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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A estrada de Giges

 

O que sucederia se uma grande catástrofe matasse a maior parte dos seres humanos, dos animais e das plantas e destruísse as cidades, a agricultura, a indústria, o comércio e as instituições sociais e políticas (nomeadamente o governo, os tribunais e a polícia)?

O filme “A Estrada” (baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy) sugere que a vida dos sobreviventes se tornaria miserável, perigosa e degradante. Matar-se-ia por um par de sapatos ou por um bocado de comida. A fome seria constante e muitas pessoas praticariam o canibalismo. As pessoas tenderiam a viver sozinhas ou em pequenos grupos, isolados e esquivos, devido à desconfiança e ao medo de serem atacadas pelos vizinhos. O horror do presente e a falta de esperança num futuro melhor tornaria muitas pessoas apáticas e levaria algumas ao suicídio.

Trata-se de um cenário ainda pior do que o descrito pelo filósofo Thomas Hobbes ao imaginar o que seria a vida humana sem Estado, sem organização social e política: uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” e dominada por “um constante temor e perigo de morte violenta” (ver aqui mais detalhes).

Infelizmente, é improvável que se trate de um pessimismo injustificado. O que vemos em “A Estrada” é apenas uma generalização feita a partir do que já aconteceu muitas vezes em situações de menor dimensão. Após naufrágios ou quedas de aviões os sobreviventes, isolados e acossados pela fome, recorreram muitas vezes ao canibalismo. Nos campos de concentração nazis e soviéticos muitos prisioneiros roubavam, agrediam ou matavam outros prisioneiros para lhes roubar um bocado de pão. Após catástrofes naturais ou grandes convulsões sociais e políticas, quando o controlo das autoridades do Estado diminui ou desaparece, é frequente ocorrerem roubos, pilhagens, violações, assassinatos e outras violências (veja aqui um exemplo). No Haiti, devastado pelo terramoto ocorrido no passado dia 12 de Janeiro, está a acontecer precisamente isso.

É como se as normas morais e jurídicas a que habitualmente obedecemos, e valores como a justiça e o respeito pelas outras pessoas, fossem apenas um verniz fino e frágil que nessas situações mais extremas estala - dando-nos uma visão do como seria terrível a vida humana sem o controlo do Estado e das outras instituições sociais.

Mas em “A Estrada” não há apenas desespero e miséria material e moral. Segundo o filme, embora se trate apenas de uma pequena minoria, nem todas pessoas esqueceram as normas que respeitavam ou perderam o respeito pelos outros. Nem todas as pessoas se tornaram escravas da fome e do medo. Embora esfomeadas, algumas pessoas não praticaram o canibalismo. Embora amedrontadas, algumas pessoas arranjaram coragem suficiente para ajudar quem precisava de ajuda e partilharam o pouco que tinham. O mesmo sucedeu nas situações reais referidas, nomeadamente nos campos de concentração nazis e soviéticos (veja aqui um exemplo).

Platão conta a história de um homem chamado Giges que encontra um anel que tornava as pessoas invisíveis. Com esse anel podiam, se quisessem, roubar e matar impunemente. O anel de Giges é uma espécie de teste: sem o medo do castigo as pessoas continuariam a respeitar as normas morais e jurídicas que respeitavam antes?

Situações como a descrita em “A Estrada”, ou como a que se verifica actualmente no Haiti, em que o controle estatal desaparece ou diminui muito, põem muitas pessoas no papel de Giges: poderem praticar o mal impunemente. Embora não sejam certamente a maioria, nem todas as pessoas falham nesse teste. Por isso, no final do filme é a esperança (embora incerta e pequena), e não o desespero, que tem a última palavra. Esperemos que suceda o mesmo no Haiti.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Alegoria da Caverna: um desafio aos alunos do 11º ano

sombras (Fotografia encontrada na Internet, sem indicação do autor)

No primeiro dia de aulas deste ano lectivo, alguns dos meus alunos do 10º ano perguntaram-me se iríamos estudar a alegoria da caverna de Platão. Explicaram-me, então, que outros colegas (agora no 11º ano) lhes haviam falado das ideias defendidas nesse texto e isso lhes tinha parecido muito interessante.

Esta atitude, não muito vulgar em alunos do 10º ano, fez-me pensar que a motivação e a curiosidade suscitadas se deveram, talvez, à clareza das explicações e ao entusiasmo com que foram apresentadas pelos seus colegas do 11º.

Decidi, na altura, que antes de iniciar o estudo do texto de Platão (que será na próxima semana) solicitaria aos alunos - actualmente no 11º ano - a colaboração para explicarem aos colegas, de uma forma simples e motivadora, quais os problemas filosóficos abordados por Platão na alegoria da caverna e se podemos ganhar algo com a reflexão e discussão acerca deles.

Fica o desafio.

Para o aceitar não é necessário ser atrevido, basta pensar! E depois escrever um comentário aqui no Dúvida Metódica, neste post.

 

Nota: Podem escrever o comentário no Word e depois copiar e colar na caixa de comentários.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Examinar a vida: valerá a pena o esforço?

Uma vida examinada

"Uma vida não examinada pode não valer a pena ser vivida, mas examinar a minha é esgotante."

