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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Lincoln: será correto mentir para defender a verdade?

Um argumento bom ou cogente é um argumento que – além de ser válido e ter premissas verdadeiras – tem premissas mais plausíveis que a conclusão. A importância desta última característica prende-se com a necessidade de persuadir alguém: se as premissas não forem mais aceitáveis que a conclusão as pessoas que discordam desta não encontrarão no argumento razões para mudar de posição.

Vamos supor que não conhecemos razões que sejam simultaneamente verdadeiras e aceitáveis para um auditório X de modo a convencê-lo acerca de uma tese Y. Contudo, somos capazes de apresentar razões falsas mas plausíveis e aceitáveis para X. Vamos supor também que Y é uma ideia verdadeira – por exemplo, que a escravatura é errada e deve ser abolida.

Será correto persuadir X acerca de Y recorrendo a falsidades? Persuadir através de falsidades é uma forma de persuasão irracional ou manipulação. Será correto, portanto, manipular uma pessoa para a convencer de uma verdade  (caso ela seja incapaz de se deixar convencer através das verdadeiras razões)?

O filme Lincoln, de Steven Spielberg, leva o espetador a pensar nessa questão, na medida em que apresenta alguns defensores da abolição da escravatura perante o dilema de assumir publicamente todas as suas ideias e assustar eventuais apoiantes ou apresentar apenas algumas dessas ideias e suavizá-las (deturpando-as um pouco) para tentar conquistar mais apoiantes para a sua causa.

Essa questão é uma especificação de uma questão ética mais geral que atravessa o filme do princípio ao fim: será que os fins justificam os meios? Por exemplo: será correto alcançar um fim moralmente bom (como a proibição da escravatura) através de meios moralmente reprováveis (como a corrupção)?

As personagens não citam Kant nem Stuart Mill, mas decerto o argumentista do filme pensou neles e no debate entre a deontologia e o consequencialismo ao escrever a história.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Qual é o mal de mentir?

Estas aulas da universidade de Harvard - nos Estados Unidos, que é considerada uma das melhores do mundo - têm muito sucesso no Youtube. Percebe-se porquê, o professor - o filósofo Michael Sandel - utiliza uma linguagem clara, discute os problemas de pontos de vistas diferentes, faz com que os alunos intervenham criticamente, fá-los pensar e compreender os problemas e os argumentos filosóficos e a maioria destes alunos parecem, de facto, interessados em fazer isso.

Assim, dirão vocês, é fácil aprender. Concordo. E acrescento: com alunos assim também é fácil ensinar. À falta de algumas das condições descritas anteriormente, fiquemos-nos pelo visionamento dos vídeos. Ganhamos com isso, sem dúvida, uma excelente oportunidade para aprender mais e melhor sobre as ideias fundamentais defendidas por Kant. Por exemplo: como entende este filósofo o critério da moralidade? O que significam os conceitos de autonomia e heteronomia da vontade na ética kantiana?

domingo, 13 de janeiro de 2013

1 ou 200?

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Os alunos do 11º B, Alexandre Mendes e Emanuel Noivo, a propósito de um conhecido dilema moral, imaginaram uma interessante discussão, entre os filósofos Kant e Stuart Mill, que vale a pena ler.

O texto integral pode ser lido AQUI. Foi publicado no blogue Filosofia tintim por tintim, onde colaboram vários alunos da escola (do 10º, 11º e 12º anos) e que pretende ser um espaço de partilha de trabalhos, opiniões, gostos e interesses.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Será moralmente correto apoiar a pesquisa científica em troca de sexo?

Este é um excerto promocional do episódio ‘The Benefactor Factor’ da série The Big Bang Theory.

Depois de ver o episódio inteiro na aula tente responder às seguintes questões:

Segundo a ética kantiana, como se deve avaliar a atitude do Sheldon e dos outros amigos relativamente a Leonard e à possibilidade dele ter relações sexuais com a doadora? Concorda?

