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domingo, 15 de janeiro de 2012

Quem não te respeita não te merece

A propósito da relação entre a ação e os valores - um tema do programa do 10º ano - e do modo como as nossas ideias podem influenciar as nossas escolhas e o modo como agimos, vale a pena ver um vídeo contra a violência da campanha da  APAV intitulado: "Quem não te respeita não te merece".

Alguns problemas como o bullying e a violência no namoro decorrem de ideias erradas partilhadas e seguidas acriticamente por alguns jovens (e também adultos). Todavia, o conformismo e o facto de alguns adolescentes seguirem, sem questionar, algumas ideias feitas e preconceitos não significa que não se possam mudar atitudes e comportamentos. Porém, para isso acontecer, é preciso que as vítimas dos abusos tenham noção do que está mal e de quais são as ideias certas a seguir.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O valor da justiça

Este cartoon, da autoria de Quino, lembra-nos a diferença existente entre o discurso politicamente correto  dos direitos dos cidadãos - inócuo e consensual - e a sua aplicação à realidade. A diferença entre o que deve ser e o que é.

Não me ocorre, de momento, nenhum exemplo... Porque será?

QUINO - JUSTIÇA

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O problema é a utilidade ou as vistas curtas sobre o que é realmente útil?

«A utilidade foi declarada como o mais importante objectivo na vida – ou, para ser mais exacto, ganhar tanto dinheiro quanto for possível. E eu, que assumi a nobre tarefa de formar a elite jovem, o meu trabalho foi rebaixado à função de formar pessoas comercializáveis. Tudo tem de ser comercializável, moderno, adaptado, actual e, acima de tudo, não ser diferente, não ser difícil, não ser pesado, ser simples – primeiro que tudo simples.»

Rob Riemen, Nobreza de Espírito

Via

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Nós…

… os habitantes do 3º calhau a contar do Sol, mais conhecido por Terra, somos bastante parecidos uns aos outros.

As belas imagens deste vídeo sugerem que, embora existam muitas diferenças entre os seres humanos, também existem bastantes semelhanças e alguns interesses e valores universais. Por isso, talvez seja possível que ideias como democracia e direitos humanos um dia destes possam ser postas em práticas em lugares como a Tunísia, o Egipto e a Líbia. Porque a democracia e os direitos humanos, embora tenham surgido na Europa, não são ideias europeias – mas sim humanas.

Referi a Tunísia, o Egipto e a Líbia porque nesses países ocorreram recentemente revoluções que derrubaram ditadores (na Líbia a queda do ditador ainda não ocorreu, mas tudo indica que isso acontecerá em breve), embora ainda não seja certo se o regime político que lhes sucederá será uma democracia ou uma nova ditadura, eventualmente de carácter religioso.

Human Planet, vídeo da BBC

Vídeo encontrado aqui.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Fichas de Filosofia sobre a acção e os valores

Disponibilizo as fichas que apliquei nas aulas do 10º ano sobre os temas:

A acção e os valores. O problema da justificação dos juízos morais: as teorias do subjectivismo moral e relativismo moral e cultural.

Espero que possam ser úteis aos leitores do Dúvida Metódica, a quem agradeço as críticas e sugestões.

2010-11 Ficha de trabalho 10º sobre o problema da justificação dos juízos morais

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

L******** de e********?

Hoje, numa aula do 11º ano, fiz algo que nunca tinha feito numa aula: utilizei a expressão “foder o juízo”. Nunca tinha utilizado esse verbo, nem nenhuma palavra da família, numa aula.

Quando disse “foder o juízo” não estava a falar de educação sexual, mas sim de liberdade de expressão e de um livro: este.

Terei agido mal?

Agirei mal se, na próxima aula, ao discutir quais devem ser os limites à liberdade de expressão, em vez de apresentar casos relacionados com a privacidade dos políticos e com a segurança do Estado, apresentar o vídeo seguinte e perguntar aos alunos se utilização de palavrões em obras de ficção é ou não defensável?

