“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.”
John Stuart Mill
Ocorre uma contradição pragmática “quando o facto de se fazer algo contradiz o que se está a afirmar.” 1
Por exemplo: gritar “não estou a gritar!” ou dizer “não estou a falar”. As imagens apresentam também exemplos de contradições pragmáticas.
Uma maneira de defender que o Cogito cartesiano (o célebre “penso, logo existo”) é uma crença indubitável é alegar que: pensar e questionar se existo ou não e simultaneamente pretender que não existo é uma contradição pragmática 2. Como poderia pensar e questionar isso se não existisse?
Contudo, sugerir que posso ser muito diferente daquilo que habitualmente acredito ser (um ser humano possuidor de um corpo, etc.) já não envolve essa contradição.
Falando a sério: a necessidade de realizar muitas tarefas domésticas está longe de favorecer o estudo e a reflexão, pelo que não é preciso recorrer a um cenário cético para, ocasionalmente, o jantar não existir.
Transcrevo um artigo do Diário de Notícias sobre os smartphones que vale a pena ler:
«Durante a conferência TED 2013, em Long Beach, Califórnia, o co-fundador da Google e criador do Project Glass, Sergey Brin, declarou que os smartphones são "castradores".
Sergey Brin compareceu no ciclo de conferências da Technology, Education and Design para apresentar os famosos óculos de realidade aumentada desenvolvidos pela Google, mas decidiu dar ao público algo mais.
A meio do seu discurso decidiu criticar a forma como o ser humano interage um com o outro, apontando que as pessoas estão constantemente "curvadas sobre um dispositivo pequeno, completamente desconectadas umas das outras" e que isso é, de algum modo, "castrador".
"É mesmo isso que queremos fazer com o nosso corpo?", pergunta Brin.
A Google desenvolveu o sistema operativo Android que é atualmente o mais utilizado no mundo em smartphones.
Segurando os 'óculos mágicos' da Google, Brin contou como trabalhar no Project Glass foi revelador. Ao desenvolver o novo acessório, percebeu que que os telemóveis se podem tornar "viciantes" e que ele próprio se estava a tornar um "escravo" da tecnologia, isolando-se do mundo através do seu smartphone.»
A questão que se coloca é se as afirmações de Sergey Brin, ligado ao Project Glass, serão desinteressadas, dado que ele neste momento está a trabalhar no desenvolvimento de um dispositivo tecnológico que pretende ser uma alternativa aos smartphones: os óculos do Google que pretendem revolucionar a interação dos seres humanos com as tecnologias móveis (vejam o vídeo promocional em baixo).
Assim sendo, estas críticas, apesar de serem de alguém que é uma autoridade na matéria, podem ser postas em causa devido à sua falta de neutralidade (o facto das autoridades que emitem os juízos não terem interesses no assunto, é uma das condições indispensáveis para que um argumento de autoridade possa ser considerado válido).
O mais provável é que ambos os dispositivos tecnológicos sejam viciantes! Ou será que não?
Eis uma questão acerca da qual vale a pena reflectir.
Para os meus alunos do 10º C e D que têm teste hoje.
Como sabem, de acordo com o filósofo Stuart Mill, há prazeres superiores e inferiores. Ora, acontece que o estudo também pode ser uma fonte de prazer, embora não seja para alguns de vos, como já tive oportunidade de constatar. Ainda assim, pensei numa possibilidade: e se o prazer proporcionado pela música (de Nat King Cole) for particularmente inspirador para estudar as teorias éticas de Kant e Mill?
Posso estar enganada. Mas para me darem ou não razão devem experimentar! :)