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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Explicação matemática da ‘aposta de Pascal’

blaise pascal Blaise Pascal era um filósofo e matemático francês que, no século XVII, argumentou a favor da existência de Deus recorrendo à ideia de “aposta” – a aposta de Pascal. No post Deus existe ou não? Vai uma aposta? encontra uma explicação simples e sumária desse argumento. Pascal formulou o argumento em termos matemáticos, como explica Leonard Mlodinow.

“Pascal fez uma análise pormenorizada dos prós e dos contras do dever para com Deus como se estivesse a calcular matematicamente a sensatez de uma aposta.

A sua grande inovação foi o método de pesar estes prós e contras, um conceito a que se dá hoje o nome de esperança matemática.

A esperança matemática é um importante conceito, não só nos jogos de azar como na tomada de decisões. Com efeito, a aposta de Pascal é muitas vezes considerada a fundação da disciplina matemática da teoria dos jogos, o estudo quantitativo das estratégias de decisão óptimas nos jogos.

O raciocínio de Pascal era o seguinte. Admitamos que não sabemos se Deus existe ou não, e, por conseguinte, atribuamos uma probabilidade de 50% para cada uma das proposições. Como pesar esta probabilidade na decisão de levar ou não uma vida piedosa? Se vivermos piedosamente e Deus existir, argumentava Pascal, o nosso ganho – a felicidade eterna – é infinito. Se, por outro lado, Deus não existir, a nossa perda, ou lucro negativo, é pequena – os sacrifícios da piedade. E, para pesar estes possíveis ganhos e perdas, Pascal propunha que se multiplicasse a probabilidade de cada resultado possível pela sua recompensa e se somasse tudo, formando uma espécie de recompensa média ou esperada. Por outras palavras, a esperança matemática do nosso lucro com a piedade é metade de infinito (o ganho se Deus existir) menos metade de um número pequeno (a nossa perda se Ele não existir). Pascal sabia o suficiente sobre o infinito para saber que a resposta deste cálculo era infinito, pelo que o lucro esperado com a piedade é infinitamente positivo. E assim, concluiu Pascal, qualquer pessoa sensata deve seguir as leis de Deus. Hoje, chama-se a este argumento a aposta de Pascal.”

Leonard Mlodinow, O Passeio do Bêbado, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2009, pág. 92.

(Clique no nome do livro se quiser obter informações úteis acerca do mesmo.)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Deus existe ou não? Vai uma aposta?

Enquanto empurrava o neto no baloiço uma senhora idosa ia conversando com uma senhora mais jovem.

- O que tu precisas, filha, é de Deus e não de comprimidos e psicólogos. Nem de cigarros, já agora.

- Quem a ouvisse pensaria que basta acreditar em Deus para os problemas desaparecerem. Seja como for, eu não acredito…

- Então começa a acreditar!

- Mas, mãe, como é que…

- O que tens a perder? Começa a acreditar… Reza, vai à missa, lê a Bíblia. Curas a depressão e ganhas a felicidade eterna.

- Não é assim que as coisas se passam. As pessoas não decidem acreditar: acreditam ou não acreditam, independentemente de quaisquer decisões.

- Porquê? Como te disse, não tens nada a perder. Repara: se acreditares em Deus e ele de facto existir estás do lado certo, por assim dizer. Ganhas a aposta, percebes?

- Aposta?

- É uma maneira de falar, Maria Francisca. Se Deus afinal não existir… Bem, paciência. Mas a confiança e a tranquilidade dadas pela fé já ninguém tas tirará.

Como resposta a Maria Francisca abanou a cabeça e acendeu um cigarro.

- Se há alguma coisa que eu sei, filha é que Deus existe. Mas não interessa o que eu sei. Exista ou não exista, ganhas em acreditar.

- Não percebo como é que uma pessoa tão religiosa como a mãe pode defender uma ideia dessas. Parece um negócio: arranjar fé porque dá lucro. Se Deus existe e é tão sábio e bondoso como a mãe acredita que é, aposto que não fica nada satisfeito com as pessoas que fazem isso… Esta aposta parece-me bem melhor que a outra.

