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terça-feira, 10 de abril de 2012

Na opinião dos alunos, existe ou não livre arbítrio?

2 caminhos

No 1º teste do segundo período (Fevereiro) perguntei aos alunos: “existe ou não livre arbítrio?”, e pedi para justificarem as suas opiniões. As duas melhores respostas foram do Lucas Sá, do 10º A, e do Rafael Fonseca, do 10º D.

O Lucas nega a existência do livre-arbítrio, enquanto o Rafael defende a sua existência.

 

Na minha opinião, o livre-arbítrio não existe e a teoria que melhor resolve o problema do livre-arbítrio é o Determinismo Radical. Como estudámos, as ações humanas são acontecimentos e todos os acontecimentos têm uma causa. Quer consideremos o computador que se estragou ou a queda de um meteorito, iremos invariavelmente encontrar causas para todos os acontecimentos conhecidos. É por conseguinte plausível, e na minha opinião bastante provável, que também as nossas ações tenham causas: fenómenos físicas, costumes socioculturais, fenómenos psicológicos, a nossa educação, etc. Assim sendo, se não existem acontecimentos sem causas, como poderiam as nossas ações serem livres? A ciência demonstra-nos que para o mesmo conjunto de causas existe sempre o mesmo efeito. Transportando este conhecimento para o problema do livre-arbítrio, para um determinado conjunto de causas apenas existe um efeito, que é a ação praticada e que não poderia ser qualquer outra.

O Libertismo, que defende a existência do livre-arbítrio e nega a existência do determinismo, tem várias objeções ao Determinismo Radical, cada uma menos sólida que a outra. Defendem que algumas ações não têm causas pois não as sentimos, o que me parece pouco razoável, pois se não temos, muitas vezes, a consciência da existência de causas, como podemos possivelmente sentir a sua ausência? O libertista defende então que se não existir livre-arbítrio, a vida não tem sentido. Mas porque é que não haveria de ter? Se uma entidade suprema e muito mais poderosa que nós nos controlasse a seu bel-prazer, a vida de facto não teria sentido. Mas não é isso que acontece. O que nos conduz a uma determinada ação são causas várias que nada têm de superior: são fenómenos naturais e sociais que fazem parte da vida. Assim sendo, e apesar de considerar que o livre-arbítrio não existe, penso que a minha vida não perdeu o sentido. Por fim, o libertista invoca o argumento da responsabilidade, que diz que apenas faz sentido responsabilizar as pessoas pelas suas ações caso exista livre-arbítrio. É Um facto que todos nós responsabilizamos as outras pessoas, mas na minha opinião o raciocínio libertista não está correto por duas razões: em primeiro lugar, se todos os acontecimentos são causados por causas anteriores, o facto de responsabilizarmos as pessoas e de as criticarmos/elogiarmos também é provavelmente determinado e inevitável; por outro lado, pode-se abordar a questão da responsabilidade dizendo que ao criarmos castigos/prémios para os culpados/merecedores de aprovação, estes castigos/prémios tornar-se-ão uma causa para as pessoas do futuro e poderão levar a que essas pessoas se “portem melhor” (pratiquem ações corretas devido à existência de prémios e não pratiquem ações erradas devido à existência de castigos). Assim sendo, penso que o Libertismo está totalmente errado, e que os libertistas defendem o livre-arbítrio talvez por esta crença ser a mais atraente e não a mais justificada.