 

No vídeo: o actor Miguel Guilherme lê um texto (“Gosto de palavrões”) de Miguel Esteves Cardoso em que este elogia – com muito humor e inteligência – os palavrões.

(Há dois anos fiz uma pergunta semelhante a estas, aqui no Dúvida Metódica.)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O valor da liberdade

“Partisan” designa aqueles que durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) combateram contra a ocupação levada a cabo pela Alemanha nazi. Estes movimentos de resistência existiram em vários países ocupados pelos alemães, nomeadamente na Itália e na França.

Duas das canções mais conhecidas, que celebram os actos heróicos destes resistentes e o valor da liberdade contra a tirania, são “Bella Ciao” e “Partisan”. A primeira delas é uma canção popular italiana, interpretada aqui por Gómez Naharro. A segunda foi escrita e é cantada pelo cantor canadiano Leonard Cohen.

Quando nas aulas de Filosofia referimos os valores (como, por exemplo, a liberdade e a justiça) e o facto de estes orientarem as acções humanas, ao contrário do que possa parecer, não estamos a falar de algo vago sem qualquer relação com a realidade. Por exemplo, alguns destes homens e mulheres, durante a Segunda Guerra Mundial, morreram pela liberdade. Um ideal mais valioso para eles que outros - de certo mais fáceis de alcançar - como o poder.

Num regime democrático, como aquele em que vivemos, o respeito do Estado pelo valor da liberdade é um princípio fundamental. Vivemos, sem dúvida, num contexto histórico e num país em que a liberdade é bem mais fácil de alcançar do que o foi na época dos “Partisan”. Contudo, isso não faz com que seja um dado adquirido. Nem isenta os cidadãos de reflectirem sobre o seu significado e escrutinarem permanentemente as decisões dos políticos para garantir que esta é preservada.

A liberdade não deve ser apenas um valor abstracto referido nos manuais de Filosofia ou nos discursos políticos. Numa democracia, é para ser exercida na vida pública através da análise e da crítica.

Infelizmente isso nem sempre sucede em Portugal: muitas pessoas pensam duas vezes antes de criticarem alguém poderoso, receosas das consequências (nomeadamente profissionais), e muitos políticos quando são criticados em vez de discutirem ideias e de argumentarem a favor das suas posições preferem atacar pessoalmente os adversários e acusá-los de falta de patriotismo ou de qualquer outro ismo grandiloquente.

(Canção popular italiana, o autor é desconhecido. Foi criada  na Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação alemã. Pode encontrar a letra da canção e uma tradução portuguesa – não sei avaliar se é boa ou má – aqui.)

(Pode encontrar a letra desta canção, escrita e cantada por Leonard Cohen, no original e em português, aqui.)

 

terça-feira, 13 de julho de 2010

Fazer mal em nome do bem

Num episódio de uma série policial que passava há anos na TV portuguesa, e cujo nome não recordo, o protagonista foi prender um colega polícia. Tinha-se descoberto que este liderava um “esquadrão da morte”, um grupo clandestino de polícias justiceiros que, fartos da burocracia jurídica e da lentidão do estado de direito, tinham decidido fazer justiça pelas próprias mãos e matavam criminosos que tinham conseguido escapar à justiça devido a formalismos legais ou corrompendo as autoridades. O líder desses justiceiros sabia que não tinha hipóteses de fuga e que a resistência era inútil e, por isso, aguardou a sua detenção serenamente, sentado na sala a ouvir música. Quando o colega que o vinha prender chegou, recordou-lhe os ideais que tinham em jovens, no início da carreira, quando acreditavam que iam conseguir erradicar o crime e tornar a sociedade mais justa e segura. Não me lembro com exactidão da resposta do outro, mas envolvia as ideias de que os fins não justificam os meios e de que é contraditório e imoral combater o crime através de actos criminosos. O polícia justiceiro não contra-argumentou. Em vez disso, comentou a beleza da música e disse que quase todas as obras do seu autor, Mozart, eram a imagem viva da perfeição - a perfeição que todos deveríamos tentar alcançar na nossa vida individual e na sociedade. Tinha sido, portanto, em nome da perfeição que matara alegados criminosos cuja culpa os tribunais não tinham conseguido provar.

