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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Será apenas uma questão de perspectiva?

O copo está meio cheio ou meio vazio?

É verdade que a atitude adoptada em relação aos problemas e às situações - sejam elas da vida pessoal ou motivadas pela atual crise económica - interfere no modo como as encaramos ou as ultrapassamos.

Todavia, será apenas uma questão de perspectiva? O copo estará, de facto, meio cheio ou meio vazio dependendo do ponto de vista de cada um? O que dizer dos factos e da sua análise racional? Não haverá uma descrição do copo partilhável por ambos os peixes do cartoon?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Onde é que dói ao certo?

Uma vez um homem foi ao médico dizendo que lhe doía o corpo todo. O médico duvidou ligeiramente: “todo??” Mas o homem reiterou: “Sim, doutor. Todo!”

Para demonstrar a sua afirmação, o homem tocou rapidamente em várias partes do seu corpo com o dedo espetado, dizendo de cada vez: “dói-me aqui” - “dói-me aqui”, “dói-me aqui”, “dói-me aqui”...

Depois disso, o médico examinou-o com atenção e finalmente pronunciou o diagnóstico: “O senhor tem o dedo partido.”

(Esta história é contada no filme O Sabor da Cereja, de Abbas Kiarostami.)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A verdade é descoberta ou criada?

«A filosofia não é um meio de descobrir a verdade. Mas é, como a arte, um processo de a ‘criar’.»

Vergílio Ferreira

Lido aqui.

domingo, 26 de junho de 2011

Tudo é texto??

doença de Huntington

Mulher com a doença de Huntington

A passagem seguinte do romance Solar, de Ian McEwan, descreve muito bem o modo de pensar das pessoas que consideram que o conhecimento é socialmente construído e que - tal como o filósofo francês Jacques Derrida - julgam que “tudo é texto”.

Numa reunião com alguns professores de Física, Nancy Temple, lincenciada em Antropologia Social, «disse que podia explicar melhor o seu campo de actividade descrevendo um projecto recente, um estudo aprofundado, que se prolongara por quatro meses, de um laboratório de genética de Glasgow empenhado em isolar e descrever o gene de um leão, o Trim-5, e a sua função. O objectivo dela era demonstrar que esse, ou qualquer outro gene, era, no sentido mais forte, socialmente construído. Sem as várias ferramentas de “entextualização” que os cientistas usavam – o luminómetro de fotão único, o citómetro de fluxo, a imunofluorescência e por aí adiante – não se podia dizer que o gene existia. Era dispendioso possuir e aprender a usar esses instrumentos e, por esse motivo, eles estavam repletos de significado social. O gene não era uma entidade objectiva, meramente à espera de ser descoberto pelos cientistas. Era inteiramente manufacturado pelas hipóteses que estes punham, pela sua criatividade e pelos instrumentos que possuíam, sem o que não podia ser detectado. E quando finalmente era expresso em termos dos seus chamados pares de bases e do seu papel provável, essa descrição, esse texto, só tinha significado e só extraía a sua realidade do interior da rede limitada de geneticistas que podiam ler sobre ele. Fora dessas redes, o Trim-5 não existiria.

Durante esta apresentação, Michael Beard e os outros físicos escutavam com algum constrangimento. Delicadamente, evitavam entreolhar-se. (…) Beard ouvira rumores de que ideias estranhas eram lugares-comuns entre os departamentos de artes liberais. Constava que era habitual ensinar aos estudantes de humanidades que a ciência era apenas mais um sistema de crenças, nem mais nem menos fiável do que a religião ou a astrologia. (…)

Quando Nancy Temple chegou ao fim do seu discurso, [os físicos de] Newcastle e Cambridge manifestaram-se em simultâneo, mais pasmados que encolerizados.

- Onde é que isso deixa a doença de Huntington, por exemplo? – perguntou um, enquanto o outro interrogava: - Acredita sinceramente que aquilo que desconhece não existe? (…)

- A doença de Huntington está também culturalmente inscrita [respondeu Nancy Temple]. Em tempos era uma narrativa sobre o castigo divino e a possessão demoníaca. Agora é a história de um gene defeituoso e é provável que um dia se venha a transmutar em qualquer outra coisa. Quanto aos genes de que não sabemos nada, bem, é óbvio que nada tenho a dizer. Os genes que foram descritos, como é evidente só podem chegar até nós mediados pela cultura.»