Se Leonard tentasse decidir segundo um critério utilitarista se devia ou não ter relações sexuais com a doadora a que conclusão chegaria? Concorda com essa conclusão?

Leonard acabou por ter relações sexuais com a doadora. Não o fez por motivos financeiros nem por amor, mas pela expetativa de um prazer excepcionalmente grande. Segundo a ética kantiana, Leonard agiu bem ou mal? E segundo a ética utilitarista? Quem tem razão na sua opinião?

 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Erros do facilitismo

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"O aluno a quem não se exige nunca que faça aquilo que não é capaz de fazer, não faz nunca aquilo que é capaz de fazer."

John Stuart Mill

(Via De Rerum Natura.)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Para estudar as teorias éticas de Kant e Stuart Mill

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 A imagem foi tirada daqui.

A. Links para textos e fichas de trabalho do Dúvida Metódica:

  1. Cumprir o dever pelo dever: um exemplo
  2. Agir bem para evitar problemas
  3. Quais são as ações que têm valor moral?
  4. Qual dos personagens, o Calvin ou a Susie, está a agir de acordo com o princípio kantiano da moralidade?
  5. As pessoas não são instrumentos
  6. Como se formula, na linguagem de Kant, o princípio que o Manelinho encontra escrito no livro?
  7. Devemos mentir para salvar a vida de um amigo? – Não, diz Kant (1)
  8. Devemos mentir para salvar a vida de um amigo? – Não, diz Kant (2)
  9. Três minutos com Kant
  10. “Mentiras boas” e outras objeções à ética kantiana
  11. Qual é o critério da moralidade?
  12. O utilitarismo: ideias básicas
  13. Argumentos contra o utilitarismo

B. Exercícios para resolver e questões para discutir:

As teorias éticas de Kant e Stuart Mill: ideias fundamentais

Ética: fichas de trabalho sobre Kant e Stuart Mill

Dilema ético em BD: Fox Trot

Dilema ético em BD: Zits

Para discutir na primeira aula de Filosofia

Qual é a ação correta?

Enganar por amor

Bem-vindos à discussão dos problemas filosóficos :)

Preparação para o teste intermédio de Filosofia - 2

Teste intermédio de Filosofia: enunciado, resolução e critérios de correcção

C. Para os mais curiosos, que querem saber ainda mais sobre Kant e Mill, sugiro links para alguns dos artigos disponíveis na Crítica, revista de Filosofia online (estas leituras não são obrigatórias para o teste).

A ética de Kant
A teoria moral de Kant
A ética de John Stuart Mill
John Stuart Mill (1806–1873)

Bom estudo! :)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ética: fichas de trabalho sobre Kant e Stuart Mill

Luís Rodrigues mandou-nos por email diversos materiais para o ensino da filosofia da sua autoria. Dada a qualidade e interesse dos mesmos divulgaremos alguns no Dúvida Metódica. O nosso obrigado ao Luís pela generosa partilha!

Para começar, publicamos duas fichas sobre as teorias éticas de Kant e de Stuart Mill. Esperemos que ainda vão a tempo de ajudar os alunos e os professores envolvidos na preparação do teste intermédio.

Luís Rodrigues é professor na Escola Secundária Professor Reynaldo dos Santos, de Vila Franca de Xira, e é autor, entre outras obras, de manuais de Filosofia para o 10º e 11º anos. É dele o manual de Filosofia adoptado na nossa escola para o 10º ano (cujo site é O Laboratório do Pensamento).

 

A TEORIA ÉTICA DE KANT - QUESTÕES DE ESCOLHA MULTIPLA e Correcção

A TEORIA ÉTICA DE MILL – O UTILITARISMO - QUESTÕES DE ESCOLHA MÚLTIPLA e correcção

 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Argumentos contra o utilitarismo

1. Direitos.

“(…) Suponhamos que um voyeur espiava secretamente a senhora York espreitando pela janela do seu quarto, e secretamente lhe tirava fotografias quando ela estava despida. Suponhamos ainda que fazia isto sem se denunciar e usava as fotografias apenas para o seu prazer pessoal, não as mostrando a mais ninguém. Nestas circunstâncias a única consequência da sua acção é um aumento da sua própria felicidade. Ninguém mais, nem mesmo a senhora York, sofre qualquer infelicidade. Como poderia então o utilitarismo negar que as acções do voyeur são correctas? Mas é óbvio para o senso comum moral que não são correctas. O utilitarismo parece ser, pois, inaceitável.

