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quarta-feira, 3 de junho de 2009

O dinheiro não traz a felicidade!

“Os filósofos antigos tiveram muito a dizer sobre a felicidade. Supunham que ‘a melhor vida’ e ‘a vida feliz’ eram a mesma coisa, e geralmente aceitavam que a felicidade consistia numa vida de razão e virtude. Epicuro (341-270 a. C.) recomendou uma vida simples, de modo a se evitarem sofrimentos e ansiedades. Os estóicos acrescentaram que um homem sábio não permitiria que a sua felicidade dependesse de coisas que estivessem fora do seu controlo, como a riqueza, a saúde, a boa aparência ou as opiniões dos outros. Não podemos controlar as circunstâncias externas, disseram, pelo que devemos ser indiferentes a essas coisas, aceitando-as como aparecem. Epitecto (c. 55-135 a. C.), um dos grandes professores estóicos, deu este conselho aos seus estudantes: ‘Não peçam que as coisas ocorram segundo a vossa vontade; façam com que a vossa vontade seja que as coisas ocorram como ocorrem de facto, e terão paz.’

Algumas destas ideias podem parecer questionáveis, mas uma parte significativa delas tem sido confirmada pela investigação psicológica moderna.

Moedas mão cheia de dinheiro Consideremos, por exemplo, a ideia de que a riqueza não traz felicidade. Dado que a maior parte das pessoas quer ser rica, poderíamos pensar que há alguma correlação entre a riqueza e a felicidade. Mas não há. Quando Ronald Inglehardt, cientista político da Universidade de Michigan, comparou os níveis de riqueza de países diferentes com aquilo que as pessoas desses países dizem sobre a sua satisfação com a sua vida, descobriu que as pessoas dos países mais ricos não são mais felizes do que as dos países mais pobres. Por vezes acontece o oposto: os alemães ocidentais têm o dobro da riqueza dos irlandeses, mas os irlandeses são mais felizes. Dentro de países específicos, encontrou a mesma ausência de correlação: as pessoas que têm mais dinheiro não são mais felizes que as outras. Portanto, sermos ricos não importa. As pessoas afectadas pela pobreza tendem a ser menos felizes do que aquelas que possuem o suficiente para viver; mas, para aqueles que estão acima da linha de pobreza, o dinheiro adicional faz pouca diferença. O psicólogo David Myers observa que ‘quando se ultrapassa a pobreza, o crescimento económico suplementar não melhora significativamente o ânimo dos seres humanos’.

Os estudos sobre os vencedores de lotarias confirmam isto de forma notável. Como é óbvio, os vencedores de lotarias ficam extremamente felizes quando sabem das boas notícias e a euforia tende a durar alguns dias. Mas, passado pouco tempo, regressam ao seu nível normal de felicidade. No essencial, as pessoas amuadas voltam a ficar amuadas. Podem ser capazes de deixar o emprego e de comprar muitas coisas, mas, no que respeita ao seu nível de felicidade, a riqueza recentemente adquirida não faz diferença. (…)

Então, o que tornará as pessoas felizes? Se não é a riqueza (…) o que será?”

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp. 286-288.

problemas da filosofia James Rachels

terça-feira, 26 de maio de 2009

“Sair para o mundo e fazer algo que mereça a pena”

«Até à minha chegada a Nova Iorque [em 1973, para dar aulas de Filosofia na Universidade de NI], nunca conhecera ninguém que fizesse psicoterapia uma vez por semana; mas, quando travei conhecimento com o círculo de professores nova-iorquinos e suas esposas, depressa descobri que muitos deles faziam psicanálise diária. Cinco dias por semana, onze vezes por ano, tinham uma consulta de uma hora, que não podia ser cancelada por nada deste mundo, salvo numa emergência de vida ou de morte. (…) E isto não era nada barato. Alguns dos meus colegas, académicos bem remunerados e bem sucedidos, entregavam um quarto do seu ordenado anual aos seus analistas! Isto era para pessoas que, tanto quanto me era dado perceber, não eram nem mais nem menos perturbadas do que as que não faziam análise, e, com excepção do seu empenho na análise, não me pareciam diferentes das pessoas que eu conhecera em Oxford ou em Melbourne.