Tal como é ilustrado por essa história, por vezes sucede que as causas de certas acções erradas não são motivos manifestamente errados (como o egoísmo, a ganância, a crueldade, etc.) mas sim motivos geralmente considerados bons (como o amor, a amizade, a lealdade, etc.). Na vida quotidiana é fácil encontrar exemplos do género: a pessoa X maltrata e magoa a pessoa Y porque está convencida que isso lhe é exigido pela afeição que tem à pessoa Z.

A História também regista muitos crimes perpetrados em nome de valores muito estimáveis. Dois exemplos entre muitos outros. Em nome do amor de Cristo, os cristãos perseguiram, torturam e mataram milhões de pessoas. Em nome da liberdade, da justiça social e do fim da exploração do homem pelo homem, os comunistas perseguiram, torturam e mataram milhões de pessoas.

Audição: Quarteto de Mozart para Oboé, Violino, Viola e Violoncelo em Fá Maior, K. 370.

sábado, 15 de maio de 2010

Imoral não quer dizer sexual

Segundo os jornais, uma professora posou nua para uma revista erótica. A Câmara Municipal de Mirandela afastou-a das actividades lectivas e colocou-a a trabalhar no Arquivo Municipal. Motivo: impedi-la de contactar com alunos e pais, devido ao “alarme social” provocado pelo caso. A esse alarme não é estranho, além das notícias saídas nos jornais, o facto das pessoas da cidade terem comprado todos os exemplares da dita revista que encontraram à venda e de algumas das fotografias em causa terem circulado por email e telemóvel.

Ao ler sobre o caso vieram-me à memória as seguintes linhas de Fernando Savater e de Peter Singer. Creio que o caso não merece mais comentários.

 

“Quando as pessoas falam de ‘moral’ e sobretudo de ‘imoralidade’, oitenta por cento das vezes – e estou com toda a certeza a calcular por baixo – o sermão trata de alguma coisa que tem a ver com sexo. Tanto assim é que há quem julgue que a moral se dedica antes de mais a ajuizar o que as pessoas fazem com as suas partes sexuais. O disparate não podia ser maior (…). No sexo, por si próprio, nada há de mais ‘imoral’ do que comer ou passear no campo; claro que uma pessoa pode comportar-se imoralmente com o sexo (utilizando-o para prejudicar outra pessoa, por exemplo), do mesmo modo que há quem coma a parte do vizinho ou aproveite os seus passeios para planear atentados terroristas.”

Fernando Savater, Ética para um Jovem, 14ª edição, Dom Quixote, Lisboa, 2007, pp. 115-116.

“Algumas pessoas pensam que a moral está ultrapassada nos dias que correm. Encaram a moral como um sistema de proibições puritanas descabidas que se destinam sobretudo a evitar que as pessoas se divirtam. Os moralistas tradicionais pretendem ser os defensores da moralidade em geral, mas o que defendem na realidade é um determinado código moral. Apropriaram-se desta área a tal ponto que, quando uma manchete de jornal insere o título BISPO ATACA A DECADÊNCIA DOS PADRÕES MORAIS, pensamos logo que se trata de mais um texto sobre promiscuidade, homossexualidade, pornografia, etc., e não sobre as verbas insignificantes que concedemos para a ajuda internacional às nações mais pobres nem sobre a nossa indiferença irresponsável para com o meio ambiente do nosso planeta.

Portanto, a primeira coisa a dizer da ética é que não se trata de um conjunto de proibições particularmente respeitantes ao sexo. Mesmo na época da Sida, o sexo não levanta nenhuma questão ética específica. As decisões sobre o sexo podem envolver considerações sobre a honestidade, o respeito pelos outros, a prudência, etc., mas não há nada disso nada de especial em relação ao sexo, pois o mesmo se poderia dizer de decisões respeitantes à condução de um automóvel.”

Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, Lisboa, 2000, pág. 18.

A respeito desta questão veja também o post "O que é realmente imoral: o sexo ou a miséria extrema?"

terça-feira, 11 de maio de 2010

O que aconteceria se o céu não existisse?

Uma das vantagens de trocar ideias sobre música é a possibilidade descobrirmos canções novas, como foi hoje o meu caso. O meu aluno Miguel Soares (do 10º A), depois de ouvir a cantora de jazz Billie Holiday, deu-me a conhecer, no final da aula, uma canção sobre a poluição e o aquecimento global, chamada "Sky is Over", da autoria de Serj Tankian (ao que parece famoso!).

O Miguel, além sugestão musical,  escreveu as seguintes informações. Agradeço ambas.

Esta canção pretende fazer-nos pensar nas consequências negativas da poluição e do aquecimento global. Foi a primeira a ser escrita por Serj Tankian, depois de começar a sua carreira a solo (anteriormente pertencia a uma banda - "System of a down"). Na letra "Sky is Over" questiona-se o tipo de relação que o homem tem com a natureza: "Estamos em guerra com a Terra e todas as suas criaturas?"

Acerca do significado desta canção, Serj disse, numa entrevista, o seguinte: “I've always thought of the sky as, like, an open canvas. When I was a kid and I looked at the sky, I always remember being able to daydream, just looking at the sky, being creative, being able to design things. What would happen if we had no sky? Where would we be? Well, obviously, scientifically, without an atmosphere, we'd all be dead.” (Eu sempre achei que o céu era como uma tela aberta. Quando eu era um miúdo e olhava para o céu, lembrava-me sempre que era capaz de sonhar, só de olhar para o céu, ser criativo, ser capaz de delinear coisas. O que aconteceria se não tivéssemos céu? Onde estaríamos? Bem, como é óbvio, cientificamente, sem atmosfera, estaríamos todos mortos).

segunda-feira, 8 de março de 2010

Valores do século XXI

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                                                                                                                       Quino

Uma caricatura do presente ou uma descrição fiel da realidade?

 Nota: Agradeço à minha colega Cláudia Benedito o envio destes cartoons do genial Quino.

sábado, 6 de março de 2010

Desresponsabilização

 
Nas notícias e comentários que tenho lido acerca do suicídio do rapaz de 12 anos que se atirou ao rio Tua devido ao facto de ser vítima de agressões por parte de colegas da escola, as opiniões dividem-se: algumas pessoas querem responsabilizar os pais e outras querem responsabilizar a escola. Quase ninguém fala em responsabilizar os agressores.
 
É provável que um caso como este só tenha atingido estas proporções porque os pais e a escola se demitiram de alguns dos seus deveres. É também provável que, por detrás da demissão daquela escola de Mirandela, esteja a demissão do Ministério da Educação, que há muitos anos  tem (por oportunismo político, mas também devido à influência do ‘eduquês’) uma atitude autista em relação à violência nas escolas. Mas terá algum sentido omitir a culpa dos rapazes e raparigas que decidiram, livremente e sem que ninguém os obrigasse, agredir um colega mais novo e mais fraco? Um rapaz ou uma rapariga com mais de dez anos (a idade com que se começa a frequentar as escolas do 2º e 3º Ciclos) não consegue perceber que é errado, ainda por cima quando isso é feito em grupo e de modo repetido, insultar e bater num colega?
 
Omitir essa culpa é injusto (como se sentirão os familiares e amigos do rapaz que se suicidou ao tomarem conhecimento da campanha de desresponsabilização dos agressores que está em marcha?), mas também ineficaz, pois não dissuade (pelo contrário, reforça) outros rapazes e raparigas de agredir colegas mais fracos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Subjectivismo moral (3): Haverá provas em ética?

