Mostrar mensagens com a etiqueta Falácias Informais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Falácias Informais. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Falácias informais do apelo à ignorância, da derrapagem e do boneco de palha

1. Apelo à ignorância

«Os argumentos desta classe concluem que algo é verdadeiro por não se ter provado que é falso; ou conclui que algo é falso porque não se provou que é verdadeiro. (Isto é um caso especial do falso dilema, já que presume que todas as proposições têm de ser realmente conhecidas como verdadeiras ou falsas). Mas, como Davis escreve, "A falta de prova não é uma prova." (p. 59)

Exemplos:

  • Os fantasmas existem! Já provaste que não existem?
  • Como os cientistas não podem provar que se vai dar uma guerra global, ela provavelmente não ocorrerá.
  • Fred disse que era mais esperto do que Jill, mas não o provou. Portanto, isso deve ser falso.

Prova: Identifique a proposição em questão. Argumente que ela pode ser verdadeira (ou falsa) mesmo que, por agora, não o saibamos.»

2. Derrapagem (ou bola de neve)

«Para mostrar que uma proposição, P, é inaceitável, extraiem-se consequências inaceitáveis de P e consequências das consequências... O argumento é falacioso quando pelo menos um dos seus passos é falso ou duvidoso. Mas a falsidade de uma ou mais premissas é ocultada pelos vários passos "se... então..." que constituem o todo do argumento.

Exemplos:

  • Se aprovamos leis contra as armas automáticas, não demorará muito até aprovarmos leis contra todas as armas, e então começaremos a restringir todos os nossos direitos. Acabaremos por viver num estado totalitário. Portanto não devemos banir as armas automáticas.
  • Nunca deves jogar. Uma vez que comeces a jogar verás que é difícil deixar o jogo. Em breve estarás a deixar todo o teu dinheiro no jogo e, inclusivamente, pode acontecer que te vires para o crime para suportar as tuas despesas e pagar as dívidas.
  • Se eu abrir uma excepção para ti, terei de abrir excepções para todos.

Prova: Identifique a proposição, P, que está a ser refutada e identifique o evento final, Q, da série de eventos. Depois mostre que este evento final, Q, não tem de ocorrer como consequência de P.»

3. Espantalho (ou boneco de palha)

«O argumentador, em vez de atacar o melhor argumento do seu opositor, ataca um argumento diferente, mais fraco ou tendenciosamente interpretado. Infelizmente é uma das "técnicas" de argumentação mais usadas.

Exemplos:

  1. As pessoas que querem legalizar o aborto, querem prevenção irresponsável da gravidez. Mas nós queremos uma sexualidade responsável. Logo, o aborto não deve ser legalizado.
  2. Devemos manter o recrutamento obrigatório. As pessoas não querem o fazer o serviço militar porque não lhes convém. Mas devem reconhecer que há coisas mais importantes do que a conveniência.

Prova: Mostre que o argumento oposto foi mal representado, mostrando que os opositores têm argumentos mais fortes. Descreva um argumento mais forte.»

Textos retirados do Guia das falácias de Stephen Downes, tradução e adaptação de Julio Sameiro, na  Crítica, revista de Filosofia online.

Nota: Os textos citados não seguem o acordo ortográfico, tal como acontece no original.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Argumentos contra o ateísmo

As alunas do 11º C, Catarina Perez, Inês Pedro e Rute Rita (a quem agradeço o envio da imagem), analisaram e discutiram na aula - a propósito da utilização das falácias na publicidade - um interessante cartaz contra o ateísmo.

Deixo, então, um desafio ao leitor: descobrir, tal como estas alunas fizeram, quais são os argumentos falaciosos utilizados neste cartaz publicitário.

Para defender a tese em causa haverá outras formas de argumentar mais persuasivas? Porquê?

image

terça-feira, 29 de março de 2011

Um cartaz político falacioso (3)

Love_it_or_leave_it

A imagem foi retirada daqui.

Falso Dilema

A falácia do falso dilema ocorre quando duas situações possíveis são colocados como sendo as únicas opções, ou seja, quando uma disjunção contém apenas duas alternativas, existindo no entanto uma ou mais opções que não foram consideradas, ou ainda quando ambas as alternativas podem ser escolhidas simultaneamente. Ou seja, é dado um limitado número de opções (na maioria dos casos apenas duas), quando de facto há mais.

Pôr as questões ou opiniões em termos de "ou sim ou sopas" gera, com frequência (mas nem sempre), esta falácia. A versão mais simples desta falácia tem a seguinte forma lógica.