A moral da história a retirar deste argumento é que o utilitarismo está em conflito com a ideia de que as pessoas têm direitos que não podem ser espezinhados só porque alguém antecipa bons resultados. Neste caso, é o direito da senhora York à privacidade que é violado; mas não seria difícil pensar em casos similares nos quais outros direitos estão em causa – o direito à liberdade religiosa, à livre expressão ou mesmo o próprio direito à vida. Pode acontecer que bons objectivos sejam servidos por meio da violação destes direitos. Mas não pensamos que os nossos direitos devam ser postos em causa com tanta facilidade. A noção de um direito pessoal não é uma noção utilitarista. Bem pelo contrário: é uma noção que estabelece limites à forma como um indivíduo pode ser tratado, independentemente dos bons objectivos que poderiam ser alcançados.”

2. Relações pessoais

«Na prática, ninguém está disposto a tratar todas as pessoas como iguais, pois requereria que abandonássemos as nossas relações especiais com os amigos e com a família. Todos somos profundamente parciais quanto à família e amigos. Gostamos deles e vamos até onde for preciso para os ajudar. Para nós, não são apenas membros da grande multidão da humanidade – são especiais. Mas tudo isto é inconsistente com a imparcialidade. Quando somos imparciais, a intimidade, o amor e a amizade são lançados pela janela fora.

(…) Como seria se não tivéssemos mais em conta o nosso marido ou esposa do que estranhos do que nunca vimos antes? A própria ideia é absurda; não só é profundamente contrária às emoções humanas normais como a instituição do casamento não poderia sequer existir à margem de acordos sobre responsabilidades e obrigações especiais. E como seria tratar os nossos filhos com o mesmo amor concedido a estranhos? Como John Cottingham afirmou, “um pai que deixa o filho arder, porque no edifício em chamas está alguém cuja futura contribuição para o bem-estar geral promete ser maior, não é um herói; é (merecidamente) objecto de desprezo moral, é um leproso moral”.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Edições Gradiva, pp. 158-159 e 162.

O utilitarismo: ideias básicas

john-stuart-mill-action-philosophers

A banda desenhada foi retirada deste sítio.

“O utilitarismo clássico, a teoria de Bentham e Mill, pode ser resumido em três proposições: primeiro deve-se julgar que as acções são moralmente certas ou erradas somente em função das suas consequências. Nada mais importa. Segundo ao avaliar as consequências, a única coisa que interessa é a quantidade de felicidade ou de infelicidade criada. Tudo o resto é irrelevante. Terceiro, a felicidade de cada pessoa conta da mesma maneira. Como explica Mill,

a felicidade que forma o padrão utilitarista do que é correcto na conduta não é a felicidade do próprio agente, mas a de todos os implicados. Entre a felicidade do agente e a dos outros, o utilitarismo exige que o agente seja tão estritamente imparcial como um espectador desinteressado e benévolo.

Assim, as acções correctas são as que produzem o maior equilíbrio possível de felicidade e infelicidade, sendo a felicidade de cada pessoa contabilizada como igualmente importante.”

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Edições Gradiva, pp. 151-152.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

As teorias éticas de Kant e Stuart Mill: ideias fundamentais

Quadro Comparativo Kant e Stuart Mill

Qual é o critério da moralidade?

kant versus mill

Kant responde:

“(…) o valor moral da acção não reside, portanto, no efeito (consequências) que dela se espera. Não pode residir em mais parte alguma senão no princípio da vontade (na intenção), abstraindo dos fins que possam ser realizados por tal vontade”.

“Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer ao mesmo tempo que se torne lei universal”.

“Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.”

Kant, Fundamentação da metafísica dos costumes, Edições 70

E Stuart Mill contra-argumenta:

“Desde os primórdios da filosofia, a questão do fundamento da moralidade tem sido considerada o principal problema do pensamento especulativo (…).

A doutrina que aceita como fundamento da moral a utilidade, ou o princípio da maior felicidade, defende que as acções são correctas na medida em que tendem a promover a felicidade, e incorrectas na medida em que tendem a gerar o contrário da felicidade. Por felicidade entendemos o prazer, e a ausência de dor; por infelicidade a dor, e a privação do prazer.

(…) Tem de se admitir, no entanto, que os autores utilitaristas defenderam em geral a superioridade dos prazeres mentais sobre os corporais (…). É perfeitamente compatível com o princípio de utilidade reconhecer o facto de alguns tipos de prazer serem mais desejáveis e valiosos do que outros. Seria absurdo que a avaliação dos prazeres dependesse apenas da quantidade, dado que ao avaliar todas as outras coisas consideramos a qualidade a par da quantidade.

Segundo o princípio da maior felicidade, o fim último, por referência ao qual e em virtude do qual todas as coisas são desejáveis (quer estejamos a considerar o nosso próprio bem ou o das outras pessoas), é uma existência tanto quanto possível isenta de dor e tão rica quanto possível em prazeres, tanto em quantidade como em qualidade (…).

Quem salva um semelhante de se afogar faz o que está moralmente correcto, quer o seu motivo seja o dever, ou a esperança de ser pago pelo seu incómodo (…).

John Stuart Mill, Utilitarismo, págs. 43, 52, 57 e 65, Edições Gradiva

Quem terá razão?

sábado, 6 de novembro de 2010

Indiscrições do sucesso

“No que diz respeito a teorias políticas e filosóficas, bem como a pessoas, o sucesso revela falhas e fraquezas que o fracasso poderia ter escondido da observação.”

John Stuart Mill, Sobre a Liberdade, Lisboa, Edições 70, 2006,  pág. 30.

domingo, 31 de outubro de 2010

A verdade prevalece?

xkcd a verdade e a mentira O cartoon foi tirado daqui.

A democracia é, nas palavras atribuídas a Winston Churchill,  “o pior sistema político, com excepção de todos os outros”. A liberdade de expressão é uma das condições para a existência de um regime democrático. Contudo, como se pode verificar nos meios de comunicação social, a fronteira entre a informação e a manipulação nem sempre é clara. Por vezes, as notícias têm o propósito de servir interesses que nada têm a ver com a verdade. Ocultam-se  intencionalmente determinados factos ou  exploram-se os sentimentos e a ignorância das pessoas em relação a certos assuntos.

O filósofo Stuart Mill considerou que, embora a verdade possa não prevalecer contra o uso da força,  “uma opinião é verdadeira, pode ser extinta uma, duas ou até mais vezes, mas no decorrer do tempo haverá geralmente pessoas que a redescubram, até algum dos seus ressurgimentos calhar numa altura em que, devido a circunstâncias favoráveis, escape à perseguição até ter adquirido ímpeto suficiente para aguentar todas as tentativas subsequentes de a suprimir.”

Porém, em democracia, onde pode existir um livre confronto de opiniões,  a verdade não deveria prevalecer sobre a mentira mais rapidamente e sem tantos entraves?

domingo, 12 de setembro de 2010

Bem-vindos à discussão dos problemas filosóficos :)

Dou as boas-vindas a todos os alunos, em particular aos das  turmas C, D e F do 10º ano que frequentam esta disciplina pela primeira vez. E também aos alunos do 11º A e C.

Bom trabalho para todos!

Este blogue  irá ser utilizado, como um complemento do manual adoptado, nas aulas e em casa pelos alunos – espero eu – na realização de trabalhos de casa e de pesquisa.

