“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.”
John Stuart Mill
Tornei obrigatória no 10º ano a leitura do livro Ética para um Jovem de Fernando Savater. Muitos dos meus alunos consideram pouco democrática esta minha imposição. Também os desgosta o facto de, no teste de avaliação, existirem questões para verificar a leitura e compreensão da referida obra.
Muitos dos meus alunos são pessoas que frequentam há anos a escola, mas não compreendem o que se pode ganhar com a leitura de um livro - de Filosofia mas não só, pois a resistência à leitura das obras analisadas em Português é facilmente observável. Para eles é uma seca que recusam ou pelo menos vão adiando até ao último momento.
As causas deste fenómeno são complexas e não posso discuti-las todas aqui. Quero só referir que a explicação do fenómeno não pode residir apenas na existência de novos meios de comunicação e de maravilhas tecnológicas. Há pessoas, ingénuas – creio eu -, que julgam que a maioria dos alunos do secundário substituiu os “antiquados” livros em papel da minha geração por modos mais modernos de aceder ao conhecimento e à cultura em geral: a Internet, a televisão, etc. Segundo essas pessoas, os jovens lêem e acedem a diversas formas culturais de qualidade e intelectualmente estimulantes – só que já não é através dos livros.
Essa perspectiva optimista não é verdadeira. Na verdade, a utilização que a maioria dos alunos faz do computador, da televisão e de outros meios de comunicação relaciona-se apenas com o desfrutar do prazer imediato proporcionado pelos jogos, vídeos, filmes… Nada tem a ver com curiosidade em aprofundar os assuntos estudados, em alargar horizontes, em saber mais. Naturalmente que existem honrosas excepções, mas são uma diminuta minoria.
Em vez de referir todas as causas do fenómeno, vou limitar-me a apresentar alguns argumentos a favor da leitura.
A leitura de bons livros – de filosofia ou outros – permite-nos adquirir conhecimentos e proporciona um óptimo treino intelectual. O que alarga os nossos horizontes, dá-nos mais independência de espírito e capacidade crítica – em relação aos outros e a nós mesmos. O que faz com que os outros tenham mais dificuldade em manipular-nos. A leitura de alguns livros pode até ajudar-nos a ser melhores pessoas. Mas, mesmo quando isso não sucede, torna-nos pelo menos pessoas mais informadas e autónomas. O mundo é mais compreensível para quem lê do que para quem não lê.
Epicteto (um filósofo romano que durante muitos anos foi escravo) disse: “Não devemos acreditar nos muitos que afirmam que só as pessoas livres devem ser instruídas, mas devemos antes acreditar nos filósofos que dizem que só os instruídos são livres” (Epicteto, Dissertações). Epicteto tinha razão.
Fernando Savater escreveu este livro para o seu filho de quinze anos porque, do seu ponto de vista, “a reflexão moral não é apenas um tema especializado, sobretudo para aqueles que desejem frequentar cursos superiores de filosofia, mas parte essencial de qualquer educação digna desse nome”.
Alguns dos problemas e das teorias abordados numa disciplina filosófica chamada Ética, como por exemplo: a liberdade, o determinismo e a consciência moral, são apresentados de forma interpelativa, numa linguagem clara e com casos ilustrativos que remetem para o cinema, para a literatura e para situações da experiência pessoal de cada um de nós.
Fazer pensar, quem não está muito disposto a isso, acerca da aplicabilidade das teorias filosóficas às questões da vida, é um dos objectivos deste livro.
Faço notar que irei considerar – para os meus alunos do 10º ano - a leitura de alguns dos capítulos da Ética para um Jovem como obrigatória durante o segundo período. Portanto, como poderão verificar entre as inúmeras vantagens de ler agora este livro, há uma muito significativa: realizar, com o tempo requerido a uma análise e reflexão cuidadosas, uma tarefa que contribuirá, talvez, para melhorar o desempenho na vida em geral (atrevo-me a dizer) e na disciplina de Filosofia em particular.