Este e outros cartoons da autora podem encontrar-se aqui.

Sócrates, um dos mais conhecidos filósofos gregos, foi condenado à morte em 399 (a.C.). Não escreveu nenhum livro. O que sabemos sobre ele deve-se, entre outros, ao testemunho do seu discípulo Platão. Nos diálogos que este escreveu Sócrates é uma figura central.

Na Apologia de Sócrates, Platão apresenta o discurso proferido em tribunal pelo seu mestre. Acusado, entre outras coisas, de “fazer do argumento fraco o argumento forte, ensinando os outros a fazerem como ele”, e corrompendo assim a juventude, Sócrates defendeu-se dizendo que nada mais fazia do que examinar-se a si próprio e aos outros com o objectivo de descobrir alguém mais sábio do que ele (que reconhecia nada saber sobre o bom, a virtude e o belo, por exemplo). Eis as suas palavras:

“Nada mais faço do que andar pelas ruas a persuadir-vos, jovens ou velhos, a cuidardes mais da alma que do corpo e das riquezas, de modo a que vos torneis homens excelentes.

Se, ao dizer isto, estou a corromper os jovens, mal vão as coisas. Mas, se alguém afirmar que eu digo mais do que isto, afirma falsidades (…).

Pois, se me matardes, sendo eu como sou, fareis mais mal a vós próprios do que a mim. Poderiam talvez matar-me, banir-me ou privar-me de direitos, pensando como outros que são estas coisas grandes males. Mas eu não penso assim. O que penso é que quem o fizer está a fazer a si próprio muito pior, por tentar matar injustamente um homem. Por isso, preciso muito mais de vos defender a vós do que de me defender a mim (…). Isto porque, se me matardes, não encontrareis com facilidade outro como eu que – para falar gracejando – se agarre à cidade como um moscardo a um cavalo forte e de bom sangue que, por causa do tamanho, precisa de ser despertado por um aguilhão (…).

E se eu disser que o maior bem que pode haver para um homem é, todos os dias, discorrer sobre a excelência e sobre outros temas acerca dos quais me ouvíeis dialogar, investigando-me a mim e aos outros. E se eu vos disser que uma vida sem pensar não é digna de ser vivida por um homem, ainda menos vos terei persuadido. É como digo, homens, não sois fáceis de convencer!”

Platão, A apologia de Sócrates, tradução de José Trindade Santos, 2ª Edição, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1990, pág. 85-87 e 94.

Terá Sócrates razão ao defender que uma vida sem pensar não é digna de ser vivida? Porquê?


quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A origem dos problemas filosóficos

Sócrates, um filósofo grego que viveu entre 470 e 399 a. C., foi condenado à morte. Horas antes deste ingerir o veneno vários amigos foram ter com ele à prisão. Estavam tristes e revoltados, pois consideravam Sócrates o homem mais justo e sensato que conheciam e entendiam que as acusações contra ele eram falsas. Platão (discípulo e amigo de Sócrates) descreveu as últimas horas de vida de Sócrates num livro chamado Fédon.

morte de Sócrates de David Enquanto conversavam, é referido o problema da alma ser ou não imortal: será que a morte é o fim de tudo ou, pelo contrário, depois dela existe uma outra vida? Os amigos de Sócrates insistem para saber o que pensa ele sobre isso.
Sócrates aceita examinar o problema e diz: "...talvez nada seja tão apropriado para aquele que vai partir para o Além como reflectir e discorrer sobre o significado desta viagem e o que imaginamos que seja". (Platão, Fédon, 5ª edição, Lisboa Editora, 1997, pág. 45.)

Sócrates, tal como outros filósofos, foi algumas vezes acusado de andar com a cabeça nas nuvens e de se interessar por assuntos inúteis e desligados da vida. Assim, ao dizer que, uma vez que vai morrer, reflectir acerca da morte e do sentido da vida é “apropriado” está a dizer que esse assunto não é exterior à vida humana.

Ora, tal como Sócrates, nós também somos mortais. Também vamos morrer um dia. Por isso, faz sentido – é “apropriado” – que reflictamos acerca da morte e do significado da vida. Para nós, a morte não é um assunto inútil e desligado da vida. É um assunto que se impõe a partir da nossa experiência.

Esse raciocínio pode estender-se a outros problemas filosóficos. Os problemas filosóficos são problemas que se impõem a partir da nossa experiência e não assuntos demasiado abstractos, inúteis e desligados da vida. Por isso, é apropriado reflectirmos acerca deles.

Eis alguns exemplos.

Temos amigos, por isso é apropriado reflectir acerca da amizade.
Queremos ser felizes, por isso é apropriado reflectir acerca da felicidade.
Dizemos muitas vezes que certas coisas são belas e outras feias, por isso é apropriado reflectir acerca da beleza.
Argumentamos, por isso é apropriado reflectir acerca dos argumentos e daquilo que os torna correctos ou incorrectos.
Utilizamos diariamente palavras como “verdadeiro”, “falso”, “justo” e “injusto”, por isso é apropriado reflectir acerca da verdade e da justiça.
Etc.