Maria Francisca riu-se ao dizer estas últimas palavras. Não ouvi a resposta da mãe, pois acompanhei a retirada do meu filho do baloiço para o escorrega. Enquanto tentava acompanhar os seus rápidos passinhos, procurei recordar as palavras do filósofo e matemático francês Blaise Pascal (certamente um desconhecido para as duas senhoras) que, no século XVII, argumentou a favor da existência de Deus recorrendo à ideia de “aposta” – a aposta de Pascal.

“Deus existe ou não existe. Mas para que lado nos vamos inclinar [nós que somos tão imperfeitos e ignorantes]? (…) É preciso apostar. Pesemos as vantagens e as desvantagens de apostar na existência de Deus. Calculemos estes dois casos: se ganharmos, ganhamos tudo; se perdermos, nada perdemos. Apostemos então sem hesitar que ele existe.”

Pascal, Pensées, nº 233, Garnier-Flammarion, 1986, pág. 114.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Deus? Qual deles?

O fotográfo Andy Craddock usou uma igreja anglicana do século XIII como cenário para um ensaio fotográfico erótico e não escapou a um processo judicial (sendo acusado de violação da propriedade privada, pois fotografou sem autorização). Segundo as autoridades anglicanas, o que Craddock fez é uma blasfémia. Em entrevista ao jornal i, Craddock defendeu-se dizendo que a Igreja Anglicana só poderia acusá-lo de blasfémia se provasse que Deus existe. (Leia mais aqui.)

O único aspecto da história que merece alguma atenção é essa afirmação de Craddock. Se – por hipótese - se provasse que Deus existe, já seria racionalmente defensável a Igreja Anglicana acusar alguém de blasfémia? Vou procurar mostrar que não.

Se – por hipótese - descobríssemos que um dos argumentos clássicos a favor da existência de Deus (por exemplo o argumento ontológico ou o argumento do desígnio) prova a existência de um tal ser, não saberíamos ainda assim qual das religiões é verdadeira.

O “ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado” do argumento ontológico é compatível com qualquer uma das religiões monoteístas. Por isso, mesmo que considerássemos verdadeira a conclusão (“Deus existe”) desse argumento, isso por si só não nos permitiria decidir qual dessas religiões é verdadeira. (Para ler mais sobre o argumento ontológico veja aqui e aqui.)

Quanto ao argumento do desígnio a situação é ainda mais confusa, pois esse argumento é compatível não só com as religiões monoteístas mas também com muitas religiões politeístas. Este argumento procura mostrar que o Universo teve necessariamente um Criador inteligente. Ora, mesmo que se admitisse essa necessidade isso não implicaria que esse Criador tivesse as características referidas pelas religiões monoteístas: poderia tratar-se, por exemplo, de um ser muito poderoso, mas não omnipotente; muito sábio mas não omnisciente; poderia não ser sequer o único Criador – como sucede em diversas religiões politeístas. (Para ler mais sobre o argumento do desígnio veja aqui.)

Numa religião existem diversas crenças específicas associadas à crença na existência de Deus. Religiões como o Judaísmo, o Cristianismo ou o Islamismo têm crenças específicas diferentes, apesar de partilharem uma concepção de Deus bastante semelhante. Quando atrás escrevi que, mesmo que a existência de Deus fosse provada, não saberíamos qual das religiões é verdadeira, queria dizer que essa prova não nos permitiria escolher racionalmente entre os vários conjuntos de crenças específicas que existem.

Uma acusação de blasfémia implica algumas dessas crenças específicas. Por isso, mesmo que descobríssemos que um desses argumentos é sólido não seria racionalmente defensável fazer uma afirmação como “a ideia Y é blasfema”.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sem Deus tudo seria permitido?

«Afirma-se muitas vezes que é prejudicial atacar uma religião, porque ela torna os homens virtuosos. Confesso que não estou convencido disso. Conheceis, por certo, a paródia que Samuel Butler fez deste argumento no sue livro Erewhon Revisited.