Posso então comparar o Determinismo Radical e o Determismo Moderado. Ambos defendem a existência de causas anteriores à ação, mas enquanto que o DR rejeita o livre-arbítrio, o DM defende a sua existência. Como já referi, não acredito na existência de livre-arbítrio, e penso que o Determinismo Moderado tem uma má abordagem do problema, pois defende que todas as ações têm causas anteriores, mas que algumas são livres pois não existem coações imediatas. Na minha opinião, o que o Determinismo Moderado faz é “baixar a fasquia”, ou seja, simplifica a questão. Para conseguir compatibilizar o determinismo com o livre-arbítrio, o determinista moderado altera a conceção de “livre-arbítrio”: enquanto que para o Libertismo e para o Determinismo Radical o livre-arbítrio é a ausência de causas anteriores à vontade do agente (autodeterminação) e de coação imediata, o Determinismo Moderado entende-o apenas como a ausência de coação (se não houver coação, a ação é livre). Penso que o que o determinista moderado faz é empobrecer o conceito, é simplificar o que não é simplificável. Como poderá algo tão profundo e complexo como o livre-arbítrio ser a mera ausência de coação? O determinista moderado contrapõe dizendo que a autodeterminação é um mito e que a discussão libertista vs determinista radical é fútil. Mas penso que não é. Se a autodeterminação existir, existem ações livres, caso contrário elas não existem. Mas podemos abordar a questão por outro lado. Consideremos duas situações iguais, em que todas as causas foram iguais, por exemplo, dois mundos paralelos (vamos assumir que existem). Nestes dois mundos, existe um mesmo indivíduo, e tudo o que aconteceu antes na sua vida foi igual, não há uma única diferença. Este indivíduo encontra-se então perante uma bifurcação, e não existem coações imediatas que o impeçam (ou obriguem) de seguir para qualquer um dos lados, ou seja, sobre a “escolha” de ir para a esquerda ou para a direita. Poderá o indivíduo realmente escolher ir para a direita num mundo e para a esquerda noutro? Já vimos que a mesma causa levam ao mesmo efeito, e não sendo o ser humano especial, penso que ele não pode optar por caminhos diferentes. Ou seja, não existem possibilidades alternativas, e como tal, ainda que não existam coações imediatas, a escolha do indivíduo não é realmente livre, pois ele não fez o quis, mas sim o que estava determinado. Posto isto, penso que também o Determinismo Moderado não tem uma boa resposta ao problema do livre-arbítrio.

Finalizando o meu raciocínio, “sobra-me” apenas o Determinismo Radical, que defende a “não-existência” do livre-arbítrio. Poderá não ser a opção mais atraente e apelativa, mas parece-me ser a melhor fundamentada e defendida. Concluindo assim como iniciei, na minha opinião, o livre-arbítrio não existe.

Lucas Seara de Sá, 10ºA.

Vou defender que existe livre-arbítrio se o entendermos à semelhança da teoria conhecida como Determinismo Moderado (DM). Contudo, não existe livre-arbítrio em termos de realizar uma ação autodeterminada, isto é, sem causas anteriores excetuando a própria vontade do agente. Isso é impossível pois os nossos genes, a nossa personalidade, fatores familiares, fatores sociais, etc. estão-nos sempre a influenciar, embora geralmente não tenhamos consciência disso. Portanto, podemos ver que o Libertismo é uma teoria falhada, pois o seu principal argumento (Se algumas ações não têm causas anteriores, então são livres; algumas ações não têm causas anteriores; logo, são livres) está errado e poderíamos arranjar inúmeras provas empíricas para defender que, de facto, somos influenciados naquilo que fazemos, pelas causas referidas acima. Se fizermos a experiência mental de escolher aleatoriamente uma ação X qualquer que tenhamos realizado, e perguntarmos porque fizemos essa ação encontraremos sempre um desses fatores, ou até mais do que um. E se nos questionarmos sobre a causa desse fator encontraremos outro fator anterior, e por aí adiante; ou seja, descobriremos uma enorme teia causal, remetendo até a acontecimentos longínquos que afetaram a ação X.

É, então, impossível realizar uma ação autodeterminada.

Restam o Determinismo Radical (DR) e o DM, sendo a primeira uma teoria incompatibilista e a segunda compatibilista. O DR defende que todas as ações são determinadas por causas anteriores e por isso não existe livre-arbítrio. O DM defende que todas as ações são determinadas por causas anteriores mas que isso não é incompatível com a existência de livre-arbítrio.