Sendo assim, estudar filosofia e reflectir acerca dos problemas filosóficos não é perder tempo com assuntos demasiado abstractos, inúteis e desligados da vida, mas sim tentar esclarecer problemas que, pelo contrário, fazem parte da nossa vida. Ao estudar filosofia e ao reflectirmos sobre esses problemas tornamo-nos conscientes de coisas que, sem sabermos, já existiam na nossa vida.

À entrada do templo de Delfos, na Grécia, estava escrito um conselho que Sócrates considerava fundamental: “Conhece-te a ti mesmo”. Filosofar é uma forma de o pôr em prática.

*-*-*-*

No Dúvida Metódica existem vários posts com a etiqueta “Sócrates”, dos quais o mais útil para alunos do 10º ano é este: Conselho de Sócrates: pensem bem antes de me darem razão.

Na imagem: quadro de Jacques Louis David - "A morte de Sócrates", de 1787.

domingo, 9 de agosto de 2009

Sofista ou surfista?

A Surfista. jpg

A Surfista, fotografia de Gustavo Moreira Tavares (tirada daqui). 

Os sofistas - pensadores gregos, cujos nomes mais conhecidos são Górgias e Protágoras – foram os primeiros a reflectir sobre o poder persuasivo da palavra. Foram também educadores: ensinavam aos cidadãos gregos a retórica, preparando-os assim para participar na vida política da polis.

No Fédon, Platão atribui, por intermédio de Sócrates, as seguintes características aos sofistas: “(…) é mesmo o filósofo que vos fala, aquele que ama o saber, e não um desses homens sem sombra de cultura, que amam apenas o triunfo das suas teses! Refiro-me aos que, em qualquer tipo de discussão, relegam para segundo plano a natureza real das questões a tratar, e se empenham exclusivamente em convencer os seus ouvintes das opiniões que eles mesmos sustentam (…).”

Destes pensadores, além das referências efectuadas por filósofos posteriores, não chegaram até nós mais do que fragmentos dos escritos originais. Como por exemplo este, da autoria de Górgias (séc. V a. C): “Nunca me falta assunto num discurso”.

A má fama, talvez injusta, que a palavra “sofista” adquiriu – sinónimo de manipulador, daquele que, numa discussão, não olha a meios para alcançar os seus fins – tem em Platão um dos seus principais responsáveis.

Do ponto de vista platónico, o sofista é, por oposição ao filósofo, aquele que pretende convencer o auditório, independentemente da verdade. Assim, em vez de procurar persuadir de forma racional e lógica, recorre a todo e qualquer tipo de subterfúgios. Se necessário utiliza argumentos intelectualmente desonestos, que nada têm a ver com a discussão do assunto em causa, como por exemplo o ataque às características pessoais do interlocutor, o apelo aos sentimentos do auditório, o uso de ameaças, a utilização da autoridade de forma ilegítima, entre muitos outros (designados em Filosofia por falácias informais).

Uma das principais objecções de Platão às ideias dos sofistas prende-se com o facto destes defenderem o relativismo (Protágoras afirmou “o homem é a medida de todas as coisas”). A ideia que a verdade depende do ponto de vista de cada um e, por isso, não existe uma verdade objectiva que possa ser partilhada por todos.

Platão, no diálogo intitulado Górgias, levanta algumas objecções à perspectiva relativista. Se fosse correcta, como se poderia distinguir o verdadeiro do falso? Que sentido faria as pessoas discutirem, se nenhuma opinião poderia ser considerada errada, por mais absurda que fosse? Se cada um possui a sua verdade para quê trocar argumentos? Que valor teria a procura do conhecimento?

Platão conclui que a troca de argumentos só faz sentido no pressuposto de que não estamos condenados ao domínio da subjectividade - não vivemos no reino das opiniões, argumentamos racionalmente para nos tentarmos aproximar da verdade.

Estas considerações vêm a propósito de notícias recentes relativas à vida política portuguesa: a apresentação das listas e dos programas eleitorais dos vários partidos. Percebi, de súbito, devido a este estímulo exterior, o significado de um erro cometido por alguns dos meus alunos ao escreverem surfista em vez de sofista.

Como é que se pode confundir a arte de bem falar com a arte de usar a prancha?

Uma forma possível de explicar este equívoco linguístico é: os sofistas ao abdicarem da procura da verdade e ao recorrem a qualquer meio para alcançar as suas conveniências pessoais – como frequentemente observamos entre os políticos – estão, tal como os surfistas, a cavalgar a onda.

Existem afinidades que nem sempre são evidentes…

Nota: A citação de Platão foi retirada do seu livro Fédon, Lisboa Editora, 1997, pág. 87.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sócrates na praia

É pouco frequente ver alguém ler um livro na praia. Por isso, foi com surpresa que ontem vi - na praia da Altura - uma mulher a ler o Fédon, de Platão.praia da altura

Era uma senhora dos seus quarenta e poucos anos. Com a cabeça entre as mãos e a cara enfiada no livro, parecia pertencer a uma espécie animal diferente da dos outros banhistas, entretidos a apanhar conquilhas e absorvidos em conversas cujo assunto menos pessoal era – a avaliar por algumas amostras recolhidas ao acaso – uma alarmante notícia televisiva sobre o cancro da pele. Quando os filhos vinham a correr mostrar-lhe uma concha especialmente bonita, a mulher levantava os olhos do livro e sorria com doçura, mas de modo breve e regressava logo à leitura. (Procedia do mesmo modo, excepto no que diz respeito ao sorriso, quando o marido lhe tentava desviar a atenção para uma colorida revista de automóveis.)