Estais recordados de que um certo Higgs chegou a uma remota região onde passa algum tempo e depois se escapa num balão. Vinte anos depois, tendo aí regressado, ficou Albrecht Durer's Praying Hands rezar surpreendido ao deparar com um novo culto no qual ele próprio era adorado sob o nome de Filho do Sol. Recorde-se que, com efeito, subiu aos céus. Estava para breve a celebração da Festa da Ascensão, quando ouviu (…) [dois] altos dignitários da religião dos Filhos do Sol confidenciar uma ao outro que nunca tinham visto o chamado Higgs e que esperavam que jamais isso acontecesse. Cheio de indignação, aproximou-se e disse-lhes: ‘Vou esclarecer neste dia toda esta mistificação e dizer ao povo de Erewhon que eu, Higgs, sou apenas um homem como os outros e que, simplesmente, me servi de um balão para deixar o vosso país.’ Responderam-lhe: ‘Não faças isso, porque todos os princípios morais deste povo estão ligados a esse mito, e se souberem que não subiste ao céu, transformar-se-ão todos em malfeitores’. Persuadido, abandonou o país silenciosamente.»

Bertrand Russell, Porque não sou Cristão, Brasília Editora, Porto, s/d, pp. 28-29.

Os sacerdotes convenceram Higgs a não dizer a verdade argumentando que sem a fé religiosa não haveria razões suficientemente fortes para convencer as pessoas a agir moralmente: cumprir regras, respeitar os outros e os seus bens, etc. O romancista russo Fiódor Dostoiévski exprimiu essa ideia através destas célebres palavras: “Sem Deus tudo seria permitido”.

A ideia de que as pessoas não agiriam moralmente se não tivessem uma motivação religiosa presta-se a objecções óbvias, nomeadamente esta: há imensas pessoas que não têm qualquer crença religiosa e mesmo assim procuram agir moralmente. Por isso, é possível que mesmo sem Deus nem tudo fosse permitido.

Mas, mesmo que admitíssemos a necessidade de uma tal motivação religiosa, isso não seria – como sugere a história contada por Bertrand Russell – uma prova a favor da existência de Deus ou de outro ser sobrenatural qualquer. Com efeito, para se adquirir esse tipo de motivação e para que esta seja eficaz, não é necessário que Deus exista – basta que as pessoas acreditem que existe.

[Uma discussão mais detalhada destas ideias levar-nos-ia a considerar vários tópicos filosóficos, nomeadamente a teoria dos mandamentos divinos (acerca da natureza dos juízos morais) e o argumento moral a favor da existência de Deus.]

Na imagem: Betende Hände, Desenho a pincel sobre papel azul de Albrecht Dürer (1471-1528).

terça-feira, 30 de junho de 2009

Se Deus existe porque é que acontecem coisas tão más?

queda de avião “Um avião das linhas aéreas iemenitas despenhou-se esta madrugada, com 153 pessoas a bordo, tendo caído no Oceano Índico”. (Notícia do jornal Público, do dia 30-06-2009.) Horas depois do sucedido foi confirmado que apenas uma pessoa (uma rapariga de 14 anos) sobreviveu.

Depois duma catástrofe deste género ocorrer é habitual as pessoas religiosas rezarem e pedirem a intervenção de Deus: para que haja sobreviventes, para que não volte a suceder, etc.

Todavia, talvez fizesse mais sentido questionarem a sua crença em Deus.

Segundo o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, Deus, além de ser o criador de tudo o que existe, é um ser omnisciente, omnipotente e bom. (Essa concepção é habitualmente chamada teísmo).

Contudo, essas características que se atribuí a Deus parecem ser incompatíveis com a existência de mal no mundo – como é o caso da morte de várias dezenas de pessoas inocentes devido à queda de um avião.

Se Deus é omnisciente sabe que o mal vai ocorrer.

Se Deus é omnipotente pode impedir o mal de ocorrer.

Se Deus é bom não quer que o mal ocorra.

Ora, o mal efectivamente ocorre, pelo que Deus ou é omnipotente mas não é bom (pode impedir o mal mas não impede) ou é bom mas não é omnipotente (quer impedir o mal mas não pode).

A conclusão que se tira habitualmente dessas premissas é: Deus não existe.