Perguntei aos meus amigos por que razão faziam aquilo. Responderam-me que se sentiam reprimidas, ou tinham tensões psicológicas por resolver, ou que não viam sentido para a vida.

Deu-me vontade de pegar nelas e abaná-las. Estas pessoas eram inteligentes, talentosas, abastadas e viviam numa das cidades mais estimulantes do mundo. Estavam no centro do maior centro de comunicações da História. O New York Times informava-os todos os dias do estado do mundo real. Sabiam, por exemplo, que em vários países em vias de desenvolvimento havia famílias que não sabiam de onde viria a sua comida para o dia seguinte e crianças que estavam a crescer física e mentalmente atrofiadas pela malnutrição. Sabiam, também, que o planeta podia produzir comida suficiente para cada ser humano ser adequadamente alimentado, mas esta encontrava-se tão mal distribuída que tornava risível qualquer referência a justiça entre nações. (Por exemplo, em 1973, o Produto Interno Bruto per capita dos Estados Unidos era de 6200 dólares e o do Mali 70 dólares.)

Se estes nova-iorquinos capazes e abastados tivessem saído dos divãs dos analistas, deixado de pensar nos seus próprios problemas e feito qualquer coisa quanto aos verdadeiros problemas enfrentados por pessoas menos afortunadas no Bangladesh ou na Etiópia – ou mesmo em Manhattan, umas poucas paragens de metro mais adiante -, ter-se-iam esquecido dos seus próprios problemas e talvez tivessem tornado também o mundo um sítio melhor. (…) [Ou seja:] a solução está em sair para o mundo e fazer algo que mereça a pena» [em vez de apenas olhar para dentro, só preocupados com o próprio umbigo].

Peter Singer, Como havemos de viver? – A ética numa época de individualismo, Dinalivro, Lisboa, 2006, pp. 361-362.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O paradoxo do hedonismo e o Dia dos Namorados

On A Claire Day by Carla Ventresca and Henry Beckett



“A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem com coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum para além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos.

Tem-se dado o nome de “paradoxo do hedonismo” ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outros a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes.”

Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, 1ª edição, 2000, pág. 357.


Ao defender que podemos encontrar a felicidade e o sentido da vida quando tentamos pôr em prática objectivos a que atribuímos sentido e valor, Peter Singer tem em mente objectivos de natureza ética: ajudar pessoas necessitadas, combater a pobreza, combater algumas das várias formas de desigualdade e discriminação existentes no mundo, contribuir para a preservação do ambiente, etc.

A ideia é que o mero prazer pessoal não é suficiente e que precisamos de objectivos mais amplos e mais vastos que a nossa própria vida.

Muitas pessoas não seriam de facto capazes de “encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocuparem com ninguém nem com coisa alguma”, pois não são psicopatas dispostas a fazerem tudo aquilo que lhes der satisfação pessoal, mas não parecem ter os objectivos de natureza ética valorizados por Peter Singer.

Há muitas pessoas que são como as personagens do Cartoon: valorizam acima de tudo algumas relações afectivas – o amor pelos pais ou pelos filhos, o amor pela pessoa por quem se apaixonaram, etc. Para elas, mesmo que não seja o Dia dos Namorados, a pessoa amada é sempre o centro do mundo. Mas não procuram combater a pobreza nem se empenham na preservação do meio ambiente.

O amor que essas pessoas sentem por algumas pessoas próximas será suficiente para que tenham objectivos mais vastos que as suas próprias vidas ou não passará isso de uma outra forma de procurar o mero prazer pessoal? Ou seja: se não forem activistas de causas eticamente relevantes, estarão essas pessoas condenadas a procurar a felicidade pela felicidade e, por isso, a só encontrarem a amarga infelicidade?