E o que ela lia era a descrição das últimas horas de vida de Sócrates. Este tinha sido condenado à morte e, apesar de se considerar inocente, recusou fugir quando teve oportunidade para isso, pois na sua opinião a fuga seria ainda mais errada que a condenação. Ao conversar com alguns amigos que se tinham ido despedir dele à prisão, Sócrates afirmou que não há razão para um homem justo temer a morte, pois a alma é imortal e após a morte do corpo vai para um lugar melhor que esta vida. Os amigos pediram-lhe para justificar essa crença na imortalidade da alma, o que levou Sócrates a apresentar e discutir com os amigos diversos argumentos. Nessa discussão foram ainda analisados outros assuntos, como por exemplo o suicídio, a natureza da filosofia e o sentido da vida.

Excelentes tópicos, não há dúvida nenhuma, para ocupar o pensamento num domingo de manhã numa praia do Algarve!

Por vezes, a mulher fechava o livro durante alguns momentos e olhava pensativamente para o mar – muito recuado, devido à maré-vazia. Estaria ela a pensar em objecções aos frágeis argumentos de Sócrates a favor da imortalidade da alma? Ou estaria a pensar como era admirável um homem que, a poucas horas de ser morto, não só aceita discutir um problema filosófico como incentiva os seus interlocutores a criticar tudo o que ele dissesse de menos sólido e que – face à admiração respeitosa destes – lhes diz “preocupem-se pouco com Sócrates e muito mais com a verdade”? Ou talvez pensasse apenas que, caso ela estivesse no lugar de Sócrates, ficaria inquieta e amedrontada e não serena como ele… Ela e a grande maioria das pessoas!

No final da conversa, quando se aproximava a hora da execução, Sócrates disse aos amigos que ia tomar banho para “poupar às mulheres o incómodo de lavarem um cadáver”. O que pensará aquela mulher dessas palavras? Julgará que foram apenas uma observação casual de um homem educado numa sociedade onde as mulheres eram consideradas muito inferiores aos homens? Ou acreditará, pelo contrário, que exprimiam respeito e consideração ética (comoventes, em alguém que sabe que vai morrer) por outras pessoas, ainda que socialmente desfavorecidas?

O receio de ser indelicado e o calor do meio-dia (que obrigou a uma retirada precoce da praia), impediram-me de procurar junto da senhora respostas para essas perguntas. Mas não faz mal, pois Sócrates tornou-se um símbolo do pensamento crítico e da Filosofia precisamente porque incentivava as pessoas a pensar pela própria cabeça, em vez de ficarem à espera que alguém encontrasse as respostas por elas. Não falei com a senhora tal como não falei com Sócrates – mas, como disse o Professor Mário Jorge de Carvalho, numa distante aula de uma disciplina de opção cujo nome já nem recordo, “o que importa é sermos o nosso próprio Sócrates”.

Acho que vou reler o Fédon

As afirmações citadas foram retiradas de: Platão, Fédon, (91c e 115b), Lisboa Editora, 1997, pp. 88 e 119.

Fotografia de António Carlos Moreira, retirada daqui.

sábado, 25 de julho de 2009

O que é pior: sofrer a injustiça ou cometê-la?

Chegou apressado ao pé dos amigos, sentados na esplanada a beber cerveja e a falar de futebol. Pediu desculpa pelo atraso e explicou que, ao estacionar, se tinha distraído e batido no carro do lado. “Ficou um bocado amolgado… Por sorte ninguém me viu! Fui pôr o meu carro noutra rua, pois tem um risquinho à frente e se o tivesse deixado lá as pessoas iriam provavelmente relacionar as coisas.” Quando lhe perguntaram se conhecia o proprietário disse que sim e perguntou: “Acham que lhe devo dizer que fui eu e pagar o prejuízo?” Os outros riram-se e disseram em coro: “Estás maluco ou quê?”

Pediram mais cervejas e regozijaram-se todos com a sorte do amigo não ter sido apanhado. De repente, perceberem que estavam a falar demasiado alto e que podiam ser escutados e calaram-se, atrapalhados. Apesar das mesas mais próximas estarem vazias e eu ter a cabeça enterrada num livro, a conversa foi retomada com as peripécias das transferências de jogadores de futebol.

O livro não era o Górgias de Platão, mas não pude deixar de recordar as palavras de Sócrates, que depois fui reler:

“Não desejo nem uma nem outra; mas se fosse preciso escolher entre sofrer a injustiça e cometê-la, preferiria sofrê-la.”

“O homem culpado, tal como o injusto, é infeliz em qualquer caso, mas é-o sobretudo se não pagar as suas faltas e não sofrer o respectivo castigo; é-o menos, pelo contrário, se as pagar e se for castigado pelos deuses e pelos homens.”

Se aqueles bebedores de cerveja fizessem parte do grupo de pessoas que – segundo conta Platão no diálogo Górgias - ouviu Sócrates tentar persuadir Polo acerca da verdade dessas afirmações, certamente bradariam: “Estás maluco ou quê?”