Todavia, é argumentável que essa conclusão não é apoiada pelas premissas e que estas apenas apoiam uma conclusão mais modesta: mesmo que eventualmente Deus exista, este será um ser diferente da descrição feita pelas religiões teístas. Pode suceder que seja um ser poderoso mas não omnipotente, ou então pode tratar-se de um ser omnipotente mas malévolo ou pelo menos indiferente. Não é impossível também que ambas as alternativas sejam verdadeiras e Deus não seja nem omnipotente nem bom.

O problema colocado por esse argumento é conhecido como o problema do mal. Atribui-se a sua primeira formulação ao filósofo grego Epicuro (341-270 a. C.):

“Ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode mas não quer. Se quer mas não pode, é impotente. Se pode, mas não quer, é malévolo. Mas se Deus pode e quer, de onde vem então o mal?”

Os teólogos e os filósofos crentes ensaiaram muitas tentativas para refutar esse argumento e mostrar que a existência de mal no mundo não é incompatível com a omnipotência e bondade divinas. Os seus contra-argumentos foram por sua vez discutidos e criticados por outros filósofos. No site Filosofia & Educação encontra uma exposição (do filósofo Nigel Warburton) muito clara desses contra-argumentos e das objecções a que se prestam.

(A citação de Epicuro foi retirada do livro: A Arte de Pensar – Filosofia, 10º ano, volume 2, de Aires Almeida e outros, Didáctica Editora, Lisboa, 2007, pág. 147.)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Provar a existência de Deus a partir de uma ideia: uma piada de mau gosto?

Alguns filósofos, como Santo Anselmo e Descartes, pretenderam demonstrar racionalmente a existência de Deus, analisando a ideia que possuímos desse ser na nossa mente – o chamado argumento ontológico.

Poderão essas tentativas ser consideradas apenas brincadeiras de mau gosto, levadas a cabo por pessoas sem sentido de humor?

Deus é apenas uma ideia

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A objecção de Kant ao argumento ontológico: a existência não é um predicado

No argumento ontológico conclui-se que Deus existe a partir do facto de termos a ideia de Deus – a ideia de ser supremo, o ser mais perfeito do que o qual nada se pode pensar. Uma das ideias envolvidas no argumento ontológico é que é contraditório reconhecer que se tem uma ideia de Deus e depois afirmar a sua inexistência. (Para ler mais acerca desse argumento clique aqui, aqui e aqui.)

Porém, o argumento ontológico envolve pelo menos um erro que o torna um mau argumento e o impede de provar a sua conclusão. O filósofo Immanuel Kant (1724-1804) apontou esse erro com clareza ao mostrar que no argumento ontológico a existência é erradamente considerada um predicado.

Um predicado é “uma palavra (ou conjunto de palavras) que exprime uma propriedade ou uma relação” (DEF). Neste contexto, os predicados relevantes são aqueles que exprimem propriedades (também se pode dizer características ou qualidades). Por exemplo, na frase “os filósofos gostam de aprender” o predicado é “gostam de aprender”.

Se dissermos “os filósofos gostam de aprender, valorizam o debate de ideias e existem”, deixaremos o nosso interlocutor surpreendido, pois não é assim que o verbo existir costuma ser usado. A existência não é uma propriedade entre outras. Quando digo que uma coisa Y qualquer existe não estou a caracterizá-la, não estou a acrescentar mais um aspecto à ideia que dela se pode fazer, mas sim a dizer que essa coisa Y é real, que é uma realidade efectiva e não apenas uma ideia na minha mente. A existência não faz parte da ideia que fazemos dessa coisa Y. O que faz parte dessa ideia são as várias propriedades que caracterizam a coisa Y.

A existência não é uma propriedade da coisa Y, mas sim uma condição de possibilidade para ela ter propriedades. Se a coisa Y existir, então poderá ter efectivamente estas ou aquelas propriedades. Se não existir, será uma mera ideia.