Eis algumas passagens para ilustrar o que já foi dito sobre a pertinência e o interesse deste livro:
“Na realidade existem muitas forças que limitam a nossa liberdade, dos terramotos ou doenças aos tiranos. Mas também a nossa liberdade é uma força no mundo, a nossa força. Contudo, se falares com as pessoas, verás que a maioria tem muito mais consciência daquilo que limita a sua liberdade do que da própria liberdade. Vão dizer-te: «Liberdade? Mas de que liberdade me estás a falar? Como seremos livres, se nos lavam o cérebro a começar pela televisão, se os governantes nos enganam e nos manipulam, se os terroristas nos ameaçam, se as drogas nos escravizam, e se além disso me falta dinheiro para comprar uma mota, que era o que eu queria?» Se reflectires um bocadinho, verás também que os que falam assim parecem queixar-se, mas na realidade estão muito satisfeitos por saberem que não são livres No fundo pensam:« Uf! Que belo peso tiramos de cima das costas! Como não somos livres, não podemos ter culpa de nada do que nos aconteça…» Mas eu tenho a certeza de que ninguém – ninguém – acredita deveras que não é livre, ninguém aceita sem mais que funciona como um mecanismo inexorável de relojoaria (…). Uma pessoa pode considerar que optar livremente por certas coisas em certas circunstâncias é muito difícil (por exemplo: combater firmemente um tirano) e que é melhor (…) lamber a bota a quem nos pisa a garganta. Mas nas tripas sentimos qualquer coisa que insiste em dizer-nos: «Se tivesses querido… »”(págs. 24-25)
“(…) vamos ver um belíssimo filme realizado e interpretado por Orson Welles: O Mundo a seus pés (Citizen Kane). (…) Kane é um multimilionário que, com poucos escrúpulos, reuniu no seu palácio uma enorme colecção de todas as coisas belas e caras do mundo. Tem tudo, sem sombra de dúvida e utiliza todos os que o rodeiam para obter os seus fins (…). No fim da vida, passeia sozinho pelos salões da sua mansão, cheia de espelhos que lhe devolvem mil vezes a sua própria imagem (…). Acaba por morrer, murmurando a palavra: «Rosebud» (…) o nome escrito num trenó com que brincava em menino (…). Pode-se ser esperto para os negócios ou para a política e um solene asno para coisas mais sérias, como é este problema do viver bem ou não viver bem. Kane era espertíssimo no que se referia a dinheiro e manipulação de pessoas, mas acabou por se dar conta que estava enganado no fundamental. Errou quando mais lhe convinha acertar. Vou repetir-te uma palavra que me parece decisiva neste assunto: atenção. (…) Refiro-me à disposição para reflectir sobre aquilo que se faz e tentar precisar o melhor possível o sentido dessa «vida boa» que queremos viver (…).” (págs. 54-55 e 63)
“Um grande poeta e contista argentino, Jorge Luís Borges, faz no começo de um dos seus contos a seguinte reflexão sobre um certo antepassado seu: «Couberam-lhe, como a todos os homens, maus tempos para viver.» Com efeito, ninguém viveu nunca em tempos completamente favoráveis, em que fosse simples ser-se humano e viver uma vida boa. Sempre houve violência, espoliação, cobardia, imbecilidade (moral e da outra), mentiras aceites como verdades porque agradáveis de ouvir… A ninguém a vida boa é oferecida, e ninguém consegue o que lhe convém sem coragem nem esforço (…). A única coisa que te posso garantir é que nunca se viveu na Terra da Facilidade e que a decisão de viver bem temos que a tomar, cada um de nós, a respeito de nós próprios, dia a dia (…).” (págs. 76-77).
Nota: As citações foram retiradas a partir do livro de Fernando Savater, Ética para um jovem, Lisboa, 1993, Editorial Presença.
Este livro encontra-se disponível na Biblioteca da escola.
O texto que se segue apresenta várias razões para defender a tese: Devemos adoptar uma atitude crítica. Nos tempos que correm é melhor não as esquecer...
«(…) há sempre pessoas prontas a (…) mostrar-nos no que devemos acreditar. As convicções são contagiosas e é possível convencer as pessoas de praticamente tudo. (…) Quando essas convicções implicam o sono da razão, o despertar crítico é o antídoto. A reflexão permite-nos recuar, ver que talvez a nossa perspectiva (ou, eventualmente, a dos outros) sobre uma dada situação esteja distorcida ou seja cega. Nos últimos 2000 anos, a tradição filosófica (…) tem insistido na ideia de que uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. Tem insistido no poder da reflexão racional para descobrir o que há de errado nas nossas práticas e para as substituir por práticas melhores. Tem identificado a reflexão crítica com a liberdade – e a ideia é que só quando nos conseguimos ver a nós mesmos de forma adequada podemos controlar a direcção em que desejamos caminhar.»
Simon Blackburn, Pense – Uma Introdução à Filosofia, Ed. Gradiva.