P ou Q.

Não P.

Logo, Q.

Qualquer argumento com esta forma lógica é dedutivamente válido, mas se analisarmos o conteúdo de um falso dilema, podemos verificar que a premissa disjuntiva é falsa, o que faz com que o argumento não seja sólido apesar de o parecer à primeira vista, em grande parte devido à sua forma lógica válida.

A frase apresentada na imagem surgiu por volta dos anos 70 aquando da guerra com o Vietname e no final da Guerra Fria com a Rússia. Esta frase reflecte o radicalismo patriótico que caracterizava a mente dos cidadãos americanos na altura. Mais tarde, passou de “grito de guerra” a frase política, acabando por se tornar icónica e estando presente hoje em dia em autocolantes e t-shirts.

Ao analisar esta imagem apercebemo-nos que estamos perante a dita falácia.

“América, ame-a ou deixe-a": esta frase sugere que tem que amar a América ou então tem que deixá-la e ir para outro lugar, mas essas estão longe de serem as duas únicas opções. Uma pessoa pode permanecer no país, mesmo sem amá-lo, talvez porque é onde trabalha, ou onde está toda a família. Na verdade, existem inúmeros motivos para permanecer num país sem o amar. Mas uma pessoa também pode deixar a América e ir viver para outro lugar, sem deixar de a amar pelo que é também possível que as duas alternativas se verifiquem em simultâneo.

Esta é, no entanto, uma frase célebre nos Estados Unidos, o que demonstra que as pessoas não entendem o que está subjacente à apresentação de apenas duas alternativas opostas. A frase – note-se que é uma frase imperativa – diz que se alguém não está contente com o funcionamento do país deve simplesmente deixá-lo, negando aos cidadãos a possibilidade de o tentar melhorar, de exporem as suas queixas e de procederem a alterações, o que é, diga-se de passagem, uma total contradição do que foi afirmado na “Declaração da Independência” e das ideias filosóficas subjacentes à constituição americana. A frase exprime assim conservadorismo e negação de toda a liberdade, à excepção da liberdade de deixar o país, promovendo a aceitação resignada por parte dos cidadãos.

Trabalho realizado por: Ana Nunes e Inês Ambrósio, 11ºC

Bibliografia:

http://www.gforum.tv/board/1643/237327/senciencia-animal.html

http://www.filedu.com/hlafollettedireitosdosanimaiseerrosdoshumanos.html

http://criticanarede.com/welcome.htm

- Aires de Almeida e outros, “A Arte de Pensar”, Didáctica Editora (o manual adoptado).

Nota: Outros trabalhos da aluna Ana Marta Nunes podem ser lidos aqui e aqui.

Análise filosófica de um anúncio publicitário (1)

Os meus alunos das turmas A e C do 11º ano realizaram trabalhos sobre o tema: A utilização de falácias informais no discurso político e publicitário.

O melhor trabalho foi elaborado pelas alunas Ana Marta Nunes e Inês Ambrósio da turma C do 11º ano.

Ei-lo:

Falácias Informais

Uma falácia pode ser definida como um argumento que parece cogente (é sólido porque é válido e tem premissas verdadeiras e, além disso, estas são mais plausíveis que a conclusão) mas não é. Um argumento evidentemente inválido é fácil de reconhecer e, por isso, não é enganador. Um argumento falacioso, por outro lado, pode ser enganador e levar a conclusões erradas se não for devidamente analisado e identificado como sendo inválido. Baseando-se neste conhecimento, partidos políticos e empresas utilizam, com frequência, vários tipos de falácias como um meio de vender as suas ideias e produtos, pois é muito mais fácil fazê-lo deste modo, do que provando a sua qualidade (muitas vezes inexistente) através da argumentação racional. Utilizando a manipulação, em vez da persuasão racional, poupa-se tempo e ganha-se dinheiro e/ou votos, mas retira-se à audiência o conhecimento e a possibilidade de avaliar as razões por si mesma e chegar às suas próprias conclusões. As falácias informais são argumentos não sólidos, não devido à sua forma lógica (que pode até ser válida), mas devido ao seu conteúdo. Por isso, para identificarmos um argumento que seja uma falácia informal não nos basta formalizá-lo e verificar a validade da sua forma lógica – precisamos de analisar o seu conteúdo.