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Para mais informações sobre este livro ver aqui e aqui.

«Se o subjectivismo ético [ou moral] não é verdadeiro, porque razão se sentem algumas pessoas atraídas por ele? Uma das razões tem que ver com o facto de a ciência fornecer o nosso paradigma de objectividade, e quando comparamos a ética à ciência, à ética parecem faltar as características que tornam a ciência tão irresistível. Por exemplo: a inexistência de provas em ética parece uma grande deficiência. Podemos provar que o mundo é redondo, que não existe o maior número primo e que os dinossauros viveram antes dos seres humanos. Mas poderemos provar que o aborto é certo ou errado?

A ideia geral de que os juízos morais não se podem provar é apelativa. Qualquer pessoa que já tenha debatido um tema como o aborto sabe como pode ser frustrante tentar “provar” que o seu ponto de vista é correcto. No entanto, se examinarmos esta ideia mais de perto, revela-se dúbia (…).

É fácil imaginar (…) exemplos:

Jones é um homem mau. Tem o hábito de mentir; manipula as pessoas; engana-as quando pensa poder fazê-lo sem ser descoberto; é cruel com os outros e assim por diante;

Uma determinada vendedora de automóveis é desonesta. Esconde defeitos dos automóveis; aproveita-se de pessoas sem recursos pressionando-as a pagar preços exorbitantes por automóveis que sabe terem problemas; coloca anúncios publicitários enganadores em qualquer jornal que aceite publicá-los e assim por diante.

(…) Se uma das nossas razões para afirmar que Jones é um homem mau é ele mentir habitualmente, podemos prosseguir e explicar porque motivo mentir é mau. Mentir é mau, primeiro porque prejudica as pessoas. Se alguém dá uma falsa informação a outra pessoa e essa pessoa confiar nela, as coisas podem correr mal de diversas maneiras. Segundo, mentir é mau por ser uma violação da confiança. Confiar noutra pessoa significa ficarmos vulneráveis e desprotegidos. Quando se confia em alguém, acredita-se simplesmente no que essa pessoa diz, sem tomar precauções; e quando uma pessoa mente aproveita-se da nossa confiança. É por isso que ser enganado constitui uma ofensa tão íntima e pessoal. Por fim, a regra exigindo que não se minta é necessária para a sociedade poder existir - se não pudéssemos partir do princípio que as outras pessoas dirão a verdade, a comunicação tornar-se-ia impossível e, se a comunicação fosse impossível, a sociedade seria impossível.

Portanto, podemos apoiar os nossos juízos em boas razões, e podemos oferecer explicações do porquê de essas razões terem importância. Se podemos fazer tudo isto, (…) que mais “provas” poderia alguém desejar? É absurdo afirmar que os juízos éticos não podem ser mais do que “meras opiniões” (…).

Por fim, é fácil misturar duas coisas que são na realidade muito diferentes:

1. Provar a correcção de uma ideia;

2. Persuadir alguém a aceitar as nossas provas.

Podemos ter um argumento exemplar que alguém recusa a aceitar. Mas isso não significa que tenha de estar alguma coisa errada com o argumento ou que a “prova” seja, de alguma forma, inatingível. Pode apenas significar que alguém está a ser teimoso. Quando isto acontece não devemos surpreender-nos. Em ética é de esperar que as pessoas por vezes se recusem a dar ouvidos à razão. Afinal de contas, a ética pode exigir a realização de coisas que não queremos fazer, sendo, pois, muito previsível que tentemos evitar ouvir as suas exigências.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp. 68-71.

Outras passagens deste livro podem encontrar-se neste blogue aqui.

Subjectivismo moral (2): Será a ética subjectiva?

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Esta fotografia da NASA foi retirada daqui.

