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terça-feira, 1 de julho de 2014

Um poema de Sophia

Para a Ana e para os seus pais.

mar ceu

Antes de eu ver-te já me pertencias
Tão interior a mim tão necessária
Que o céu e o mar e tudo te dizia

Reconheci-te logo e prometida
Sem te poder perder porque tu eras
O próprio coração da minha vida
E eu esperei-te em todas as esperas

Sophia de Mello Breyner Andresen,
"O colar", pág. 38-39, Editorial Caminho, Lisboa 2001.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Uma pequenina luz

Para celebrar o 25 de abril.

UMA PEQUENINA LUZ

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena

terça-feira, 1 de abril de 2014

Mentir, eis o problema

pinoquio-paradoxo do mentiroso

DOIS RUMOS

Mentir, eis o problema:
minto de vez em quando
ou sempre, por sistema?

Se mentir todo dia,
erguerei um castelo
em alta serrania

contra toda escalada,
e mais ninguém no mundo
me atira seta ervada?

Livre estarei, e dentro
de mim outra verdade
rebrilhará no centro?

Ou mentirei apenas
no varejo da vida,
sem alívio de penas,

sem suporte e armadura
ante o império dos grandes,
frágil, frágil criatura?

Pensarei ainda nisto.
Por enquanto não sei
se me exponho ou resisto,

se componho um casulo
e nele me agasalho,
tornando o resto nulo,

ou adiro à suposta
verdade contingente
que, de verdade, mente.

Carlos Drummond de Andrade, Boitempo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os esquecidos da História

QUEM CONSTRUIU TEBAS DE SETE PORTAS?

Quem construiu Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E as várias vezes destruída Babilónia —
Quem é que tantas vezes a reconstruiu?
Em que casas da Lima fulgente
de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
a Mu­ralha da China? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os césares?
Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu bramavam os
afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe da Espanha chorou, quando a armada se afundou.
Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos —
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos
Tantas perguntas. 

Bertolt Brecht

(Tradução de Paulo Quintela)

El juramento de los siete jefes de Alfred Church

O Juramento dos sete chefes, de Alfred Church

(inspirado num episódio da tragédia de Ésquilo Os Sete Contra Tebas).

domingo, 5 de janeiro de 2014

Nenhum homem é uma ilha

Nenhum homem é uma ilha,
Isolado em si mesmo;
Todo homem é um pedaço do continente,
Uma parte da terra firme.
Se um torrão de terra for levado pelo mar,
A Europa fica diminuída,
Como se fosse um promontório,
Como se fosse a casa dos teus amigos
Ou a tua própria;
A morte de qualquer homem diminui-me,
Porque sou parte do gênero humano,
E por isso não me perguntes por quem os sinos dobram;
Eles dobram por ti.

John Donne

perneta e maneta

Poema em inglês aqui. Infelizmente, desconheço o autor da fotografia e a época em que foi tirada.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Não foi no espelho

ao espelho

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles

domingo, 20 de outubro de 2013

Os bobos da corte

FESTA ALEGÓRICA

O bobo do imperador Maximiliano
organizou uma festa alegórica
que o povo e a corte de soberano à frente
saborearam em grandes gargalhadas:
juntou na praça todo o cego pobre,
prendeu a um poste um porco muito gordo,
e anunciou ganhar o dito porco aquele
que à paulada o matasse. Os cegos todos
a varapau se esmocaram uns aos outros,
sem acertar no porco por serem cegos,
mas uns nos outros por humanos serem.
A festa acabou numa sangueira total:
porém havia muito tempo que o imperador
e a corte e o povo não se riam tanto.
O bobo, esse tinha por dever bem pago
o fabricar as piadas para fazer rir.

Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão. 

O Bobo da Corte Sebastián de Morra de Velásquez

“O Bobo da Corte Sebastián de Morra”, de Velásquez.

sábado, 5 de outubro de 2013

Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

GreteStern os sonhos sobre cansaço 1949

Poema dum funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só
António Ramos Rosa


Fotografia: Os sonhos sobre cansaço, de Grete Stern, 1949.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

António Ramos Rosa

A FESTA DO SILÊNCIO

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, Volante Verde.

Ramos Rosa

O poeta e tradutor António Ramos Rosa nasceu em Faro, a 17 de Outubro de 1924, e morreu hoje, 23 de Setembro de 2013. A Biblioteca Municipal de Faro tem o seu nome.

domingo, 1 de setembro de 2013

Um ano letivo de boas descobertas!

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Discurso

E aqui estou, cantando.
Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.


Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.


Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.

(...)