Ian McEwan, Solar, Gradiva, Lisboa, 2010, pp. 160-161.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Nós…

… os habitantes do 3º calhau a contar do Sol, mais conhecido por Terra, somos bastante parecidos uns aos outros.

As belas imagens deste vídeo sugerem que, embora existam muitas diferenças entre os seres humanos, também existem bastantes semelhanças e alguns interesses e valores universais. Por isso, talvez seja possível que ideias como democracia e direitos humanos um dia destes possam ser postas em práticas em lugares como a Tunísia, o Egipto e a Líbia. Porque a democracia e os direitos humanos, embora tenham surgido na Europa, não são ideias europeias – mas sim humanas.

Referi a Tunísia, o Egipto e a Líbia porque nesses países ocorreram recentemente revoluções que derrubaram ditadores (na Líbia a queda do ditador ainda não ocorreu, mas tudo indica que isso acontecerá em breve), embora ainda não seja certo se o regime político que lhes sucederá será uma democracia ou uma nova ditadura, eventualmente de carácter religioso.

Human Planet, vídeo da BBC

Vídeo encontrado aqui.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

É tudo relativo…não é?

image Mais informações sobre este livro aqui.

«O sofista da Grécia antiga, Protágoras, é visto como a principal fonte do relativismo (…). “O homem é a medida de todas as coisas”, diz. A sua posição é que a verdade o é para alguém. Não existe nenhuma verdade e ponto final. Uma resposta rápida (e correcta) é questionar o status da afirmação de Protágoras – tal como devíamos questionar qualquer afirmação que defenda o relativismo. “Todas as verdades são relativas”. Isso é relativo ou não? Se não for, então é uma auto-refutação, por isso devíamos rejeitá-la. Se for, devíamos responder: “Isso está tudo muito certo, senhor Protágoras, mas porque haveríamos de ter em conta o que diz? Afinal, o senhor está apenas a falar de como as coisas lhe parecem a si, não como elas são”.

O senhor Protágoras bate com os pés e grita: “Mas eu sou o grande Protágoras que pensou nestas coisas e viu…” Aqui hesita – o que tem de dizer para nos influenciar não consegue dizê-lo com consistência, pois tem de dizer que os seus argumentos são melhores do que os dos outros e não é assim apenas relativamente a si. Tem de dizer que viu… ahm… ahm a verdade. Ponto final.»

Peter Cave, Duas vidas valem mais do que uma?, Academia do livro, tradução de Maria A. Campos, Lisboa, 2008, pág. 88-89.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Criticar não é o mesmo que arrotar

Discutir

A falácia ad hominem (atacar pessoalmente os indivíduos de quem discordamos em vez de discutir as suas ideias, aludindo a aspectos pessoais irrelevantes para o argumento) é frequente, nomeadamente na política e na vida profissional. Mas, felizmente, a sua utilização é muitas vezes denunciada.

Contudo, essa denúncia nem sempre é justificada. Algumas pessoas, incomodadas com o facto de alguém questionar as suas ideias, declaram-se ofendidas na sua honra. Confundem as críticas com insultos e consideram como um ataque pessoal o desafio que lhes foi feito para debater e argumentar.

Por vezes essa atitude constitui apenas uma fuga oportunista ao trabalho de argumentar e à possibilidade de refutação. Mas outras vezes é sincera: as pessoas sentem-se mesmo atacadas pessoalmente e ficam mesmo aborrecidas.

Sincera ou não, essa atitude é favorecida por uma tradição cultural como a portuguesa, onde a discussão e a crítica não são vistas como tentativas de chegar à verdade e à clareza, mas sim como algo negativo e desagradável. Por isso, em Portugal quando alguém – por exemplo numa reunião de professores – apresenta uma objecção ao que foi dito é frequente instalar-se algum mal-estar: a pessoa cuja opinião foi criticada manifesta incómodo e este é partilhado por muitos dos ouvintes. Como se discordar de modo claro e frontal fosse indelicado e tão socialmente inadequado como arrotar ruidosamente.

Claro que nesses ambientes se admite que as pessoas não estejam de acordo. Contudo, considera-se que o desacordo não deve ser expresso através de um frontal “a tua opinião é falsa: X não é Y”, mas sim através de frases mais relativistas e capazes de tornar o desacordo inócuo: “na minha perspectiva X não é Y, mas é só a minha opinião, a minha maneira de ver, eu respeito todas as opiniões”. A cantilena repetitiva do “na minha perspectiva” destina-se a tornar claro que não se está a contestar a outra opinião e que se considera todas as opiniões legítimas e respeitáveis – já que, supostamente, tudo é uma questão de perspectiva. Parece que assim ninguém se sente pessoalmente atacado.