«Um juízo moral - ou qualquer outro tipo de juízo de valor - tem de ser apoiado em boas razões. Se alguém disser que uma determinada acção seria errada, pode-se perguntar porque razão seria errada e, se não houver uma resposta satisfatória, pode-se rejeitar esse conselho por ser infundado. Neste aspecto, os juízos morais são diferentes de meras expressões de preferência pessoal. Se alguém diz “Eu gosto de café”, não necessita de ter uma razão para isso; poderá estar a declarar o seu gosto pessoal e nada mais. Mas os juízos morais requerem o apoio de razões, sendo, na ausência dessas razões, meramente arbitrários.

Qualquer teoria adequada da natureza da avaliação moral deveria, portanto, ser capaz de dar conta das relações entre os juízos morais e as razões que os sustentam (…).

Hume sublinhava que se examinarmos as acções malévolas - “homicídio voluntário por exemplo” - não encontramos “matéria de facto” que corresponda à maldade (…). Esta tomada de consciência tem frequentemente sido entendida como motivo de desespero, porque as pessoas presumem que isto deve significar que os valores não têm um estatuto “objectivo”. Mas porque razão deveria a observação de Hume surpreender-nos? Os valores não são o tipo de coisas que possam existir como existem as estrelas e os planetas (Concebido desta maneira, qual seria o aspecto de um “valor”?) Um erro fundamental no qual incorrem muitas pessoas quando pensam sobre este assunto é partir do princípio de que há apenas duas possibilidades:

1. Há factos morais da mesma maneira que há factos sobre estrelas e planetas; ou

2. Os nossos valores não são mais do que a expressão dos nossos sentimentos subjectivos.

Isto é um erro porque descura uma terceira possibilidade crucial. As pessoas não têm apenas sentimentos, têm também razão, e isso faz uma grande diferença. Pode pois ser que

3. As verdades morais são verdades da razão; isto é, um juízo moral é verdadeiro se for sustentado por razões melhores que os juízos alternativos.

Assim, se quisermos entender a natureza da ética, devemos atentar nas razões. Uma verdade em ética é uma conclusão apoiada em razões: a resposta correcta a uma questão moral é simplesmente a resposta que tem do seu lado o peso da razão. Tais verdades são objectivas no sentido em que são verdadeiras independentemente do que possamos querer ou pensar. Não podemos tornar algo bom ou mau pelo simples desejo de que seja assim (…). Isto explica igualmente a nossa falibilidade: podemos enganar-nos sobre o que é bom ou mau porque podemos estar enganados sobre o que a razão recomenda. A razão diz o que diz, alheia às nossas opiniões e desejos.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp. 65-67.

 

Subjectivismo moral (1): A verdade dos juízos morais depende da opinião pessoal?

Utilizamos palavras como “bem”, “mal”, “altruísmo”, “egoísmo” e “solidariedade”, por exemplo, para caracterizar certas acções, pessoas ou situações. Expressamos, então, “juízos de valor”. Quando estes se referem àquilo que devemos ou não fazer, ao que está certo ou errado, chamam-se “juízos morais”.

Nestes dias, perante as imagens avassaladoras da destruição provocada pelo sismo no Haiti, o significado de algumas expressões dos manuais de Filosofia como “os valores orientam e justificam as acções humanas” podem, talvez, tornar-se mais compreensíveis:

- Quando vemos médicos a lutar, por vezes impotentes e sem meios, para salvar pessoas, percebemos melhor o autêntico significado do valor da solidariedade.

- Quando vemos os bombeiros de Nova Iorque a salvar crianças dos escombros, percebemos melhor o sentido do amor ao próximo e do altruísmo.

- Quando vemos pessoas que usam a violência para se aproveitarem, nestas circunstâncias, da miséria e da desgraça alheias, percebemos melhor o significado da maldade e do egoísmo.

Referi estes exemplos nas aulas, ao explicar a teoria do subjectivismo moral. Segundo esta teoria filosófica, o valor de verdade dos juízos morais é relativo ao indivíduo, ou seja, varia de acordo com o sujeito em causa: os seus valores morais, ideias e sentimentos num dado momento e numa certa situação. Assim sendo, não há, por exemplo, acordo quanto ao valor de verdade a atribuir às proposições que expressam acções boas: tanto pode ser verdadeiro como falso, depende de uma apreciação que é sempre subjectiva.