(As afirmações citadas foram retiradas de: Platão, Górgias, (469c e 472e), Lisboa Editora, 1995, pp. 78 e 83.)

domingo, 17 de maio de 2009

O Sócrates é prepotente e mentiroso!

- Erixímaco – perguntou Alcíbiades, «meu excelente amigo, acreditas de verdade naquilo que Sócrates disse há pouco? Sabes que o que se passa é exactamente o contrário daquilo que ele afirmou? Este indivíduo, se me ponho a elogiar alguém na sua presença – trate-se de um deus ou de um homem qualquer, contando que não seja ele – não passa sem chegar a vias de facto…

- Não terás tento nessa língua? – interrompeu Sócrates.

- Por Posídon! – exclamou Alcíbiades. – Não te zangues, nem eu seria capaz de louvar fosse quem fosse diante de ti!

- Se assim queres – conciliou Erixímaco – faz isso mesmo: um elogio de Sócrates.»

Platão, O Banquete, 214d, tradução de Mª T. Schiapa de Azevedo, Edições 70, Lisboa, 1991, pág. 88.

Chamo a atenção dos leitores menos atentos que, embora a etiqueta “Portugal” exista no Dúvida Metódica, ela não foi colocada neste post.

(Gostava de ter sido eu o autor da ideia, mas infelizmente este post é um mero plágio de um post que li há meses noutro blogue – talvez o Câmara dos Lordes, mas não tenho a certeza.)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Cegos que não sabem que são cegos

Em terra de cegos - conto de Wells

HG Wells Publiquei noutro blogue - “Crítica: Blog” - um post acerca de um conto de H. G. Wells: “Em Terra de Cegos…”, Padrões Culturais Editora, 2008.

É a história de uma terra em que todas as pessoas são cegas, mas sem saber que são cegas. Quando um forasteiro lhes tenta explicar a situação dizem-lhe que é louco e imbecil e procuram obrigá-lo a ser como elas.

Tem, como é óbvio, diversas semelhanças com a “alegoria da caverna” de Platão, mas tem também algumas diferenças. Uma delas é a existência de uma história de amor – não entre um filósofo e a verdade, como se esperaria de Platão, mas entre um homem e uma mulher bonita (o homem não é cego).

Descontando a introdução do autor, o conto tem apenas 42 páginas que se lêem em menos de uma hora. Claro que não vou insultar a inteligência do leitor sugerindo que essa é uma boa razão a favor da leitura do conto. Quero recomendar a sua leitura, mas devido ao interesse filosófico da história e à sua qualidade literária.

Se ler “Em Terra de Cegos…” chegará à última página interrogando-se deste modo: e se fossemos uma espécie de cegos que não sabem que são cegos? E se estivermos tão iludidos como eles?

Claro que o leitor acredita que não é assim – tal como os cegos de Wells acreditavam. Acreditar é fácil. Mas como justifica essa crença? Que razões tem para a considerar verdadeira? Pois é, justificar é mais difícil que acreditar… Bem-vindo à filosofia.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

2 contra-exemplos à chamada definição tradicional de conhecimento

A definição tradicional de conhecimento (proposicional), que remonta a Platão, diz que temos conhecimento quando temos uma crença verdadeira justificada. Tomadas em conjunto, a crença, a verdade e a justificação, constituem condições suficientes para haver conhecimento. Será isso correcto? Bastará reunir essas três condições para termos um conhecimento?

Em 1963, o filósofo americano Edmund Gettier publicou um artigo em que procurava mostrar, através da apresentação de contra-exemplos, que a reunião dessas três condições não é suficiente para haver conhecimento; ou seja, que podemos ter uma crença verdadeira justificada que não é conhecimento.
(Em vez dos contra-exemplos desse filósofo, vamos considerar outros, equivalentes mas mais fáceis de entender.)

1. Contra-exemplo formulado pelo filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970).
“O relógio da igreja da tua terra é bastante fiável e costumas confiar nele para saber as horas. Esta manhã, quando vinhas para a escola, olhaste para o relógio e viste que ele marcava exactamente 8h e 20m. Por isso, formaste a crença de que eram 8h e 20m. O facto do relógio ter sido fiável no passado justifica a tua crença. Contudo, sem que o soubesses, o relógio tinha avariado no dia anterior exactamente quando marcava 8h e 20m. Assim, tens uma crença verdadeira justificada que não é conhecimento.”

Luís Rodrigues e outros, “Filosofia – 11º”, 1ª edição, 2004, Plátano Editora, pág. 198.

2. Contra-exemplo formulado por Jonathan Dancy, no livro “Epistemologia Contemporânea”:

“Henry está a ver televisão numa tarde de Junho. Assiste à final masculina de Wimbledon e, na televisão, McEnroe vence Connors; o resultado é de dois a zero e ‘match point’ para McEnroe no terceiro ‘set’. McEnroe ganha o ponto. Henry crê justificadamente que

1. Acabei de ver McEnroe ganhar a final de Wimbledon deste ano, e infere sensatamente que
2. McEnroe é o campeão de Wimbledon deste ano.