Anúncio publicitário a analisar:

Falsa Analogia

Esta falácia ocorre quando um argumento por analogia é fraco. Um argumento por analogia é um argumento não dedutivo que se baseia nas semelhanças existentes entre duas coisas para inferir que uma delas possui uma outra propriedade que se verifica na outra. Para que um argumento por analogia seja informalmente válido (ou seja, seja um argumento forte), têm de se verificar duas condições (as quais são necessárias mas não suficientes):

1. As semelhanças observadas têm de ser relevantes e numerosas;

2. Não pode haver diferenças relevantes.

A relevância das semelhanças e diferenças prende-se com a conclusão, ou seja, é relativa a esta. Por exemplo, tanto a minha pessoa como o leitor somos seres humanos mas podemos ter uma cor de cabelo ou de olhos diferente, no entanto, isso nada tem a ver com a definição do que é um ser humano. O facto de termos um esqueleto semelhante, o mesmo cariótipo, sermos seres racionais e inúmeras outras semelhanças são relevantes em relação à classificação de “ser humano”.

Quando uma das condições previamente referidas não se verifica, ou seja, quando não existem semelhanças relevantes suficientes ou existem diferenças relevantes relativamente à conclusão, estamos na presença de um argumento por analogia fraco, isto é da falácia da falsa analogia.

Neste vídeo, um anúncio publicitário contra as touradas, está expresso o argumento:

Os touros são como os humanos.

É moralmente errado fazer um ser humano sofrer para divertimento do público.

Se é moralmente errado fazer um humano sofrer para divertimento do público, então também é moralmente errado fazer um touro sofrer para divertimento do público.

Logo, a realização de touradas é errada do ponto de vista moral.

Existem semelhanças entre os seres humanos e os touros na medida em que ambos são animais e ambos são sencientes, ou seja, têm a capacidade de sentir e como tal, têm a capacidade de sofrer, de sentir dor. No entanto, existem também diferenças relevantes que se prendem com o facto de os seres humanos serem racionais, enquanto os touros não o são e simplesmente pertencerem a uma outra espécie. Repare-se que a relevância das diferenças, e consequentemente o facto deste argumento se tratar de uma falsa analogia é discutível, assim como os direitos dos animais e a sua abrangência (o tema patente neste anúncio) também o são.

Será que é errado fazer sofrer um ser humano porque este tem consciência da sua própria existência ou será que infligir sofrimento desnecessário a um ser humano é imoral pelo simples facto de ele sentir dor? É esta última uma razão suficiente?

Independentemente da resposta a estas perguntas, as quais determinarão a nossa posição face à moralidade das touradas, podemos basear-nos apenas na realidade para fazer a nossa análise do argumento. E sendo assim, pode-se afirmar que existe pelo menos uma diferença relevante: a sociedade não trata humanos e outros animais de maneira igual ou mesmo semelhante. Se devia ou não, isso é uma outra questão, no entanto, aceitamos a morte de animais pelas mais variadas razões – para alimentação, realização de experiências laboratoriais, caça desportiva, entre outros. Matar um ser humano por uma destas razões é considerado moralmente errado por todos. Mas somos indiferentes à matança de outros animais por estas mesmas razões. Sendo assim, não podemos comparar os seres humanos aos touros e este argumento pode ser considerado falacioso. (Note-se que esta mesma sociedade de que falo é a audiência à qual o anúncio é destinado, a qual este pretende persuadir.)

Admito, no entanto, que o facto de este argumento constituir uma falácia informal é discutível, pois a este facto estão subjacentes outras questões altamente controversas, nomeadamente a discussão dos direitos dos animais.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Criticar não é o mesmo que arrotar

Discutir

A falácia ad hominem (atacar pessoalmente os indivíduos de quem discordamos em vez de discutir as suas ideias, aludindo a aspectos pessoais irrelevantes para o argumento) é frequente, nomeadamente na política e na vida profissional. Mas, felizmente, a sua utilização é muitas vezes denunciada.

Contudo, essa denúncia nem sempre é justificada. Algumas pessoas, incomodadas com o facto de alguém questionar as suas ideias, declaram-se ofendidas na sua honra. Confundem as críticas com insultos e consideram como um ataque pessoal o desafio que lhes foi feito para debater e argumentar.

Por vezes essa atitude constitui apenas uma fuga oportunista ao trabalho de argumentar e à possibilidade de refutação. Mas outras vezes é sincera: as pessoas sentem-se mesmo atacadas pessoalmente e ficam mesmo aborrecidas.