Portanto, juízos morais como: “Os médicos que se encontram no Haiti são solidários”, “Os bombeiros, ao salvarem vidas, praticaram actos altruístas” e “As pessoas que pilharam e roubaram as vítimas do sismo praticaram actos moralmente incorrectos” serão verdadeiros ou falsos, dependendo da perspectiva adoptada por cada um de nós.

Mas será esta posição defensável? Será a verdade dos juízos morais uma mera questão de opinião pessoal?

Alguns exemplos, como estes, parecem contrariar a posição defendida pelo subjectivismo moral. Contudo, se analisarmos o ponto de vista que as pessoas adoptam - ao nível do senso comum - ao discutir assuntos polémicos como o aborto, a eutanásia, a pena de morte ou a homossexualidade, constatamos que a discordância leva a conversa (muitas vezes) a acabar assim: Isso é a tua opinião! Tens as tuas ideias e sentimentos sobre o assunto e eu tenho as minhas. E ponto final na discussão, pois presume-se que em relação a estes assuntos polémicos - na ausência de certeza ou consenso - qualquer ponto de vista é aceitável.

Ora, esta forma habitual de pensar e argumentar não faz sentido. Podemos apresentar, tal como faz James Rachels (nos Elementos de Filosofia Moral), um conjunto de razões para demonstrar que as ideias defendidas pelos subjectivistas morais não são racionalmente justificáveis.

Os argumentos de James Rachels - contra o subjectivismo moral - podem ser lidos nos posts seguintes.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A estrada de Giges

 

O que sucederia se uma grande catástrofe matasse a maior parte dos seres humanos, dos animais e das plantas e destruísse as cidades, a agricultura, a indústria, o comércio e as instituições sociais e políticas (nomeadamente o governo, os tribunais e a polícia)?

O filme “A Estrada” (baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy) sugere que a vida dos sobreviventes se tornaria miserável, perigosa e degradante. Matar-se-ia por um par de sapatos ou por um bocado de comida. A fome seria constante e muitas pessoas praticariam o canibalismo. As pessoas tenderiam a viver sozinhas ou em pequenos grupos, isolados e esquivos, devido à desconfiança e ao medo de serem atacadas pelos vizinhos. O horror do presente e a falta de esperança num futuro melhor tornaria muitas pessoas apáticas e levaria algumas ao suicídio.

Trata-se de um cenário ainda pior do que o descrito pelo filósofo Thomas Hobbes ao imaginar o que seria a vida humana sem Estado, sem organização social e política: uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” e dominada por “um constante temor e perigo de morte violenta” (ver aqui mais detalhes).

Infelizmente, é improvável que se trate de um pessimismo injustificado. O que vemos em “A Estrada” é apenas uma generalização feita a partir do que já aconteceu muitas vezes em situações de menor dimensão. Após naufrágios ou quedas de aviões os sobreviventes, isolados e acossados pela fome, recorreram muitas vezes ao canibalismo. Nos campos de concentração nazis e soviéticos muitos prisioneiros roubavam, agrediam ou matavam outros prisioneiros para lhes roubar um bocado de pão. Após catástrofes naturais ou grandes convulsões sociais e políticas, quando o controlo das autoridades do Estado diminui ou desaparece, é frequente ocorrerem roubos, pilhagens, violações, assassinatos e outras violências (veja aqui um exemplo). No Haiti, devastado pelo terramoto ocorrido no passado dia 12 de Janeiro, está a acontecer precisamente isso.

É como se as normas morais e jurídicas a que habitualmente obedecemos, e valores como a justiça e o respeito pelas outras pessoas, fossem apenas um verniz fino e frágil que nessas situações mais extremas estala - dando-nos uma visão do como seria terrível a vida humana sem o controlo do Estado e das outras instituições sociais.