Cecília Meireles

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Conhecer outros mundos possíveis talvez não fosse bom

W. H. Auden

 

Esperas, sim,
que os teus livros te desculpem,
te salvem do inferno:
porém,
sem sombra de tristeza,
sem de modo algum
parecer recriminar-te
(escusa de o fazer,
sabendo bem o que importa
a um amante da arte como tu),
Deus poderá condenar-te
no Dia do Juízo
a chorar de vergonha,
recitando de cor
os poemas que terias escrito, tivesse
sido boa a tua vida.

W.H. Auden

 

(Tradução de Ana Luísa Faria, in Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios, Relógio d’Água, Lisboa, 1991, pág. 239.)

 

sábado, 11 de maio de 2013

Por quem os sinos dobram?

No man is an island,
Entire of itself.
Each is a piece of the continent,
A part of the main.
If a clod be washed away by the sea,
Europe is the less.
As well as if a promontory were.
As well as if a manor of thine own
Or of thine friend's were.
Each man's death diminishes me,
For I am involved in mankind.
Therefore, send not to know
For whom the bell tolls,
It tolls for thee.

John Donne

Small boy drinking water in his home in Kentucky, 1964   American soldier Walton Trohon cleaning the face of a young French orphan, France, 25 November 1944

domingo, 5 de maio de 2013

O que é o amor (de mãe)?

 

 

 

 

 

 

 

Deolinda de Jesus by Antonio Variações on Grooveshark

António Variações - cantor e poeta - dedicou esta canção à sua mãe, Deolinda de Jesus. É uma das mais belas que eu conheço.

No Dia da Mãe, aqui fica uma resposta interessante e bela, embora não filosófica, à questão colocada no título deste post.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Um passeio literário pela Lisboa de Pessoa

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Na visita de estudo de 26 de fevereiro, fizemos um percurso  a pé por alguns locais significativos na vida e obra do poeta Fernando Pessoa. Este passeio foi organizado e guiado pela professora de Português, Dina Ferreira. A selecção e as explicações  ficaram a cargo da professora, a leitura dos poemas coube aos alunos. A fotografias que acompanham os poemas lidos, à excepção das duas primeiras, são da autoria do alunos Rafael Fonseca do 11º D.

ESTAÇÃO DO ROSSIO

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa, 20-9-1933

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IGREJA DOS MÁRTIRES

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto,
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

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ESTÁTUA EM FRENTE DO CAFÉ BRASILEIRA

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CASA ONDE NASCEU FERNANDO PESSOA

Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
(…)
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, Aniversário

À minha querida mamã
Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde nasci.
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.

Fernando Pessoa, 26-07-1895 (1º poema escrito e conhecido com 7 anos)

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TEATRO S. CARLOS

(…)
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
(…)
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro

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ESTÁTUA EM FRENTE DA CASA ONDE NASCEU FERNANDO PESSOA

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LARGO DO CARMO, outra morada de Pessoa

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(…)
Álvaro de Campos, Passagem das Horas

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CAFÉ MARTINHO DA ARCADA

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.

Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

E por último, o ponto de vista de alguns dos alunos do 11º D e 12º E:

Já pensaram se fôssemos todos memoráveis? Se o mundo pudesse conhecer a nossa vida através da nossa cidade, dos locais por onde passámos?

Tal como explicou a nossa professora de português:

“As cidades não serão mais do que o resultado das pessoas que nelas viveram, vivem e viverão. Então Lisboa poderá ser também Pessoa: onde nasceu, viveu e morreu. Ainda habitará, hoje, o poeta nas ruas desta cidade? A resposta poderá ser encontrada no percurso que iremos realizar na tentativa de solucionar o dilema: PESSOA EM LISBOA OU A LISBOA DE PESSOA?”

Na expectativa de conhecer mais sobre o memorável poeta, Fernando Pessoa, realizámos um passeio literário pedestre, onde pudemos conhecer mais sobre a vida  e obra deste escritor.

Passámos por vários lugares ligados à obra do poeta e lemos poemas relacionados com esses locais, por exemplo, junto à Igreja dos Mártires, no Chiado, onde Pessoa foi batizado (lemos o poema “Ó sino da minha aldeia”) e a casa onde nasceu o poeta, cujo edifício pertence agora à Caixa Geral de Depósitos. Em cada sítio, descobrimos mais sobre Pessoa e a sua vida: onde nasceu, viveu e com quem conviveu, onde trabalhou e até sobre o seu  romance platónico com Ofélia Queirós.

Podemos assim solucionar o dilema que inicialmente nos foi colocado. É A LISBOA DE PESSOA, pois apesar de passarem por esta cidade muitas pessoas, mais nenhuma conseguiu o que este ilustre poeta alcançou: tornar inesquecíveis certos locais através de alguns dos seus poemas.