Infelizmente, esse procedimento não exclui apenas a falácia ad hominem, mas também a possibilidade de debater realmente ideias.

Escusado será dizer que criticar os comportamentos ou a competência (por exemplo profissional) de alguém sem ser acusado de estar a praticar um ataque pessoal é ainda mais difícil do que quando se tenta apenas discutir ideias.

domingo, 8 de agosto de 2010

A ideia de que todas as ideias são preconceituosas não será também preconceituosa?

“Não há ninguém que veja o mundo com uma visão pura de preconceitos. Vê-o, sim, com o espírito condicionado por um conjunto definido de costumes, instituições e modos de pensar. Nem mesmo nas suas concepções filosóficas ele consegue subtrair-se a esses estereótipos: até os seus conceitos do verdadeiro e do falso são ainda referidos aos seus particulares costumes tradicionais.”

Ruth Benedict, Padrões de Cultura, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pág. 14.

a antropóloga Ruth Benedict

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Tolerar a diferença

imageA fotografia foi tirada deste blogue (que oferece muitos outros pretextos para ser visitado). 

 

“A humanidade terá muito a ganhar deixando que cada um viva como lhe parece bem, e não forçando cada um a viver como parece bem aos demais.”

John Stuart Mill

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A excisão genital feminina: o testemunho de Waris Dirie

Estreou, recentemente nos cinemas portugueses, um filme baseado na história da modelo somali Waris Dirie, chamado Flor do deserto.  Waris Dirie nasceu numa família nómada da Somália  e  foi submetida a uma prática imoral, mas vulgar no seu país e em vários outros, chamada mutilação genital feminina ou excisão. Mais tarde, quando se tornou conhecida internacionalmente, escreveu um livro e tornou-se uma activista contra essa tradição cultural.

Este testemunho mostra-nos como o respeito pela diversidade cultural de um povo não pode confundir-se, como é frequente, com a defesa do relativismo cultural. Assim, se admitíssemos um dos pressupostos fundamentais desta teoria: o que é moralmente certo ou errado depende dos padrões culturais aprovados pela maioria das pessoas pertencentes a uma determinada sociedade, ficaríamos impedidos de considerar que, do ponto de vista racional, esta é uma prática absurda que viola alguns dos direitos humanos fundamentais.

Portanto, nem todos os valores morais são relativos, nem todas as tradições culturais são respeitáveis. Ou não?

domingo, 28 de março de 2010

Haverá aqui uma contradição?

“Dimitri: Então, Tasso, pareces ser uma daquelas pessoas que pensam que não existe uma verdade absoluta, que toda a verdade é relativa.

Tasso: Certo.

Dimitri: Tens a certeza disso?

Tasso: Absoluta.”

Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco entram num Bar..., Dom Quixote, Lisboa, 2008, pág. 220.

Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco entram num Bar...     Clique aqui para saber mais sobre este livro.

 

Isso, afinal, não é relativo

Diz-se “isso é relativo” para sugerir que em relação ao assunto X ou Y não há uma verdade objectiva e igual para todas as pessoas. Talvez seja assim em relação a algumas coisas (gostos alimentares, por exemplo). Porém, no que respeita a muitas outras coisas a crença na relatividade da verdade deriva da falta de dados e de reflexão sobre a situação em apreço. Quando se considera a situação de modo mais completo torna-se evidente que a verdade acerca dela é objectiva e partilhável por todas as pessoas. Eis um exemplo irónico:

“Um homem está preocupado porque pensa que a mulher está a ficar surda e, por isso, vai ao médico. O médico sugere-lhe que experimente um simples teste em casa: parar atrás dela e fazer-lhe uma pergunta, primeiro a seis metros, depois a três metros e, por fim, mesmo atrás dela.
O homem vai para casa e vê a mulher na cozinha, virada para o fogão. Da porta, pergunta:
- Que vamos jantar esta noite?
Nenhuma resposta.
Três metros atrás dela, repete:
- Que vamos jantar esta noite?
Continua sem resposta.
Por fim, mesmo atrás dela, pergunta:
- Que vamos jantar esta noite?
A mulher volta-se e diz:
- Pela terceira vez… frango!"

Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco entram num Bar..., Dom Quixote, Lisboa, 2008, pp. 73-74.

sábado, 20 de março de 2010

A ignorância das moscas

«Uma mosca efémera nasce às nove horas da manhã nos grandes dias de Verão, para morrer às cinco horas da tarde; como é que ela podia compreender a palavra ‘noite’?»

Stendhal, O Vermelho e o Negro.

sábado, 13 de março de 2010

A defesa dos direitos humanos e do relativismo cultural serão compatíveis?

Desidério Murcho escreveu na Crítica (revista de Filosofia online) um interessante e informativo artigo sobre ética e direitos humanos de que a seguir transcrevo algumas passagens. Este artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Aconselho a sua leitura, sobretudo aos alunos do 10º ano.

«(…) A ética não é um mero conjunto mais ou menos arbitrário de códigos de conduta; entre outras coisas, é o estudo cuidadoso das razões a favor ou contra a nossa conduta. Isto significa que em ética se dá muita importância à argumentação: queremos saber que razões há para agir ou não agir de determinada maneira, por exemplo.

O relativismo cultural, em ética, distingue-se da mera diversidade cultural. A diversidade cultural é apenas a existência de diversas culturas, eventualmente com diferentes códigos de comportamento. O relativismo cultural é uma tese ética: um tipo particular de relativismo moral. O relativismo moral é qualquer posição que defenda que as acções são correctas ou incorrectas, e os estados de coisas são bons ou maus, relativa e não absolutamente. Relativamente a quê? Depende do tipo de relativismo moral. Quando se defende que são relativos ao tempo histórico, trata-se de relativismo histórico; quando se defende que são relativos a cada pessoa em particular, trata-se de subjectivismo; quando se defende que são relativos a culturas ou mentalidades, trata-se de relativismo cultural. Estes são três tipos de relativismo moral, e podem ser combinados entre si.

(…) Quem se opõe ao relativismo moral considera que as acções nem sempre são correctas ou incorrectas em função do que as pessoas consideram, e portanto que a maior parte das pessoas de uma dada cultura pode considerar que, por exemplo, excluir as mulheres e negros seja moralmente correcto, apesar de na realidade isso não ser moralmente correcto (…).

Assim, o relativismo cultural é a ideia de que todas acções são correctas ou incorrectas consoante são consideradas correctas ou incorrectas numa dada cultura. A negação disto é a ideia de que nem todas as acções são correctas ou incorrectas em função do que as pessoas pensam. O relativista nunca vê diferença entre considerar-se numa dada cultura que algo é moralmente correcto e algo ser moralmente correcto, ao passo que o seu opositor defende que pelo menos em alguns casos existe tal diferença.

O relativista moral tem de defender que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pelas Nações Unidas no dia 10 de Dezembro de 1948, não exprime princípios éticos universais em qualquer sentido robusto do termo. Apesar de esta declaração ter sido aprovada por unanimidade nas Nações Unidas (com a abstenção de alguns países, como a União Soviética, a Polónia e a África do Sul), o relativista cultural terá de defender que a violação de qualquer dos direitos consagrados na Declaração é eticamente permissível desde que seja permissível numa dada cultura. Assim, se numa dada cultura se considera que é correcto discriminar as pessoas com base na origem étnica ou no sexo, violando o artigo segundo da Declaração, o relativista tem de aceitar que nessa cultura é correcto fazer tal coisa e que a Declaração se limita a exprimir uma convicção diferente.

Muitas pessoas que aceitam o relativismo cultural rejeitam a ideia de que é eticamente permissível violar qualquer um dos direitos humanos consagrados na Declaração. Mas estas duas ideias são incompatíveis. O relativismo cultural é incompatível com a ideia de direitos humanos universais.

(…) o debate ético não é factual, nem diz respeito à verificação de factos. Diz respeito, antes, à argumentação, à apresentação de razões, cuidadosamente pensadas e pesadas. E por isso é largamente irrelevante que existam desacordos morais entre culturas — porque as pessoas enganam-se ao raciocinar. Pior: muitos desses enganos são mal-intencionados, pois são interesseiros. Como comecei por dizer, não acredito que algum alemão pudesse honestamente pensar que os judeus eram sub-humanos — mas era proveitoso pensar tal coisa e por isso tudo o que parecesse justificar tal ideia era aceite sem mais discussão.

