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domingo, 12 de agosto de 2012

Tive, por acaso, possibilidades de escolha?

«- Já viste uma casa a arder? Continua a fumegar durante dias e dias. Lembrar-me-ei daquele fogo toda a minha vida! Toda a noite, na minha imaginação tentei apagá-lo. Estava meio doido.

- Devias ter pensado nisso antes de te teres feito bombeiro.

- Pensar! – disse ele. – Tive, por acaso, possibilidades de escolha? O meu pai e o meu avô foram bombeiros. À noite, quando sonho, corro atrás deles.»

Ray Bradbury, Fahrenheit 451, Coleção Mil Folhas (jornal Público), 2003, pág. 54.

Ray Bradbury

Ray Bradbury

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Estilo com substância: o ponto final no lugar certo

Raymond Carver

«É possível, num poema ou num conto, escrever sobre coisas e objetos quotidianos usando linguagem quotidiana mas precisa, e dotar essas coisas – uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, os brincos de uma mulher – de um poder imenso, quase espantoso. É possível escrever uma linha de diálogo aparentemente inócuo e fazer com que essa linha provoque um arrepio na espinha do leitor – a fonte de deleite artístico, como queria Nabokov. É esse género de escrita que me interessa. Detesto escrita confusa ou aleatória, seja ela experimentação ou simplesmente realismo desastrado. No maravilhoso conto “Guy de Maupassant”, de Isaac Babel, o narrador tem o seguinte a dizer sobre a escrita de ficção: Nenhum ferro pode trespassar o coração com tanta força como um ponto final no lugar certo.”»

Raymond Carver, Fogos, Quetzal, 2012.

Na filosofia também é desejável o uso de uma linguagem clara e precisa, como defende Raymond Carver relativamente à literatura, não para provocar “arrepios na espinha do leitor” ou “deleite artístico”, mas porque a clareza torna mais fácil perceber quais são realmente as ideias expressas pelas palavras - de modo a podermos fazer aquilo que é mais importante em filosofia: discutir se essas ideias são verdadeiras ou falsas. Quando um autor usa uma linguagem pouco clara não sabemos muitas vezes se devemos ou não concordar com ele, pois não sabemos bem se as palavras usadas exprimem a ideia X, Y ou Z.

Julgo que a filosofia teria muito a ganhar se todos os filósofos e aprendizes de filósofos tentassem escrever com clareza. Duvido, contudo, que a literatura ficasse melhor se todos os escritores adotassem o estilo de Raymond Carver, apesar de eu gostar bastante dos livros dele. Como é óbvio, há escritores palavrosos e rebuscados cujas obras causam “arrepios na espinha do leitor” e outras formas de “deleite artístico”. Escrever com clareza é a única forma de fazer boa filosofia, mas escrever como Raymond Carver não é a única forma de fazer boa literatura.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Romances vindos da Islândia para o Verão

Do autor de «Gente Independente» e «Os Peixes Também Sabem Cantar»...
«O SINO DA ISLÂNDIA», de HALLDÓR LAXNESS
No final do século XVII, o emissário e carrasco do rei da Dinamarca confisca o sino de Þingvellir, velho símbolo da independência islandesa, com ordens para o desmantelar em peças e para o levar até Copenhaga. Jón Hreggviðsson, um agricultor condenado pela justiça por ser um ladrão de cordas, é acusado do seu homicídio. A sua fuga ocupará a justiça durante mais de 30 anos, transformando-o num peão dentro de um jogo que tem por cenário a história de conflitos políticos e sociais vividos entre 1650 e 1790 entre a potência dinamarquesa e a oprimida colónia islandesa.
Marcado por uma narrativa arrebatadora em cada página, «O Sino da Islândia» é aclamado como uma das obras maiores do prémio nobel islandês.

Informação retirada daqui.

Do mesmo autor, neste blogue, AQUI.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Inquietação

Philip Roth

«Desde aquela noite em que fomos para a cama pela primeira vez, oito anos atrás, nunca mais tive um momento de paz porque, quer ela percebesse quer não, a partir daí eu fui só fraqueza e preocupação, porque nunca consegui perceber se a solução era vê-la mais ou vê-la menos, ou não a ver sequer, desistir dela – fazer o impensável e, aos sessenta e dois anos, desistir voluntariamente de uma esplendorosa rapariga de vinte e quatro anos que me dizia centenas de vezes “Adoro-te”, mas nunca, nem mesmo hipocritamente, “desejo-te, quero-te tanto (…)”.