Bem, se o livre-arbítrio como autodeterminação não existe, teremos que aceitar o DR? Segundo o DM, o conceito do livre-arbítrio como autodeterminação é apenas uma fantasia, um desejo, o reflexo da necessidade do Homem de sentir que tem algum controlo sobre si mesmo. De facto, parece muito implausível que possam existir ações sem causas anteriores. Mas isso não significa que o DR seja a resposta.

Penso que aceitar o DR como verdadeiro seria enlouquecedor. Como poderia a vida ter sentido se tudo o que fazemos fosse predeterminado? Se acreditasse realmente que não tenho livre-arbítrio, sentir-me ia encurralado. Se não existisse livre-arbítrio, a responsabilidade desapareceria. Como poderíamos condenar assassinos e louvar heróis se as suas ações seriam igualmente desprovidas de liberdade, se seriam ambos prisioneiros dos seus fatores precedentes, sofrendo de uma total ausência de controlo?

O DM tem então a resposta. Sim, somos influenciados por fatores anteriores em tudo o que fazemos, mas isso não nos tira o livre-arbítrio. As nossas ações são livres desde que não sejamos alvos de coações imediatas, internas ou externas. (Por exemplo, se entregarmos a carteira a um ladrão que tem uma faca encostada ao nosso pescoço não realizaremos uma ação livre.) E isso está de acordo com a experiência da generalidade das pessoas. Antes de tomar uma decisão, antes de realizar uma ação, temos a experiência de liberdade. Conseguimos sentir que tanto podemos escolher uma opção como podemos escolher outra. Sentimo-nos a deliberar, e quando tomamos uma decisão não sentimos que fomos forçados a escolhê-la. Sentimos que foi uma decisão livre e que não fomos obrigados a tomá-la. Digamos que preciso de escolher entre ir a uma festa de um amigo ou a fazer voluntariado para uma instituição de caridade. Sempre fui educado com base na ajuda ao próximo, e no bem geral. No entanto, ao tomar esta decisão sinto-me a deliberar. Peso os prós e os contras de cada escolha que tenho, e mesmo que tenha sido educado para fazer a segunda escolha posso perfeitamente contrariar esse fator e ir na mesma à festa do amigo. A minha educação não me consegue obrigar a escolher um certo caminho. Na minha mente, estes fatores prévios sugerem fortemente que eu faça uma certa escolha, fazem pressão mental. Acho até bastante adequado uma comparação dos fatores prévios com lobistas na política, tentando pressionar-me a tomar uma certa decisão. No entanto, nunca me forçam e a derradeira escolha cabe-me a mim. Influenciam-me sem dúvida, mas não me constrangem, não me obrigam. Por isso, essa ação é simultaneamente determinada e livre.

Rafael Fonseca, 10º D.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Links para o 3º teste

aula d eética

Problema do livre-arbítrio:

Pêssegos e duelos: exemplos ilustrativos do problema do livre-arbítrio

O Determinismo

A resposta do determinismo radical (2)

Se o determinismo radical for verdadeiro, salvar 155 pessoas não tem qualquer mérito

A resposta do libertismo (3)

Argumentos a favor do Libertismo

O livre-arbítrio existe, pois temos consciência dele

O livre-arbítrio é uma criação humana e… existe!

Baixar a fasquia: uma objecção ao Determinismo Moderado

Possibilidades Alternativas: uma objecção ao Determinismo Moderado

Teorias éticas:

Subjetivismo moral: a moralidade é algo muito pessoal

Uma tradição admissível, segundo os relativistas culturais

O bem e o mal dizem apenas respeito à sociedade e à cultura?

Enterrar viva uma pessoa é errado ou isso é relativo?

Será intolerante criticar os ‘crimes de honra´?

Opcional:

Formulação do problema do livre-arbítrio (1)

Terá o determinista radical razão?

Livre-arbítrio e responsabilidade moral: duas situações

Numa guerra, pode-se escolher não matar?

Valores do século XXI

A excisão genital feminina: o testemunho de Waris Dirie

Matriz do 3º teste: turmas A, C e D do 10º ano

 

Matriz do 3º teste de Filosofia 10º ano Problema do livre-arbítrio e teorias éticas C12

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O livre-arbítrio é uma criação humana e… existe!