Assim, perante a diversidade de comportamentos tidos como morais em diferentes sociedades, devemos perguntar que razões há a favor ou contra tais comportamentos. E a procura dessas razões não pode ser meramente a reafirmação dos preconceitos culturais da nossa própria cultura. É preciso procurar essas razões com probidade epistémica, procurando genuinamente saber que razões há para aceitar ou rejeitar que um dado comportamento é imoral. A cada passo temos de ver se não estamos a fazer confusões ou apenas a defender o que nos interessa defender, por qualquer motivo injustificável abertamente. E temos de fazer distinções conceptuais cuidadosas, como as seguintes:

1. Os comportamentos não se dividem todos entre moralmente obrigatórios e moralmente impermissíveis; também há actos permissíveis mas que não são obrigatórios. Por exemplo, é moralmente permissível comer maçãs com a mão esquerda, mas não é obrigatório fazer tal coisa. Quando não se tem formação filosófica há tendência para confundir estas categorias e condenar como moralmente impermissível comportamentos diferentes dos nossos só por serem diferentes. Os comportamentos sexuais dos nativos brasileiros, ou a sua nudez, eram muito diferentes dos europeus, e isso levou os europeus a condenar moralmente tais comportamentos; mas seria preciso mostrar primeiro que tais comportamentos têm alguma coisa a ver com a moralidade e não apenas com costumes moralmente neutros. Com certeza que andar nu e andar a matar pessoas na rua são coisas muito diferentes. A primeira pode ser culturalmente chocante, mas daí não se segue que seja imoral. A reflexão filosófica cuidadosa é um bom antídoto para o preconceito provinciano.

2. Os comportamentos prescritos ou condenados por uma dada religião não são sempre moralmente obrigatórios ou impermissíveis. Quando se justifica um dado comportamento ou proibição apelando a um dado texto sagrado, estamos já a excluir todas as pessoas que não pertencem a essa religião nem a consideram uma religião verdadeira. Se quisermos viver moralmente com pessoas que não partilham a nossa religião temos de encontrar uma base comum de entendimento moral, e essa base comum não pode obviamente ser a religião, porque pessoas diferentes professam religiões diferentes e algumas nenhuma. Tem de ser o simples facto de sermos agentes morais a fornecer uma base comum de entendimento moral.

3. A natureza raramente é um bom guia moral. Isto significa que o facto de um dado comportamento ser mais ou menos natural é geralmente irrelevante moralmente. Condenar moralmente comportamentos por não serem naturais é geralmente falacioso, além de ocultar geralmente uma mentira. Vejamos dois exemplos. A homossexualidade é um comportamento comum entre muitos animais; quem condena a homossexualidade por não ser natural ou mente ou é ignorante. Matar os filhos dos outros é um comportamento comum entre leões; mas dificilmente alguém quereria defender a moralidade de tal prática aplicada a nós com base na sua naturalidade. O objecto da moral não é o que é ou deixa de ser natural, mas o que é ou não justificável — e como os leões e outros animais inumanos são incapazes de justificação, não são os melhores guias morais.»                      

Desidério Murcho.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Actividades para a aula de substituição de 5ª (turmas D e E do 10º ano)

Leia da página 137 à página 142 do manual e responda às seguintes questões:

1. Distinguem-se duas formas de relativismo moral. Indique quais.

2. Quais são as ideias comuns a essas duas perspectivas?

3. Qual é a tese do Subjectivismo Moral acerca da natureza dos juízos morais?

4. Como é que, do ponto de vista do Subjectivismo Moral, se pode avaliar o desacordo entre uma pessoa X que julga a pena de morte moralmente injusta e uma pessoa Y que julga a pena de morte moralmente justa?

5. Explique os seguintes argumentos a favor do Subjectivismo Moral: o argumento da liberdade e o argumento da tolerância.

6. Explique as seguintes objecções ao Subjectivismo Moral: É auto-refutante; inviabilizaria a discussão de questões morais; a discórdia existente em muitas questões morais não prova a inexistência de verdades objectivas nessa área.

7. Formule outra objecção ao Subjectivismo Moral.

8. O que é mais plausível, os argumentos a favor do Subjectivismo Moral ou as objecções? Porquê?

Bom trabalho!

E bom Carnaval!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Da vaidade das palavras

«Um retórico do passado dizia que o seu ofício era fazer que as coisas pequenas parecessem grandes e como tal fossem julgadas.