Consuela não era assim. No entanto, era por isso que o medo de a perder para alguém nunca me abandonava, era por isso que a tinha sempre no pensamento, era por isso que, com ela ou afastado dela, nunca me sentia seguro a seu respeito.»

Philip Roth, O Animal Moribundo, Dom Quixote, Lisboa, 2006, pág. 28.

domingo, 8 de abril de 2012

“A minha professora deu-nos um resumo”

Ler é estúpidoDiálogo entre dois adolescentes portugueses, ambos alunos do 12º ano. Data: 7 de Abril de 2012, a poucos dias, portanto, do final das férias da Páscoa. O diálogo é verídico, infelizmente.

- Já leste o livro para Português?
- Qual livro?
- O Memorial do Convento.
- Ah, ah, ah! Imagina, eu ler aquilo…
- Mas…
- A minha professora deu-nos um resumo. Tu leste aquela seca??
- Estou a ler…
- Como é que consegues? Ler é tão chato!
- Confesso que não estou a gostar muito, mas os meus pais obrigam-me a ler, por isso… Para falar verdade, mesmo que eles não me obrigassem eu tentaria ler o Memorial do Convento, pois quero ter boa nota… Mas, olha, ler não é assim tão mau como tu pintas…
- Ah, já me esquecia, tu gostas de ler…
- Bom, eu gosto de ler outros livros… Recentemente li Os Jogos da Fome e gostei muito. Queres que te empreste? São três volumes mas lêem-se num instante!
- Naaa! Eu depois vejo o filme… E se fôssemos jogar um jogo no computador?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Discutir para ganhar

debate de ideias

Numa passagem interessante do romance Pensamentos Secretos [i], Ralph Messenger (formado em filosofia e especialista em ciências cognitivas) recorda algumas conversas que teve com a romancista Helen Reed e pensa que esta, além de ser bonita e ter umas “boas pernas”, tem outras qualidades:

“é uma mulher (…) esperta, de inteligência rápida, boa a argumentar, preparada para defender os seus pontos de vista, gosto disso, há demasiadas pessoas que acham que discutir coisas que interessam, discutir para ganhar, é de certa forma de mau gosto”.

Quando li essas palavras lembrei-me logo de imensas situações a que assisti em que a tentativa de discutir ideias gerou mal-estar (e de que fiz uma breve descrição aqui). Aposto que em Portugal esse mal-estar, tipicamente relativista, é maior e mais frequente que em Inglaterra.


[i]David Lodge, Pensamentos secretos, Edições Asa, Porto, 2002, pág. 91.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O que se passa nas cabeças das outras pessoas?

pensamento«- …Pode-se sempre correr as persianas da consciência. Nunca sabemos ao certo o que outra pessoa está realmente a pensar. Mesmo que decida contar-nos, nunca podemos saber se está a dizer-nos a verdade, ou a verdade toda. E, pelo mesmo raciocínio, ninguém pode conhecer os nossos pensamentos como nós os conhecemos.

- E provavelmente ainda bem. A vida social seria bem mais difícil de outra forma.

Exatamente. Imagine como teria sido a festa dos Richmonds se toda a gente tivesse aqueles balões por cima das cabeças, como na banda desenhada para crianças, com Pensamentos… dentro delas. - Ao dizer isto, ele crava os olhos em Helen, como se a especular sobre os pensamentos dela nesse momento.

Ela cora ligeiramente. – Suponho que é por isso que as pessoas leem romances – diz ela. Para descobrir o que se passa nas cabeças de outras pessoas.

- Mas tudo aquilo que descobrem realmente é o que se passou na cabeça do escritor.»

David Lodge, Pensamentos secretos, Edições Asa, Porto, 2002, pág. 52.