Sincera ou não, essa atitude é favorecida por uma tradição cultural como a portuguesa, onde a discussão e a crítica não são vistas como tentativas de chegar à verdade e à clareza, mas sim como algo negativo e desagradável. Por isso, em Portugal quando alguém – por exemplo numa reunião de professores – apresenta uma objecção ao que foi dito é frequente instalar-se algum mal-estar: a pessoa cuja opinião foi criticada manifesta incómodo e este é partilhado por muitos dos ouvintes. Como se discordar de modo claro e frontal fosse indelicado e tão socialmente inadequado como arrotar ruidosamente.

Claro que nesses ambientes se admite que as pessoas não estejam de acordo. Contudo, considera-se que o desacordo não deve ser expresso através de um frontal “a tua opinião é falsa: X não é Y”, mas sim através de frases mais relativistas e capazes de tornar o desacordo inócuo: “na minha perspectiva X não é Y, mas é só a minha opinião, a minha maneira de ver, eu respeito todas as opiniões”. A cantilena repetitiva do “na minha perspectiva” destina-se a tornar claro que não se está a contestar a outra opinião e que se considera todas as opiniões legítimas e respeitáveis – já que, supostamente, tudo é uma questão de perspectiva. Parece que assim ninguém se sente pessoalmente atacado.

Infelizmente, esse procedimento não exclui apenas a falácia ad hominem, mas também a possibilidade de debater realmente ideias.

Escusado será dizer que criticar os comportamentos ou a competência (por exemplo profissional) de alguém sem ser acusado de estar a praticar um ataque pessoal é ainda mais difícil do que quando se tenta apenas discutir ideias.

sábado, 22 de janeiro de 2011

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Milagre ou falácia?

Notícia do jornal Correio da Manhã:

“Milagre de Madre Maria Clara foi aprovado. Médicos não encontram explicação científica para cura ocorrida em 2003.”

É certamente improvável que se trate de um milagre. Mas, mesmo que fosse milagre, o raciocínio continuaria a ser falacioso. 

Qual é a falácia cometida? Porquê?

domingo, 19 de dezembro de 2010

Indicações para o trabalho sobre falácias informais - turmas B e D do 11º

O trabalho é individual.

O trabalho consiste na análise de um anúncio publicitário ou discurso político. Nessa análise o aluno deve:

- Descrever aspectos relevantes desse anúncio ou discurso.

- Identificar as falácias informais presentes nesse anúncio ou discurso.

- Explicar em que consistem essas falácias.

- Mostrar porque é que essas falácias ocorrem nesse anúncio ou discurso.

- Discutir se esse anúncio publicitário ou discurso político seria persuasivo sem essas falácias.

O aluno deve identificar todas as falácias informais estudadas que ocorram no anúncio ou discurso escolhido. Caso também ocorram falácias informais não estudadas o aluno não será penalizado se não as identificar (mas se as identificar isso será valorizado).

O anúncio publicitário ou discurso político não pode ser inventado pelo aluno. Pode ser apresentado em papel, vídeo ou áudio. O aluno deve sempre apresentar o trabalho escrito em papel, mesmo que apresente o anúncio publicitário ou discurso político em vídeo ou áudio.

Critérios de avaliação:

- Correcta identificação das falácias.

- Explicação dos conceitos filosóficos utilizados.

- Rigor conceptual.

- Estruturação do texto.

- Clareza do texto.

- Correcção linguística.

- Capacidade crítica.

- Aspectos formais (bibliografia, etc.)

O trabalho será avaliado no âmbito das Fichas e Trabalhos e terá peso 2.

Não será solicitado a todos os alunos que apresentem oralmente o trabalho. Essa apresentação será apenas pedida a alguns alunos em cada turma: alguns dos melhores e alunos cujo trabalho possa eventualmente suscitar dúvidas quanto à autoria ou qualquer outra dúvida pedagogicamente relevante.

Podem colocar-me eventuais dúvidas através da publicação de comentários neste post (e não por email, para que os outros alunos também possam beneficiar do esclarecimento prestado).

Bibliografia:

- O Manual de Filosofia adoptado na escola: A Arte de Pensar – 11º Ano.

- Dicionário Escolar de Filosofia: http://www.defnarede.com/

- Guia das falácias de Stephen Downes: http://criticanarede.com/falacias.htm

- Posts do Dúvida Metódica, nas etiquetas Falácias e Falácias informais.

Data de entrega: segunda aula do segundo período.

BOM TRABALHO!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Falácias e palhaçadas

palhaços

Pretender que uma teoria económica é falsa apenas porque o seu autor está envolvido num caso de corrupção é falacioso. Trata-se da falácia ad hominem. Esta consiste num ataque pessoal injustificado. Em vez de discutir as próprias ideias, tenta-se refutá-las atacando características pessoais do seu autor que são irrelevantes para o caso. Regressando ao exemplo, não é plausível que a honestidade ou desonestidade de um economista tenha relação directa com a verdade ou falsidade das suas teorias.