(…) Arquidamo (…) não terá ouvido sem espanto a resposta de Tucídides, ao qual perguntara quem era mais forte na luta, se Péricles, se ele: “Isso será difícil de verificar, pois quando o deito por terra, ele convence os espectadores que não caiu, e ganha”.

Os que, com os cosméticos, caracterizam e pintam as mulheres fazem menos mal, pois é coisa de pouca perda não as ver ao natural, ao passo que estes outros fazem tenção de enganar, não já os olhos mas o nosso juízo, e de abastardar e corromper a essência das coisas.»

Montaigne, Ensaios, antologia, tradução de Rui Bertrand Romão, Relógio de Água Editores, Lisboa, 1998, pág. 147.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O mundo do homem feliz e o do homem infeliz serão diferentes?

Angel-Boligan-Mexico 2009

A forma como cada um de nós percepciona a realidade pode ser influenciada por diversos factores. Por exemplo: os conhecimentos anteriores, as experiências anteriores, a personalidade, a educação e as emoções.

Em relação ao papel desempenhado por estas últimas, Wittgenstein refere que “o mundo dum homem feliz é diferente do dum homem infeliz”. Mas será mesmo assim?

Terá este factor um peso tão decisivo? Se assim fosse como seria possível um conhecimento objectivo do mundo?

Nota: A citação foi retirada do Tratado Lógico-filosófico, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, tradução de M.S. Lourenço, Lisboa, 1987, pág.139.

domingo, 18 de outubro de 2009

O tempo até pode ser relativo, mas a verdade não

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Do fotógrafo Fred Brommet, Jardim do Luxemburgo, Paris 1956.

A expressão “é relativo” refere, na linguagem corrente, algo que depende do ponto de vista de cada sujeito (ou seja: não é igual para todas as pessoas). Pode aplicar-se, por exemplo, ao modo como percepcionamos a passagem do tempo. Este não flui da mesma maneira em todas as situações, depende da perspectiva do observador: os cinquenta minutos de uma experiência agradável, parecem passar muito mais depressa que os dez minutos de uma experiência desagradável. Este facto é explicável, entre outras, por razões de natureza psicológica.

Daí que Einstein tenha dito, ironicamente, a propósito da teoria da relatividade que esta significa que se mede “o tempo de maneira diferente quando se está sentado sobre um fogão quente ou quando se tem num banco de jardim, uma bela rapariga sentada ao colo…”

Na filosofia, o relativismo foi formulado pela primeira vez por Protágoras ao dizer que “o homem é a medida de todas as coisas”. Tais palavras significam que a verdade depende do ponto de vista de cada um e que não existe, portanto, uma verdade objectiva e igual para todos. Esta teoria filosófica pode ser defendida a propósito do conhecimento em geral ou de uma área específica - por exemplo, a ética ou a estética. (Caso seja defendida a propósito do conhecimento em geral, tal teoria auto-refuta-se, pois afirma com pretensão de objectividade que não existe objectividade.)

É certamente verdade que  algumas crenças são relativas. Além de exemplos semelhantes ao referido no primeiro parágrafo, pode-se mencionar também algumas crenças que dependem de factores sociais e culturais. É o caso, por exemplo, dos hábitos ligados à alimentação. O carácter saboroso ou repugnante das larvas de bicho da seda (muito apreciadas na China e na Tailândia) não constitui uma verdade objectiva e igual para todos.

No entanto, isto não se passa com todas as crenças. A verdade das crenças científicas é independente de todo e qualquer factor cultural ou psicológico. E é argumentável que o mesmo sucede com pelo menos algumas crenças morais (por exemplo que a excisão e a discriminação racial são moralmente erradas).

Deste modo, ao pretendermos colocar um ponto final numa discussão (onde sobre o mesmo tópico existam interpretações opostas) dizendo, para calar o nosso interlocutor: “É relativo! É a tua opinião!” estamos a argumentar de um modo manifestamente errado. Quando se trata de analisar a verdade ou a falsidade de certas ideias é necessário distinguir a nossa convicção quanto a isso da própria verdade ou falsidade dessas ideias (que depende de algo exterior às nossas convicções).

