“Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.”
Fernando Pessoa, Bernardo Soares - Livro do Desassossego.
Lido aqui.
“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
“Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.”
Fernando Pessoa, Bernardo Soares - Livro do Desassossego.
Lido aqui.
CARDIA, UM PIONEIRO ANTI-EDUQUÊS é um pequeno texto de Guilherme Valente, onde este mostra que Sottomayor Cardia - militante do Partido Socialista, que foi Ministro de Educação e Investigação Científica do e Ministro da Educação e Cultura na década de 70 - foi um crítico precoce das ideias pedagógicas actualmente designadas por “eduquês”.
Sottomayor Cardia, que era licenciado em filosofia, falava assim:
«Estão a destruir o que tanto custou a reedificar naqueles anos longínquos […]. Sabotar o ensino público – desqualificando-o em nome da democratização, da ausência de selectividade escolar, da pedagogia não directiva, da proibição de memorizar, mesmo da dispensa de aprendizagem da tabuada, da proclamação do prazer como única motivação do saber e do pensar – é, directa ou indirectamente, uma forma extrema e repugnante de liquidação do sistema público de ensino.»
É um dado curioso. Embora o “eduquês” seja, infelizmente, transversal aos vários partidos políticos portugueses, tem sido durante os governos do Partido Socialista que mais se tem feito sentir a sua influência nefasta (com a provável excepção do governo do PSD em que o Ministro da Educação foi o fatídico Roberto Carneiro). É pena que os responsáveis socialistas não tivessem dado ouvidos a este seu camarada.
«A filosofia não é um meio de descobrir a verdade. Mas é, como a arte, um processo de a ‘criar’.»
Vergílio Ferreira
Lido aqui.
Uma das ideias positivas introduzidas no actual modelo em vigor (e ausente no anterior) é a ideia de que o docente tem a obrigação de apresentar provas públicas das actividades que desenvolveu (e, pressuponho eu, da sua relevância em termos científicos e pedagógicos): as chamadas “evidências”. Todavia, o facto de não se explicitar a natureza destas nem o seu número, dá azo a inúmeras interpretações e faz com que esta boa ideia dificilmente seja operacionalizável e que as evidências possam ser avaliadas de modo rigoroso e não arbitrário.
Apesar das críticas que fiz ao modelo actual, defendo que as regras estabelecidas no início deste ano lectivo devem ser mantidas até ao fim. Há 40% dos professores que requereram aulas assistidas (quem não o fez foi porque não quis), gastaram tempo e energia na concretização de várias tarefas - que estavam de acordo com a lei e foram voluntariamente escolhidas – e tudo isso seria jogado para o lixo. Por outro lado, sem levar a aplicação do modelo até ao fim não se pode fazer um verdadeiro balanço da sua implementação: das suas vantagens e desvantagens (o que não se fez no modelo anterior, pois nas escolas os professores avaliados remeteram-se ao silêncio e nada foi dito ou discutido publicamente). Considero a alteração das regras a meio do percurso inaceitável, pois viola os direitos das pessoas que confiaram no Estado (de direito?). Além disso, o ministério da educação nunca permitiria que os professores fizessem na avaliação dos seus alunos aquilo que os políticos fizeram com a avaliação dos professores: tentarem alterar as regras arbitrariamente - de acordo com as conveniências eleitorais - sem ter em conta as consequências reais produzidas na vida das pessoas, contribuindo assim para desacreditar a confiança nas leis do país.
No entanto, uma das consequências perversas da aplicação do actual modelo de avaliação é o facto de lançar a suspeição sobre as classificações. Mesmo que o mérito seja real, a falta de transparência e de credibilidade do processo impede que este seja objectivamente reconhecido. É desmotivador pensar que mesmo os que fazem o que devem - devido à balbúrdia política reinante e à ausência de ideias claras sobre educação - não podem ver qualidade do seu trabalho avaliada com justeza.