Para haver falácia os aspectos pessoais visados têm de ser irrelevantes. Caso sejam relevantes o argumento é válido. Duvidar do testemunho de um indivíduo alegando que é alcoólico e passa o dia embriagado pode não ser falacioso, pois sabe-se que o álcool perturba a percepção e por isso o seu alcoolismo poderá ser uma característica pessoal relevante para o caso.

Quando apreciamos as afirmações e as acções dos políticos, a consideração de algumas características pessoais é frequentemente relevante e não falaciosa. Por exemplo: a eventual homossexualidade de um ministro é irrelevante para a avaliação das suas decisões financeiras, mas torna-se relevante na avaliação da sua actuação política caso ele defenda publicamente a discriminação dos homossexuais. A natureza da actividade política, nomeadamente o enorme impacto que tem na vida dos cidadãos, faz com que seja relevante estes conhecerem eventuais incoerências entre o discurso e a prática dos detentores de cargos políticos.

Vem isto a propósito do facto de alguns governantes (em Portugal e noutros países, como por exemplo a Grécia) andarem actualmente a exigir sacrifícios aos cidadãos: aumentos de impostos, cortes salariais, etc. Pedem também às pessoas para aceitar esses sacrifícios sem protestar, apelando ao seu patriotismo e sentido de cidadania. Creio que, ao avaliar esse pedido, é relevante ter em conta, não apenas as dificuldades económicas actuais, mas também a prática seguida por esses governantes nos últimos anos no que diz respeito à utilização dos dinheiros do Estado, pois há indícios e até provas de que essa gestão foi pouco rigorosa e pouco competente - e, nalguns casos, fraudulenta. Confrontar as actuais afirmações desses governantes com aquilo que têm feito não constitui, portanto, uma falácia ad hominem.

Quando faço essa confrontação lembro-me logo da história dos palhaços que, poucos minutos depois do seu número, regressaram ao palco gritando: “Fogo! Fogo! Há um incêndio! Fujam!” Os espectadores, julgando tratar-se de mais uma palhaçada, riram em vez de fugir. Resultado: no incêndio morreram diversas pessoas e várias outras ficaram feridas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O mal deve-se a Deus ou ao homem?





Deus existe? Em resposta a esta questão filosófica já foram apresentados inúmeros argumentos. Um deles relaciona-se com inegável existência do mal no mundo. Não só os seres humanos praticam, de forma voluntária, actos imorais que provocam sofrimento (mal moral) como há catástrofes naturais e doenças (mal natural), por exemplo.
Como é, então, possível compatibilizar a existência do mal com a perfeição do criador? Isto é: como pode Deus, entendido nas religiões teístas como um ser sumamente bom, que sabe tudo (omnisciente) e pode tudo (omnipotente), permitir que o mal exista? Ou será que Deus não existe?
Os teístas tentam refutar este argumento dizendo que Deus dotou os seres humanos de livre-arbítrio: podemos escolher praticar acções boas ou más e, portanto, somos moralmente responsáveis pelas consequências dos nossos actos. Mas será que o livre-arbítrio existe mesmo? E, supondo que existe, como se explica, então, o mal natural?
No vídeo, o aluno baseia-se numa analogia com o que acontece nalguns fenómenos naturais para explicar a existência do mal. Será um bom argumento? Ou constituirá antes uma falácia informal, designada por falsa analogia?
Nota: Agradeço aos meus alunos André Wallace, Cristina Soares e João Manhita o facto de me terem dado a conhecer este vídeo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O que é a ideologia?

A invenção da ideologia 2Por vezes lamenta-se que haja cada vez menos ideologia na política, substituída pelo pragmatismo e pela mera defesa dos interessas próprios – subentendendo-se, portanto, que a ideologia é uma coisa boa.

Muitas outras vezes a palavra é utilizada num sentido claramente negativo, como quando se diz “George Orwell não é um escritor ideológico” (aqui) ou “O ‘eduquês’ é uma ideologia pedagógica que promove a desigualdade social”.

No primeiro caso considera-se que uma ideologia é um conjunto de ideais e princípios, ou seja, ideias acerca do modo como as coisas deveriam ser, nomeadamente na política. Por exemplo: o socialismo e o liberalismo são ideologias políticas. Dito por outras palavras: “qualquer sistema abrangente de crenças, categorias e maneiras de pensar que possa constituir o fundamento de projectos de acção política e social é uma ideologia: um esquema conceptual com uma aplicação prática.” (Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, Gradiva, Lisboa, 1997, pág. 219.)