No entanto, as câmaras que estavam em Wimbledon deixaram na realidade de funcionar, e televisão está a passar uma gravação da competição do ano passado. Mas enquanto isto acontece, McEnroe está prestes a repetir a retumbante vitória do ano passado. Portanto, a crença 2 de Henry é verdadeira, ele tem decerto justificação para crer nela. Contudo, dificilmente aceitaríamos que Henry conhece 2.”

Jonathan Dancy, “Epistemologia Contemporânea”, Edições 70, pp. 41-42.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O que mais importa não é viver, mas viver bem

Num diálogo intitulado Críton, Platão relata a forma como Sócrates (condenado à morte pelo tribunal em 399 a.C por, entre outras acusações, corromper a juventude) responde à proposta que alguns dos seus discípulos lhe fazem: fugir em vez de aceitar a sentença fatal. As adversidades, a confusão e o mau ambiente que reinam nas escolas portuguesas levaram-me a reler este diálogo de Platão.
Para não esquecer o que é verdadeiramente importante, aqui ficam as palavras de Sócrates.

Críton: (…) Mas, caro Sócrates, uma vez mais te peço, obedece-me e salva-te. É que, se morreres não será para mim uma desgraça só, além de ficar privado de um amigo como não tornarei a achar outro, ainda farei aos olhos da maioria, que não nos conhece bem, nem a mim nem a ti, o papel de alguém que podendo salvar-te, se quisesse gastar dinheiro, não esteve para se incomodar. E que fama pode haver mais vergonhosa que parecer ter em maior conta o dinheiro do que os amigos? A maioria das pessoas nunca acreditará que foste tu que não quiseste sair daqui, apesar da insistência dos nossos pedidos.

Sócrates: Portanto, meu caro, não devemos preocupar-nos muito com as afirmações da maioria, mas sim (…) com a verdade. Não é, por isso, boa a tua sugestão inicial de que devemos preocupar-nos com a opinião da maioria sobre a justiça e a bondade (…). Em todo o caso, poderá alguém observar: a maioria é muito capaz de nos mandar matar.

Críton: Evidentemente, poderia muito bem dizer-se isso, ó Sócrates.

Sócrates: Mas, meu caro, a lógica seguida parece-me ser a mesma de há pouco. E repara de novo se este princípio permanece ou não: o que mais importa não é viver, mas viver bem.”

Platão, Êutifron, Apologia de Sócrates,Críton, Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1990.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Conselho de Sócrates: pensem bem antes de me darem razão

Quadro de Jacques Louis David: "A morte de Sócrates", de 1787.

Se for verdadeiro aquilo que Platão conta no Fédon, Sócrates passou as últimas horas da sua vida a filosofar. Ele e alguns amigos discutiram se a alma é ou não imortal e se poderá ou não existir vida depois da morte. Pelo meio, reflectiram acerca do sentido da existência.
Sócrates estava na prisão aguardando a hora da sua execução, uma vez que tinha sido condenado à morte. Consta que Sócrates teve oportunidade de fugir mas não o fez, pois não queria desobedecer à lei – apesar de considerar injusta a sua condenação.
Sócrates estava calmo e sereno e por diversas vezes tranquilizou os seus comovidos e chorosos amigos.
Ao longo do debate Sócrates incentivou várias vezes os amigos a apresentarem-lhes dificuldades e objecções e aconselhou-os a não se apressarem a concordar com ele.
A certa altura disse-lhes o seguinte:
“Se querem um conselho, preocupem-se pouco com Sócrates e muito mais com a verdade! Se vos parecer que o que eu digo é verdadeiro, pois dêem-me razão; caso contrário, apresentem-me tudo o que têm a objectar. E vejam lá, não vá eu, no meu excesso de zelo, iludir-me a mim e a vós também, para logo me escapar como a abelha, depois de ter cravado o ferrão!”

Platão, Fédon, 91c, 5ª edição, Lisboa Editora, 1997, pág. 88.

domingo, 2 de novembro de 2008

O que importa em Filosofia é o debate das ideias

Bertrand Russell (1872-1970)

Num texto muito conhecido sobre o valor da Filosofia, o filósofo Bertrand Russell diz o seguinte:

“Tendo agora chegado ao fim da nossa análise breve e muito incompleta dos problemas da filosofia, será vantajoso que, para concluir, consideraremos qual é o valor da filosofia e porque deve ser estudada. É da maior necessidade que examinemos esta questão, tendo em conta que muitas pessoas, sob a influência da ciência ou de afazeres práticos, se inclinam a duvidar de que a filosofia seja algo melhor do que frivolidades inocentes mas inúteis, distinções demasiado subtis e controvérsias sobre matérias acerca das quais o conhecimento é impossível (…).

Mas mais, se não queremos que a nossa tentativa para determinar o valor da filosofia fracasse, temos de libertar primeiro as nossas mentes dos preconceitos daqueles a que se chama erradamente homens "práticos". O homem "prático", como se usa frequentemente a palavra, é aquele que reconhece apenas necessidades materiais, que entende que os homens devem ter alimento para o corpo, mas esquece-se da necessidade de fornecer alimento à mente. Mesmo que todos os homens vivessem desafogadamente e que a pobreza e a doença tivessem sido reduzidas ao ponto mais baixo possível, ainda seria necessário fazer muito para produzir uma sociedade válida; e mesmo neste mundo os bens da mente são pelo menos tão importantes como os do corpo. É exclusivamente entre os bens da mente que encontraremos o valor da filosofia; e somente aqueles que não são indiferentes a estes bens podem ser convencidos de que o estudo da filosofia não é uma perda de tempo (…).