Pode ler outro interessante excerto do romance aqui, e uma boa crítica  (de Desidério Murcho) aqui.

pensamentos secretos de David Lodge

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Viver e nada mais talvez seja pouco

“Quando chegámos a África [vindos do norte da Índia], ninguém saberia dizer-me. O que não admira, não éramos gente que se preocupasse com essas coisas. Limitávamo-nos a viver, viver e nada mais; fazíamos o que se esperava que fizéssemos, o que as gerações anteriores tinham feito. Nunca perguntávamos porquê; nunca escrevemos a nossa história. (…)

Na nossa casa nunca houve uma discussão política. Não eram tolos ou ingénuos os meus familiares. O meu pai e os irmãos dele eram comerciantes, negociantes; à sua maneira tinham de se adaptar às mudanças dos tempos. Eram capazes de avaliar situações; corriam riscos e por vezes mostravam-se mesmo audaciosos. Mas estavam tão profundamente envolvidos nas suas vidas que nunca seriam capazes de parar para examinar a natureza dessas vidas.”

V.S. Naipaul, A curva do rio, Quetzal, Lisboa, 2011, pp. 21-22 e 28.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Concerning Hobbits…

Não é prudente fazer planos com muita antecedência, mas tenciono ver este filme assim que estrear. Falta pouco menos de um ano.

Por falar nisso: O Hobbit, o livro de J. R. R. Tolkien em que se baseia o filme, seria uma boa leitura de férias, para os alunos e para qualquer outro leitor.

O Hobbit, de Tolkien

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Ando a ler…

Enigmas da Existência A curva do rio de V. S.Naipaul

Earl Conee e Theodore Sider, Enigmas da Existência: Uma Visita Guiada à Metafísica, Lisboa, Bizâncio, 2010.

V. S. Naipaul, A Curva Do Rio, Lisboa, Quetzal, 2011.

 

Se clicar no nome dos livros poderá obter mais informações sobre os mesmos.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Gente independente

Como manter a liberdade nas condições de vida mais adversas que se possam pensar?

Para saber veja aqui.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Elevar-se, mas como?

"As pessoas devem sempre elevar-se para além das circunstâncias, ou então afundam-se, seja na droga, no álcool ou em seitas alucinadas. Quanto mais penosa, e como que desumanizada, se torna a situação, mais as pessoas procuram saídas deste género."

Marguerite Yourcenar, De olhos abertos, tradução de Renata Correia Botelho, Relógio de Água Editores, Lisboa, 2011, pág. 154.

image

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O amor nas palavras de Yourcenar

De certo modo, os franceses estilizaram o amor, criaram um determinado estilo, um determinado formato para o amor. E depois acreditaram nisso, sentiram-se obrigados a vivê-lo de uma certa maneira, quando poderiam tê-lo vivido de forma completamente diferente, se não tivessem atrás de si toda aquela literatura. (...) ali toda a gente está exposta a essa noção literária do amor, da emoção, da sensualidade, do ciúme (...). Há demasiadas convenções em tudo isto.

É preciso saber desde logo o que se entende por amor. Se se entende por amor a adoração de um ser, a persuasão de que dois seres foram feitos um para o outro, de que se correspondem mutuamente por qualidades de certo modo únicas, nesse caso a miragem é tão grande que qualquer pessoa que reflicta um pouco diz forçosamente: "Não, estou longe de ter essas qualidades excepcionais e o outro provavelmente também não as tem; tomemos consciência do que é; amemos o que é."

Marguerite, Yourcenar, De olhos abertos, tradução de Renata Correia Botelho, Relógio de Água Editores, Lisboa, 2011, pág. 71.

Yourcenar: o acaso e a passagem do tempo

imageEstou a ler este livro: a transcrição de uma série de conversas que Matthieu Galey manteve com a escritora francesa (naturalizada americana em 1947) Marguerite Yourcenar (1903-1987). Autora de alguns dos romances de que mais gosto, em particular As memórias de Adriano.

Neste livro, apresentado sob a forma de uma longa entrevista, pode-se aceder a dados de natureza biográfica (talvez o menos interessante) e também a reflexões sobre temas variados, como o Amor, a tradução, a solidão, o feminismo, o racismo, a política e a morte, entre outros (que correspondem a diferentes capítulos). Além disso, a autora explica a génese de alguns dos personagens fundamentais dos seus romances, o que para os apreciadores da sua obra literária é uma experiência  única: a sensação (talvez ilusória) de desvendar, em parte, o processo de criação de personagens que, nalguns casos, nos acompanharam e influenciaram em diferentes momentos da vida.