Imagine que um biólogo, numa conferência pública, caracteriza uma certa espécie de animais, relativamente à qual existe a hipótese de já estar extinta, pois há anos que não é observado nenhum exemplar. Imagine também que na audiência existe uma pessoa que tem informações mais actualizadas (lidas há uma hora atrás na Internet) – ela sabe se existem ou não exemplares vivos dessa espécie e tenciona dizer o que sabe ao biólogo. Essas informações, sejam elas quais forem, alteram a caracterização feita pelo biólogo? Claro que não, pois existir não faz parte da lista de características típicas dessa espécie animal. Se ainda existirem exemplares vivos dessa espécie animal, eles possuirão efectivamente essas características. Se já não existirem, essas características não passarão de uma ideia sem realidade efectiva.

Do mesmo modo, se Deus existir poderá ter efectivamente os predicados (omnisciência, omnipotência, etc.) que fazem parte da ideia que dele se costuma ter. Se não existir, será uma mera ideia. O argumento ontológico inverte as coisas: em vez de ir da existência para a ideia vai da ideia para a existência.

Se a existência não faz parte da ideia que fazemos de uma coisa, então por muito que analisemos essa ideia não conseguiremos concluir que a coisa existe. Por muito que o tal biólogo analisasse a ideia que formou acerca daquela espécie de animais, por muito que pensasse nas suas várias características, nunca poderia descobrir se alguns desses animais ainda existiam. Do mesmo modo, a análise da ideia de Deus não permite saber se ele existe ou não.

Uma vez que a existência não é um predicado, não faz sentido dizer que é contraditório reconhecer que se tem a ideia de Deus e depois não reconhecer a sua existência. Haveria contradição se uma pessoa dissesse “a ideia de Deus é a ideia de um ser omnipotente e omnisciente, mas que não sabe tudo”, pois a omnisciência e não saber tudo são predicados incompatíveis. Mas não há contradição entre afirmar “a ideia de Deus é a ideia de um ser omnipotente e omnisciente, o ser mais perfeito que se pode pensar” e afirmar “contudo, tal ser é uma mera ideia e não existe na realidade”, pois o que é dito em cada uma dessas afirmações situa-se em planos diferentes: a primeira refere vários predicados, vários aspectos de uma ideia, e a segunda refere que essa ideia afinal não representa nenhum ser real.

Logo, o argumento ontológico não prova a existência de Deus.

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Bibliografia:

Aires Almeida e outros, “A Arte de Pensar – 10º Ano”, vol. 2, Didáctica Editora, Lisboa, 2007.

Luís Rodrigues, “Filosofia – 10º ano”, vol. 2, Plátano Editora, Lisboa, 2007.

Santo Anselmo, “Proslógion”, Introdução e Análise de M. Fernandes e N. Barros, Lisboa Editora, Lisboa, 1995.

Simon Blackburn, “Pense – Uma Introdução à Filosofia”, Gradiva, Lisboa, 2001.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A objecção de Gaunilo ao argumento ontológico: tem consequências absurdas

Um resumo possível do argumento ontológico (veja aqui e aqui) é este:

Quando pensamos em Deus, pensamos no ser mais perfeito que se pode pensar.
Se Deus não existisse realmente, se fosse apenas uma ideia, poderíamos pensar num ser semelhante mas que existisse realmente.
Como a existência contribui para a perfeição, Deus já não seria o ser mais perfeito que se pode pensar, pois esse outro ser seria mais perfeito.
Mas isso é contraditório com a ideia que temos de Deus: essa ideia representa o ser mais perfeito que se pode pensar e isso só pode ser assim se ele existir.
Logo, Deus existe.

Gaunilo (um monge contemporâneo de Santo Anselmo) apresentou uma objecção contra o argumento ontológico, segundo a qual este é um mau argumento e não prova a sua conclusão, pois tem consequências inaceitáveis.

Essa objecção constitui uma redução ao absurdo, ou seja, um argumento em que se mostra que a ideia que se quer refutar tem consequências absurdas e por isso é ela própria absurda.

A redução ao absurdo de Gaunilo consiste em aplicar a estrutura argumentativa (o mesmo tipo de relações conceptuais) do argumento ontológico a outras coisas e mostrar que assim se pode declarar a existência de coisas que  sabemos comprovadamente que não existem. Ou seja: se essa estrutura argumentativa leva a afirmar falsidades óbvias não temos razões para aceitar quando, no argumento ontológico, ela conduz à afirmação de que Deus existe.

