personagem pareça viva ao leitor. Às vezes, colho uma satisfação desconsolada, quando um crítico ma louva como a mais bem desenhada de todas as personagens da obra: se não tiver sido desenhada, por certo foi puxada pelos cabelos. Uma personagem destas pesa-me no espírito, sempre que eu me disponho ao trabalho, como uma refeição mal digerida pesa no estômago, e rouba-me, em qualquer cena em que toma parte, o prazer da criação. Nunca pratica um ato inesperado, nunca me surpreende, nunca trata de si. As outras personagens ajudam todas; aquela só atrapalha.

   E, todavia, não se pode passar sem ela. Não me custa imaginar um Deus que, às vezes, a respeito de alguns de nós, sinta o mesmo. Os santos, supor-se-ia, em certo sentido criam-se a si próprios. Vivem por si. São capazes de um gesto ou de um dito surpreendente. Estão fora do enredo, não são por ele condicionados. Nós, porém, precisamos de ser empurrados. (…) Estamos inextrincavelmente ligados ao enredo, e Deus cansadamente nos força, aqui e além, segundo a intenção que é a sua: personagens sem poesia, sem livre-arbítrio, cuja única importância é que, algures, alguma vez, auxiliamos à composição de certa cena em que uma personagem viva se move e fala, e assim fornecemos talvez aos santos uma oportunidade de exercerem o livre-arbítrio deles.”

Graham Greene, O Fim da Aventura, tradução de Jorge de Sena, Edições Asa, 2002, pp. 256-257.

Graham Greene    Graham Greene, O Fim da Aventura