Deixo aos leitores duas pequenas passagens, de capítulos diferentes:

"Quando falamos de amor pelo passado é preciso ter atenção, pois é do amor à vida que se trata. A vida está muito mais no passado do que no presente. O presente é sempre um momento curto, mesmo quando a sua plenitude o faz parecer eterno. Quando se ama a vida, ama-se o passado, porque é o presente tal como sobreviveu na memória humana. O que não significa que o passado seja uma idade de oiro: tal como o presente, é ao mesmo tempo atroz, soberbo ou brutal, ou apenas vulgar."

"As pessoas não gostam de perceber o quanto a sua vida depende do acaso, isso embaraça-as. Adoram ter uma vida mais ou menos controlada por elas, ou senão por elas, pelas suas paixões, pelos seus amores, mesmo pelos seus erros. Acham mais bonito e mais interessante (...) do que ter dependido apenas do autocarro que se apanhou (...)."

domingo, 26 de junho de 2011

Tudo é texto??

doença de Huntington

Mulher com a doença de Huntington

A passagem seguinte do romance Solar, de Ian McEwan, descreve muito bem o modo de pensar das pessoas que consideram que o conhecimento é socialmente construído e que - tal como o filósofo francês Jacques Derrida - julgam que “tudo é texto”.

Numa reunião com alguns professores de Física, Nancy Temple, lincenciada em Antropologia Social, «disse que podia explicar melhor o seu campo de actividade descrevendo um projecto recente, um estudo aprofundado, que se prolongara por quatro meses, de um laboratório de genética de Glasgow empenhado em isolar e descrever o gene de um leão, o Trim-5, e a sua função. O objectivo dela era demonstrar que esse, ou qualquer outro gene, era, no sentido mais forte, socialmente construído. Sem as várias ferramentas de “entextualização” que os cientistas usavam – o luminómetro de fotão único, o citómetro de fluxo, a imunofluorescência e por aí adiante – não se podia dizer que o gene existia. Era dispendioso possuir e aprender a usar esses instrumentos e, por esse motivo, eles estavam repletos de significado social. O gene não era uma entidade objectiva, meramente à espera de ser descoberto pelos cientistas. Era inteiramente manufacturado pelas hipóteses que estes punham, pela sua criatividade e pelos instrumentos que possuíam, sem o que não podia ser detectado. E quando finalmente era expresso em termos dos seus chamados pares de bases e do seu papel provável, essa descrição, esse texto, só tinha significado e só extraía a sua realidade do interior da rede limitada de geneticistas que podiam ler sobre ele. Fora dessas redes, o Trim-5 não existiria.

Durante esta apresentação, Michael Beard e os outros físicos escutavam com algum constrangimento. Delicadamente, evitavam entreolhar-se. (…) Beard ouvira rumores de que ideias estranhas eram lugares-comuns entre os departamentos de artes liberais. Constava que era habitual ensinar aos estudantes de humanidades que a ciência era apenas mais um sistema de crenças, nem mais nem menos fiável do que a religião ou a astrologia. (…)

Quando Nancy Temple chegou ao fim do seu discurso, [os físicos de] Newcastle e Cambridge manifestaram-se em simultâneo, mais pasmados que encolerizados.

- Onde é que isso deixa a doença de Huntington, por exemplo? – perguntou um, enquanto o outro interrogava: - Acredita sinceramente que aquilo que desconhece não existe? (…)

- A doença de Huntington está também culturalmente inscrita [respondeu Nancy Temple]. Em tempos era uma narrativa sobre o castigo divino e a possessão demoníaca. Agora é a história de um gene defeituoso e é provável que um dia se venha a transmutar em qualquer outra coisa. Quanto aos genes de que não sabemos nada, bem, é óbvio que nada tenho a dizer. Os genes que foram descritos, como é evidente só podem chegar até nós mediados pela cultura.»

Ian McEwan, Solar, Gradiva, Lisboa, 2010, pp. 160-161.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os livros e as escolas

AntinooA escultura, de um autor anónimo, retrata o jovem Antínoo.  Foi descoberta neste sítio (que vale mesmo a pena espreitar).

“O verdadeiro lugar do nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior as escolas. (…) A escola de Terêncio Scauro, em Roma ensinava mediocremente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: (…) cada um enredado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam alguma coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas, as intrigas e as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois  em todas as sociedades em que vivi (…).”