«O livre-arbítrio é real, mas não é um aspeto preexistente da nossa existência, como a lei da gravidade. E também não é o que a tradição declara que é: um poder divino que dispensa a pessoa do tecido causal do mundo físico. Trata-se de uma criação da atividade e das crenças humanas que evoluiu, e é tão real quanto outras criações humanas, como a música ou o dinheiro. E ainda mais valiosa.»

Daniel C. Dennett, A Liberdade Evolui, Temas e Debates, Lisboa, 2005, pág. 28.

Daniel C. Dennett

(Se clicar no título poderá obter mais informações sobre o livro.)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Livre-arbítrio e responsabilidade moral: duas situações

1. «O homem que, em Julho, matou na Noruega 77 pessoas, maioritariamente jovens, vive num "universo delirante", que lhe permite pensar que pode decidir "quem pode viver e quem pode morrer". As conclusões de psiquiatras nomeados pelo tribunal de Oslo, divulgadas na terça-feira, podem fazer com que Anders Behring Breivik seja declarado inimputável. Em vez de ser condenado à prisão, deverá ser internado numa instituição de saúde.» Para continuar a ler a notícia do jornal Público, ver AQUI.

Se o tribunal norueguês considerar Anders Behring Breivik inimputável, estará a ser justo? Porquê?

2. «Suponha que o raptam e o obrigam a cometer uma série de crimes terríveis. O raptor fá-lo disparar sobre a primeira vítima forçando-o a premir o gatilho de uma arma, hipnotizando-o para que envenene uma segunda e depois empurrra-o de um avião fazendo-o esmagar uma terceira. Milagrosamente sobrevive à queda. A situação deixa-o atordoado, aliviado por ter chegado ao fim da dolorosa experiência. Mas então, para sua surpresa, é detido pela polícia, que o algema e o acusa de homícidio. Os pais das vítimas gritam-lhe obscenidades enquanto a polícia o leva, humilhado.»

Estarão os pais e a polícia a ser justos ao culpá-lo pelas mortes? Porquê?

Theodore Sider, Livre arbítrio e determinismo, Editorial Bizâncio, (capítulo 6), pág. 145.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Free will (Livre-arbítrio)

Steven Pinker e Daniel Dennett, professores em algumas das melhores universidades americanas (e também do mundo!) explicam - de forma clara e simples - ideias filosóficas relacionadas com o problema filosófico do livre-arbítrio.

Reconheço que ao ouvi-los, relembrei os discursos palavrosos e "eruditos" de alguns professores universitários portugueses. Estes falam para o seu círculo de fiéis seguidores, preocupados com as suas carreiras e sem se preocuparem minimamente com a divulgação da Filosofia ou a inteligibilidade das suas ideias. E o resultado é que muito pouco se faz nas universidades portuguesas para fazer chegar a Filosofia ao grande público.

E que tal importamos este modelo americano de clareza e eficácia para Portugal, em vez da conversa vaga e pastosa que só serve para nos pôr a milhas da Filosofia em vez de nos incentivar a  pensar e a argumentar?


 

Numa guerra, pode-se escolher não matar?

A propósito do problema filosófico do livre-arbítrio: o chefe da polícia de Saigão ao executar este homem, durante a guerra do Vietname, está a agir livremente? Ele poderia não disparar?

Guerra do Vietname.

Eddie Adams foi o autor desta foto, onde o chefe de polícia de Saigão mata (em 1 e Fevereiro de 1968) um guerrilheiro. Ganhou, com esta fotografia, o prémio Pulitzer em 1969, mas decidiu abandonar a sua carreira de fotógrafo de guerra. Vale a pena ver o documentário realizado sobre este fotógrafo e a história desta fotografia.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Oportunidade única

"A vida humana acontece só uma vez e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos são dadas uma primeira, segunda, terceira ou quarta hipóteses para que possamos comparar decisões diferentes".