Para os mais curiosos em saber algo sobre esta nova disciplina do currículo, deixo, neste primeiro dia de aulas, duas sugestões: aqui e aqui.

Nesses textos poderão encontrar, numa linguagem simples e clara,  respostas a algumas questões com que, provavelmente, já se deparam e que irão ser explicitadas e aprofundadas nas próximas aulas.

Deixo, aos alunos do 10º ano e 11º ano, um desafio:

«O anarquista e romancista inglês William Godwin (1756–1836) usou o Arcebispo de Fénelon [considerado como um grande benfeitor da humanidade] na seguinte experiência mental:

O leitor pode salvar apenas uma pessoa de um edifício em chamas. Das duas que estão no interior, um é um criado, um bêbado preguiçoso e grosseiro, dado a brigas e desonesto, a outra é o Arcebispo Fénelon. Quem deve salvar?

A resposta é óbvia: deve salvar o grande benfeitor da humanidade, porque, ponderando todos os factores, é isto o que terá provavelmente as melhores consequências.

Mas há um senão nesta história.

E se o bêbado grosseiro, etc., for o seu pai?»

Desidério Murcho, no Crítica: blog de filosofia

 

Pensem na resposta que dariam e apresentem razões para justificar a vossa opinião.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um prazer superior

 

Stuart Mill distinguiu entre prazeres superiores e prazeres inferiores. Se essa distinção for verdadeira, a ópera faz certamente parte da lista dos prazeres superiores. Se a distinção for falsa, ou pelo menos se não for possível justificá-la de modo plausível, pode-se ainda assim dizer que ver e ouvir ópera proporciona um prazer maravilhoso, independentemente do que se possa pensar da sua comparação com outro género de prazeres. Seja como for, não há razão para considerá-la uma coisa necessariamente elitista, mas sim para tentar popularizá-la, de modo a que mais pessoas tenham acesso ao superior deleite que proporciona.

O vídeo mostra uma tentativa de popularização da ópera: a Companhia de Ópera de Filadélfia a actuar no meio de um mercado em Filadélfia, nos EUA.

Vídeo descoberto aqui.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Tolerar a diferença

imageA fotografia foi tirada deste blogue (que oferece muitos outros pretextos para ser visitado). 

 

“A humanidade terá muito a ganhar deixando que cada um viva como lhe parece bem, e não forçando cada um a viver como parece bem aos demais.”

John Stuart Mill

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A verdade não vem sempre ao de cima

“O ditado de que a verdade triunfa sempre sobre a perseguição é uma daquelas falsidades agradáveis que as pessoas repetem entre si até chegarem ao estatuto de lugares-comuns, mas que toda a experiência refuta. A história está repleta de exemplos de verdades esmagadas pela perseguição. Mesmo que não sejam suprimidas para sempre, poderão ser relegadas para o esquecimento durante séculos. (…) A perseguição foi sempre bem sucedida, excepto quando os heréticos constituíam uma facção demasiado forte para ser eficazmente perseguida. (…) É apenas vã sentimentalidade pensar que a verdade, enquanto verdade, tem um poder inerente – que o erro não tem – de prevalecer contra a masmorra e a fogueira. As pessoas não se dedicam mais à verdade que – como frequentemente acontece – ao erro, e uma aplicação suficiente de punições legais e até sociais geralmente conseguirá travar a propagação tanto de uma como de outro. A verdadeira vantagem da verdade é a seguinte: quando uma opinião é verdadeira, pode ser extinta uma, duas ou até mais vezes, mas no decorrer do tempo haverá geralmente pessoas que a redescubram, até algum dos seus ressurgimentos calhar numa altura em que, devido a circunstâncias favoráveis, escape à perseguição até ter adquirido ímpeto suficiente para aguentar todas as tentativas subsequentes de a suprimir.”

John Stuart Mill, Sobre a Liberdade, Edições 70, 2006, Lisboa, pp. 67-68.