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, Editora Ulisseia, Lisboa, 1997, pág. 34.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Da ociosidade

O que é que acontece quando um indivíduo desfruta uma vida de ócio, sem quaisquer constrangimentos exteriores e pode concentrar-se, exclusivamente, em si ?
Nos Ensaios, Montaigne, conclui o seguinte:

Quando, recentemente, me retirei para minha casa, decidido a, tanto quanto possível, não me ocupar de outra coisa senão de passar em sossego e repouso o pouco tempo que me resta de vida, parecia-me não poder fazer melhor a favor do meu espírito que o de o deixar, em plena ociosidade, conversar comigo próprio, atentar em si mesmo e aí assentar, o que eu esperava que ele pudesse, a partir de então, fazer mais facilmente, uma vez que com o tempo se tornara mais grave e maduro. Mas descubro que - "os ócios dão sempre instabilidade à mente" ( Lucano, Pharsalia).

Vamos admitir que Montaigne tem razão. Se assim for, mesmo em férias se torna necessário alimentar a mente, para evitar o desregramento da imaginação e uma excessiva e improdutiva concentração no Ego. Por isso, aqui fica a sugestão de uma obra literária, onde também se abordam algumas questões filosóficas (a que voltarei noutros posts).



terça-feira, 20 de abril de 2010

Enganar por amor

“Sentaram-se diante da fogueira e comeram as últimas bolachas de água e sal e uma lata de salsichas. Numa bolsa da mochila ele encontrara um pacote de cacau meio cheio, o último que lhe restava, e preparou a bebida para o rapaz e depois encheu a própria caneca de água quente e ficou recostado, a soprar para o bordo.
Prometeste que não fazias isso, disse o rapaz.
O quê?
Tu sabes o quê, papá.
Despejou a água quente para dentro da caçarola e pegou na caneca do rapaz e verteu uma parte do cacau para dentro da sua e depois devolveu-lha.
Tenho de estar sempre de olho em ti, disse o rapaz.
Eu sei.
Quem quebra as pequenas promessas também quebra as grandes. Foi o que tu disseste.
Eu sei. Mas eu não vou fazer isso.”

Cormac McCarthy, A Estrada, Relógio D’ Água, Lisboa, 2007, pp 28-29.

O pai tentou dar a sua parte de cacau ao filho sem ele perceber e levando-o a pensar que o tinha repartido. Tentou, portanto, enganá-lo por amor.

Como podemos avaliar moralmente a acção do pai? Na sua opinião, agiu correctamente ou incorrectamente? E o que diriam Kant e Stuart Mill? Concorda com Kant, Stuart Mill ou com nenhum deles? Porquê?

a estrada cena 338 pai e filho abraço

Na imagem: fotografia do filme A Estrada, baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy.

sábado, 20 de março de 2010

A ignorância das moscas

«Uma mosca efémera nasce às nove horas da manhã nos grandes dias de Verão, para morrer às cinco horas da tarde; como é que ela podia compreender a palavra ‘noite’?»

Stendhal, O Vermelho e o Negro.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Mudam-se os tempos mudam-se os alunos e os problemas

“Há uns tempos li nos jornais que um grupo de professores encontrou por acaso um inquérito que foi enviado nos anos trinta a um certo número de escolas de todo o país. Incluía um questionário sobre quais os problemas mais graves que aconteciam nas escolas. E encontraram também os formulários de respostas, que tinham sido preenchidos e devolvidos dos quatro cantos do país. E os problemas mais graves que os professores apontavam eram coisas como conversar nas aulas e correr pelos corredores. Mascar pastilha elástica. Copiar os trabalhos de casa. Coisas desse género. Então eles policopiaram uma data de exemplares e enviaram-nos para as mesmas escolas. Passados quarenta anos. Bom, algum tempo depois receberam as respostas. Violações, fogo posto, homicídio. Drogas. Suicídios. E eu ponho-me a pensar nisto. Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que eu estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu. Quarenta anos também não é assim tanto tempo. Talvez os próximos quarenta anos façam acordar algumas pessoas da anestesia em que caíram. Se não for demasiado tarde.”

Cormac McCarthy, Este País não É para Velhos.

O livro de  Cormac McCarthy repousa na estante à espera de oportunidade para ser lido. Esta passagem foi encontrada no blogue De Rerum Natura. Qualquer semelhança com a realidade portuguesa não é mera coincidência.