Catarina Bárbara 12ºE

Realizámos o percurso pessoano. Passámos por vários locais importantes da vida de Fernando Pessoa em Lisboa, como por exemplo a casa onde o poeta nasceu nasceu, a casa da sua amada Ofélia Queirós, a estação do Rossio em que via partir alguns dos seus amigos, etc. As paragens nos locais eram sempre acompanhadas por uma descrição da professora de Português do local e da sua importância na vida do autor e pela leitura de um poema de Pessoa realizada pelos alunos. Esta parte da visita foi bastante enriquecedora. Os alunos puderam aprender mais sobre a vida de Fernando Pessoa e andar pela mesma calçada que o autor português pisou!

Rafael Fonseca, Fábio Gonçalves, Marco Fidalgo, Patrícia Pacheco e Joana Viegas, 11º D

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Esperando uma carta?

ROGIER-VAN-DER-WEYDEN-ST-JOSEPH São José

Este quadro de Rogier van der Weyden é uma das obras que fazem parte da exposição "Diferentes retratos, diferentes culturas", na Gulbenkian - visitada hoje por duas turmas da ESPR. A exposição é muito interessante e merece uma visita atenta. (Mais informações sobre o quadro aqui.)

"Esperando uma carta" não é o título do quadro (que representa São José), mas sim de um bonito poema que João Miguel Fernandes Jorge escreveu acerca do quadro. Segundo o poeta, o monge espera uma carta... Será uma boa interpretação?

Esperando uma carta

Van der Weiden o representou pela manhã.
Figura de monge escolar
olhando desde cedo os campos

espera uma carta novos passos do companheiro doutro claustro
distante
tratando os problemas da substância
em letra de tom castanho e magoado espera

uma carta toda a manhã
notícia dos campos seus a mãe ou a irmã
dirá da caça da invernia
do casamento e morte dos parentes das crias
novas

uma carta distante perdida carta.
Sem outra vida espera
uma carta amada isso de certo
olhando da pequena janela sobre os mundos

a chuva o vento o sol dos meses
esperando uma carta todas as manhãs a vida.

João Miguel Fernandes Jorge, O roubador de água, Edições Assírio e Alvim, Lisboa, 1981, pp 83.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O dia do Diploma na ESPR

Para os alunos que recebem hoje, pelo seu desempenho escolar, os diplomas de mérito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O estudante estuda à noite, estuda para se tornar um homem livre,

e depois do exame se transformar num degrau para o próximo homem.

Uma mudança nada fácil.

Quem já chegou tem um longo caminho a percorrer.

 

Nota: A fotografia é de Henri Cartier Bresson e o poema de Tomas Tranströmer, 50 Poemas, Relógio D’Água, Lisboa, 2012, pág. 89.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Conhecimento proposicional?

I never saw a Moor -
I never saw the Sea -
Yet know I how the Heather looks
And what a Billow be.

I never spoke with God
Nor visited in Heaven -
Yet certain am I of the spot
As if the Checks were given -

EMILY DICKINSON

EMILY DICKINSON

sábado, 18 de agosto de 2012

Balanço de vida

BILHETE-POSTAL NEGRO

I

Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
                acotovelam-se no cais.

II

Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
              é cosido em silêncio.

Tomas Tranströmer, 50 Poemas, Relógio D’Água, Lisboa, 2012, pág. 17.

Tomas Transtromer jovem

terça-feira, 17 de julho de 2012

Um dia de Primavera

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Um dia de Primavera

Nossa vida no mundo é apenas um grande sonho.
Então, para quê nos atormentarmos?
Prefiro beber o dia inteiro,
e ficar deitado à sombra.

Ao acordar, olho em redor:
um pássaro gorjeia entre as flores.
Rogo-lhe que me informe
sobre a estação do ano, e ele responde
que estamos na época em que a primavera
faz cantarem os pássaros.

Como principiava a enternecer-me,
recomecei a beber,
cantei até a lua chegar
e de novo tornei a perder a noção das coisas.

Li Po (tradução de Cecília Meireles)

Nota: O poema foi tirado do livro(presumo) e foi copiado daqui. Julgo que a tradução foi publicada apenas no Brasil (não sei se a transcrição é ou não correcta, espero que seja).

 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Declaração de princípios

corto maltese

Corto Maltese, de Hugo Pratt.

 

TE DEUM

Not because of victories
I sing,
having none,
but for the common sunshine,
the breeze,
the largess of the spring.

Not for victory
but for the day's work done
as well as I was able;
not for a seat upon the dais
but at the common table.

Charles Reznikoff