Para conseguir esse efeito, basta considerar que uma certa coisa é a mais perfeita no seu género, ou seja, definir uma coisa X como a mais perfeita das coisas X. Gaunilo adoptou como exemplo “Perdida, a ilha paradisíaca mais perfeita que se pode pensar”, mas podemos escolher muitos outros exemplos. Eis um:

pegasus Pégaso cavalo alado

Quando pensamos em Pégaso, pensamos no cavalo alado mais perfeito que se pode pensar.
Se Pégaso não existisse realmente, se fosse apenas uma ideia, poderíamos pensar num cavalo alado semelhante mas que existisse realmente.
Como a existência contribui para a perfeição, Pégaso já não seria o cavalo alado mais perfeito que se pode pensar, pois esse outro cavalo alado seria mais perfeito.
Mas isso é contraditório com a ideia que temos de Pégaso: essa ideia representa o cavalo alado mais perfeito que se pode pensar e isso só pode ser assim se ele existir.
Logo, Pégaso existe.

Será que esta objecção refuta o argumento ontológico?

Mesmo que considere o argumento ontológico um mau argumento, ponha-se na pele de alguém que o considera um bom argumento e tente defendê-lo da objecção de Gaunilo.

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Bibliografia:

Aires Almeida e outros, “A Arte de Pensar – 10º Ano”, vol. 2, Didáctica Editora, Lisboa, 2007.

Santo Anselmo, “Proslógion”, Introdução e Análise de M. Fernandes e N. Barros, Lisboa Editora, Lisboa, 1995.

Simon Blackburn, “Pense – Uma Introdução à Filosofia”, Gradiva, Lisboa, 2001.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O argumento ontológico: diálogo entre um crente e um ateu

Anselmo: Acreditas em Deus?

Vera: Não. Acho que Deus não existe.

Anselmo: Quando pensas em Deus pensas em quê?

Vera: Bem… Penso em alguém… um ser perfeito, omnipotente, omnisciente… Só que não acredito que exista.

Anselmo: Pensas no ser supremo... algo, ou melhor, alguém mais perfeito do que tudo o resto, alguém cuja perfeição é tão grande que não se pode pensar em nada mais perfeito – é isso?

Vera: Sim.

Anselmo: Portanto, tu tens uma ideia de Deus, embora digas que Deus não existe.

Vera: Obviamente! Tenho uma ideia de Deus, tal como tenho uma ideia de sereia, embora não existam sereias.

Anselmo: Deixa-me dar outro exemplo: um pintor imagina detalhadamente um quadro, mas não o pinta. O quadro não existe realmente, mas o pintor tem uma ideia acerca dele.

Vera: Sim, é como a ideia de sereia. Vai dar ao mesmo... tem-se a ideia de uma coisa que não existe.

Anselmo: Diz-me uma coisa: o que achas mais perfeito, a mera ideia de um quadro ou o quadro realmente existente?

Vera: Claro que um quadro que existe de facto é algo superior, algo melhor (mais perfeito, utilizando a tua expressão) do que um quadro apenas imaginado, que apenas “existe” na mente do pintor.

Anselmo: Mas, então, repara numa coisa: se a ideia de Deus é a ideia do ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado, então, Deus tem de existir realmente…

Vera: Ora essa... Desculpa interromper, mas é que…

Anselmo: Deixa-me explicar. Se Deus não existir, então, já não é o ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado, pois poder-se-ia pensar num ser semelhante mas que existisse realmente. Tu tens a ideia de que Deus é o ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado e depois ao dizer que não existe estás a dizer que, afinal, não é esse ser acima do qual nada pode ser pensado (pois podemos pensar num que além das características presentes na ideia também exista). É uma contradição.

Vera: Estás a dizer que quem tem a ideia de Deus cai em contradição se não admitir a sua existência?

Anselmo: Exactamente. Podes ter uma ideia de sereia e não existirem sereias, mas com a ideia de Deus é diferente. O facto de teres a ideia de Deus mostra que ele existe. Deus tem de existir. A existência de Deus decorre necessariamente da sua definição como o ser mais perfeito do que o qual nada pode ser pensado.