Analisando, em retrospectiva, os acontecimentos em torno da avaliação dos professores - que foram em grande parte utilizados com o propósito de distrair a atenção da incompetência dos políticos noutras áreas – percebemos que o discurso e as ideias que vigoraram até agora na educação precisam de ser radicalmente alteradas. Os professores e os alunos precisam de fazer na escola o que é mais importante: ensinar e aprender ciências, literatura, filosofia em vez de perder tempo com a realização de tarefas burocráticas absurdas.
Deste modo, espero que a avaliação futura dos professores se centre, sobretudo, nas aprendizagens dos alunos, isto é, na coerência existente entre a classificação interna atribuída pelo professor e os resultados obtidos na avaliação externa (exames correctamente elaborados e exigentes) e nas actividades desenvolvidas no âmbito curricular, nomeadamente as aulas. Penso que o exercício de cargos, dependentes de uma nomeação, deve ter muito menos relevância que a prática lectiva e estar totalmente dependente de resultados empiricamente verificáveis. As classificações atribuídas aos docentes devem ser públicas, assim como os relatórios das actividades lectivas e não lectivas que são apresentados por cada professor.
A melhor forma de combater a frustrante sensação de injustiça - que já existe, este ano lectivo, em relação às classificações atribuídas aos professores contratados – é, no futuro, a total transparência deste processo. Ora, esta só se consegue tornando pública toda a informação.
No início deste ano lectivo, no dia em que os sindicatos assinaram um acordo com o governo e o actual modelo de avaliação foi decretado (ver aqui), decidi que não voltaria a “lutar” pelos interesses da "classe" (que não existe). Assim, embora o modelo aprovado continuasse a ser criticável e a sua credibilidade discutível tinha-se tornado uma lei e eu preferia ser avaliada a não ser (40% dos professores pensaram como eu, alguns deles contestatários activos do modelo anterior). Portanto, solicitei aulas assistidas e investi, como sempre tenho investido, na minha prática lectiva.
Mal sabia eu que as aulas assistidas seriam a melhor parte deste processo. Só no final deste ano lectivo - porque as minhas condições de trabalho não me permitiram fazê-lo antes e o prioritário era ensinar os alunos - li com atenção a legislação em vigor antes de elaborar o relatório de autoavaliação, cujo preenchimento é obrigatório por todos os professores (com ou sem aulas assistidas). Durante esta árdua e aborrecida tarefa ocorreram-me muitas questões. Eis alguns exemplos.
1º As orientações emanadas do ministério quanto à estrutura do relatório são vagas, não são claras e dificilmente podem ser avaliadas de forma objectiva. Vejamos alguns dos items de preenchimento obrigatório:
Contributo do docente para os objectivos e metas da escola, considerando as seguintes dimensões: componente social e ética; desenvolvimento do ensino e da aprendizagem; participação na vida da escola e relação com a comunidade educativa.
Em relação a este último item é necessário que o docente apresente evidências, cuja natureza não é explicitada e cada professor e cada escola interpretam de modo diferente.
A minha primeira reacção foi de perplexidade: Onde é que eu coloco o que fiz? Como é que se apresentam evidências que permitam avaliar, com imparcialidade e rigor, items como “a componente social e ética”, “a participação na vida da escola e a relação com a comunidade educativa”?
Faz sentido que a estrutura do relatório não seja intuitiva e compreensível? Que os professores tenham de passar horas a ler para percebem onde devem colocar a descrição e a apreciação das actividades lectivas e não lectivas realizadas?
Como é que se pode pedir (nos documentos do ministério) capacidade de síntese, rigor e objectividade quando as directrizes são tudo menos claras, rigorosas e sintéticas?
2º Qual é o item do relatório em que são consideradas as reais condições de trabalho do professor? Todos são avaliados em todos os items como se fossem iguais, mas de facto não são: como distinguir os professores que leccionam a duas turmas dos que leccionam a cinco ou seis? Como distinguir os professores que leccionam duas disciplinas dos que leccionam quatro? Terão todos o mesmo tempo para participar nas actividades e projectos da escola? Pode-se comparar e avaliar, com justiça e rigor e utilizando os mesmos critérios, os desempenhos destes professores?