Mas em “A Estrada” não há apenas desespero e miséria material e moral. Segundo o filme, embora se trate apenas de uma pequena minoria, nem todas pessoas esqueceram as normas que respeitavam ou perderam o respeito pelos outros. Nem todas as pessoas se tornaram escravas da fome e do medo. Embora esfomeadas, algumas pessoas não praticaram o canibalismo. Embora amedrontadas, algumas pessoas arranjaram coragem suficiente para ajudar quem precisava de ajuda e partilharam o pouco que tinham. O mesmo sucedeu nas situações reais referidas, nomeadamente nos campos de concentração nazis e soviéticos (veja aqui um exemplo).

Platão conta a história de um homem chamado Giges que encontra um anel que tornava as pessoas invisíveis. Com esse anel podiam, se quisessem, roubar e matar impunemente. O anel de Giges é uma espécie de teste: sem o medo do castigo as pessoas continuariam a respeitar as normas morais e jurídicas que respeitavam antes?

Situações como a descrita em “A Estrada”, ou como a que se verifica actualmente no Haiti, em que o controle estatal desaparece ou diminui muito, põem muitas pessoas no papel de Giges: poderem praticar o mal impunemente. Embora não sejam certamente a maioria, nem todas as pessoas falham nesse teste. Por isso, no final do filme é a esperança (embora incerta e pequena), e não o desespero, que tem a última palavra. Esperemos que suceda o mesmo no Haiti.

sábado, 26 de setembro de 2009

Defesa do voto e crítica da abstenção

Amanhã há eleições legislativas em Portugal. Em diversas eleições passadas a percentagem de eleitores que se absteve foi elevada. Por exemplo: 35,7% nas últimas eleições legislativas e 63,5% nas últimas eleições para o Parlamento Europeu.

votar Na minha opinião, as pessoas que valorizam o facto de viverem num país democrático deviam votar sempre e nunca se abster. A existência de eleições livres é uma das principais diferenças entre uma democracia e uma ditadura. As pessoas que votam, além de escolherem quem vai exercer o poder, exprimem simultaneamente o seu apoio à democracia e à existência de eleições livres. Quem se abstém e não vota faz uma escolha que pode ser interpretada como uma rejeição da democracia ou, pelo menos, como indiferença perante o facto de viver numa democracia ou numa ditadura.

Algumas pessoas justificam o facto de se absterem nas eleições com a circunstância de discordarem de todos os candidatos. É perfeitamente possível, e até razoável (atendendo ao que se vê e ouve em muitas campanhas eleitorais), que um eleitor discorde de todos os candidatos. No entanto, a abstenção não é a melhor maneira de exprimir essa discordância. O voto em branco exprime de modo mais claro e inequívoco uma tal discordância, pois, contrariamente à abstenção, o voto em branco não pode ser confundido com a rejeição da democracia ou com a demissão cívica das pessoas que não vão votar porque preferem ir passear. Quem vota em branco está a dizer que recusa votar naquelas candidatos, mas que quer votar e que é favorável à existência de eleições e de democracia.

Tal não significa, porém, que (como sucede nalguns países) o voto deva ser obrigatório. Se existir uma qualquer sanção para quem não for votar, isso diminuirá o significado político do acto de votar. Este deixará de exprimir um apoio do eleitor à existência de eleições e de democracia. Mesmo as pessoas que rejeitam a democracia ou que lhe são indiferentes tenderão a ir votar para evitar a sanção, pelo que esse acto não poderá ser visto como uma escolha inteiramente livre – em que o cidadão, além de escolher quem exercerá o poder, manifesta o seu apoio ao regime democrático em que vive.

Seja quem for o vencedor das eleições de amanhã, seria bom que a percentagem da abstenção fosse baixa e que quase todos os 9,4 milhões de leitores (ver mais detalhes aqui) fossem votar. Se tal sucedesse seria a democracia que ganharia as eleições.

(A respeito deste assunto vale a pena espreitar aqui.)