No segundo caso considera-se que uma ideologia é um conjunto de preconceitos, de ideias anteriores à experiência e à análise crítica e racional e que, nas palavras de Simon Blackburn, funcionam como “uma espécie de óculos que distorcem e dissimulam” a realidade. Nessa acepção, a ideologia leva a ajustar os factos à teoria e não a teoria aos factos, ou seja, é uma maneira de pensar que deturpa e ilude.

Para explicar de modo mais completo a relação entre as duas utilizações da palavra seria necessário invocar as ideias de Karl Marx e de Friedrich Engels. Em vez disso, faço apenas notar que nem sempre é óbvio se estamos perante a ideologia no primeiro ou no segundo sentido.

Sucede por vezes que os adversários de uma ideologia no primeiro sentido (por exemplo, alguns socialistas quando criticam o liberalismo ou alguns liberais quando criticam o socialismo) a tentam reduzir ao segundo sentido (incorrendo por isso na falácia do homem de palha).

Por vezes são os próprios defensores de uma ideologia a fazer essa redução do primeiro ao segundo sentido: agarram-se tão cega e teimosamente aos seus ideais que estes se tornam meros preconceitos - ideias cristalizadas incapazes de explicar o mundo e as suas mudanças, repetidas com convicção e paixão mas de modo acrítico.

Wiley Miller, neste genial cartoon (“A invenção da ideologia”, tirado daqui), refere-se claramente à ideologia no segundo sentido. A legenda poderia ser: “A marca segura de ideologia, tanto na ciência e filosofia como na política, é a negação de factos óbvios.” (Colin McGinn, Como se faz um filósofo, Bizâncio, Lisboa, 2007, pág. 63.)

Agora que, em Portugal, se aproximam dois actos eleitorais bastante importantes, talvez valha a pena pensar na distinção entre a ideologia como conjunto de ideais e princípios e a ideologia como conjunto de preconceitos. Basta folhear os jornais ou ligar a TV para perceber que há muitos factos óbvios que andam a ser negados. Em nome de elevados ideais e princípios, claro.

Se clicar no nome dos livros poderá obter mais informações acerca deles.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Falácias para todos os gostos

Uma falácia informal é um argumento cujo erro não é detectável através da mera análise da sua forma lógica, sendo necessário analisar o conteúdo para perceber porque é que esse argumento não é bom.

Uma vez que o conteúdo dos argumentos pode variar imenso, as possibilidades de erro são inúmeras. Por isso, a lista das falácias informais é muito extensa e heterogénea (como se pode comprovar lendo por exemplo o Guia das falácias, de Stephen Downes, na revista Crítica).

A lista das falácias informais inclui, entre muitas outras, incorrecções tão distintas como justificar a rejeição de uma ideia com críticas pessoais ao seu autor (falácia ad hominem), defender uma ideia fazendo ameaças (falácia do apelo à força) ou considerar que se dois acontecimentos são sucessivos então o primeiro é causa do segundo (falácia post hoc).

É raro ler um texto sobre falácias informais e não descobrir uma de que nunca tinha ouvido falar. Recentemente descobri mais uma (no blogue Crónica da Ciência, inspirado no Fallacy Files):

A falácia argumentum ad hitlerum. Esta consiste em “usar o Nazismo ou Hitler para argumentar que algo é errado, independente de que coisa seja essa”. Trata-se de uma falácia, pois “o facto de Hitler fazer isto ou aquilo não torna por si essa coisa errada. Tal como, por exemplo, tomar o pequeno-almoço”.

domingo, 8 de março de 2009

Trabalhos dos alunos: Falácias na política

Pedi aos alunos das turmas A e C do 11º ano para realizarem um trabalho escrito sobre falácias informais, em que teriam que analisar discursos políticos ou publicitários e identificar e explicar as falácias lá existentes. O melhor trabalho foi feito pelos alunos: Marina Marcelo, Miguel Santos e Rui Viegas, do 11º A. Ei-lo.
Neste trabalho iremos analisar e reflectir acerca das falácias utilizadas em três vídeos referentes ao discurso político. Como o tema central do trabalho são as falácias, iremos definir brevemente este termo. Uma falácia é um argumento inválido que parece válido. Um argumento falacioso é um argumento enganador que não deve ser utilizado, caso estejamos empenhados em persuadir racionalmente o auditório. Existem falácias formais e informais - as primeiras dizem respeito à forma lógica dos argumentos (são exemplos: a afirmação do antecedente e a negação do consequente), enquanto que as segundas implicam a análise do conteúdo dos argumentos (como é o caso do apelo ao povo, do apelo à piedade ou do apelo à força). Neste trabalho irão ser analisadas apenas falácias informais.
Vídeo 1