Vera: Estou um pouco baralhada…

Anselmo: Deixa-me explicar isto de modo mais simples. A ideia de Deus é a ideia de ser supremo. Se for só uma ideia e Deus não existir, então, podes pensar num ser superior a ele – que existisse. Ao dizer que Deus não existe estás a dizer simultaneamente que Deus é o ser supremo e não é o ser supremo. O que é obviamente contraditório. São proposições claramente incompatíveis.

Vera: Sendo assim, se eu quiser ser consequente, se eu não quiser ignorar a lógica, devo afirmar que Deus existe?

Anselmo: Exactamente.

Vera: Tenho dificuldade em rebater o que disseste, só que… Parece-me que há algo errado com o teu argumento! Mas não é fácil dizer claramente o que é.

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Bibliografia:

Aires Almeida e outros, “A Arte de Pensar – 10º Ano”, vol. 2, Didáctica Editora, Lisboa, 2007.

Santo Anselmo, “Proslógion”, Introdução e Análise de M. Fernandes e N. Barros, Lisboa Editora, Lisboa, 1995.

Simon Blackburn, “Pense – Uma Introdução à Filosofia”, Gradiva, Lisboa, 2001.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Objecção ao argumento da marca: criar a ideia de perfeição é diferente de criar a própria perfeição

Para compreender a objecção é necessário ter o argumento da marca bem presente. Refresque a memória lendo o post “O argumento da marca”.

Tal como diz Descartes, um efeito não pode ser superior à sua causa (isto é, não pode haver mais realidade no efeito do que na causa) e por isso um ser imperfeito não poderia criar um ser perfeito.

Mas as ideias são diferentes das coisas. As ideias representam as coisas mas não são exactamente como as coisas. Por exemplo: a ideia de frio não é fria e a ideia de sujo não é suja. Do mesmo modo, a ideia de perfeição não é perfeita. Sendo assim, e contrariamente ao que diz Descartes, seres imperfeitos como nós podem formar a ideia de perfeição.

Podemos formar a ideia de perfeição imaginando as coisas muito melhores do que são, ou seja, sem os defeitos que têm.

Por isso, o facto de termos a ideia de perfeição não implica que exista um ser perfeito (Deus) que a causou, ou seja, o argumento da marca não prova a existência de Deus.

Resumindo: Os seres humanos não são capazes de criar um Deus, mas são capazes de criar a ideia de Deus.

Na sua opinião, o que é mais sólido – o argumento da marca ou esta objecção? Porquê?


Bibliografia:

Aires Almeida e outros, A Arte de Pensar – 11º ano, Didáctica Editora, 2008.

Aires Almeida e outros, A Arte de Ensinar a Pensar – 11º ano, Didáctica Editora, 2008.

Simon Blackburn, Pense – Uma Introdução à Filosofia, Gradiva, 2001.

terça-feira, 24 de março de 2009

O argumento da marca

“Olhando para o seu próprio ‘eu’, que é tudo o que lhe resta neste momento, Descartes descobre que tem uma ideia de perfeição. Argumenta, então, que uma tal ideia implica uma causa. No entanto, a coisa que originou essa ideia deve possuir tanta ‘realidade’ como ela, e isso inclui a perfeição. Isto implica que só uma causa perfeita, isto é, Deus, pode servir. Por isso, Deus existe e legou-nos a ideia de perfeição como um sinal inato da sua acção nas nossas mentes, assim como um artesão deixa a sua marca gravada no seu trabalho.”

Simon Blackburn, Pense – Uma Introdução à Filosofia, Gradiva, 2001, pág. 42.

Este argumento tem sido alvo de diversas objecções, inclusivamente por parte de filósofos que defendem a existência de Deus.