Assim, não podemos confundir, como diz Stephen Law, «aquilo que é verdadeiro quanto à crença de uma pessoa com a verdade daquilo em que ela acredita. Pode ser verdadeiro que eu acredito que Paris é a capital da Alemanha. Isso não implica que “Paris é a capital da Alemanha” seja verdadeiro. Se assim fosse, eu transformaria qualquer afirmação em verdadeira se acreditasse nela, por exemplo: “Eu consigo voar”».

Portanto, uma crença só pode ser justificada se encontrarmos boas razões a favor da sua verdade. O essencial são as boas razões e não a força das convicções.

Notas:

A primeira citação foi retirada do livro, Nova Física divertida, de Carlos Fiolhais, Ed. Gradiva, pág.89.

A segunda foi retirada do livro, Filosofia, de Stephen Law, Editora Civilização, pág. 199.

domingo, 9 de agosto de 2009

Sofista ou surfista?

A Surfista. jpg

A Surfista, fotografia de Gustavo Moreira Tavares (tirada daqui). 

Os sofistas - pensadores gregos, cujos nomes mais conhecidos são Górgias e Protágoras – foram os primeiros a reflectir sobre o poder persuasivo da palavra. Foram também educadores: ensinavam aos cidadãos gregos a retórica, preparando-os assim para participar na vida política da polis.

No Fédon, Platão atribui, por intermédio de Sócrates, as seguintes características aos sofistas: “(…) é mesmo o filósofo que vos fala, aquele que ama o saber, e não um desses homens sem sombra de cultura, que amam apenas o triunfo das suas teses! Refiro-me aos que, em qualquer tipo de discussão, relegam para segundo plano a natureza real das questões a tratar, e se empenham exclusivamente em convencer os seus ouvintes das opiniões que eles mesmos sustentam (…).”

Destes pensadores, além das referências efectuadas por filósofos posteriores, não chegaram até nós mais do que fragmentos dos escritos originais. Como por exemplo este, da autoria de Górgias (séc. V a. C): “Nunca me falta assunto num discurso”.

A má fama, talvez injusta, que a palavra “sofista” adquiriu – sinónimo de manipulador, daquele que, numa discussão, não olha a meios para alcançar os seus fins – tem em Platão um dos seus principais responsáveis.

Do ponto de vista platónico, o sofista é, por oposição ao filósofo, aquele que pretende convencer o auditório, independentemente da verdade. Assim, em vez de procurar persuadir de forma racional e lógica, recorre a todo e qualquer tipo de subterfúgios. Se necessário utiliza argumentos intelectualmente desonestos, que nada têm a ver com a discussão do assunto em causa, como por exemplo o ataque às características pessoais do interlocutor, o apelo aos sentimentos do auditório, o uso de ameaças, a utilização da autoridade de forma ilegítima, entre muitos outros (designados em Filosofia por falácias informais).

Uma das principais objecções de Platão às ideias dos sofistas prende-se com o facto destes defenderem o relativismo (Protágoras afirmou “o homem é a medida de todas as coisas”). A ideia que a verdade depende do ponto de vista de cada um e, por isso, não existe uma verdade objectiva que possa ser partilhada por todos.

Platão, no diálogo intitulado Górgias, levanta algumas objecções à perspectiva relativista. Se fosse correcta, como se poderia distinguir o verdadeiro do falso? Que sentido faria as pessoas discutirem, se nenhuma opinião poderia ser considerada errada, por mais absurda que fosse? Se cada um possui a sua verdade para quê trocar argumentos? Que valor teria a procura do conhecimento?

Platão conclui que a troca de argumentos só faz sentido no pressuposto de que não estamos condenados ao domínio da subjectividade - não vivemos no reino das opiniões, argumentamos racionalmente para nos tentarmos aproximar da verdade.

Estas considerações vêm a propósito de notícias recentes relativas à vida política portuguesa: a apresentação das listas e dos programas eleitorais dos vários partidos. Percebi, de súbito, devido a este estímulo exterior, o significado de um erro cometido por alguns dos meus alunos ao escreverem surfista em vez de sofista.

Como é que se pode confundir a arte de bem falar com a arte de usar a prancha?

Uma forma possível de explicar este equívoco linguístico é: os sofistas ao abdicarem da procura da verdade e ao recorrem a qualquer meio para alcançar as suas conveniências pessoais – como frequentemente observamos entre os políticos – estão, tal como os surfistas, a cavalgar a onda.

Existem afinidades que nem sempre são evidentes…

Nota: A citação de Platão foi retirada do seu livro Fédon, Lisboa Editora, 1997, pág. 87.