Milan Kundera

(Citação encontrada no facebook sem referência à obra.)

quinta-feira, 3 de março de 2011

O problema do livre-arbítrio no filme: “Os agentes do destino”

O Rafael Fonseca, meu aluno do 10º C, deu-me a conhecer o filme “Os agentes do destino” que estreará, em Portugal, no próximo dia 10 de Março.

Como bem observou o Rafael, a história relatada no filme (inspirada pelo conto "Adjustment Team", de Philip K. Dick) pode relacionar-se com as teorias que estudamos nas aulas a propósito do problema do livre-arbítrio. Serão as nossas acções apenas o resultado de acontecimentos anteriores e a possibilidade de escolha, que julgamos ter ao longo da nossa vida, apenas uma ilusão?

Se querem descobrir a resposta vão ver o filme. É uma ironia, mas não do destino!

Sinopse: David Norris é um carismático congressista norte-americano que parece destinado a grandes feitos políticos, mas esse destino fica em causa quando conhece uma bela bailarina chamada Elise Sellas e estranhos acontecimentos parecem impedi-los de se envolver romanticamente.

Título original: The Adjustment Bureau. De George Nolfi, com Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie e Shohreh Aghdashloo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma abordagem literária do problema do livre-arbítrio

image

Chigurh - um sinistro assassíno,  personagem principal do romance Este país não é para velhos de Cormac Mc Carthy - antes de eliminar mais uma das suas vítimas oferece-lhe a possibilidade escolher entre a vida e a morte, atirando uma moeda ao ar. Profere, então, o discurso seguinte:

“(…) Não me coube a mim decidir. Cada momento das nossas vidas é uma encruzilhada e é também uma escolha. Fizeste algures uma escolha. Tudo o que veio a seguir conduziu a isto. A contabilidade é rigorosa. A forma está traçada. Não se pode apagar uma só linha. Eu não tinha fé na tua capacidade de mover uma moeda de acordo com os teus desejos. Como seria isso possível? O caminho de uma pessoa neste mundo raramente se altera e é ainda mais raro alterar-se abruptamente. E o traçado do teu caminho era visível desde o princípio.

Ela soluçava. Abanou a cabeça.

E todavia, embora eu te pudesse ter dito de antemão como é que tudo isto iria terminar, achei que não era excessivo proporcionar-te um derradeiro lampejo de esperança neste mundo, para te alegrar o coração antes que tombe o véu, as trevas. Compreendes?

Oh, meu Deus, disse ela. Oh, meu Deus.

Sinto muito.

Ela olhou-o pela derradeira vez. Não és obrigado, disse. Não és. Não és.

Ele abanou a cabeça. Estás a pedir-me que me torne vulnerável, e isso é coisa que eu nunca poderei fazer. Só tenho uma maneira de viver, que não admite casos excepcionais. Uma moeda ao ar no máximo. Sem grande utilidade neste caso. A maioria das pessoas não acredita que possa existir alguém assim. Isso deve constituir para elas um grande problema, como facilmente entenderás. Como levar a melhor sobre uma coisa que nos recusamos a conhecer. Compreendes? Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas poderiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes?

Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo.

Ainda bem, disse ele. Óptimo. Depois deu-lhe um tiro.”

Mas este discurso sobre o livre-arbítrio  poderá ser, de facto, percebido?

Não defenderá Chigurh ideias contraditórias?

Conhecer as teorias filosóficas do determinismo (radical e moderado) e do libertismo poderá ajudar a responder a esta questão.

 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Filosofia aplicada

Filosofia aplicada no blogue a filosofia vai ao cinema: dois casos reais de insucesso escolar para discutir o problema do livre-arbítrio. Vale a pena espreitar e pensar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A resposta do determinismo moderado (4)

Acerca dos argumentos apresentados pelo determinismo moderado e de possíveis objecções a esta teoria pode ler aqui e aqui.

A resposta do libertismo (3)

Os libertistas resolvem o conflito entre o livre-arbítrio e o determinismo rejeitando o determinismo. A sua ideia mestra é que as pessoas são especiais. A marcha da ciência, subjugando os fenómenos observados a leis sem excepções, está limitada ao domínio não humano. Para os libertistas, a ciência é boa naquilo que consegue alcançar, mas nunca conseguirá prever completamente o comportamento humano. Os seres humanos, e só os seres humanos, transcendem as leis da natureza: são livres.