Na verdade, o valor da filosofia tem de ser procurado sobretudo na sua própria incerteza. O homem que não tem a mais pequena capacidade filosófica, vive preso aos preconceitos derivados do senso comum, das crenças habituais da sua época ou da sua nação, e das convicções que se formaram na sua mente sem a cooperação ou o consentimento reflectido da sua razão. Para um tal homem o mundo tende a tornar-se definido, finito, óbvio; os objectos vulgares não levantam quaisquer questões e as possibilidades invulgares são desdenhosamente rejeitadas. Assim que começamos a filosofar, pelo contrário, verificamos que mesmo os objectos mais comuns levam a problemas a que apenas podemos dar respostas muito incompletas. Embora a filosofia seja incapaz de nos dizer com certeza qual é a resposta verdadeira às dúvidas que levanta, é capaz de sugerir muitas possibilidades que alargam os nossos pensamentos e os libertam da tirania do costume. Assim, embora diminua o nosso sentimento de certeza quanto ao que as coisas são, a filosofia aumenta muito o nosso conhecimento do que podem ser; elimina o dogmatismo um tanto arrogante daqueles que nunca viajaram na região da dúvida libertadora e, ao mostrar as coisas que são familiares com um aspecto invulgar, mantém viva a nossa capacidade de admiração.”
Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia, Oxford University Press, Oxford, 2001, pp. 89-94 (Trad. de Álvaro Nunes)

A atitude adoptada por aqueles que reflectem sobre os problemas filosóficos designa-se, habitualmente, como “crítica”. Podemos caracterizá-la, tal com faz Russell, por oposição àquela que é adoptada pelo “homem prático” – o que se recusa a analisar o fundamento racional das suas ideias e a pensar e agir por si próprio.

Este ponto de vista, característico dos que preferem não “fazer uso do seu próprio entendimento” (nas célebres palavras de Kant), pode ser descrito, metaforicamente ou não, de diferentes formas: por exemplo num post deste blogue ("Os filósofos não andam com a cabeça nas nuvens" - http://duvida-metodica.blogspot.com/search/label/Atitude%20cr%C3%ADtica), Platão e Heidegger apresentam, por outras palavras e de modo metafórico, algumas ideias bastante semelhantes a essas ideias de Russell. O que é curioso, pois trata-se de filósofos que, além de terem pontos de vista bastantes distintos, têm estilos de escrita completamente diferentes. Tal facto significa que em Filosofia as mesmas ideias podem ser apresentadas por palavras diferentes. O que importa discutir é a sua verdade e e sua justificação e não aspectos acessórios, como o carácter do filósofo que as emitiu ou as suas posições políticas. Caso nos concentremos nesses aspectos acessórios, não estaremos a fazer aquilo que verdadeiramente importa em Filosofia: o debate racional das ideias.

Citando ainda o texto, já mencionado, do filósofo Bertrand Russell:

“(…) o intelecto livre dará mais valor ao conhecimento abstracto e universal, no qual os acidentes da história privada não entram, do que ao conhecimento originado pelos sentidos e dependente, como este conhecimento tem de ser, de um ponto de vista exclusivo e pessoal e de um corpo cujos órgãos dos sentidos deformam tanto quanto revelam. A mente que se habituou à liberdade e à imparcialidade da contemplação filosófica conservará alguma desta mesma liberdade e imparcialidade no mundo da acção e da emoção.”

Imagina que pedimos a uma pessoa para ler um pequeno texto (que ela não conhecia) de um certo filósofo. Imagina também que ela já tinha tentado ler outros textos desse mesmo filósofo, mas tinha concluído – supõe que acertadamente – que estes eram pouco claros e desnecessariamente difíceis. Se essa mesma pessoa mal prestasse atenção a esse texto e se apressasse a dizer que também ele (por ser desse filósofo) era pouco claro - revelaria uma atitude crítica? Estaria a pôr em prática a “imparcialidade” que Russell diz ser condição do filosofar?

Imagina que em vez de argumentarmos a favor ou contra uma ideia de um determinado filósofo, nos limitamos a tecer considerações acerca de episódios criticáveis da sua vida (como por exemplo: ter defendido o nazismo, ter sido desleal com colegas e amigos, etc) ou a recordar experiências negativas que tivemos na faculdade quando estudámos este filósofo. Se fizéssemos isso, estaríamos a adoptar uma atitude crítica?