Consegue pensar em alguma objecção contra este argumento?

segunda-feira, 23 de março de 2009

O argumento ontológico

“O argumento ontológico é uma tentativa de mostrar que a existência de Deus se segue necessariamente da definição de Deus como o ser supremo. Porque esta conclusão pode ser retirada sem recorrer à experiência, diz-se que é um argumento a priori.
De acordo com o argumento ontológico, Deus define-se como o ser mais perfeito que é possível imaginar; ou, na mais famosa formulação do argumento, a de Santo Anselmo (1033-1109), Deus define-se como “aquele ser maior do que o qual nada pode ser concebido”. A existência seria um dos aspectos desta perfeição ou grandiosidade. Um ser perfeito não seria perfeito se não existisse. Consequentemente, da definição de Deus seguir-se-ia que Deus existe necessariamente, tal como se segue da definição de um triângulo que a soma dos seus ângulos internos será de 180 graus.
Este argumento, que tem sido usado por muitos filósofos, incluindo René Descartes (1596-1650), na quinta das suas meditações, não convenceu muita gente; mas não é fácil de ver exactamente o que há de errado nele.”

Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, 2ª edição, 2007, Lisboa, pp. 40-41.

O argumento ontológico tem sido alvo de diversas objecções, inclusivamente por parte de filósofos que defendem a existência de Deus.

Consegue pensar em alguma objecção contra esse argumento?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Como é que Descartes pretendeu ultrapassar o ponto de vista dos cépticos

Como podemos garantir que o nosso conhecimento é absolutamente seguro e mostrar que o ponto de vista céptico, ao duvidar da própria possibilidade do conhecimento, é errado?

Como é que se pode vencer a dúvida e alcançar a certeza?

O objectivo de Descartes é a construção de um sistema seguro do conhecimento, ou seja, descobrir princípios sólidos (certos e evidentes), a partir dos quais se pudesse constituir toda a Filosofia, à semelhança do que acontece na Matemática.

Descartes começa por examinar todas as certezas que possui para verificar se estas resistem à dúvida, apresentando vários argumentos (os sentidos, os sonhos e o Deus Enganador) que lhe permitem duvidar progressivamente de um maior número de conhecimentos. A dúvida é um meio para encontrar um conhecimento indubitável (dúvida metódica).

«Penso, logo existo» (o sujeito pensante) corresponde ao primeiro princípio indubitável. Resulta da dúvida mais radical (o argumento do Deus Enganador ou Maligno). O sujeito (eu penso) é condição do próprio acto de duvidar - para duvidar eu tenho de pensar e para pensar tenho de existir. Esta verdade não pode ser posta em causa, é conhecida intuitivamente através da razão e a partir dela, Descartes irá deduzir todos os outros conhecimentos. Todavia, esta primeira verdade apenas assegura que o sujeito é o suporte de todas as representações (conhecimentos), não garante a verdade acerca dos conteúdos do pensamento suspensos pela dúvida.

Descartes procura provar Deus a partir da ideia de perfeição que o sujeito possui. Esta não teve origem no mundo exterior nem no próprio sujeito, foi originada por esse ser perfeito: este existe necessariamente, porque senão não teria uma das qualidades (a existência) que garante a perfeição (argumento ontológico).

A existência de Deus garante a verdade dos conhecimentos obtidos através da razão (das ideias claras e distintas). Deus é por definição bom e por isso não pode querer enganar o sujeito, garantindo a verdade das ideias que o sujeito concebe clara e distintamente e a correcção dos seus raciocínios. A partir daí, Descartes já pode deduzir outras verdades e construir com segurança o edifício do conhecimento. O perigo do cepticismo desapareceu.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Terá o coração razões que a razão desconhece?

O beijo do Hotel de Ville, Paris, 1950, Robert Doisneau.


Pascal, matemático e filósofo francês (1620-1661), disse: “O coração tem razões que a razão desconhece”.

As suas palavras referem-se em particular à relação do homem com Deus, sobretudo ao facto de, na sua perspectiva, Deus não poder ser conhecido através da razão mas sim através do coração. Num livro chamado Pensamentos escreveu também: “Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração e não à razão”.

Esquecendo o aspecto religioso do problema, mas não o filosófico, e considerando o facto de hoje ser o Dia dos Namorados, fica a questão:

Até que ponto nos devemos orientar pelos sentimentos e pôr de parte a análise racional das coisas (trate-se de Deus, do amor ou da crise económica)?

Pascal, Pensées, Ed. Flammarion, France, 1976, pp 127-128.