(…) Alguns libertistas tratam este problema postulando um tipo especial de causalidade que só os seres humanos têm, a chamada causalidade do agente. A causalidade mecânica comum, o tipo de causalidade que se estuda na Física e nas outras ciências puras, obedece a leis. As causas mecânicas são repetíveis e previsíveis: se repetir a mesma causa, uma e outra vez, é garantido que o mesmíssimo efeito ocorre de cada vez. A causalidade do agente, por outro lado, não obedece a leis. Não há como dizer de que modo um ser humano livre irá exercer a sua causalidade do agente. A mesmíssima pessoa em circunstâncias exactamente semelhantes pode, por causalidade do agente, causar coisas diferentes. Segundo a teoria da causalidade do agente, o leitor age livremente quando 1) a sua acção não é causada no sentido comum, mecânico, mas 2) a sua acção é causada por si – por causalidade do agente.”

Theodore Sider, Livre arbítrio e determinismo, (capítulo 6), págs. 153-155.

Nota: Neste blogue pode também ler sobre os argumentos a favor do libertismo (aqui e aqui) e objecções a esta teoria.

A resposta do determinismo radical (2)

A estratégia mais simples para resolver este conflito é rejeitar uma das crenças que o produzem. Podemos rejeitar o livre-arbítrio ou rejeitar o determinismo.

À rejeição do livre-arbítrio perante o determinismo chama-se determinismo radical (…).

Será que podemos viver com esta filosofia deprimente? Os filósofos têm de procurar a verdade, por mais difícil que esta seja de aceitar. Talvez o determinismo radical seja uma dessas verdades difíceis. Os deterministas radicais poderiam tentar «minimizar os estragos», argumentando que a vida sem liberdade não é tão má como se poderia pensar. A sociedade poderia ainda punir os criminosos, por exemplo. Os deterministas radicais têm de negar que os criminosos merecem punição, visto que os crimes não foram cometidos livremente. Mas podem dizer que a punição tem ainda uma utilidade: punir os criminosos afasta-os das ruas e desencoraja os crimes futuros. Ainda assim, aceitar o determinismo radical é quase impensável. Tão-pouco é claro que púdessemos deixar de acreditar no livre-arbítrio ainda que quiséssemos fazê-lo. Se o leitor encontrar alguém que afirma acreditar no determinismo radical, eis uma pequena experiência a ensaiar. Dê-lhe um murro na cara com muita força. Depois tente convencê-lo a não o culpar. Afinal, segundo ele, o leitor não teve escolha senão esmurrá-lo! Prevejo que terá muita dificuldade em convencê-lo a praticar o que prega.”

Theodore Sider, Livre arbítrio e determinismo, (capítulo 6), págs. 152 à 153.

Formulação do problema do livre-arbítrio (1)

Enigmas da existência

Para saber mais sobre o livro, ver aqui.

Compreender algumas das principais teorias filosóficas (já estudadas nas aulas) sobre o problema do livre-arbítrio e discutir os argumentos apresentados para as defender, pode ser mais fácil do que parece.

Experimentem a ler os posts seguintes (aconselho, vivamente, aos meus alunos que o façam antes do próximo teste), onde transcrevo passagens do excelente livro “Enigmas da existência” de Earl Conee e Theodore Sider e, no final, verificarão como o discurso filosófico pode ser claro, acessível e, imaginem só, até ter sentido de humor!

“Todos pensamos que temos livre arbítrio. Como poderíamos não pensar? Renunciar à liberdade significaria deixar de fazer planos para o futuro, pois de que adianta fazer planos se não temos a liberdade para mudar o que acontecerá? Significaria renunciar à moralidade, pois só quem age livremente merece censura ou castigo. Sem liberdade percorremos caminhos predeterminados, incapazes de controlar os nossos destinos. Uma vida assim não vale a pena.

