domingo, 4 de dezembro de 2011

Generalizações e previsões

generalização

As induções são argumentos não dedutivos que podem ser generalizações ou previsões. Trata-se de argumentos muitos usados na vida quotidiana e nas ciências, mas não na filosofia.

Numa generalização conclui-se que, se algumas coisas possuem uma certa característica, então todas as coisas dessa classe possuem essa característica. As premissas de uma generalização são menos gerais que a conclusão: referem-se a alguns casos e depois, na conclusão, a ideia é estendida a todos os casos.

As generalizações têm a seguinte forma lógica (ou outras análogas):

Alguns A são B.
Logo, todos os A são B

Por exemplo:

Alguns políticos dizem mentirem.
Logo, todos os políticos dizem mentiras.

As pessoas que até à data caíram de uma altura superior a 50 metros morreram.
Logo, qualquer pessoa que caia de uma altura superior a 50 metros morre.

Quantos mais numerosos e representativos forem os casos referidos nas premissas mais provavelmente verdadeira é a conclusão da generalização.

Parece claro que o primeiro exemplo apresentado não respeita essas regras.

Habitualmente, uma previsão é um argumento cujas premissas se baseiam no passado e cuja conclusão se refere ao que acontecerá no futuro – no próximo ou nos próximos casos. Se em várias ocasiões sucedeu algo conclui-se que na próxima (ou próximas) ocasião sucederá o mesmo. A conclusão de uma previsão é menos geral que as premissas.

(Por vezes, as previsões incidem em casos desconhecidos do presente ou do passado.)

Por exemplo:

Alguns vendedores enganam-se nos trocos.
Por isso, da próxima vez que eu entrar numa loja o vendedor enganar-se-á nos trocos.

As gaivotas que nasceram até hoje tinham menos de 10 quilos.
Por isso, a próxima gaivota que nascer na ilha da Berlenga terá menos de 10 quilos.

Tal como sucede com a generalização, quanto mais numerosos e representativos forem os casos considerados mais provavelmente verdadeira é a conclusão da previsão.

Parece claro que o primeiro exemplo apresentado não respeita essas regras.

Contudo, por muito provável que seja a conclusão de uma generalização ou de uma previsão (tal como sucede nos outros argumentos não dedutivos), a sua verdade nunca está completamente garantida. Contrariamente ao que sucede nos argumentos dedutivos válidos, nos argumentos não dedutivos a verdade de todas as premissas não chega para garantir a verdade da conclusão – apenas a torna provável ou plausível. (As regras referidas são condições necessárias mas não suficientes.)

Essa probabilidade pode ser maior ou menor, pelo que a validade não dedutiva é uma questão de grau. As generalizações, as previsões e os outros argumentos não dedutivos podem ser mais ou menos válidos. Outra maneira de exprimir essa ideia é falar de força em vez de validade: os argumentos não dedutivos podem ser mais ou menos fortes.

Por outro lado, a validade das generalizações e das previsões (e de qualquer outro argumento não dedutivo) é informal. Contrariamente ao que sucede com os argumentos dedutivos que analisámos nas aulas, não basta inspecionar a forma lógica para determinar se uma generalização ou uma previsão é válida ou inválida, sendo necessário considerar o conteúdo do argumento para fazer essa avaliação.

Bibliografia:

- Dicionário de Filosofia, direção de Thomas Mautner, Edições 70, Lisboa, 2010.
- Dicionário Escolar de Filosofia, Organização de Aires Almeida -
http://www.defnarede.com/
- Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, direção de João Branquinho, Desidério Murcho e Nelson Gonçalves Gomes, artigo “Indução” - http://criticanarede.com/docs/etlf_inducao.pdf
Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia, Plátano, Lisboa, 2003.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Livre-arbítrio e responsabilidade moral: duas situações

1. «O homem que, em Julho, matou na Noruega 77 pessoas, maioritariamente jovens, vive num "universo delirante", que lhe permite pensar que pode decidir "quem pode viver e quem pode morrer". As conclusões de psiquiatras nomeados pelo tribunal de Oslo, divulgadas na terça-feira, podem fazer com que Anders Behring Breivik seja declarado inimputável. Em vez de ser condenado à prisão, deverá ser internado numa instituição de saúde.» Para continuar a ler a notícia do jornal Público, ver AQUI.

Se o tribunal norueguês considerar Anders Behring Breivik inimputável, estará a ser justo? Porquê?

2. «Suponha que o raptam e o obrigam a cometer uma série de crimes terríveis. O raptor fá-lo disparar sobre a primeira vítima forçando-o a premir o gatilho de uma arma, hipnotizando-o para que envenene uma segunda e depois empurrra-o de um avião fazendo-o esmagar uma terceira. Milagrosamente sobrevive à queda. A situação deixa-o atordoado, aliviado por ter chegado ao fim da dolorosa experiência. Mas então, para sua surpresa, é detido pela polícia, que o algema e o acusa de homícidio. Os pais das vítimas gritam-lhe obscenidades enquanto a polícia o leva, humilhado.»

Estarão os pais e a polícia a ser justos ao culpá-lo pelas mortes? Porquê?

Theodore Sider, Livre arbítrio e determinismo, Editorial Bizâncio, (capítulo 6), pág. 145.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Afirmação da antecedente e negação da consequente

A afirmação da antecedente (Modus ponens) e a negação da consequente (Modus tollens) são duas formas argumentativas válidas muito frequentes, tanto na vida quotidiana como na filosofia.

Afirmação da antecedente:

Se P então Q
P
Logo, Q

Se não P então Q
Não P
Logo, Q

Se P então não Q
P
Logo, não Q

Se não P então não Q
Não P
Logo, não Q

Negação da consequente:

Se P então Q
Não Q
Logo, não P

Se não P então Q
Não Q
Logo, P

Se P então não Q
Q
Logo, não P

Se não P então não Q
Q
Logo, P

Não se deve confundir estas formas válidas com formas parecidas mas inválidas. Como é o caso da Negação da antecedente e da Afirmação da consequente. Ei-las, respetivamente:

Se P então Q
Não P
Logo, não Q

Se P então Q
Q
Logo, P

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Exageros! Protestou ele enquanto coçava a tromba com a pata do meio

Texto de Mário Henrique Leiria (do engraçadíssimo livro Contos do Gin Tonic) dito por Mário Viegas, num antigo programa televisivo chamado Palavras Ditas.

Mudar o programa de Filosofia: uma proposta

Que o programa de Filosofia, atualmente em vigor no ensino secundário, deveria ser mudado é um facto. Só os professores que há anos debitam os mesmos manuais e não se atualizam cientifica e pedagogicamente é que não sentem essa necessidade de mudança. A questão que se coloca é: mudar como?

Faustino Vaz escreveu um artigo publicado na revista Crítica em que apresenta várias sugestões. Cabe agora aos professores de Filosofia lê-las e discuti-las.

Penso que todos nós, professores do secundário, devemos fazer algo para divulgar e melhorar o ensino da disciplina que leccionamos, pois se conjugarmos esforços no sentido do bem comum, todos sairemos beneficiados. E, já agora, só mais um motivo: imaginemos, no meio de tanta necessidade de cortar na educação, surge a hipótese de supressão da Filosofia dos currículos (que, ao que parece, já esteve em cima da mesa e depois foi retirada).

Parece-me que a habitual indiferença dos professores de Filosofia do secundário em relação a este assunto não se justifica de modo nenhum.

Portanto, vale a pena discutir a proposta apresentada, criticá-la e sugerir, se for o caso, alternativas melhores.

Um poema de António Lobo Antunes

Valsa by Katia Guerreiro on Grooveshark