“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.”
John Stuart Mill
Há um facto indiscutível acerca da Filosofia (e do ensino desta no secundário) em Portugal: existem, publicados nos últimos anos excelentes livros e traduções do que melhor se faz aqui e no estrangeiro. Os professores de Filosofia que não se actualizam e não os lêem é, suponho, por preguiça ou porque não atribuem suficiente relevância àquilo que é mais importante.
Um exemplo que permite ilustrar as afirmações anteriores é o que se segue.
Pensar de A a Z, de Nigel Warburton Lisboa: Bizâncio, Setembro de 2012, 240 pp. Tradução de Vítor Guerreiro Revisão científica e introdução de Desidério Murcho
O prefácio, da autoria de Desidério Murcho, pode ser lida na revista Crítica, AQUI.
Do autor de «Gente Independente» e «Os Peixes Também Sabem Cantar»... «O SINO DA ISLÂNDIA», de HALLDÓR LAXNESS No final do século XVII, o emissário e carrasco do rei da Dinamarca confisca o sino de Þingvellir, velho símbolo da independência islandesa, com ordens para o desmantelar em peças e para o levar até Copenhaga. Jón Hreggviðsson, um agricultor condenado pela justiça por ser um ladrão de cordas, é acusado do seu homicídio. A sua fuga ocupará a justiça durante mais de 30 anos, transformando-o num peão dentro de um jogo que tem por cenário a história de conflitos políticos e sociais vividos entre 1650 e 1790 entre a potência dinamarquesa e a oprimida colónia islandesa. Marcado por uma narrativa arrebatadora em cada página, «O Sino da Islândia» é aclamado como uma das obras maiores do prémio nobel islandês. Informação retiradadaqui.
Nossa vida no mundo é apenas um grande sonho. Então, para quê nos atormentarmos? Prefiro beber o dia inteiro, e ficar deitado à sombra.
Ao acordar, olho em redor: um pássaro gorjeia entre as flores. Rogo-lhe que me informe sobre a estação do ano, e ele responde que estamos na época em que a primavera faz cantarem os pássaros.
Como principiava a enternecer-me, recomecei a beber, cantei até a lua chegar e de novo tornei a perder a noção das coisas.
Li Po (tradução de Cecília Meireles)
Nota: O poema foi tirado do livro(presumo) e foi copiado daqui. Julgo que a tradução foi publicada apenas no Brasil (não sei se a transcrição é ou não correcta, espero que seja).
A colecção dos livros do Sapo, do holandês Max Velthuijs (muito famoso ao que parece entre as crianças da sua terra e da nossa), tem os melhores livros infantis que eu conheço. Os meus filhos também o confirmaram.
O segredo é simples: desenhos maravilhosos, linguagem simples (sem falsos moralismos) e temas interessantes: a amizade, o amor, a morte, o preconceito, o medo... Explicações sem pressupostos, perguntas para fazer pensar e situações relacionadas com as vivências das crianças.
Uma maravilha também para adolescentes e adultos. Pois, afinal, a todos interessa saber, por exemplo, o que é estar apaixonado. Não será?
Descobri no Youtube a história narrada por crianças e garanto-vos que é uma delícia ouvi-la!!!
Para conhecer mais sobre outros livros do Sapo, ver AQUI.
Outro artigo, neste blogue, acerca dos livros do Sapo: AQUI.
Para os meus alunos que vão fazer, amanhã, exame nacional de Filosofia.
"Pergunta-se então para que serve a filosofia, e sugere-se que não serve para coisa alguma. Mas a pergunta está feita ao contrário porque a filosofia não é como um rio que já existe e acerca do qual perguntamos para que serve; a filosofia é antes como uma casa que construímos para responder às nossas necessidades. Assim, a pergunta correcta é porque fazem os filósofos filosofia. E a resposta é que a fazem porque essa é a única maneira de responder a problemas que nos fascinam e que queremos esclarecer tanto quanto possível, mesmo que sejamos incapazes de lhes dar respostas definitivas."
Desidério Murcho, 7 ideias filosóficas que toda a gente devia conhecer, Editorial Bizâncio, pág. 138.
No Verão de 2007 li o romance "Gente independente". Comprei este livro por uma má razão: o título. O autor, com um nome para mim impronunciável, era-me totalmente desconhecido e não sabia nada sobre a história. Todavia, depois de começar a lê-lo acabei por ficar rendida às lendas da inóspita Islândia, aos personagens, à história e às reflexões do escritor, algumas delas bastante filosóficas. É um daqueles casos em que a leitura, depois do leitor ser apanhado pela trama da história, se torna compulsiva, apesar das 479 páginas deste romance.
