
Este blogue existe como projeto curricular da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa desde 2008. Os nossos principais destinatários foram, desde o início, os alunos. Disponibilizámos, sobretudo, recursos didáticos para o ensino da Filosofia no secundário. Também partilhámos outros materiais com interesse artístico, literário, científico e, por vezes (quando o tempo escasso permitia), opiniões acerca de assuntos filosóficos e educativos.
Foi um trabalho de equipa gratificante, a nível pessoal e profissional. A criação deste blogue (apesar das difíceis condições de trabalho que sempre tivemos) foi, utilizando uma analogia, uma grande janela que se abriu para fora da escola e da sala de aula: permitiu aprender muito, trocar e confrontar ideias, participar em discussões públicas com várias pessoas ligadas ao ensino da Filosofia (no país e fora dele). Tudo isso fez com que o esforço para manter o “Dúvida Metódica” ao longo destes anos tivesse valido a pena.
Se o sucesso de um blogue educativo se avaliar pelo número de visitantes, de visualizações de páginas ou de reconhecimentos públicos de alguns especialistas da área, podemos dizer que tivemos sucesso.
Mas se o sucesso de um blogue educativo for medido pelo feedback dos professores que utilizaram os recursos disponibilizados ou que o leram diariamente, o balanço já será diferente, pois esse feedback, na maior parte dos casos, não existiu. A maioria dos que passaram por aqui (880.210 visitantes) ou utilizaram os recursos (colocados no programa Scribd, ver AQUI e AQUI), e foram muitos milhares, não deixaram qualquer sugestão, crítica ou comentário.
A partilha dos recursos didáticos e o trabalho colaborativo - descritos nas teorias pedagógicas e nos documentos do ministério como desejáveis e uma forma de melhorar a qualidade do ensino - na prática acabam por ser, em muitos casos, uma miragem. Há várias razões para explicar isso, mas vou referir apenas uma delas: os professores que não estudam nem investem na preparação das aulas e que são incapazes de expor publicamente o seu trabalho não querem dialogar com os colegas que o fazem e encaram-nos como arrogantes e presunçosos, mesmo que se aproveitem do que estes partilham. Recentemente, uma professora de Filosofia apelidou-me a mim e ao Carlos de “arianos da Filosofia”. É compreensível que se reaja assim perante quem perturba a inatividade ou a pode tornar mais evidente aos olhos dos outros.
Este tipo de atitude é depois justificado através de uma ideia popular entre a classe docente: não há factos objetivos em educação e, portanto, a qualidade das aprendizagens dos alunos e o mérito da profissão não podem ser avaliados (nem pelo trabalho público desenvolvido, nem pelos resultados dos alunos na avaliação externa, nem por outro tipo de atividades que se realizem). Ou seja: a ideia de que não há nenhuma maneira imparcial e fidedigna de comparar e distinguir os professores, ao contrário do que acontece nas outras profissões. É irónico que assim se pense: os professores têm permanentemente de avaliar e distinguir o desempenho dos alunos, mas eles próprios não podem ser avaliados sem suspeição. Esta ideia é conveniente, pelo menos para alguns professores, pois ajuda a manter o status quo e a defender que a graduação profissional, cujo principal fator é a antiguidade, é o único critério aceitável.
Para que serve, então, um professor empenhar-se e tentar constantemente melhorar, se a antiguidade é considerada o critério decisivo em coisas tão importantes como a distribuição do serviço e a atribuição dos horários zero?
É o dever do professor para com os alunos. Contudo, em termos de carreira, não serve para nada. O excelente trabalho que o meu colega Carlos Pires fez neste blogue, nas suas aulas, na divulgação da escola e da Filosofia não lhe serviram para nada: foi-lhe atribuído horário zero e terá que ir para outra escola, onde provavelmente não terá turmas de Filosofia.
Assim, ainda que ele se mantenha como autor e esporadicamente volte a escrever aqui, este blogue passará por isso a ser diferente. Lamento muito que assim seja.
No presente ano letivo, este blogue só não deixou de ser um projeto curricular da escola porque me foram atribuídas turmas de Filosofia. Continuarei a divulgar no “Dúvida Metódica” o que faço nas minhas aulas por acreditar que os professores de Filosofia devem dar um contributo para melhorar a qualidade do ensino e a imagem pública da disciplina. Desempenharmos as nossas funções com profissionalismo e competência contribui para que a disciplina de Filosofia não desapareça do ensino secundário. Ao contrário do que muita gente parece pensar, este não é um dado adquirido e o futuro poderá ser ainda pior que o presente.
Sara Raposo