3º Como é que se avalia a qualidade das actividades e projectos em que o docente se envolve na escola? Quais são os critérios para considerar aquelas que são mais ou menos relevantes para a vida da escola? Valem todas o mesmo? É a olho? Depende da quantidade ou de encher mais ou menos a vista? Quem é que avalia essas actividades e projectos? É um órgão independente? Como se garante a imparcialidade e a objectividade dessa avaliação?
4º Como garantir a originalidade - em termos científicos e pedagógicos – e a autoria dos materiais didácticos apresentados, quando existe um banco de dados enorme na Internet e algumas pessoas se limitam a alterar os cabeçalhos com o nome da escola (já constatei esse facto em relação aos recursos que disponibilizo neste blogue) e utilizam como se fosse por si concebido aquilo que foi originalmente concebido por outros professores?
5º Como distinguir um professor empenhado que investe mais na sua aprendizagem e na dos seus alunos daquele que investe nas actividades e projectos folclóricos - científica e pedagogicamente irrelevantes - em detrimento da preparação e leccionação das aulas?
Amanhã, sexta-feira, o governo irá falar do modo como os professores irão ser, no futuro, avaliados. Mas antes de sabermos que mudanças vão ser introduzidas, importa fazer um balanço dos modelos de avaliação aplicados pelos dois governos de Sócrates. Parece-me que sem uma análise crítica e uma discussão dos resultados obtidos com a sua aplicação, dificilmente, se pode melhorar as ideias certas e corrigir as erradas.
Sou professora há mais de 20 anos. Durante muito tempo, antes da chegada da ministra Maria de Lurdes Rodrigues, o que se passava nas escolas era o seguinte: todos os professores eram avaliados com Satisfaz (salvo casos extremos de incompetência) com base num ridículo relatório (onde era suposto elogiarem-se a si próprios, utilizando uma linguagem vaga que pouco queria dizer porque, na verdade, se sabia à partida que o conteúdo era inócuo). Quando um professor se lembrava de pedir Bom (sim, porque tinha de ser requerido pelo próprio e não resultava da avaliação de outros) isso não era bem visto pela maior parte dos professores e este era tido como alguém que se estava a pôr em bicos dos pés, um vaidoso a chamar as atenções.
Assisti durante muito tempo ao lema da velhice ser um posto. Na verdade, não importava quão medíocre se era, importava há quanto tempo se leccionava aulas nessa escola: isso era sinónimo, na maior parte dos casos, de estatuto e poder. Lembro-me de, em várias reuniões, o conteúdo das minhas observações (por mais pertinentes que fossem) não ser de facto considerado: o que importava não era o que era dito, mas quem o dizia; não importava o que era feito, mas quem o fazia. Por diversas vezes me espantei com a falta de empenho, a nível científico e pedagógico, de alguns dos meus colegas mais velhos. Contudo, isso era irrelevante porque a esse nível éramos, supostamente, todos iguais. Mas claro que essa "igualdade" não impedia que aos mais novos na escola fossem atribuídas as piores turmas, os piores horários e a leccionação do maior número de disciplinas.
A ideia de na prática lectiva se diferenciar a qualidade dos desempenhos de cada um (independentemente dos anos de serviço que possuía) era estranha para a maioria. Fazia parte das funções docentes avaliar e classificar o desempenho dos alunos, mas não passava pela cabeça dos professores que se pudessem distinguir os seus próprios desempenhos e atribuir-lhe uma classificação.
O primeiro governo de Sócrates introduziu uma ideia, a meu ver, certa: avaliar o desempenho dos professores, só que o modo como o pretendeu fazer foi completamente errado e absurdo. Contestei activamente o primeiro modelo de avaliação (ver aqui e aqui), não entreguei os objectivos individuais e fui, por isso, “justamente” avaliada com Bom. Embora não percebesse o porquê das várias classificações atribuídas na ficha que recebi da direcção da escola, aceitei - desencantada com a “classe” - essa classificação como uma consequência (e uma penalização decorrente da legislação em vigor) pelas minhas escolhas e acções.
No entanto, algo de positivo resultou de toda esta embrulhada: agora os professores, na sua generalidade, já não se atrevem a defender publicamente que não devem ser avaliados, apenas contestam o modelo.