Nos actuais tempos de crise - financeira, mas também de "valores" (como se costuma dizer, seja lá o que isso for) - acontece-me muitas vezes lembrar algumas passagens deste livro. Em particular, aquelas que se referem ao elevado preço que o personagem principal, Bjartur, pagou ao longo da sua vida para manter a sua independência e integridade.
Aconselho vivamente a sua leitura!
A música é da banda islandesa Sigor Ros. As imagens do vídeo são da Islândia e têm muito a ver com o ambiente em que se passa a história narrada no romance "Gente independente". Mas eu não vou explicar porquê. Se quiserem descobrir leiam o livro.
Para os alunos que se inscreveram no exame nacional de Filosofia saiu um livro, da autoria de Pedro Galvão e António Lopes, que vos poderá ser muito útil e que aconselho vivamente.
Para os meus alunos do 11º C e D que têm teste intermédio de Biologia amanhã.
O prefácio de Darwin ao livro (traduzido em português por Vítor Guerreiro) pode ser lido aqui. Sobre a importância desta obra de Darwin, vale a pena ler aqui.
Nas aulas de Filosofia (do 11º ano), tenho questionado os alunos acerca do significado de uma das ideias de Darwin - “a seleção natural” – que fazem parte do programa de Biologia e Geologia e que eles andam a estudar agora (o teste intermédio desta disciplina é amanhã). Para se compreender a forma como Popper explica a evolução da ciência é preciso entender algumas ideias básicas de Darwin. Segundo este filósofo, o que acontece em relação ao progresso científico é comparável ao que se passa no reino animal. Na ciência apenas sobrevivem as teorias mais aptas que, ao serem submetidas a testes, resistem às tentativas de refutação. É devido a esta “seleção natural” que os erros vão sendo eliminados ou corrigidos e a ciência nos permite obter cada vez mais e melhores explicações para os fenómenos.
O que me impressionou nas respostas dos alunos - e me deu que pensar - foi a maneira mecânica e enfadada como alguns alunos reproduziram algumas das ideias de Darwin, como se nelas não houvesse nada de entusiasmante. Observei-lhes que eu tinha descoberto - por mero acaso - um facto que me parecia, verdadeiramente, extraordinário e que contrariava a atitude entediada que alguns deles demonstravam em relação a este assunto:
A obra de Darwin, “A origem das espécies” encontra-se traduzida em português e é uma das obras cuja leitura é aconselhada no Plano Nacional de Leitura (LER +) implementado pelo ministério.
Resposta de vários alunos (admito que há exceções, mas são uma minoria silenciosa nas aulas):
- “Oh, professora, mas nós não lemos livros desses! Não gostamos de ler!”
Retorqui:
- “E, então, porque é que querem ir para a universidade?”
Numa passagem interessante do romance Pensamentos Secretos [i], Ralph Messenger (formado em filosofia e especialista em ciências cognitivas) recorda algumas conversas que teve com a romancista Helen Reed e pensa que esta, além de ser bonita e ter umas “boas pernas”, tem outras qualidades:
“é uma mulher (…) esperta, de inteligência rápida, boa a argumentar, preparada para defender os seus pontos de vista, gosto disso, há demasiadas pessoas que acham que discutir coisas que interessam, discutir para ganhar, é de certa forma de mau gosto”.
Quando li essas palavras lembrei-me logo de imensas situações a que assisti em que a tentativa de discutir ideias gerou mal-estar (e de que fiz uma breve descrição aqui). Aposto que em Portugal esse mal-estar, tipicamente relativista, é maior e mais frequente que em Inglaterra.
«- …Pode-se sempre correr as persianas da consciência. Nunca sabemos ao certo o que outra pessoa está realmente a pensar. Mesmo que decida contar-nos, nunca podemos saber se está a dizer-nos a verdade, ou a verdade toda. E, pelo mesmo raciocínio, ninguém pode conhecer os nossos pensamentos como nós os conhecemos.
- E provavelmente ainda bem. A vida social seria bem mais difícil de outra forma.
Exatamente. Imagine como teria sido a festa dos Richmonds se toda a gente tivesse aqueles balões por cima das cabeças, como na banda desenhada para crianças, com Pensamentos… dentro delas. - Ao dizer isto, ele crava os olhos em Helen, como se a especular sobre os pensamentos dela nesse momento.
Ela cora ligeiramente. – Suponho que é por isso que as pessoas leem romances – diz ela. Para descobrir o que se passa nas cabeças de outras pessoas.
- Mas tudo aquilo que descobrem realmente é o que se passou na cabeça do escritor.»
David Lodge, Pensamentos secretos, Edições Asa, Porto, 2002, pág. 52.
Pode ler outro interessante excerto do romance aqui, e uma boa crítica (de Desidério Murcho) aqui.
«Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar.
Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.»
Antonio Tabuchi, A mulher de Porto Pim, 5ª edição, Difel, pp. 94-95.
(Antonio Tabuchi morreu hoje. Inexplicavelmente gostava de Portugal.)
“Todos os nossos raciocínios relativos a questões de facto, defende Hume, se baseiam na relação de causa e efeito. Mas como chegamos ao nosso conhecimento das relações causais? (…) Ao olhar apenas para a pólvora, nunca poderíamos descobrir que é explosiva; é preciso experiência para saber que o fogo queima as coisas. Mesmo as mais simples regularidades da natureza não poder estabelecidas a priori porque uma causa e um efeito são dois acontecimentos totalmente diferentes e um não pode ser inferido do outro. Vemos uma bola de bilhar a mover-se na direcção de outra e esperamos que transmita movimento à outra. Mas porquê?
A resposta, obviamente, é que descobrirmos as regularidades da natureza através da experiência. Mas Hume leva a sua indagação mais além. Mesmo depois de termos a experiência das operações de causa e de efeito, pergunta, que bases existem na razão para inferir conclusões dessa experiência? A experiência apenas nos dá informação sobre ocorrências passadas: porque haveria de ser alargada a objectos futuros, que, tanto como sabemos, só se assemelham aos objectos passados na aparência? O pão alimentou-me no passado, mas que razões tenho para acreditar que o irá fazer no futuro?"
Anthony Kenny, Ascenção da Filosofia moderna, Edições Gradiva, Lisboa 2011, págs. 170-171.
Como se podem tentar refutar as ideias que Hume defende?
“Estás realmente feliz com a tua vida? O teu companheiro compreende realmente as tuas necessidades? Criar os teus filhos dá-te realmente um sentido de realização? Não há nada de mal em analisarmos a nossa vida. A vida é tudo o que temos e não há nada mais importante do que viver uma vida boa. Mas típico dos humanos é a interpretação perversa da forma como a devemos analisar: pensamos que analisar a nossa vida é a mesma coisa que analisar os nossos sentimentos, quando olhamos para dentro e vemos o que cá está e o que não está, a conclusão a que chegamos é muitas vezes negativa. Não nos sentimos da maneira que queríamos ou da maneira que pensamos que nos devíamos sentir. Então o que é que fazemos? Como bons viciados na felicidade que somos, vamos atrás da próxima dose: um ou uma jovem amante, um carro novo, uma casa nova, uma vida nova – qualquer coisa desde que nova. Para os viciados, a felicidade provém sempre de qualquer coisa, desde que nova (…) e se isto não resultar – o que acontece muitas vezes -, há um exército de profissionais muito bem remunerados à nossa espera, que terão o maior prazer em nos dizer onde e como arranjamos a próxima dose.”
Mark Rowlands, O filósofo e o lobo, tradução de Rosário Nunes, Lisboa, 2009, Edições Lua de papel, págs. 146-147.
O texto anterior descreve uma perspectiva subjetivista acerca do sentido da vida. Há, porém, outras formas de encararmos esta questão. E que tal, procurarmos fazer algo que tenha, de facto, valor objetivo?
“Reflecte pois nisto meu filho. Errar é comum a todos os homens. Mas quando errou, não é imprudente nem desgraçado aquele que, depois de ter caído no mal, lhe dá remédio e não permanece obstinado. A teimosia merece o nome de estupidez.”
Sófocles, Antígona, traduzido do grego por Maria Helena da Rocha Pereira, Edição Fundação Calouste Gulbenkian, 8ª Edição, Lisboa 2008, pág. 9.
A música do compositor Serguei Prokofiev inspirou Miguelanxo Prado a desenhar um magnífico livro (publicado em Portugal pela Editora Meribérica/Liber), que é uma adaptação em banda desenhada da história musical de "Pedro e o Lobo". Além da qualidade e da beleza dos desenhos, há narração da história (parca em palavras).
Para adultos e crianças. Mas não para os rapazes, pois eles, tal como o Pedro, não têm medo de lobos. Ou os lobos maus existirão também fora das histórias?
A Biblioteca da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa adquiriu há poucos dias este livro:
Por vezes “pergunta-se (…) para que serve a filosofia e sugere-se que não serve para coisa alguma. Mas a pergunta está feita ao contrário porque a filosofia não é como um rio que já existe e acerca do qual perguntamos para que serve; a filosofia é antes como uma casa que construímos para responder às nossas necessidades. Assim, a pergunta correta é porque fazem os filósofos filosofia. E a resposta é que a fazem porque essa é a única maneira de responder a problemas que nos fascinam e que queremos esclarecer tanto quanto possível, mesmo que sejamos incapazes de lhes dar respostas definitivas.”