Neste vídeo está presente o falso dilema ou falsa dicotomia. Esta falácia consiste na redução de todas as alternativas possíveis a duas. Supõe-se que estas são as únicas hipóteses possíveis e que são incompatíveis. É na falsidade desta suposição que reside a falácia, já que ignora o facto de poderem existir hipóteses intermédias.
Para criar a falsa suposição acima referida é utilizada a seguinte forma lógica: P ou Q. Não P. Logo, Q. Todos os argumentos com esta forma lógica são dedutivamente válidos e têm uma estrutura formalmente correcta mas não são argumentos sólidos porque a primeira premissa não é verdadeira.

Esta falácia é muitas vezes associada à expressão idiomática “ou tudo ou nada” - esta é uma expressão que retrata na perfeição o significado do falso dilema. Este tipo de falácia é (e foi) utilizado, muitas vezes, na religião. É o caso dos extremistas da religião muçulmana ou dos cristãos da Idade Média que realizavam cruzadas. Os fundamentalistas islâmicos actuais, por exemplo, estão tão obcecados, com uma certa interpretação da sua religião, que acabam por ter pensamentos como este: “Ou suicido-me e mato muitas pessoas com uma bomba ou nunca irei ser bem visto aos olhos de Deus”. É óbvio que este é um pensamento extremista, pois uma pessoa pode ser bem vista aos olhos de Deus sem prejudicar ninguém, mas sim fazendo o contrário, ou seja, ajudando os outros.
No vídeo escolhido, a falácia em questão é a seguinte: “Ou é maluquinho ou acredita em promessas do PS”. Analisando o exemplo em causa, podemos identificar a primeira premissa de um argumento falacioso (com a forma lógica acima referida), ao qual não é dada uma resposta explícita mas sim uma resposta implícita: como a maioria das pessoas não se acha maluca, acaba por aceitar, mesmo que inconscientemente, a conclusão de que acredita nas promessas do PS. Neste exemplo são apenas apresentadas duas hipóteses para o facto de alguém querer um referendo sobre o Tratado de Lisboa: ou se é maluco, ou se acredita nas promessas do PS. Como consequência desta afirmação são excluídas todas as hipóteses intermédias possíveis, mesmo quando estas existem: uma pessoa pode defender o referendo e não se identificar com nenhuma das hipóteses apresentadas – não é maluca, nem acredita nas promessas do PS (ou, até, identificar-se com os dois casos). Logo, o exemplo em causa é um falso dilema.
Vídeo 2

Neste vídeo é utilizada a falácia informal ad hominem, conhecida também por argumento contra o homem. É um tipo de argumento falacioso onde, em vez de se apresentarem boas razões, uma justificação racional que leve à aceitação da tese defendida, se fazem ataques pessoais ao orador. Este tipo de argumentação assenta na desqualificação da pessoa com quem se está a debater - fazendo determinadas acusações, que podem ser verdadeiras ou não, mas que nada têm a ver com o assunto em causa - pretende-se, deste modo, desvalorizar as razões apresentadas pelo adversário e mostrar a falsidade da sua tese.
Frequentemente, recorre-se a este tipo de falácia quando não se possuem argumentos racionais e lógicos para defender determinada tese, fugindo assim à verdadeira discussão das ideias. Esta falácia é uma forte arma retórica, apesar de não possuir bases lógicas, é uma forma irracional de argumentar que muitas vezes acaba por convencer o auditório.

Analisando agora o exemplo dado, podemos encontrar argumentos contra o homem em quase todas as palavras proferidas no vídeo, tais como “…Caluniador!...” ou “…Você é um mentiroso!...”. Tais afirmações apenas pretendem calar a pessoa que está a discutir com o Candidato à Presidência da República, este, ao ofender repetidamente o seu parceiro de discussão e gritar mais alto do que ele, está a impedi-lo de falar e de expor a sua opinião.
Assim, podemos perceber que o estudo das falácias informais é de enorme importância, pois permite-nos avaliar cuidadosamente os argumentos utilizados no quotidiano e noutras situações da vida, evitando que sejamos enganados sem nos apercebermos. Quanto maior for o nosso conhecimento nesta área, menor é a possibilidade disso ocorrer.
Vídeo 3