No entanto, a liberdade parece entrar em conflito com um certo facto evidente. Por incrível que pareça, este facto não é segredo; na sua maioria as pessoas estão perfeitamente cientes dele (…).

Eis o facto: todo o acontecimento tem uma causa. Este facto é conhecido como «determinismo».

(…) A nossa crença no determinismo é bastante razoável porque todos vimos a ciência ser bem-sucedida, uma e outra vez, na procura das causas subjacentes às coisas. As inovações tecnológicas devem a sua existência à ciência: arranha-céus, vacinas, naves espaciais, a Internet. A ciência parece explicar tudo o que observamos: a mudança das estações, o movimento dos planetas (…). Dado este registo de êxitos, esperamos razoavelmente que a marcha do progresso continue; esperamos que a ciência venha a dada altura descobrir as causas de tudo.

A ameaça à liberdade vem quando nos apercebemos de que esta marcha acabará por nos apanhar. Do ponto de vista científico, as escolhas e os comportamentos humanos são apenas uma parte do mundo natural. Como as estações, os planetas, as plantas e os animais, as nossas acções são estudáveis, previsíveis, explicáveis, controláveis. É difícil dizer quando terão os cientistas aprendido o suficiente sobre o que faz os seres humanos funcionar, de modo a prever tudo o que fazemos, se é que se chegará aí. Mas independentemente de quando se irá descobrir as causas do comportamento, o determinismo garante-nos que essas causas existem.

É difícil aceitar que as nossas próprias escolhas estão sujeitas a causas. Suponhamos que fica sonolento e se sente tentado a pousar este livro. As causas tentam fazê-lo dormir. Mas resiste-lhes! É forte e continua a ler mesmo assim. Terá frustrado as causas e refutado o determinismo? Claro que não. O continuar a ler tem a sua própria causa. Talvez o seu amor pela metafísica supere a sonolência. Talvez os seus pais o tenham ensinado a ser disciplinado. Ou talvez seja apenas teimoso. Seja qual for a razão, houve uma causa.

Pode responder: «Mas não senti qualquer compulsão de ler ou de não ler; simplesmente decidi fazer uma outra coisa. Não senti qualquer causa.» É verdade que não sentimos que muitos pensamentos, sentimentos e decisões são causados. Mas, na verdade, isso não põe em causa o determinismo. Por vezes as causas das nossas decisões não são conscientemente detectáveis, mas existem ainda assim. Algumas causas do comportamento são funções pré-conscientes do cérebro, como ensina a Psicologia contemporânea, ou talvez mesmo desejos subconscientes, como pensava Freud. Outras causas de decisões podem nem sequer ser mentais. O cérebro é um objecto físico incrivelmente complicado, e pode «desviar-se» para esta ou aquela direcção em resultado de certos movimentos das suas partes mais minúsculas (…). Não podemos esperar ser capazes de detectar todas as causas das nossas decisões apenas por introspecção (…).

Duas das nossas crenças mais arreigadas, a nossa crença na ciência e a nossa crença na liberdade e na moralidade, parecem contradizer-se. Temos de resolver este conflito.”

Theodore Sider, Livre arbítrio e determinismo, (capítulo 6), págs. 145 à 151.

domingo, 2 de maio de 2010

O problema do livre-arbítrio em filme

O vídeo contém um excerto do filme "Waking Life" (2001), de Richard Linklater.

Encontrei a referência ao filme no site Só Filosofia, na secção TV Filosofia.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Possibilidades Alternativas: uma objecção ao Determinismo Moderado

Duelo hamilton-burr-duel

O Determinismo Moderado considera que o determinismo e o livre-arbítrio são compatíveis. O desejo do agente é o último elemento de uma cadeia causal constituída por causas que o agente não controla, mas que não lhe tiram a liberdade. Desde que nenhuma coacção imediata o impeça de agir de acordo com esse desejo o agente é livre. A sua acção é simultaneamente determinada e livre. Mas será mesmo assim?