Nota: O texto de Bertrand Russell acerca do valor da Filosofia pode ser lido no site Filosofia e Educação: http://www.filedu.com/brussellvalor da filosofia.html

terça-feira, 28 de outubro de 2008

sábado, 25 de outubro de 2008

Os filósofos não andam com a cabeça nas nuvens

«No diálogo Teeteto, Platão refere: “Conta-se, acerca de Tales, que teria caído num poço quando se ocupava com a esfera celeste e olhava para cima. Acerca disto, uma criada trácia, espirituosa e bonita, ter-se-ia rido e dito que ele queria, com tanta paixão, ser sabedor das coisas do céu, que lhe permaneciam escondidas as que se encontravam diante do seu nariz e sob os seus pés.”
Platão acrescentou ao relato desta história, a seguinte afirmação: “O mesmo escárnio aplica-se a todos os que se ocupam da filosofia.” A filosofia é, portanto, aquele modo de pensar (…) acerca do qual as criadas necessariamente se riem.»

M. Heidegger, Que é uma coisa?, Edições 70, 1992, pp. 14-15.


Na linguagem do dia-a-dia a palavra “filósofo” é muitas vezes utilizada, pejorativamente, como equivalente a:

- “aquele que divaga: fala, fala e não diz nada”;

- “aquela criatura irritante que só sabe fazer perguntas”;

- “aquele que só tem teorias e é incapaz de apresentar soluções para os problemas práticos: fala mas não age, critica mas não faz”.

É verdade que esta caricatura descreve alguns daqueles que estudam ou ensinam Filosofia – nomeadamente, os que utilizam um discurso obscuro com uma terminologia filosófica pomposa, e supostamente erudita, que visa ocultar a falta de clareza das ideias ou até a ausência destas.

É fácil perceber porque motivo existe essa imagem negativa do filósofo, cuja tradição é longa (Platão descreveu-a a propósito de Tales de Mileto, considerado o primeiro filósofo). Basta considerar o facto de cada um de nós viver imerso em preocupações quotidianas de natureza prática e de, na voragem do dia-a-dia, o tempo e o distanciamento em relação ao imediato – condições necessárias à reflexão – serem, para a maior parte das pessoas, escassos ou inexistentes. Além disso, vivemos numa época em que a rapidez dos resultados e a mera eficácia prática são critérios essenciais para avaliar o sucesso de qualquer actividade.

Filosofar requer a análise e o questionamento das nossas ideias fundamentais, o conhecimento e o confronto com opiniões diferentes das nossas. Tudo isto surge aos olhos das pessoas “práticas” como algo bizarro e incómodo: Para quê pensar, se é mais fácil obedecer? Porquê adoptar uma atitude inconformista, se beneficiamos mais em seguir a opinião dos que detêm o poder? Para quê questionar as nossas crenças básicas, quando é muito mais fácil seguir as ideias feitas, a tradição, o senso comum, etc?

Por isso, para a maioria das pessoas ligadas a um qualquer poder instituído (seja ele de que natureza for) e aos interesses instalados, os que analisam e discutem ideias são um alvo a abater: é assim agora e sempre assim foi no passado (actualmente em Portugal podemos encontrar, nomeadamente nas escolas e nos partidos políticos, muitos exemplos que ilustram este facto). É natural que a esses importe transmitir da Filosofia e dos que dela se ocupam a visão caricatural a que Platão faz alusão.

Na Alegoria da Caverna, referindo-se à condição humana, Platão descreve o caminho árduo do prisioneiro em direcção à luz e ao conhecimento – no entanto será sempre nossa a decisão de escolher percorrê-lo ou optar por ficar no interior da caverna. Por outras palavras: escolher entre a lucidez decorrente da atitude crítica e uma vida vivida sem reflectir. Aos olhos das “criadas”, trácias ou não, o modo de pensar filosófico será sempre risível e os filósofos andarão sempre com a cabeça nas nuvens.

sábado, 13 de setembro de 2008

A Alegoria da Caverna e a televisão

Na Alegoria da Caverna, Platão descreve um grupo de homens que vivem presos no fundo de uma caverna e que consideram reais as sombras projectadas na parede. Para eles, essas sombras são a realidade – a única realidade.
Platão termina a Alegoria dizendo que os prisioneiros são semelhantes a nós. Essa semelhança significa que nós muitas vezes também confundimos a aparência com a realidade e julgamos verdadeiro o que é falso. Não estamos presos por correntes metálicas como os prisioneiros descritos por Platão, mas por outro género de “correntes”, que não imobilizam o corpo mas sim a mente: preguiça, medo, vícios, falta de espírito crítico, etc.
Inspirando-se na Alegoria da Caverna, o artista brasileiro Maurício criou uma pequena banda desenhada ("As Sombras da Vida") em que compara os prisioneiros, que julgam as sombras reais, com as pessoas “viciadas” em televisão, que confundem as suas imagens com a vida. Como é evidente, não é a televisão em si que é uma “corrente” mas a atitude acrítica e passiva que muitas pessoas têm perante ela.

(Pode encontrar essa banda desenhada aqui: clique em Quadradinhos, depois em Histórias Seriadas e finalmente em Piteco: As Sombras da Vida).
Para ilustrar essa ideia existem muitos outros exemplos: as pessoas que discutem as acções e personalidades das personagens das telenovelas como se estas fossem pessoas reais; as pessoas, nomeadamente crianças, que imitando os feitos dos super-heróis vistos na TV tentam voar ou dar saltos impossíveis; as pessoas que em vez de praticar desporto passam horas sentadas no sofá a ver desportos na TV; etc.