Neste discurso político está explicitamente a ser utilizada a falácia do apelo à força. Esta consiste em apresentar ameaças (físicas e/ou psicológicas) para levar o auditório a aceitar uma determinada conclusão. Porém, para persuadir racionalmente é necessário apresentar razões para sustentar a conclusão e não ameaças, seja de que tipo for.
No exemplo dado - o orador defende que as pessoas que estão a ter comportamentos anárquicos parem de o fazer. Para justificar tal afirmação, apela às forças armadas do seu país, em vez de apresentar motivos racionais. Assim, basicamente, está a dizer às pessoas que ou param ou será utilizada a força para as parar. Podemos até afirmar que, neste caso, o argumento propõe uma espécie de ultimato, pois ou o auditório aceita a conclusão pretendida ou sofrerá as consequências negativas, decorrentes do uso da força.

Para além análise das palavras utilizadas, também é interessante observar quem está a discursar: é usada uma postura corporal agressiva, que incita claramente à violência, tal como o tom de voz. Concluímos que a retórica, em especial a linguagem não verbal, é fundamental na transmissão da mensagem e complementa as palavras proferidas.
Quanto à avaliação moral da utilização desta falácia para a situação em causa, podemos imaginar o seguinte exemplo: um grupo de pessoas está a utilizar a violência para conseguir o que desejam, pondo em risco a vida de outras pessoas. Neste caso será moralmente correcto utilizar o apelo à força ou não?

Podemos responder de duas formas a esta questão: por um lado, podemos achar nunca se deve tentar manipular o auditório, mas sim apresentar razões para justificar a conclusão defendida. Mas, por outro lado, podemos afirmar, num certo contexto, seria correcta a utilização deste argumento – suponhamos que, muito provavelmente, o grupo de pessoas que está a utilizar a violência não pararia de o fazer apenas devido à apresentação de razões lógicas. Nessa situação concreta, a utilização de ameaças poderia ser um meio mais rápido e fácil de fazer com que a violência parasse, pondo a salvo as pessoas que se encontravam em risco.
Em suma, como o mundo não é perfeito e, talvez, muitas pessoas não se preocupem em procurar a verdade, nem é esta que permite ganhar muitas vezes as discussões, em certas situações concretas pode ser justificável a utilização deste tipo de argumento no discurso. Apesar disso, esta deve ser a excepção e não a regra pelo que, na maior parte das vezes, devemos tentar apresentar argumentos não falaciosos, com razões claras e premissas verdadeiras.


Para concluir o trabalho iremos realizar uma pequena relação entre os dois últimos vídeos. Estes remetem-nos para a seguinte questão filosófica que merece ser analisada e discutida: Será que é a melhor opção ser a maioria população a escolher os governantes do Estado?
Esta questão relaciona-se com os dois vídeos, na medida em que ambos os políticos se comportaram de um modo muito indelicado e não aparentam ser pessoas dignas de representar grandes grupos de pessoas: um deles apela à violência de um modo assustadoramente directo, enquanto outro em vez de responder às questões/afirmações de um modo racional e apresentando boas razões, prefere começar a ofender as pessoas que estão a falar com ele. Dado que é frequente as pessoas se deixarem persuadir por este tipo de discursos, estes dois exemplos (e muitos outros que conhecemos) podem fazer-nos duvidar da capacidade da maioria da população para escolher os seus próprios representantes.

É possível ter duas opiniões sobre este problema. Uma delas, defendida em muitos países afirma que os governantes devem ser escolhidos por toda a população. A outra opinião, que também faz sentido, é a de que nem todas as pessoas possuem informação suficiente sobre os candidatos em que vão votar, não possuem formação suficiente para perceberem verdadeiramente o papel do seu voto ou até mesmo não estão interessadas nesse assunto.
Na nossa opinião a segunda opção seria a mais correcta, se fosse possível criar uma entidade capaz de avaliar quem teria condições para votar ou não. Como seria muito difícil garantir que esta entidade fosse rigorosa e imparcial, pensamos que esta segunda hipótese tem interesse do ponto de vista teórico apenas, pois se a aceitássemos, com as condições disponíveis, esta acabaria por dar origem a governos cada vez mais semelhantes a ditaduras e com cada vez menos características democráticas.

Marina Marcelo, Miguel Santos e Rui Viegas.

Bibliografia:

Aires de Almeida e outros, A Arte de Pensar, Didáctica Editora, Lisboa, 2008.

DEF – Dicionário Escolar de Filosofia.