Muitos críticos do Determinismo Moderado consideram que não. Argumentam que, para que se possa considerar que o agente foi livre ao realizar uma certa acção, é indispensável que ele tivesse possibilidades alternativas de acção, ou seja, que ele não pudesse fazer apenas uma coisa, mas que isso não sucede se todas as acções estiverem determinadas por causas anteriores.

“Há possibilidades alternativas quando o agente no momento imediatamente anterior à sua decisão, tem ainda diante de si mais do que um curso de acção e a acção podia ter sido diferente do que foi mantendo-se todos os outros factores inalterados. Ele disporia de alternativas reais se, e só se, a sua decisão pudesse ter sido outra, mantendo-se tudo o mais idêntico: as circunstâncias em que se encontrava, mas também a sua personalidade, as suas crenças e os seus desejos.” (Adaptado a partir de: Paulo Ruas, “O Problema do Livre-arbítrio”, Crítica - http://criticanarede.com/met_savater.html).

Vejamos um exemplo.

Évarist Galois aceitou participar num duelo contra um indivíduo muito mais hábil que ele no manejo das armas, pois no país e na época em que viveu recusar o desafio para um duelo era considerado uma manifestação de cobardia e quem o fizesse ficava publicamente desonrado e era alvo do desprezo geral. Há pessoas cuja personalidade as torna indiferentes à opinião e sentimentos dos outros, mas Galois não era como elas. (Mais pormenores aqui.) Galois agiu livremente? Ele tinha possibilidades alternativas de acção? Ele podia ter feito outra coisa? Tendo em conta o conceito de possibilidades alternativas referido, a resposta a essas perguntas terá de ser negativa. A influência dos costumes sociais e a sua personalidade (produto de diversos factores sobre as quais não tinha controle), levaram Galois desejar fazer o duelo e depois levaram-no fazer efectivamente o duelo.

Imagine-se dois mundos exactamente iguais em tudo até ao momento da decisão de Galois. Seria possível num dos mundos ele aceitar o duelo e no outro recusar? Não parece possível, uma vez que a sua personalidade, as suas crenças e desejos seriam iguais.

Por isso, argumentam os críticos, a tentativa do Determinismo Moderado conciliar o determinismo e o livre-arbítrio não foi bem sucedida. O determinismo impede que haja reais possibilidades alternativas de acção e sem isso não pode haver livre-arbítrio.

Os defensores do Determinismo Moderado rejeitam essa objecção, pois consideram que esta se baseia num conceito incorrecto de possibilidades alternativas. Não faz sentido exigir que o agente deseje fazer X e possa não o fazer para haver possibilidades alternativas de acção, pois o livre-arbítrio consiste precisamente em poder fazer o que se deseja. Argumentam que Galois podia ter feito outra coisa se tivesse desejado outra coisa e que é isso que significa ter possibilidades alternativas de acção.

“Se a série de causas que conduziu à decisão de aceitar o duelo incluísse outros desejos e crenças, se a sua personalidade fosse em algum aspecto diferente, então, no caso de nada o impedir (ou seja, de não haver coações imediatas), Galois poderia não ter aceite o duelo.” (Adaptado a partir de Paulo Ruas, op. cit.)

Por isso, argumentam os deterministas moderados, o determinismo permite a existência de possibilidades alternativas de acção e é compatível com o livre-arbítrio

O que é mais plausível, a objecção ou a crítica à objecção?

Uma nota final, para continuar a pensar. A personalidade, as crenças e desejos de uma pessoas são o produto de inúmeras causas anteriores que o agente não controla. Muitas vezes vemos pessoas desejarem coisas que nos parecem ser contra os seus interesses, embora elas não se apercebam disso. Se é assim, estará o Determinismo Moderado certo quando considera que somos livres sempre que fazemos o que desejamos?

Bibliografia:

Howard Kahane, “Livre-arbítrio, determinismo e responsabilidade moral”, Filosofia e Educação (http://www.filedu.com/hkahanelivre-arbitriodeterminismo.html).

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009.

Paulo Ruas, “O Problema do Livre-arbítrio”, Crítica (http://criticanarede.com/met_savater.html).